"SOL NO ESCURO" - FÁBIO GÓES (Reco-Head)
Se você esbarrar com alguma resenha dizendo que o músico paulista Fábio Góes faz uma MPB derivada de grupos como Radiohead, ou de bandas meio post-rock (Mogwai, em especial), até que dá pra dizer que tem a ver - o clima "perdido", até meio psicodélico, de algumas músicas, chega a lembrar o trabalho desse povinho, sim. Mas fica mais fácil entender o trabalho de Fábio pelo prisma da MPB mesmo - sempre lembrando que música popular brasileira não é aquele feudo construído nos anos 60 e que é dominado por uns poucos até hoje. Ela se renova, ganha características eletrônicas, pode unir climas folk e sons que só poderiam ter saído do Brasil... e na atualidade, com as facilidades da tecnologia, pode ser feita na garagem de casa, comercializada em pequenos selos, mostrada no MySpace e angariar fãs por todo lado.
O resultado foi que, graças a uma página no MySpace e à experiência como trilheiro - trampou em filmes como Abril Despedaçado (Walter Salles) e Cidade de Deus (Fernando Meirelles), o que significa que você já escutou músicas do cara sem nem saber disso - Fábio Góes acabou chegando para muita gente no boca-a-boca. Seu disco, Sol no Escuro, saiu por uma pequena etiqueta chamada Reco-Head, distribuída pela distribuidora indie Tratore. Teve muita gente dizendo que foi o mehor disco de MPB do ano passado. E, na boa, pelo menos aqui no meu aparelho de som, se não é o melhor, tá no Top 5. Difícil separar o Fábio autor do disco do Fábio autor de trilhas - a cada música, aparecem climas diferentes e imagina-se clipes diferentes, como se cada música, no fundo, tivesse sido feita para um filme que só existe na cabeça de Fábio. Ou que ele queira que exista na cabeça do ouvinte. Uma coisa surge lá no fundo, ao se ouvir o clima melancólico e os diálogos piano-violão de algumas faixas: esse poderia ser o som que Guilherme Arantes poderia estar fazendo hoje, ou mesmo uma espécie de lado meio "Clube da esquina" do post-rock. E olha que não é exagero.
Sol no Escuro começa com a faixa título e com "Sem mentira", duas músicas baladeiras e preguiçosas, com discretos arranjos de metais e poucos acordes, além de letras oscilando entre a psicodelia, o romantismo e a experimentação poética. O disco começa a mudar de rumo em "Automático", mais alegrinha, conduzida no violão por um ritmo meio samba-rock. Já "Mundo acumulado", com cara de Jorge Ben, leva a coisa para um lado mais soul-MPB - essa música poderia estar tranquilamente no repertório de Marisa Monte, desde que rearranjada. Pois é, o começo até deu uma enganada, mas Fábio pertence à mesma geração que vem unindo experimentalismos, MPB, rock, melancolia e suingue - e isso fica bem claro no quase rap "Estatística". Não por acaso, um nome bem representativo dessa galera, a cantora paulista Céu, aparece cantando no jazzinho "Sun of your eyes".
Para quem gostou das músicas mais tranquilas do começo, ainda tem faixas como a balada de violão "Mel" e a ensolarada e setentista "Surfista", que por sinal tem uma das melhores letras do disco, usando a figura do surfista como uma espécie de metáfora da vida. E, falando em letras, no fim do disco vale conferir a ironia da quase infantil "Salmão" (sente só "meu salmãozão / gosto de carne crua, mas só quando a carne é sua"). Peça o disco pra Reco-Head, que por sinal disponibilizou quatro faixas do CD no site dedicado ao cantor.
P.S.: No selo Reco-head tem um link para um single do Fábio (em que ele usa o pseudônimo de FGoes) chamado "Pictures". Na apresentação diz: "FGóes fazendo rock, as custas de uma canção perdida. Em inglês, só pra tirar onda. Só que não dá pra ouvir uma vez só". Nem ouvi ainda, baixem aí e me falem.
* publicado em minha coluninha do Leia na íntegra
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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com