12.06.07

Permalink 16:37:49, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
Categorias: Música

Jorge Ben & Erasmo Carlos*

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"RECUERDOS DE ASUNCIÓN 443" - JORGE BEN JOR (Som Livre)

Existem dois Jorge Ben (Jor). Ou quem sabe até mais. Os mais conhecidos são esses dois aí: 1) o que é cultuado por boa parte das pessoas que entendem de música, que é tido como ídolo por Caetano Veloso (que recentemente resgatou sua "Descobri que sou um anjo" para o repertório de seu show no Canecão), o que registrou LPs como África Brasil e A Tábua de esmeralda, o que inventou uma nova maneira, mais ensolarada, de se encarar a música brasileira... enfim, gênio é pouco; 2) o que dá shows com clima de micareta, precisou do apoio de agências de publicidade para voltar à fama, gravou discos ridículos como Músicas para tocar em elevador e Homo sapiens, dá quase sempre o mesmo show (um camarada meu diz que "show do Jorge Ben Jor é que nem filme pornô: viu um, viu todos") e parece condenado a repetir insistentemente "Taj Mahal" e "W/Brasil".

O meio do caminho entre esses dois Jorges, quase todo mundo sabe, estava na fase 70/80 dele, quando Ben Jor gravou uma série de discos pela Som Livre - vários deles contando com excelentes arranjos de Lincoln Olivetti, maestro que, por estar presente em dez entre dez gravações da época, era chamado de pasteurizador, massificador, etc, etc e etc. Só que a criatividade de Jorge já não era a mesma, as letras já não tinham as mesmas sacadas, as batidas eram mais repetitivas e, de fato, Olivetti não era dos melhores cartões de visita para o período.

Recuerdos de Asuncion 443 é a preguiça atual de Jorge elevada a enésima potência. É um disco de sobras dessa época, lançado com uma charmosa embalagem em digipack, mas com informação zero. Só quem pergunta sabe que o disco tem esse nome porque é uma referência ao endereço da Som Livre no Rio (Rua Assunção, 443, em Botafogo), por exemplo. A origem das músicas é desconhecida, assim como os macetes de estúdio que foram feitos em cada uma delas. Em boa parte das músicas, dá para perceber o quanto a obra de Jorge ainda era legal na época - o que passou despercebido pelos críticos. "O astro", feita (e recusada) para a abertura da novela global de mesmo nome, poderia estar em A banda do Zé Pretinho, graças ao arranjo de cordas que suinga junto com a batida samba-rock de Ben Jor.

A latina "Usted es mi Marron Glacé", feita (e também recusada) para a abertura de outra trama global, Marrón Glacê, ganha pela sem vergonhice - numa época em que tudo era superproduzido, a Globo nunca colocaria uma música que parece ter sido feita em cinco minutos numa abertura de novela. "Miss mexe Gal", homenagem a Gal Costa, poderia ter virado um hit bem mais bacana do que outras músicas dele que tocaram no rádio nos anos 80 - assim como o funk samba "Heavy samba (Pra um amigo meu)", homenagem a Gilberto Gil. Tem o lado "só rindo" do disco, com "Duas mulheres" - não, não se trata de nenhuma fantasia sexual do cantor. Jorge lançou mão desse discreto nome para uma homenagem ao Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luiz Borges (o refrão: "este livro, é exceção / este livro, é cabeção"). Pelo menos isso, já que o CD ainda tem a sem noção "Emo", gravada agora em homenagem à turma do franjão - e que só não põe por terra tudo o que Jorge fez porque, sem inspiração ou não, ele é o cara. Ou já foi o cara.

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"ERASMO CARLOS CONVIDA II" - ERASMO CARLOS (Indie)

Erasmo conseguiu ser pioneiro até mesmo no que há de mais manjado em música brasileira na atualidade: os "projetos". Em 1980, lançou o seminal (e bota sêmen nisso) Erasmo Carlos Convida. Com capa prateada, dupla, o álbum trazia o que havia de mais significativo na obra de Erasmo reinterpretado por ele e vários convidados - Gal Costa, Maria Bethânia, Frenéticas, A Cor do Som, etc.

Bom, o que aconteceu? O disco vendeu bastante - foi o primeiro disco de ouro de Erasmo, que a bem da verdade, precisava dessa "forcinha" no mercado - mas trazia uma série de arranjos meia-boca, feitos de encomenda para as FMs bobocas da época. Eram uma mistura da MPB de motel de Roberto com o pior da fase anos 80 de Gil e Caetano - a saber: violões ovation irritando os ouvidos, guitarras extremamente econômicas, bateria abafada, arranjos "família", etc. Isso poderia ficar bem na voz do próprio Roberto, mas era complicado ver que hits que, tempos antes, tinham feito bastante barulho ("Mané João", relida por Erasmo com Gilberto Gil, é o maior exemplo) tinham ficado caídos. Pra contrabalançar, tinha Rita Lee - numa versão de "Minha fama de mau" que toca até hoje no rádio - os próprios grandes brothers de Erasmo (Tim, Roberto, Jorge Ben e Wanderléia) fazendo bonito.

A essas alturas dos acontecimentos, será que Erasmo (que já reclamou de ser eternamente procurado pelas gravadoras para fazer "projetos" e não discos de carreira) precisava fazer um Convida II? Bom, de uma forcinha pra vender mais, ele talvez precisasse. Agora, uma coisa é certa: o II superou seu modelo em muita coisa. Grande parte dos arranjos foge totalmente do óbvio - caso de "Olha", com Chico Buarque fazendo participação numa música que poderia estar em um disco seu de carreira, do Skank fazendo "A banda dos contentes" pesar e da beleza das participações de Marisa Monte ("Não quero ver você triste") e Los Hermanos (a melancólica "Sábado morto").

Adriana Calcanhoto faz no disco o mesmo papel gozador que coube a Rita Lee no primeiro Convida - só que numa versão quase psicodélica de "Ilegal, imoral ou engorda". "Cama e mesa" ganha uma grande dose de malandragem na voz de Zeca Pagodinho - que inverte o sentido da letra, muda divisões vocais e usurpa a música do Rei. "De tanto amor" pode assustar pelo fato de ter ganho uma versão meio sertaneja, com Djavan nos vocais, mas ficou lindíssima. "O portão" foi feita de encomenda para o Kid Abelha - se bem que Lafayette & Os Tremendões, que apesar da homenagem (e da presença do ex-acompanhante de Erasmo e Roberto na liderança), não foram lembrados para entrar no CD, têm uma versão bem mais emocionante dessa música. Só chateia porque, da geração de 1941/1942, Erasmo foi o que ficou com a voz mais detonada.

* publicado no Nitideal


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Comentário de: Érico San Juan Email · http://www.ericosanjuan.zip.net

Andei ouvindo a obra completa do Erasmo, ultimamente. E por sua causa, hein, Ricardo. Você falou outras vezes do cara com muito entusiasmo, e resolvi pagar pra ver. Conhecia só os hits dos anos 80, e o disco de 2001, com o "Mais um na multidão". Muito legal, tanto os anos Jovem Guarda quanto os anos 70. Este "Convida", de agora, eu gostei, mas não curti as participações do Chico Buarque, do Djavan, Los Hermanos. Os outros estão ótimos.

PermalinkPermalink 12.06.07 @ 18:55



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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ.Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc.Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc.E-mail: rschott2004@gmail.com

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