Pela primeira vez, uma gravadora contrata um grupo de teatro. A Warner Music está levando a Companhia de Comédia Os Melhores do Mundo para seu elenco. O contrato foi assinado esta semana. O primeiro lançamento previsto no contrato é o DVD do espetáculo Notícias Populares, que vem lotando casas de show em todo o Brasil, e será gravado no próximo final de semana (dias 01 e 02/09), no Canecão. O DVD será lançado em novembro.
Fonte: Warner
Pra rir um pouco, segue aí Joseph Klimber, um dos quadros mais engraçados dessa galera - espero que esteja no DVD, e espero que a Warner me mande essa bagaça - no Jô Soares.
"DADI" - DADI (Som Livre)
Dadi demorou séculos e séculos para lançar um disco solo e acertou de primeira. Dadi traz um pouco de tudo o que ele fez de bom em todos os lugares pelos quais passou, dos Novos Baianos aos Tribalistas - passando pela Cor do Som, pelas bandas de Jorge Ben, Marisa Monte e Rita Lee, etc. Tem participações de alguns amigos que vieram desses períodos, como Caetano Veloso (que canta no sambinha "No coração da escuridão"), Rita Lee (na folk "Na linha e na lei"), Marisa Monte (em "Da aurora até o luar", bem Tribalista e também a cara de Infinito Particular, face mais pop dos últimos discos da cantora) e Carlinhos Brown (na soft-lisergia de "70's").
Independente de qualquer convidado famoso, Dadi se sustenta sozinho por conta do solista - que passeia entre a beleza folk herdada dos anos 70 (e que tem parentesco direto com uma gama de artistas que vai de Rita Lee a Moraes Moreira, passando por Pepeu Gomes) e o balanço típico de quem tem o pedigree que Dadi ostenta. Dúvidas? Confira a belíssima "2 perdidos", que abre o disco, mais a bossinha eletrônica "Cantado por você", o ska-rock alegrinho "Se assim quiser" (talvez a letra mais ensolarada do pop nacional em 2007), o soul-reggae "Bandeira clara" (que poderia figurar em algum disco da Cor do Som de 1980 ou 1981), etc. Histórico, eu diria.
Saiu dia 16 de março no jornal inglês The independent um entrevista justamente com Anita Pallenberg, ex-mulher de Keith Richards e atriz de Performance, filme que você viu resenhado aí embaixo. Lá ela fala da época em que o filme foi feito, dos ataque de fúria do diretor Donald Cammell e ainda manda bala em detalhes interessantes. Para quem gosta de fofocas e de papos do tipo quem-come-quem, olha só isso aí:
"Adding to Pallenberg's discomfort was the understandably miffed Keith Richards who had to watch his significant other jump out of his bed and into Jagger's. "I hated it," admits Pallenberg. "At night I would go home and Keith would be slagging off Donald and the movie."
"Some of the scenes, encouraged by the salacious director, were so explicit that the processing lab called to say that they breached obscenity laws and that they were obliged to destroy them.
"It was like a porno shoot, and Donald loved it," recalls the actress. "At one point I spent a week in bed with Michèle and Mick. There was a camera under the sheets and there was all kinds of sex going on but I put it down to method acting." But when asked, categorically, if sexual congress did actually occur Pallenberg is unequivocal. "No, it never did. I was a one-man girl at the time and Keith was the man for me. I loved him. And anyway, Jagger was the last guy I would have done that with."
Leia na íntegra aqui.
Filmado em 1968 e lançado apenas em 1970, Performance, dirigido por Donald Cammell e Nicholas Roeg, tem o stone Mick Jagger como um de seus atores principais e ainda era mais conhecido apenas pelos fãs dos Rolling Stones, ou por quem curtisse a estética dos filmes psicodélicos dos anos 60. E acabou se tornando um dos raros exemplares deste tipo de filme a ser lançado por uma grande produtora, a Warner. Se a idéia original era que a película fosse um equivalente dos filmes dos Beatles (tinha muita gente da produtora que achava que o resultado ia ser algo próximo de A hard day's night), o resultado foi um filme artístico, repleto de referências musicais e literárias que não podem ser captadas logo de cara - com sexo, drogas, rock´n roll, perversão e tortura psicológica no último volume. Mais: as histórias por trás de sua realização são tão ou mais turbulentas e interessantes do que o próprio Performance.
