16.10.07

Permalink 16:46:05, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
Categorias: Música

Teresa Cristina & Grupo Semente

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"DELICADA" - TERESA CRISTINA & GRUPO SEMENTE (EMI)*

A sambista carioca Teresa Cristina tem uma personalidade menos forte do que a de antigos ícones femininos do gênero, como Beth Carvalho, Clara Nunes e Alcione - o que cai bem para um trabalho que é um tanto regionalizado (mostrando a força do samba de raiz que é tocado na Lapa, região central do Rio de Janeiro). Agora que Delicada, novo disco da cantora e de seu grupo Semente (Pedro Miranda, pandeiro e voz; Bernardo Dantas, violão; João Callado, cavaquinho; Mestre Trambique, percussão), sai pela multinacional EMI, pode ser que apareça muita gente tentando ver nela uma coisa (bem menos espontânea e menos "trabalhada", digamos assim) que ela não é.

O disco novo de Teresa - o 4º de sua discografia - na verdade foi produzido ainda na Deck, e comprado pela multinacional. Na ficha técnica, ainda dá para ver créditos para o estúdio Tambor, do selo carioca, e agradecimentos para o produtor e dono do selo João Augusto. Na mídia, andam dizendo que ela teria tudo para emplacar hits se tivesse vivido a carreira artística nos anos 70 - época em que o samba se destacava em paradas de sucesso e trilhas de novela. Que é verdade, é. Mas trata-se de um novo “conceito” de musa do samba, mais coletivista - como aliás acontece no trabalho de, por exemplo, Marisa Monte. Mais: uma coisa que chama a atenção em Teresa e em seu grupo é que, por mais que o samba seja o mais brasileiro dos gêneros, ali quase todo mundo (à exceção do experiente Mestre Trambique) é jovem, normal, não fica se comportando como se tivesse vinte anos a mais, nem dá uma de malandro da Lapa. É gente que faz samba, mas que viveu os anos 80, os anos 90 e, até pela idade, teve acesso a outras informações musicais.

É algo que soa bem numa época como a atual, em que todo mundo que é jovem e faz MPB resolve, de alguma forma, se roçar no samba. Mas que, além disso, no caso de Teresa, dá a impressão de um grupo normal, comum, sem egos e sem musas, com todo mundo crescendo junto. Essa imagem é acentuada pelo fato de Pedro Miranda, pandeirista do grupo Semente (com um belo disco solo no currículo, Coisa com coisa), cantar o belo samba "Quebranto", do grupo ter direito a um momento instrumental (a bela "João Teimoso", do cavaquinista João Callado) e de Pedro e do percussionista Mestre Trambique aparecerem para dividir os vocais no potpourri final, com os sambas antigos "Fechei a porta", "Rosa Maria" e "Jura".

A associação com a EMI pode fazer Delicada virar o jogo na carreira de Teresa e seu grupo, apresentando nacionalmente algo que era mais conhecido dos frequentadores da Lapa. Não faltam motivos - o disco mostra Teresa em sua melhor fase como compositora, em sambas lindíssimos como "Cantar" e "Fim de romance" (em parceria com o falecido Argemiro, da velha guarda da Portela) e na umbandista "Senhora das águas".

Até por isso, o fato do disco não trazer muitas músicas de Teresa talvez seja o que há de mais fraco ali. Embora como resgate de canções antigas, ele funcione muito bem. Tem desde uma versão de "A gente esquece", choro de Paulinho da Viola, até uma regravação bacana de "Gema" (que nem dá pinta de que se trata de uma canção de Caetano Veloso) - passando pelo belo samba umbandista "Nem ouro, nem prata", sucesso de Ruy Maurity nos anos 70 e pela beleza do samba baiano de "Carrinho de linha", de Walter Queiroz. Tudo com a bela sonoridade que une samba, choro, gafieira e umbanda, que sempre marcou o trabalho de Teresa e do Semente. Muito bom.

* texto publicado na minha coluninha do Nitideal, onde também já publiquei sobre o dia em que assisti à gravação do DVD de Teresa e do Semente no Teatro Municipal de Niterói (leia aqui.



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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com

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