16.03.07

Permalink 17:29:25, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
Categorias: Música

Entrevista: Bento Araújo - Poeira Zine

pz_14

Recebemos por aqui o número 14 do poeira Zine, que é a revista dos sonhos de muita gente: uma publicação dedicada apenas ao rock - brasileiro ou mundial - dos anos 60 e 70. Faltava uma revista dessas por aqui, ainda mais levando em conta que quase 100% do zine inclui apenas material raro, coletado em exaustivas pesquisas de livros e revistas velhas - tudo da biblioteca pessoal do jornalista paulista Bento Araújo, que para fazer o poeira Zine, ataca por todos os lados: escreve os textos, faz corpo-a-corpo com anunciantes e com (alguns) lojistas, entrevista roqueiros, pesquisa, corre atrás de material e até faz a faxina do banheiro da redação (pelo menos é o que diz o expediente da revista, já que eu nunca fui lá conferir).

Na sua mais recente edição, o poeira Zine dedica 13 páginas para falar de uma das bandas mais queridas de seus leitores, o Who - o lançamento de Endless wire, claro, é enfocado. Mas o zine ainda apresenta mais do que apenas isso, já que Bento conseguiu cavar um papo, por skype, com ninguém menos que o próprio Pete Tonwshend. Detalhe que nem rolou burocracia pra achar o cara. "O Pete adora Internet e o mundo virtual. Manja tudo de comunicação via web, então marcar um bate-papo com ele no skype foi a maior moleza", diz Bento, que ainda assim já passou alguns perrengues para botar a revista nas mãos dos assinantes - como quando correu atrás de ex-músicos de Alice Cooper para falar do show do cantor no Brasil em 1974.

o poeira Zine você conhece e compra aqui (o site tem trechos e algumas matérias).

Queria saber como você teve a idéia de montar a Poeira Zine. Deve ser a primeira vez que se cria uma publicação dessas no Brasil... Sim, no Brasil esse formato era inédito. Um dos 'estalos' que me ocorreu foi justamente resultado dessa carência nossa por esse tipo de publicação. Na Inglaterra, por exemplo, o aficionado por música encontra uma série de periódicos que trazem exatamente aquilo que ele quer ler.

Antes de ser jornalista eu trabalhei em sebos e lojas de discos. Nesses lugares, a maioria dos clientes queria saber sobre as bandas - discografias e curiosidades sobre esse mundo. Por que não passar isso para o papel e disponibilizar para um número maior de pessoas? A simples idéia que me ocorreu tornou-se uma fixação. Daí foi só me mandar para o front... (rsrsrsr)

O que te levou a se interessar pelo jornalismo? Foi direto a área de música? Ou você chegou a fazer outras coisas na profissão? O que me interessou no jornalismo era que através dele eu poderia estar 'vivendo de música'. Nada mais é o de uma extensão daquela ânsia adolescente de montar uma banda e viver tocando pelo mundo. Basicamente era isso que eu queria nos meus 13 anos de idade. Como vi que minha banda era muito meia boca, comecei a pensar como eu poderia continuar ouvindo discos adoidado, entrevistar meus ídolos, viajar para assistir shows...esse tipo de coisa. Ficou óbvio que o jornalismo supriria essa minha necessidade adolescente. O mais legal é nunca cogitei trabalhar com outra área que não fosse música, estou nessa estritamente por ela.

A revista sempre teve esse formato? Ou você começou de um zine de xerox e foi chegando ao impresso normal? Minha idéia inicial era "vender o peixe" apenas para um ou dois anunciantes e rodar uma publicação de quatro ou seis páginas em xerox, como um zine mesmo. Logo a coisa foi crescendo, com o pessoal se animando com a idéia de uma publicação musical diferente no mercado. Quando me dei conta, tinha anunciantes suficientes para rodar o zine numa gráfica e fazer a capa em papel couchê e tudo mais, além de prensar de cara 2.000 exemplares. A minha vontade foi de querer criar algo profissional e de qualidade desde o início, fugindo daquela poluição visual que os fanzines costumavam trazer. Sem querer soar arrogante, a poeira Zine acabou se tornando um novo 'conceito de fanzine'. Bonito falar isso né...rsrsrsrs.

Você disse que a matéria que te deu mais orgulho foi a do Alice Cooper no Brasil em 1974. Como foi correr atrás de ex-integrantes da banda dele, como Michael Bruce e Neal Smith? Desde moleque eu queria saber como tinha sido aquela primeira tour do Alice Cooper pelo Brasil, mas não achava absolutamente nada a respeito. Fiquei empolgado, pois essa garimpagem se tornou como numa missão arqueológica. Virou rapidamente uma necessidade de acabar com esse buraco negro da nossa história musical. Achar fotos dos shows, falar com o batera Neal Smith, com o guitarrista Michael Bruce, com o Pedrão do Som Nosso de Cada Dia (que abriu os shows), vasculhar os jornais da época...foi emocionante. Quando ficou pronto a galera não acreditou...Cheguei a receber pedidos de países como Japão, Austrália, Europa e América do Norte...e o site oficial inglês do Alice estampou a capa da poeira por lá. Inesquecível. Até hoje, mais de dois anos depois, recebo muitos elogios pela matéria, é gratificante, pois essa edição tornou-se referência para quem quiser saber um pouco mais sobre aquela histórica e mítica tour, a primeira (de grande porte) de um astro de rock pela América do Sul.