Para quem quiser conferir o filme - que até pouco tempo só podia ser visto, sem legendas, em mostras de cinema experimental ou de filmes de rock - a Warner acaba de lançá-lo no Brasil em DVD, numa edição que ainda contém um telefilme antigo falando da "carreira solo" de Mick como músico e ator e um documentário explicando como foi realizado o filme. Bom, explicando, é maneira de falar: há fatos que foram deixados de fora, e vale citar que o próprio Mick Jagger não foi entrevistado para os extras do DVD.
O enredo de Performance já o coloca tranquilamente numa espécie de "lado negro da força" do cinema experimental dos anos 60. Não há nada de flower power, muito menos do espírito comunitário de Woodstock. O filme inicia mostrando o estilo de vida do gângster Chas (interpretado por um ator conhecido na época, James Fox), cujo trabalho gira em torno de mulheres, espancamentos, ameaças, torturas, tiros e muita truculência - tudo mostrado na tela com realismo. Após ser jurado de morte, ele tem que se esconder e, por vias completamente tortas, acaba indo parar na casa de um rockstar aposentado, Turner (Mick Jagger), que vive com duas amantes: a diabólica Pherbe (Anita Pallenberg, modelo e atriz ítalo-germânica que era casada com o também stone Keith Richards) e a gracinha Lucy (a atriz francesa Michele Breton).
A aproximação de Turner e Chas acaba sendo o estopim para mudanças nas personalidades de ambos – especialmente quanto Turner e Pherbe oferecem a Chas, sem avisar, uma sessão de degustação de cogumelos que um cozinheiro jamais colocaria numa pizza... Sons estranhos, colagens desconexas, cortes bruscos e seqüências sinistras já aparecem desde o começo do filme, mas é aí que o bicho pega de vez, ganhando ares de verdadeira bad trip. Especialmente para Chas, que praticamente vira um hippie doidão e decadente nas mãos de Turner e suas concubinas.
Bastidores A verdade estava do outro lado das câmeras. Se você não achou nada de estranho ao saber que Anita Pallenberg, mulher de Keith Richards, contracenava com o também Stone e brother de Keith, Mick Jagger, saiba que as cenas de sexo e de uso de drogas são bem reais – especialmente no que diz respeito ao trio Jagger-Michele-Anita. Pelo que consta, durante as gravações, os atores realmente usavam drogas para manter o clima chapado e decadente do filme.
No documentário, são relatados detalhes de como uma das cenas de sexo foi feita – e Anita, hoje uma senhora, sorri e explica que “foi bem divertido”. Bom... a suposta dor-de-corno de Keith teria dado em pelo menos duas músicas dos Stones (“You got the silver” e “Gimme shelter”) e em sua recusa a participar da trilha de Performance – quem toca guitarra em “Memo from Turner”, que Mick canta ao conseguir “penetrar na mente” de Chas, é o guitarman Ry Cooder. Segundo Anita, Keith, já prevendo problemas, ofereceu a ela o mesmo cachê do filme só para que ela não o fizesse. “Mas eu queria mesmo fazer o filme”, enfatiza ela.
A lista corrida de histórias bizarras a respeito do filme é bem grandinha – dentre elas, há o fato de James Fox ter largado o cinema para se dedicar à vida religiosa, o fato de Anita ter metido o pé na jaca das drogas furiosamente após Performance e o desaparecimento de Michele (que, dizem, teria morrido de overdose, virado prostituta ou estaria incógnita na Alemanha). O que vale afirmar é que Performance é um baita relato de uma época, e que qualquer pessoa que queira entender o que foi a doideira cultural-existencial dos anos 60, precisa dar uma olhada no filme. Além do caráter psicodélico, a película inclui desde teorias malucas sobre “demônios internos”, a referências a gente como o bluesman Robert Johnson (cuja “Come on in my kitchen” é tocada por Jagger ao violão) e o papa do realismo mágico, o escritor Jorge Luís Borges, que inspirou boa parte do roteiro e cuja imagem chega a aparecer no filme.
O clima de Performance não passou batido. Além de censurado no Brasil dos anos 70, ele chegou a ganhar classificação de “pornográfico” no EUA, e isso porque dizem que boa parte do material filmado, de tão sexualmente explícito, não chegou nem mesmo a ser revelado. Ultrajados, os chefões da Warner só liberaram o filme após ele passar por quatro montagens - e ainda assim, a fita foi lançada sem muito alarde. Só agora, após quase quarenta anos, Performance sai da maldição e se revela um grande filme, para além de qualquer polêmica.
* publicado em minha colninha do Nitideal.
