"TWELVE STOPS AND HOME" - THE FEELINGS (Universal)
O soft rock dos anos 70 não é um fantasma que paira sobre algumas bandas - é uma realidade. Elliot Smith, com sua cara countryzinha, tinha um pouco disso (tá, pode ser viagem minha, mas tem hora que lembrava), o The Thrills tem um muito disso, o Josh Rouse decidiu homenagear a era de ouro do estilo com um álbum chamado 1972, os Magic Numbers também chegam quase lá... E os ingleses dos Feelings, ora ora, podem até tocar na Antena 1 que ninguém vai nem notar a diferença. "Love it when you call" poderia ter saído em 1981, e poideria estar na trilha de O super herói americano (não teve como não lembrar de "Believe it or not", tema da série, quando entrou o refrão).
O esquema é aquele mesmo rockzinho de AM/FM que quem tem 30 anos ouvia em trilhas de novela na infância, mas com um peso a mais e sabedoria melódica de quem passou pelo brit pop - caso claro em faixas como "I want you now", a baladinha "Same old stuff" e a baladaça "Rosé". E nem ouse chamar os caras de babões, porque o lance deles é outro - basta ver pela criatividade de "Blue Piccadilly", a maior homenagem que Elton John poderia ganhar nos dias de hoje, ou pela maravilha que é "Never be lonely", baladinha de violão e piano Rhodes que lembra os anos 70 até na qualidade de gravação. Grande surpresa.
"TODOS OS TEMPOS"- CACHORRO GRANDE (Deck)
Uma coisa que dá medo no rock nacional atual é saber se as bandas de hoje em dia vão continuar tendo assunto para mais dois, três, quatro, cinco, dez discos. O rock dos anos 90, em alguns casos, se esgotou por conta disso - os Raimundos viram o tal forró-core se espatifar no chão, o Charlie Brown Jr. virou uma péssima caricatura de si mesmo e Marcelo D2 ameaça ir para o mesmo caminho. Por outro lado, muitos grupos recentes parecem crescer a cada disco, abarcando mais idéias e influências. O Cachorro Grande, até agora, vem demonstrando jogar nesse time.
Todos os tempos é rock´n roll do bom, às vezes demonstrando partir de onde o primeiro disco parou - no segundo disco o grau de doideira fizeram as gravações chegarem a níveis altos demais de peso e maluquice, e o terceiro, já pela Deck, mostrava uma banda mais "evoluída", mas nem por isso pior. Repleto de músicas individuais dos cinco membros, o CD novo pode ser o sinal de que há personalidades se desenhando dentro do grupo - o lado mais garageiro de Marcelo Gross como autor em "Conflitos existenciais" e de Rodolfo Krieger em "Deixa fudê", a faceta mutante de Beto Bruno em "Roda-Gigante", a cara experimental do batera Gabriel Azambuja em "Nada pra fazer", etc. Tudo convergindo para uma lisergia bem feita e elaborada - que ainda inclui um countryzinho em "Na sua solidão", um belo instrumental unindo U2 e anos 60 em "Hoje meus domingos não são mais depressivos"
O fato do Álbum branco aparecer como uma das referências, no release distribuído pela gravadora, não deixa de ser signfiicativo - Todos os tempos tem uma mistura de referências antigas de rock que pode remeter ao disco duplo dos Beatles. Não há uma preocupação, ao que parece, em atingir a tal "unidade" tão querida por críticos musicais. Há o compromisso de abarcar tudo o que a banda considera digno de valor no gênero rock e de fazer um disco que os fãs de rock possam gostar - tem riffs assemelhados à levada de "Fire", do Jimi Hendrix, corais lembrando The Who, sons voltados à união rock-soul ("Nunca vai mudar"), o lado mais easy-listening do rock sessentista ("Quando amanhecer"), etc. Dá para cada fã de rock se achar numa das faces de Todos os tempos. Pode curtir.
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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ.Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc.Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc.E-mail: rschott2004@gmail.com
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