24.03.07

Permalink 15:09:45, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
Categorias: Egotrip, Música

Juca Chaves Ao Vivo

Texto que saiu no Discoteca Básica faz séculos e lembro que a galera gostou.

jucaaovivo1

"JUCA CHAVES AO VIVO" - JUCA CHAVES (Philips, 1973)

E JÁ DIZIA UM TOBOGÂ PARA O OUTRO:
"como os ânus passam depressa". Rararará (que merda, né?). O efeito máquina do tempo não perdoa ninguém, nem mesmo o bom Jurandir Chaves (vulgo Juca Chaves), cujos discos ao vivo provocavam a maior polêmica nos anos 70, eram comprados pelos pais mas tinham a audição vetada para os filhos, eram recolhidos das lojas e tal. Hoje em dia, mesmo que várias piadas desse tempo ainda sejam engraçadas e sejam contadas por várias pessoas, a audição de Juca Chaves ao vivo, o famoso disco da privada, vale não só como experiência humorística, mas também pelo lado antropológico da coisa. Numa época em que a censura comia solto, torturava-se e prendia-se a rodo e as mensagens mais fortes tinham que ser passadas nas entrelinhas, um simples "porra!" dito pelo humorista consegue levar a platéia ao delírio. Isso sem contar a série de referências da época (há piadinhas que falam em Betty Fridman, pílulas anticoncepcionais, etc) e as famosas apelações para judeus, circuncisões, campineiros, narizes grandes, Ana Maria (a eterna namoradinha do Juquinha) e etc.

Juca Chaves ao vivo foi gravado da mesma forma que um outro famoso disco ao vivo, só que de rock: Slade alive, dos esporrentos do Slade. Enfiaram Juca no estúdio (epa!) ao lado de uma claque convocada, abriram o microfone e o cara mandou ver. Entre os vários textos ditos por Juca, há piadas contadas até hoje e que meio que passam de pai para filho, como a do Simpósio Internacional do Sexo (aquela do vovô que levanta o braço amarradão quando escuta a pergunta "aqueles que fazem amor uma vez por ano levantem as mãos", porque o tal simpósio caiu justamente no dia do velhote molhar o biscoito), ou a da mocinha de família que, para cada rapaz "abatido", ganhava um canivete suíço, ou mesmo a da mocinha feia e pobre que pede ajuda para se transformar numa mulher linda e rica - e depois pede para a fada madrinha transformar seu gato (capado) num príncipe encantado.

Tá, hoje em dia, metade dessas coisas, pelo menos contadas desse jeito, nem têm tanta graça - levando em conta que no meio da tal piada da mocinha feia e pobre a frase "agora, minha fada, eu queria ser rica, porque linda e pobre é uma merda, né?" faz a platéia peidar de tanto rir, dá pra ter uma idéia. Só que Juca Chaves sempre foi um puta cronista do seu tempo - nunca levado a sério, diga-se - e é um baita contador de piadas. A historinha narrada por ele sobre a lagartixa hippie que vendia roupas na praça General Osório (detalhe: ele se atrapalha todo e acaba falando Marechal Deodoro...) é a maior zoação que algum humorista poderia fazer com a galerinha descolê da época. E, de brinde, Juca Chaves faz a gozação maior com a MPB, ao relatar um encontro com Chico Buarque e Tom Jobim, completamente bêbados, comemorando a vitória do time de futebol de botão do autor de "A banda" - sem falar quando, lá pelas tantas, ele solta a frase estilo se-a-carapuça-serviu "aqui no Brasil quanto mais o artista se curva, mais o público gosta". Deu (opa) pra entender, não?