"ENSAIO" - NELSON GONÇALVES (DVD - Performance Be/Cultura Marcas)
O programa Ensaio, produzido por Fernando Faro para a TV Cultura, já captou imagens de alto valor documental de inúmeros artistas - e boa parte desse acervo está sendo editado em DVD pela associação da Cultura Marcas com vários selos (Biscoito Fino, Trama, etc). A Performance Be acaba de pôr nas lojas um dos momentos mais surpreendentes do programa: a participação de Nelson Gonçalves, numa edição que foi ao ar em 1993.
Além de grande cantor - daqueles de mandar um dó de peito - Nelson era uma figura humana muito peculiar. Certo, é Zeca Pagodinho quem canta que "eu já passei por tudo nessa vida". Mas Nelson (na verdade nascido Antônio Gonçalves, em 1919, na cidade gaúcha de Livramento) é quem mais personifica esse verso de "Deixa a vida me levar" - música que, provavelmente, ele jamais gravaria. Antes de se profissionalizar como cantor, ele foi iniciado na malandragem pelo pai, que dava uns golpezinhos inocentes de vez em quando. Depois virou aluno mau-exemplo (expulso da escola porque não quis cantar o Hino Nacional!), cantor de rua, boxeador, calouro de Ary Barroso (gongado com um vergonhoso "pára de cantar que você não nasceu pra isso!"), até se tornar o artista que foi.
No Ensaio ele conta todas essas histórias e mais algumas - bom, caso você consiga passar batido pela péssima dicção do cantor, cuja memória também já dava mostras de não estar lá essas coisas. No meio do bolo, você ganha uma aula de samba-canção, tango, samba de morro, dor de cotovelo, música de cabaré, etc - em sucessos pré-MPB como "Caminhemos", "Fica comigo esta noite", "Pensando em ti", "Maria Bethânia", "Normalista", "Mulher", "Vermelho 27", "As rosas não falam" e, claro, "A volta do boêmio".
Os vocais de Nelson continuavam em forma 97% plena, a banda que acompanhava o cantor - Fernando Merlino, piano; Jacaré, baixo; Hélio Capucci, guitarra; Cesar Machado, bateria - era de primeiríssima linha e Nelson era uma figuraça, o que já garante alguns momentos de diversão. Rolam até uns momentos bem esquisitos na apresentação: o cantor se estressa com um erro do pianista, pede cafezinho na cara de pau e, irritado com perguntas sobre a fase em que foi viciado em cocaína, nos anos 50, cospe fogo até mesmo na cara do entrevistador ("já tô ficando invocado aqui!"). No meio do Ensaio, sem a menor paciência, Nelson solta um "que horas que acaba esse programa? Já tô com dor nas costas!". Enfim: veja, curta o som e se divirta.
* publicado no International Magazine.
Você já ouviu falar em Flashrock? Em Porto Alegre, no Dia do Rock, fizeram alguns - e dá pra ver vários vídeos no Youtube de outros flashrocks e rolaram por aí. "Na prática, é assim: uma banda toca uma música enquanto artistas gráficos fazem uma intervenção urbana e os videomakers registram o que rola. Tudo tem que acontecer antes que a polícia chegue. E, com o barulho da banda tocando embaixo de uma parada de ônibus, não deve ser difícil dos vizinhos perceberem o flashrock. A galera pelo visto curtiu", diz o release que enviaram pra mim, explicando o que é a parada.
Se quiser conhecer o que é Flashrock, o lance tem um blog. No Youtube, dá pra ver um video de um flashrock realizado pela banda porto-alegrense Pata de Elefante - e tem mais vídeos lá. E tem esse video explicativo sobre o que é a parada. Quem sabe você, que tem uma banda e lê este blog, não se anima a montar um também?
A banda carioca Columbia lançou um videoclipe - da música "Amanhã" - na internet. Para assistir, é só ir no hotsite www.aumenteovolume.com. Curiosidade: o clipe tem participação da atriz Natália Lage e foi dirigido por um global, o diretor Henrique Sauer (JK). Que por sinal é daqui de Niterói e já foi personagem lá do Nitideal. Nesta entrevista que ele deu para o site, ele revelou seu desejo de começar uma carreira como diretor de videoclipes.
Seguem aí embaixo trechos do release:
"Foram quase 2 anos, uma série de shows no circuito independente, participações em festivais como o Claro que é Rock e o MADA, um EP premiado (“A soma das horas”. 2005). Um videoclipe já era cobrado há tempos pelo público dos cariocas da Columbia. A vocalista, Fernanda Marques, explica porque eles aguardaram tanto para estrear em vídeo:
'Depois de pronto, um videoclipe passa a ser eterno. Todos na banda são cinéfilos, e nenhum de nós queria investir tempo e grana em algo que não tivesse um resultado realmente maravilhoso, que nos orgulhasse. Não faria sentido pra gente produzir um vídeo só pela questão de mercado e divulgação...'
