21.10.07

Permalink 14:30:11, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
Categorias: Música

Radiohead

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"IN RAINBOWS" - RADIOHEAD (independente)

"O G1 procurou Gilberto Gil, Pitty, Ivete Sangalo, Caetano Veloso, Zeca Pagodinho - artistas com nome estabelecido no mercado nacional, assim como o Radiohead no exterior - que alegaram problemas de agenda ou desconhecimento do assunto para comentar a iniciativa do grupo inglês e um possível paralelo desse modelo no Brasil.".

A notinha acima saiu no G1, o site de notícias do Globo, há alguns dias. Se no Brasil, a música, o rock, o samba, o pop ou qualquer coisa do tipo são sempre a favor, agora é que acabou de vez. Coragem para comentar a respeito do que o Radiohead bolou para o lançamento desse último disco? Ninguém tem, talvez nem mesmo boa parte das bandas brasileiras independentes. E pode esquecer o Lobão, se é que o nome dele passou pela sua cabeça (vamos combinar que imaginar a cara que Zeca Pagodinho iria fazer quando escutasse o repórter falando algo sobre um tal de Radiohead, já daria uma matéria à parte...)

Interessante é que In Rainbows, o tal disco novo - para conhecer a estratégia inovadora que a banda inglesa Radiohead bolou para seu lançamento, leia a nota acima e aqui - quase que seguiu o mesmo esquema dos lançamentos de discos de bandas novas. Grupos brasileiros recentes, como Moptop e The Feitos, ao lançarem seus primeiros discos, repetiram boa parte das músicas que já apareciam em seus shows e demos. No caso de In Raibows, muita gente ficou realmente esperando que saísse o "novo" do Radiohead, até pela expectativa armada pela própria mídia, mas as músicas, em versões ao vivo, já circulavam na internet fazia tempo, e várias delas já eram velhas conhecidas de shows. Aliás, pra quem quiser ter informações legais sobre o disco novo da banda, o site da Rolling Stone americana botou no ar um belo faixa-a-faixa com o disco - e além de falar um pouco de cada música, a publicação ainda pôs as próprias músicas para quem quisesse ouvir, além de arquivos do YouTube com shows em que as faixas foram tocadas. Leia aqui.

O que rola em torno de In Rainbows - a corrida para baixar as músicas da internet, o fato da banda estar privilegiando o lançamento de um disco cujo conteúdo é mais virtual do que físico, o fato do "álbum de vinil" ser bem mais valorizado do que sua contrapartida digital - já dá o que pensar, assim como o fato de praticamente artista brasileiro nenhum do primeiro time estar preparado para tanta inovação na forma de levar conteúdo musical a seus fãs. É uma das raras vezes em que o lançamento de um disco, seja ele qual for, dá realmente uma boa pauta. Musicalmente falando, dá pra dizer que In rainbows é o melhor da banda desde Ok computer, primeiro disco "revolucionário" dos caras - o que não significa muita coisa, já que não é preciso muito para superar Kid A, Amnesiac e Hail to the thief. À exceção talvez deste último, eram discos que importavam mais como conceito, como provocação, do que como música.

In rainbows mostra-se um pouco menos experimental e mais musical que boa parte dos últimos discos mais doidos do Radiohead, e também desce mais no ouvido do que The eraser, a doidaralhaça estréia solo do vocalista Thom Yorke, lançada no ano passado. O vocal de Thom, triste nos primeiros discos e quase esquizóide em outros, voltou a fazer sentido dentro do conceito de uma banda de rock em baladas ótimas como "Nude" (uma musica antiga da banda, nunca gravada anteriormente, na qual ele quase alcança o nível de dramaticidade de "Fake plastic trees"), no rockão de ascendência punk "Bodysnatchers" e no clima meio anos 80, meio psicodélico de "Weird fishes / arpeggi".

A experimentação musical acaba funcionando a favor da música, e não contra, seja em baladas intrincadas, com belos arranjos de cordas ("Faust arp", cujo nome pode ser uma referência tanto ao personagem do escritor alemão Goethe, quanto à banda também alemã de krautrock - e cujos vocais repetidos quase me fizeram achar que meu pc, no qual ouvi o disco, estava travando), seja num som que volta ao passado da banda e aponta para U2 ("House of cards"), seja numa canção unindo folk e pós-punk ("Jigsaw falling into pieces"). Provavelmente os fãs dos discos mais recentes do Radiohead vão amar as eletronices de "15 steps", que abre o CD, e a baladinha cheia de efeitos "Videotape", que o fecha, além do climão post rock de "All I need" e das batidas quebradinhas e dos vocais quase fantasmagóricos da bela "Reckoner". In rainbows, enfim, mostra que não basta apenas fazer um bom barulho na mídia. É preciso realmente ter o que mostrar - e o pessoal do Radiohead conseguiu isso.

P.S.: O grupo deu uma boa entrevista ao site da publicação musical inglesa New Musical Express, falando sobre o CD novo. Leia aqui. Tá em inglês, ok?
P.S 2: Falei tanto do disco e esqueci de informar que, para baixá-lo, é só entrar aqui. E já tem várias comunidades do Orkut e blogs de música que o disponibilizam.

* o texto acima saiu na minha coluna do Nitideal - é a última coluna, pois estou deixando o site. E cabe aqui fazer a mesma pergunta que fizeram os caras do blog Hang The DJ: quanto vocês pagaram pelo disco do Radiohead? Eu não paguei nada, baixei do Orkut.



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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com

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