"ACÚSTICO MTV" - LOBÃO (Sony & BMG) *
Falar, como o próprio Lobão deve saber, é fácil. E falar mal do Acústico MTV que ele gravou recentemente, idem. Antes de mais nada, não deixa de ser curioso observar como as coisas mudam. Anos atrás, entrevistando o cantor Pedro Mariano, lembro de ter ouvido dele que não entendia os críticos que falavam mal de sua irmã, Maria Rita, imaginando vir ali uma estratégia para a ressucitação da mãe dos dois, Elis Regina. "Sempre falo pra esses caras: pô, ouve o disco!", disse. Hoje é Lobão quem, via Sony & BMG, se escora numa campanha parecida, com direito ao slogan "Acústico MTV Lobão: não tente entender, assista".
E aí que, tentando entender, é facilmente compreensível que Lobão, mesmo tendo conseguido fazer o barulho que fez no meio independente (o que é notório), tenha passado a achar que seus últimos lançamentos foram desperdiçados. Por mais que a Outracoisa seja uma revista bem legal, por mais que lançamentos como As próximas horas serão muito boas (Cachorro Grande), Apuros em Singapura (Carbona) e o próximo do Canastra sejam excelentes, normal que ele tenha achado que seu último disco independente, Canções dentro da noite escura, tenha sido desperdiçado. Mesmo A vida é doce, lançado em 1999 e estréia do seu selo Universo Paralelo, tem músicas que poderiam ter tocado em rádio - Noite, último disco antes do "exílio" das gravadoras grandes (e lançado justamente por uma Universal pré-fusão com PolyGram) chegou a ter a faixa-título tocando numa trilha de Malhação e emplacou o quase-hit "Deixa". O lugar de Lobão, seja como for, é no rádio. E boa parte desse Acústico MTV, incluídos aí até mesmo os não-hits de seus dois discos anteriores, mostra bem isso.
Falar mal dos Acústicos já se tornou lugar comum - impossível não fazê-lo, quando se vê que até mesmo Zeca Pagodinho (que não usa guitarras em seus shows) já gravou dois, e que projetos forçados como os acústicos do Charlie Brown Jr. e o do Cidade Negra já surgiram. No caso de Lobão, o disco veio ao encontro de uma sonoridade que nunca dispensou o acústico - desde os anos 80, uma das características de Lobão sempre foi ter ótimos violões e baladas acústicas muito bem feitas e bem produzidas, como "Essa noite, não" e "Chorando no campo".
No mais, por mais que Lobão tenha queimado a língua ao desdenhar do projeto e hoje se diga "cansado de ser contestador", dá até para dar uma de radical e dizer que, quem não reconhecer estar diante de um produto bom e legítimo ao ouvir o Acústico do cantor, tem duas latrinas no lugar dos ouvidos. Não deixa de ser uma boa volta por cima - muito embora, diante das baixas vendas de Canções... (15 mil discos, segundo ele próprio), o retorno dele às grandes gravadoras não tenha nada de triunfal. O mercado está asfixiado, mas conseguir domesticar um sujeito difícil como Lobão - embora, por trás disso, estejam o relançamento de seus discos lançados pela antiga RCA e o merecido reconhecimento do potencial pop das canções de sua fase indie - é fato para ser exibido em troféu de caça.
O formato acústico de Lobão inclui cordas, acordeões, muito violões e violas caipiras, dando um toque especial a canções esquecidas como a new wave-hispânica "Bambino" (de Ronaldo foi pra guerra), "O mistério" (baladão progressivo feito por Lobão e Lulu Santos, do repertório do Vímana, banda que ambos mantinham nos anos 70) e "Por tudo que for" (do fraco O inferno é fogo), além de hits inevitáveis como "Canos silenciosos", "Rádio blá", "Noite e dia" e (você duvidava?) "Me chama". Músicas mais recentes como "Vou te levar", "Quente", "El Desdichado II" (homenagem ao amigo percussionista Alcir Explosão, da bateria da Mangueira, morto por bala perdida no Rio) e "Você e a noite escura" ficam emocionantes - nesse ponto, a única bola na trave é "A vida é doce", menos deprê e contudente que a original.
Se Lobão já havia conseguido inovar reinventando sua imagem no mercado (ou à margem dele), seu Acústico MTV mostra, originalmente, que o formato não é para qualquer um - e que pode até representar decadência e desgaste, mas não para todo mundo.
* publicado em minha coluna do Nitideal.
É RATA: O leitor Nandão esclareceu que "Por tudo que for" é do Cuidado!, disco do Lobão lançado em 1988. E o amigo Fábio Vanzo esclareceu que do O infereno é fogo entrou "Que língua falo eu", só no DVD. Abraços!
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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com