Com essa idéia em mente, a banda procurou o diretor Henrique Sauer, que, com o suporte da fotógrafa Natalia Valle, logo topou o desafio: 'Havia a necessidade de se produzir um vídeo que causasse um impacto visual, e que tivesse baixo custo, já que a Columbia é independente. Por isso fizemos uma opção pelo stop-motion, que esteticamente tinha a ver tanto com a banda quanto com o meu estilo de direção.
Estava decidido que o clipe teria apenas fotografias. Nada seria filmado, nem mesmo os trechos onde a banda aparece tocando. Após cerca de um mês de pesquisas, Henrique e Natália já dominavam a técnica do stop-motion em live-action (pessoas em ação real): 'Levou um tempo para acharmos a luz que queríamos, descobrir quantas fotos eram necessárias para um determinado movimento, como borrar os personagens de fundo sem influir nos movimentos da protagonista, solucionar o sincronismo da imagem da Fernanda cantando com a música tocando, etc...'
Henrique convidou a atriz Natalia Lage (Malhação, Dois Filhos de Francisco), que logo se apaixonou pelas melodias melancólicas da canção e encarou o desafio dramático de atuar em stop-motion. As longas sessões fotográficas aconteceram no belo Museu Aeroespacial e no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Foram mais de 7 mil shots e muitas horas de edição e pós-produção.
'Amanhã' conta a estória de quem espera por alguém que nunca vem. Esboça um delicado retrato composto por expectativas, esperanças e frustrações de pessoas comuns, que decidem viver mais do que palavras."
Eu ia escrever algumas palavras sobre a morte de Tony Wilson, fundador da Factory e grande figura para se compreender o que foi o rock dos anos 80 (grandes inspiradores do rock atual vieram dessa época e passaram pelas mãos de Tony - imagine o que seria do "padrão-anos-80", repetido incessantemente por qualquer banda que deseja dar uma cara oitentista a seu som, sem o New Order, por exemplo?). Mas deixo aqui o link de um texto bem bacana, escrito pelo jornalista Carlos Freitas, sobre o falecimento dele.
Ah, segundo o Carlos, isso aqui é o site da Factory. Credo.
"COSTELLO MUSIC" - THE FRATELLIS (Island / Universal)
The Fratellis, grande banda pra baixar discos e deixar no iPod, no discman, no computador, em qualquer canto. O rock dos anos 00 parece ser assim, estranho, de bandas que são muito boas à primeira ouvida, mas que você sempre fica na dúvida se resistirão a uma terceira, a uma quarta. Na dúvida, fique com a boa trilha sonora de Costello Music, ótima mescla de rock, country, punk chupado do Jam - com direito a bons solos de guitarra, performance energética em estúdio e melodias animadas e pesadas, de levantar festa.
Os Fratellis - são três irmãos de mentira: Jon Fratelli (guitarra/vocal), Barry Fratelli (baixo) e Mince Fratelli (bateria e vocal) - são uma banda bastante moderninha, pelo menos em termos da maneira como escolheram ser lançados. Seu novo single "Baby Fratelli" - uma guitarrada melódica a la Weezer - foi lançado num pendrive, junto com clipes do grupo. O grupo de Glasgow (Escócia) talvez não seja aquela grande coisa que muita gente esperava (ih, se esses caras se tornam o novo Nirvana, esse texto vai virar um clássico...), mas traz de volta um senso melódico que estava sendo gradativamente perdido até mesmo nas melhores bandas de rock da atualidade - e ainda insere energia 60/70 (e 90) num esquema roqueiro que estava se comprazendo demais em imitar as bandas de duas décadas atrás.
Os Libertines, em seu primeiro disco, ainda haviam apontado um pouco para a direção que o trio escocês segue em músicas como "Got ma nuts from a hippy" - mas o lance dos Fratellis é com certeza mais elaborado e gozador, em faixas como "Henrietta", o countyzinho-punk "Flathead", a nostálgica balada "Whistle for the choir", o clima punk anos 50 de "Chelsea dagger", a blueseira de “Doginabag”, a diversão garantida de “For the girl”, e vai por aí. Dá pra ler caracteres de Clash, Buddy Holly (olha o Weezer aí de novo!), Supergrass e até de Johnny Cash no som dos três - todos esses artistas aparecem às vezes juntos numa mesma música, seja num detalhe vocal de Jon Fratelli, seja nas guitarras pesadas que vão se sucedendo a cada faixa, seja nos dedilhados country de guitarra e violão que aparecem em algumas canções. E ainda tem um aceno a ninguém menos que Bo Diddley no balanço de “Everybody knows you cried last night”.