Entre várias piadas que ainda são engraçadas e algumas outras que eram super-de-rolar-de-rir na época e hoje não dão nem pro cheiro, encontram-se quatro músicas: "Cacá", uma marchinha com letra inintelegível; "Alça de caixão", com seu refrão célebre ("pois mulher é como alça de caixão/quando um larga, vem um outro e põe a mão") e dois clássicos, a "Marcha da tanajura" (fazendo referência ao tamanho da bunda da famosa formiguinha) e a impagável "Sou sim, e daí?", cuja letra você lê aí embaixo. Mais clássico que isso só mesmo a canção indígena de Paulo Silvino, falando sobre as pirogas, embarcações de madeira construídas por índios (refrão: "como era grande a piroga dele/descendo o rio correndo pro mar"). Ou a versão sulamericana do conto "A cigarra e a formiga", feita pelo próprio Juca e perdida em outro disco do cantor-humorista (o final: "cigarra, se vir La Fontaine/filosofando como um tatu/peça-lhe então bem solene/pra enfiar sua moral no cu/no cuuuu, no cuuuuu, no cuuuuu/no cuuuu.../noooo cuuuuuu"). Ou mesmo "Take me back to Piauí", também de Juca Chaves, e fazendo referência ao grande encontro (mais pra trombada) entre o homem-de-televisão Carlos Manga e a jornalista Cidinha Campos ("manga, não/manga é um perigo/quem provou quase morreu"). O cara é foda!

"SOU SIM, E DAÍ?" (Juca Chaves)

Eu sou baixinho, feio e narigudo
Dizem que eu sirvo só pra dar recado
Mas na verdade eu sirvo para tudo
Até chifrudo eu sou sem ser casado (rararararará)
Eu tenho chifres mas não tenho queixas
Se bem que a testa fique bem maior
Até que é bom quando a mulher nos deixa
A gente sempre arruma outra melhor
Essa é a vida que eu sempre quis
Eu sou um cornudo, mas eu sou feliz
Essa é a vida que eu sempre quis
Eu sou um cornudo, mas eu sou feliz (rararararará)

(falado): "É, podem rir, mas quando a mulher quer trair, trai mesmo. Vocês podem trancar ela dentro do armário que elas te traem com um cabide!" (rararararararará) "Sábio é o ditado de Pernambuco que diz 'água de morro abaixo, fogo de morro acima e mulher quando quer dar ninguém segura' (rarararararararará)

Mas infeliz é aquele que acredita
Que nunca foi traído por mulher
Seja ela feia, seja ela bonita
Mulher nos trai quando ela bem quiser
Mas quem é macho e nunca foi enganado
Não trocará de esposa ou de patroa
Porque com uma só terá sempre passado
Acreditando que ela ainda é boa
Essa é a vida que eu sempre quis
Eu sou um cornudo, mas eu sou feliz (nesse momento, Juca pega o violão e o microfone e tenta convencer a platéia a cantar a música - volta falando a frase: "eu quero colaboração em massa!")

Infelizmente existem as Amélias
Que sendo sérias pela vida afora
Ficam com a gente até ficarem velhas
Quando já é tarde pra mandar-se embora
Poré não tarda o dia da verdade
Que escapará e um grito em nossa boca
A frase amarga desta realidade:
"Tira os teus seios do prato de sopa!"
Essa é a vida que eu sempre quis
Eu sou um cornudo mas eu sou feliz!
______________________________
Juca chaves ao vivo. Disco com texto e músicas de Juca Chaves, "impróprio para menores". Direção de produção de Paulo Sérgio Valle, arranjos de Hugo Bellard e capa de Juarez Machado. Track list: vários textos entremeados pelas músicas "Cacá", "Alça de caixão", "Marcha da tanajura" e "Sou sim, e daí?", todas de Juca Chaves. Fora de catálogo.



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Comentários:


Comentário de: Alfamentor Email

Ricardo, me amarrei no texto. Soltei um pum afinado quando estava fazendo a leitura.

PermalinkPermalink 26.03.07 @ 19:41



Comentário de: Fonsequinha Email

Ricardo, acabei de ficar solteiro novamente, a falecida, ebora ainda com 37, já está na fase do prato de sopa, se é que me entende. Já que ela quis, só me resta arranjar uma mais "inteira". A propósito, eu tenho essa obra em fita k7 (original), só não sei se ainda funciona.

PermalinkPermalink 04.05.07 @ 16:49



Comentário de: Ricardo Schott Email

Eu tenho em k7 e vinil!

PermalinkPermalink 04.05.07 @ 17:20



Comentário de: ELOISA SOUZA

Gostaria de saber se as suas fitas de piada estao a venda em cd. Onde estão a venda .
Grata

PermalinkPermalink 30.08.07 @ 23:20



Comentário de: Ricardo Schott Email

Comassim, Eloisa?

PermalinkPermalink 31.08.07 @ 09:37



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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com

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