"LAÉRCIO DE FREITAS E O SOM ROCEIRO" - LAÉRCIO DE FREITAS (Cid, 1972)
O visual black power da capa do disco até engana - dá até pra imaginar que se trata de um disco que une música brasileira e soul music, daqueles de deixar os gringos loucos e motivar relançametos piratas em vinil. Um dos principais discos do maestro nascido em Campinas (SP), Laércio de Freitas e o som roceiro, editado orignalmente em 1972, tem até seu lado mais internacionalista, como na gravação, com base na gozação, do clásisco francês "Mamy Blue" ("cumpadi, vamo tocá aí a 'mamãe azur'!", diz o músico no começo, dialogando com seus colegas de banda). Mas trata-se de um disco brasileiríssimo e muito bem humorado.
Soa, em alguns momentos, como se o raciocínio das orquestras e dos maestros no estilo do Paul Mauriat (que, por sinal, transformou a já citada "Mamy blue" em grande hit) ganhasse outras dimensões. EM vez da grandiloquência (e da breguice, porque não) dos arranjos de tais maestros, aparece o bom humor da versão de "Catarina" (uma "homenagem aos bons tempos da Casa Edison", do repertório de Robrto Martins e Oswaldo Santiago, com qualidade de gravação de época), o sambalanço caipira de "Pirambeira" (do próprio Laércio, mas lembrando bastante Joã Donato), a versão marcha-soul de "Chuva suor e cerveja", de Caetano Veloso... e, claro, a gozação da toada festiva "Capim gordura", um dos maiores sucessos da carreira de Laércio, eternizado numa alegre gravação de Luiz Carlos Vinhas.
Pois é: quem quiser recordar um dos mais prolíficos momentos da nossa música, pode até se ditigir ao posto de gasolina mais próximo. O selo carioca Cid relançou, junto com vários outros discos clássicos do seu catálogo, Laércio de Freitas e o som roceiro, numa edição extremamente bem cuidada - e que, como boa parte dos discos do selo, pode ser achada em lojas de conveniência, a preços bem justos. Do piano e do órgão de Laércio e da criatividade de sua banda podiam sair tudo. Desde uma marcha-rancho ("Pontão da serra") cuja introdução dá a entender que vem uma soul music por aí, até uma recordação de Carmen Miranda ("Alô alô", composta por André Filho - aquele de "Cidade maravilhosa" - e virando um quase samba-jazz nas mãos de Laércio, do baterista Lula, do baixista Luiz Roberto, do violonista Luiz Paulo e do ritmista Jorge Arena).
"Capim gordura", a música, foi feita num período em que Laércio morava no México. Assim que voltou ao Brasil, o músico começou a apresentar sua composição em alguns lugares e logo a gravou. No entanto, nem mesmo o fato da capa de O som roceiro trazer a inscrição "autor do 'Capim Gordura' "fez com que o disco se tornasse um grande sucesso de vendas. Para muita gente, será a primeira vez que canções como a modinha "Brioso" e o rastapé "Rastapé" aparecerão - apesar de que, entre colecionadores de discos de MPB, este álbum já é cult faz tempo. Detalhe que chega a ser engraçado o fato de Laércio ter conseguido meter a mão num gênero bastante simplificado (a música caipira, mais roceira) e extrair dali jazz, samba, sons black, tonalidades alegres e festeiras. sons mais contemplativos... tuso o que desse para tirar e deixar o som mais rico.
Posts similares:
Jorge Ben & Erasmo Carlos*
Garimpo na Internet
Os grandes impactos musicais da minha vida
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Este post tem 1 comentário aguardando aprovação...
Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com