"ENSAIO" - NELSON GONÇALVES (DVD - Performance Be/Cultura Marcas)
O programa Ensaio, produzido por Fernando Faro para a TV Cultura, já captou imagens de alto valor documental de inúmeros artistas - e boa parte desse acervo está sendo editado em DVD pela associação da Cultura Marcas com vários selos (Biscoito Fino, Trama, etc). A Performance Be acaba de pôr nas lojas um dos momentos mais surpreendentes do programa: a participação de Nelson Gonçalves, numa edição que foi ao ar em 1993.
Além de grande cantor - daqueles de mandar um dó de peito - Nelson era uma figura humana muito peculiar. Certo, é Zeca Pagodinho quem canta que "eu já passei por tudo nessa vida". Mas Nelson (na verdade nascido Antônio Gonçalves, em 1919, na cidade gaúcha de Livramento) é quem mais personifica esse verso de "Deixa a vida me levar" - música que, provavelmente, ele jamais gravaria. Antes de se profissionalizar como cantor, ele foi iniciado na malandragem pelo pai, que dava uns golpezinhos inocentes de vez em quando. Depois virou aluno mau-exemplo (expulso da escola porque não quis cantar o Hino Nacional!), cantor de rua, boxeador, calouro de Ary Barroso (gongado com um vergonhoso "pára de cantar que você não nasceu pra isso!"), até se tornar o artista que foi.
No Ensaio ele conta todas essas histórias e mais algumas - bom, caso você consiga passar batido pela péssima dicção do cantor, cuja memória também já dava mostras de não estar lá essas coisas. No meio do bolo, você ganha uma aula de samba-canção, tango, samba de morro, dor de cotovelo, música de cabaré, etc - em sucessos pré-MPB como "Caminhemos", "Fica comigo esta noite", "Pensando em ti", "Maria Bethânia", "Normalista", "Mulher", "Vermelho 27", "As rosas não falam" e, claro, "A volta do boêmio".
Os vocais de Nelson continuavam em forma 97% plena, a banda que acompanhava o cantor - Fernando Merlino, piano; Jacaré, baixo; Hélio Capucci, guitarra; Cesar Machado, bateria - era de primeiríssima linha e Nelson era uma figuraça, o que já garante alguns momentos de diversão. Rolam até uns momentos bem esquisitos na apresentação: o cantor se estressa com um erro do pianista, pede cafezinho na cara de pau e, irritado com perguntas sobre a fase em que foi viciado em cocaína, nos anos 50, cospe fogo até mesmo na cara do entrevistador ("já tô ficando invocado aqui!"). No meio do Ensaio, sem a menor paciência, Nelson solta um "que horas que acaba esse programa? Já tô com dor nas costas!". Enfim: veja, curta o som e se divirta.
* publicado no International Magazine.
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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com