22.08.07

Permalink 11:17:38, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
Categorias: Cinema, Música

DVD: Performance *

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Filmado em 1968 e lançado apenas em 1970, Performance, dirigido por Donald Cammell e Nicholas Roeg, tem o stone Mick Jagger como um de seus atores principais e ainda era mais conhecido apenas pelos fãs dos Rolling Stones, ou por quem curtisse a estética dos filmes psicodélicos dos anos 60. E acabou se tornando um dos raros exemplares deste tipo de filme a ser lançado por uma grande produtora, a Warner. Se a idéia original era que a película fosse um equivalente dos filmes dos Beatles (tinha muita gente da produtora que achava que o resultado ia ser algo próximo de A hard day's night), o resultado foi um filme artístico, repleto de referências musicais e literárias que não podem ser captadas logo de cara - com sexo, drogas, rock´n roll, perversão e tortura psicológica no último volume. Mais: as histórias por trás de sua realização são tão ou mais turbulentas e interessantes do que o próprio Performance.

Para quem quiser conferir o filme - que até pouco tempo só podia ser visto, sem legendas, em mostras de cinema experimental ou de filmes de rock - a Warner acaba de lançá-lo no Brasil em DVD, numa edição que ainda contém um telefilme antigo falando da "carreira solo" de Mick como músico e ator e um documentário explicando como foi realizado o filme. Bom, explicando, é maneira de falar: há fatos que foram deixados de fora, e vale citar que o próprio Mick Jagger não foi entrevistado para os extras do DVD.

O enredo de Performance já o coloca tranquilamente numa espécie de "lado negro da força" do cinema experimental dos anos 60. Não há nada de flower power, muito menos do espírito comunitário de Woodstock. O filme inicia mostrando o estilo de vida do gângster Chas (interpretado por um ator conhecido na época, James Fox), cujo trabalho gira em torno de mulheres, espancamentos, ameaças, torturas, tiros e muita truculência - tudo mostrado na tela com realismo. Após ser jurado de morte, ele tem que se esconder e, por vias completamente tortas, acaba indo parar na casa de um rockstar aposentado, Turner (Mick Jagger), que vive com duas amantes: a diabólica Pherbe (Anita Pallenberg, modelo e atriz ítalo-germânica que era casada com o também stone Keith Richards) e a gracinha Lucy (a atriz francesa Michele Breton).

A aproximação de Turner e Chas acaba sendo o estopim para mudanças nas personalidades de ambos – especialmente quanto Turner e Pherbe oferecem a Chas, sem avisar, uma sessão de degustação de cogumelos que um cozinheiro jamais colocaria numa pizza... Sons estranhos, colagens desconexas, cortes bruscos e seqüências sinistras já aparecem desde o começo do filme, mas é aí que o bicho pega de vez, ganhando ares de verdadeira bad trip. Especialmente para Chas, que praticamente vira um hippie doidão e decadente nas mãos de Turner e suas concubinas.

Bastidores A verdade estava do outro lado das câmeras. Se você não achou nada de estranho ao saber que Anita Pallenberg, mulher de Keith Richards, contracenava com o também Stone e brother de Keith, Mick Jagger, saiba que as cenas de sexo e de uso de drogas são bem reais – especialmente no que diz respeito ao trio Jagger-Michele-Anita. Pelo que consta, durante as gravações, os atores realmente usavam drogas para manter o clima chapado e decadente do filme.

No documentário, são relatados detalhes de como uma das cenas de sexo foi feita – e Anita, hoje uma senhora, sorri e explica que “foi bem divertido”. Bom... a suposta dor-de-corno de Keith teria dado em pelo menos duas músicas dos Stones (“You got the silver” e “Gimme shelter”) e em sua recusa a participar da trilha de Performance – quem toca guitarra em “Memo from Turner”, que Mick canta ao conseguir “penetrar na mente” de Chas, é o guitarman Ry Cooder. Segundo Anita, Keith, já prevendo problemas, ofereceu a ela o mesmo cachê do filme só para que ela não o fizesse. “Mas eu queria mesmo fazer o filme”, enfatiza ela.

A lista corrida de histórias bizarras a respeito do filme é bem grandinha – dentre elas, há o fato de James Fox ter largado o cinema para se dedicar à vida religiosa, o fato de Anita ter metido o pé na jaca das drogas furiosamente após Performance e o desaparecimento de Michele (que, dizem, teria morrido de overdose, virado prostituta ou estaria incógnita na Alemanha). O que vale afirmar é que Performance é um baita relato de uma época, e que qualquer pessoa que queira entender o que foi a doideira cultural-existencial dos anos 60, precisa dar uma olhada no filme. Além do caráter psicodélico, a película inclui desde teorias malucas sobre “demônios internos”, a referências a gente como o bluesman Robert Johnson (cuja “Come on in my kitchen” é tocada por Jagger ao violão) e o papa do realismo mágico, o escritor Jorge Luís Borges, que inspirou boa parte do roteiro e cuja imagem chega a aparecer no filme.

O clima de Performance não passou batido. Além de censurado no Brasil dos anos 70, ele chegou a ganhar classificação de “pornográfico” no EUA, e isso porque dizem que boa parte do material filmado, de tão sexualmente explícito, não chegou nem mesmo a ser revelado. Ultrajados, os chefões da Warner só liberaram o filme após ele passar por quatro montagens - e ainda assim, a fita foi lançada sem muito alarde. Só agora, após quase quarenta anos, Performance sai da maldição e se revela um grande filme, para além de qualquer polêmica.

* publicado em minha colninha do Nitideal.



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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com

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