No geral, Costello music aparece surpreendendo e divertindo - a sensação é a de se ouvir uma banda que, num cenário quase violento como o do meio fonográfico atual, aparece fazendo música de brincadeira. Nos dias de hoje, isso é muito.
"CARNE" - MUKEKA DI RATO (Deck)
Não há muito o que escrever sobre o Mukeka di Rato. E nisso, nada contra a banda. No front do grupo capixaba a despretensão é tanta que o que dá pra falar da banda é que eles foram responsáveis por uma das maiores rodas de pogo que já vi na vida, no festival DoSol, em Natal (RN), no ano de 2005. De cima de uma bancada, dava para ver o público se movimentando como e estivesse dentro de um grande liquidificador. No palco, músicos berrando, cuspindo cerveja e fazendo merda como se estivessem assistindo a um show, e não participando dele. Tudo o que uma banda punk tem a oferecer, de maneira bem mais saudável e legal do que muito ícone punk brazuca dos anos 70/80.
Carne segue o habitual da banda, com músicas cujas letras quase nem podem ser compreendidas em meio à zoeira dos instrumentos, hardcores toscos e títulos insólitos ("Borboleta azul", "Produtos químicos eletrodomésticos", "Jogo do bicho", etc). A chancela da Deckdisc não mudou muito no front da banda: gravação tosca, som (pesadaço) de demo, pancadaria sem fim, vocais berrados num estilo que ora lembra o hardcore, ora lembra o rap, músicas bem curtas e gozações como o telefonema ao Procon no final de "Pedro e Alfa" (reclamando da qualidade de um CD de rock, vejam só). E vale esquecer a barulheira por alguns minutos e prestar atenção nas letras do grupo - especialmente em "Carne", que põe do mesmo lado John Wayne, Bento XVI, George Bush e Osama Bin Laden, e "Voltar a viver".
O texto abaixo saiu na minha coluninha do Nitideal.
Estou voltando devagar e essa semana já deve ter mais novidades aqui no blog.
"THE REMINDER" - FEIST (Universal)
O som da cantora canadense Feist está de acordo com uma cena de rock "indie" (ô palavrinha...) que abarca desde o rock dos Strokes e do Franz Ferdinand ao soft rock dos Magic Numbers e dos Feelings, mas passando também pelo sonzinho quase infantil e celestial da dupla CocoRosie. O som de Feist - que, antes da (digamos) fama, chamou a atenção por causa de uma música sua que entrou num comercial de perfume masculino - parece passar por isso tudo, carregando também muito do som folk e intimista de bandas como a norueguesa Kings of Convenience. Por acaso, ela chegou a fazer músicas com o pessoal do KOC.
Em The Reminder, novo disco dela, o clima totalmente soft, até quase colocar os ouvintes mais roqueiros para dormir, domina as treze músicas. Tem canção com piano, baixo, vocal e estalar de dedos (a lindíssima, quase de ninar, "Brandy Alexander"), um som folk que parece mais uma demo de algum cantor bittersweet dos anos 70 ("So sorry", com sua qualidade de gravação abafada e seu violão quase percussivo), um indie rock celestial ("I feel it all"), um rock anos 70 jazzístico e acústico ("My moon my man"), um blues-folk tristinho ("The park"), o coutnry de "Past in present", a baladinha elaborada e radifônica (ao mesmo tempo) "The limit to your love", etc.
Tudo numa sonoridade que parece realmente ser feita por quem curte MPB - ela andou comentando que gosta de Astrud Gilberto - e que, em vários momentos, é baseada na dicotomia música - silêncio, assim como a própria bossa nova. Som pra Tim Festival mesmo (por sinal, ela já foi convidada para o festival e aceitou) e pra impressionar amigos indies. Assim, nem dá pra acreditar que Leslie Feist (é o nome da menina, que já tem 31 anos) foi vocalista de uma banda punk e é amiga da porra-louca Peaches. O disco é totalmente o contrário disso, equilibrado pelo vocal afinadíssimo de Feist e por climas oscilando entre o folk e o piano-e-baixo do jazz.
Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ.Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc.Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc.E-mail: rschott2004@gmail.com
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