Falando nisso, rolou muita burocracia para achar o Pete Townshend? Como foi conversar com ele? Foi por telefone mesmo, ou teve que ser por e-mail? O Pete adora Internet e o mundo virtual. Manja tudo de comunicação via web, então marcar um bate-papo com ele no skype foi a maior moleza. Quem fez a entrevista foi um colaborador da poeira Zine, eu só fiz questão de acompanhar e curtir aqueles momentos agradáveis.

Engraçado que saiu uma entrevista com o Jards Macalé agora e ele, apesar de ter sido instigado com perguntas bacanas, não falou muito... Você, que tem entrevistado artistas internacionais, não acha que eles são menos cheios de dedos para falar das cagadas do passado? Sim, eu também tenho essa impressão. Os artistas nacionais são mais melindrosos e contam coisas em off - o que é meio sem sentido numa entrevista. Falam pra você: "Essa eu vou te contar, mas pelo amor de Deus, não publique!" Não que tenha sido assim com o Jards especificamente, acho que ele não falou muito pois foi uma coisa via e-mail e talvez ele não estivesse com saco de ficar digitando. Conheço-o pessoalmente e sei que ao vivo ele teria se empolgado mais. Já entrevistei artista brasileiro que na primeira pergunta soltou: "Tudo o que você quiser saber sobre mim está publicado na minha autobiografia". Vai se catar! hehehehe

Como é acumular funções na Poeira Zine? Você não fica maluco às vezes? A produção é uma loucura, pois faço tudo sozinho: o texto, a diagramação, contatos comerciais, distribuição, etc. Mas o feedback da galera Brasil afora compensa tudo. Chega a emocionar! É legal pacas! Sempre quis ter uma publicação de música então é aquele sonho que se torna realidade, mas tem que trabalhar muito pra esse sonho não virar pesadelo! Costumo brincar que se for tudo muito fácil deixa de ser rock. Atitude é fundamental nesse ramo, disso você pode ter certeza!!!

Ela pode ser encontrada em alguma banca? Ainda não, mas em breve isso deve acontecer. Ela por enquanto é vendida em lojas de discos e pelo site (link ali em cima)

Queria saber um pouco do teu método de pesquisa para a revista. Você tem muito material em casa? Aliás, o que você, que muitas vezes lida com dados complicados, acha da internet como fonte de pesquisa? Sim, tenho muita coisa em casa. Minha namorada e minha mãe já não agüentam mais meus LPS, livros, revistas velhas, etc. Minha maior base de pesquisa é essa, minha discoteca e biblioteca pessoal. Também uso as bibliotecas públicas, arquivos em microfilme dos principais jornais, etc. Agora a Internet é muito útil para quem sabe lidar com ela. O mais importante é saber sobre o que se está pesquisando, pelo menos ter uma encorpada base a respeito, daí fica fácil de sacar se a informação é picareta ou não.

Como você se arma financeiramente para soltar as edições? Dá pra arrumar muito problema financeiro fazendo uma revista dessas sem o apoio de grandes marcas? É meio loucura. A minha sorte é que a pZ sempre se pagou. Nunca tomei prejuízo com ela e uma publicação de música não tomar prejuízo num país com o Brasil já é uma grande vitória. A minha sorte é que a poeira Zine tem leitores muito fiéis, que vestem a camisa mesmo e fazem tudo pra dar uma força, seja sugerindo matérias, seja mandando um exemplar para um amigo, seja na divulgação boca-a-boca. Isso é o que mantém a publicação em alta no meio em que ela passeia.

E como é o contato com os leitores? Tem muito leitor com 50, 60 anos, lendo a revista? E o pessoal mais novo, descobre muitas bandas pela revista? Sim, digamos que esse público fica entre os 12 e os 60 anos. Muitos pedem para que a revista traga uma letra maior, pois já não enxergam letras miúdas. Por outro lado, tem uma garotada bem jovem que se diz extasiada por conhecer agora em 2007 uma banda lá dos anos 60, que não por acaso é a principal influência da banda que ele mais curte da atualidade.



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Comentários:


Comentário de: JW Email

o Bento é um herói! começou na coragem e faz algo muito legal. tenho algumas edições da PZ aqui, e lamento por não ter todas.

abs

PermalinkPermalink 21.03.07 @ 00:44



Comentário de: Astriba Email

A Poeira zine é excelente ...tenho todas e mais um cd da poira que o bento "produziu"com algumas pérolas.

PermalinkPermalink 25.03.07 @ 15:35



Comentário de: Alexandre Bernardes Email

O Bento é um cara visionário e está de
parabens pela bela publicação q vem pre-
encher um imenso vazio q existia num se-
tor q carecia de publicações sobre clas-
sic rock.

GRANDE BENTO!

PermalinkPermalink 10.06.07 @ 16:22



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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com

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