Fiz a entrevista abaixo pro International Magazine, tem um tempinho
"CONEXÃO NORDESTE - GRÉIA AO VIVO" - JEFFERSON GONÇALVES (Tratore)
Gaitista reconhecido no circuito de blues brasileiro, o carioca Jefferson Gonçalves busca a inovação. Após lançar seu CD solo Gréia, em 2004, ele volta agora com Conexão Nordeste - Gréia Ao Vivo (Tratore). Gravado em julho de 2005 no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, o álbum flagra Jefferson unindo blues e nordestinidade - ainda que sem as intervenções de sanfona e rabeca do disco de estúdio. Várias faixas receberam um tratamento de blues que inclui toques de baião e maracatu - "Crossroads", de Robert Johnson, vem, por exemplo, embebida no ritmo pernambucano - e sempre apontando para o folk, em faixas como "Big Jake" (Norton Buffalo) e "All along the watchtower" (Bob Dylan), além das composições do próprio Jefferson e de sua banda.
Conversamos com Jefferson sobre seu novo disco e sua carreira.
Você tem misturado blues e música nordestina em seu repertório. O público de blues não é muito purista pra isso? Em alguns locais rola preconceito em relação à mistura. Mas é muito pouco, não me importo com isso. O preconceito é uma burrice, porque todo mundo fez misturas até criar seu próprio som, os Beatles são um exemplo claro disso. Se rola preconceito com meu som, acho que essas pessoas nem aparecem nos shows, pois todos que vão, saem perguntando onde será o próximo (risos).
Em que lugar do Brasil você tem sentido maior aceitação do seu trabalho? Em todos os lugares fui bem aceito, mas o Rio é o lugar mais fraco. Está ruim para todos os estilos de música de qualidade, porque há poucos espaços para tocar e a mídia não da muita atenção. Falta uma rádio verdadeiramente rock, como era a Fluminense. O Circo Voador tem que abrir mais espaços para outros estilos, como fazia antigamente, e colocar um valor de ingresso mais baixo. As lonas culturais também mudaram muito a maneira de trabalhar.
O público nordestino já teve a oportunidade de ouvir teu som? Já. Recentemente fiz uma tour pelo interior do Ceará promovida pelo SESC CE. Toquei em Juazeiro do Norte, Nova Olinda, Assaré, Crato, Fortaleza, Sobral, Iguatu, Guaramiranga. Em Assaré, que é a terra do poeta Patativa de Assaré, me apresentei num festival de música nordestina, acompanhado por um grupo de adolescentes da Fundação Casa Grande. Toquei o repertório do meu CD, todo cantado em inglês e na segunda música já tinha gente dançando e curtindo o show. É engraçado que aqui no Rio o SESC também não abre muito para esse estilo de música. Tenho que viajar para outros estados para tocar no SESC (risos).
Você gravou All along the watchtower, do Dylan, e diz ser fâ dele. Muita gente diz que o Dylan não é um bom gaitista, que ele não toca nada... O Dylan tem estilo na gaita, ou não? Tem sim. Na segunda nota da gaita dele você já sabe quem esta tocando. Podem achar ruim, mas é o estilo Dylan de tocar e isso é muito imitado. Até hoje você vê pessoas tocando no estilo Dylan, com um violão e uma gaita no prendedor. Comecei a tocar escutando ele, gosto muito da sonoridade dos violões e principalmente das letras.
Geralmente o músico atual de blues começa escutando rock e depois passa pro blues por ver que é a música que seus mestres ouviram. Como foi com você? Acho que igual a todos. Comecei a escutar rock, sempre gostei de Led Zeppelin, Stones, Beatles, Jethro Tull, Bob Dylan, The Band, etc. Sempre que tinha uma música com gaita, eu dava uma olhada no encarte. Via que, na maioria das vezes, essa música era de outro artista. Quando o CD chegou no Brasil, tinha um selo, se não me engano o MoviePlay, que lançou vários CDs de blues. Foi ali que comecei a conhecer mais sobre o assunto.
Geralmente gaita tem aquela coisa de ser um instrumento que a pessoa pega e sai tocando. Você fez aula com alguém? Sempre curti instrumento de sopro, principalmente flauta - curto até hoje o som do Ian Anderson. Mas nunca tive coragem de aprender, até que um dia um amigo me deu uma gaita. Eu trabalhava no banco e resolvi procurar um professor. Achei um senhor chamado Dornellas, que me ensinou os primeiros passos no instrumento, as técnicas de sopro, respiração. Só que ele tocava gaita cromática e eu queria a diatônica, que é a de blues. Depois achei o Flávio Guimarães, com quem tive seis meses de aula. Nessa época conheci o Zé da Gaita e comecei a estudar com ele. Foi ele quem me colocou no palco a primeira vez, eu o acompanhei em vários shows e aprendi muito sobre blues com o Zé. Ele tem uma coleção enorme de LPs, saia da casa dele com pilhas de LPs para copiar (risos).
E como está a procura pelas suas aulas de gaita? Já esteve melhor. Na época do (antigo) Circo Voador eu tinha um bom numero de alunos, pois sempre depois dos shows rolava uma procura. Mas agora como toco muito pouco no Rio, tenho um numero menor da alunos. Além, é claro, de hoje ter uma concorrência maior, pois vários ex alunos hoje estão dando aulas (risos).
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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ.Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc.Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc.E-mail: rschott2004@gmail.com
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