Textinho da fase antiga do blog tapando buraco... heehe
"TAXIDERMY"- HARRY (Fiber)
A banda santista Harry não pode ser considerada um dos nomes mais sortudos do rock nacional oitentista - e, aliás, muita gente (infelizmente, diga-se de passagem) deve ter lido a primeira frase deste texto e pensado: "Harry? Rock nacional? Anos 80? Que banda é essa?". Pois é, se você não conhece, deveria conhecer - e saiba que o selo Fiber Records está reeditando os três álbuns do grupo no box set Taxidermy. Trata-se de um outro lado do rock brasileiro da época, que vale a pena ser conhecido - e pra já!
O grupo de Hansen (vocais, guitarra), Cesar Di Giacomo (bateria), Richard Jonsson (baixo) e Roberto Verta (teclados, produção) era um dos nomes que, naquele período, insistia em correr contra a maré do rock nacional - e justamente numa época em que o gênero já começava a apresentar sinais de desgaste. Seus três discos, independentes, lançados entre 1987 e 1991, traziam rock inglês, noisy rock, rock industrial, sons eletrônicos (a então chamada electronic body music), efeitos de estúdio, fitas ao contrário, sons eruditos... Tudo o que não estava no cardápio das rádios rock da época. Detalhe: as letras eram em inglês! O único álbum a trazer qualquer coisa cantada em português foi o primeiro, o EP Harry (ou Caos), lançado em 1987 pelo falecido selo paulista Wop Bop, trazendo um som bem mais roqueiro que o comum da banda - lembra um Sonic Youth mais eletrônico, ou mesmo alguns trabalhos de grupos como Art Of Noise. Como a new wave à brasileira ainda dava pé, o grupo resolvera dar um tempo nas letras em inglês e chamou Denise Tesluki para dar uma força em canções como "Caos" e "Adeptos" (só "Blood and shame" era cantada na língua dos Beatles).
Até que Caos saísse, o grupo (originado da banda punk Yardrats, ativa - pasmem - em Santos nos anos 70!) já se chamara Harry & The Addicts, contando apenas com Hansen, Di Giacomo e o baixista Renato Grillo - este, falecido pouco tempo depois. Johnsson entraria pra o baixo e o grupo, inspirado por uma personagem de O retrato de Dorian Gray Oscar Wilde, reduziria o nome para Harry. O tecladista Roberto Verta, grande responsável pela sonoridade mais eletrônica que o grupo adotaria em seguida, só entraria depois do EP, para gravar o primeiro LP, Fairy tales, publicado pela Wop Bop em 1988. É um disco que chama a atenção pela produção cuidadosa e pela qualidade de gravação acima da média para os álbuns independentes do período - cortesia do estúdio paulista Big Bang. Unindo rock, tecnopop e tons cinzentos, o grupo mandou bala em anti-hits como "Sky will be grey", "Genebra", "You have gone wrong" (com tapes de discursos de Getúlio Vargas e Hitler) e "The beast inside", além das melancólicas "Silent telephone" e "The last birthday". Um discão, ignorado pela grande mídia, mas escutado pelas pessoas certas - tanto que só recebeu críticas positivas.
O grupo só lançaria disco novo em 1991, Vessels Town. Tratava-se de um lançamento "meio" independente - saiu pelo selo Stilleto, que era distribuído pela Sony Music e tinha discos vendidos até em grandes magazines. Com a saída do baterista di Giácomo, o grupo entraria de vez na seara tecnopop - com direito a samples, sintetizadores e baterias eletrônicas à vontade. Apesar de contar com um momento promissor para a música eletrônica, de estar numa gravadora de maior porte e de fazer seu disco mais acessível (repare no nome do então novato Dudu Marote - ! - como consultor para assuntos sampleiros, na ficha técnica), o Harry não se deu bem: a despeito da boa qualidade de Vessels town, não rolou muita repercussão. Para os fâs, resta curtir músicas como o eletropunk "Savior", as canções de guerra "Stories" e "Watching the watchmen" e a pesada "Bronco brain", pela primeira vez em CD.
Além dos três discos originais, o fâ poderá curtir também a história da banda contada num informativo livreto - com todas as músicas comentadas - e mergulhar num mundo de faixas bônus, incluídas em cada disco. Caos, por exemplos, traz tapes dos anos 90, gravados para álbuns que nunca chegaram a sair - além das demos de uma tentativa de volta do grupo, sem Verta, em 1998. Os outros discos trazem mixagens alternativas, remixes, out-takes, etc. Pois é, Taxidermy, enquanto resgate, é mais luxuoso que muita coisa relançada por grande gravadora. Uma lição e tanto - e uma grande surpresa para os antigos fâs da banda. Saiba do Harry aqui.
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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com