
"CANÇÕES DE AMOR E MORTE" - UNS & OUTROS (Performance Be)
Daria pra dar umas boas risadas só de ouvir falar deste Canções de amor e morte, novo disco do Uns & Outros. O disco tem uma puta cara conceitual (saca o título), tem uma música instrumental e uma pose um tanto pretensiosa para um grupo que passou os anos 80 sendo considerado uma imitação de Legião Urbana - coisa que os vocais de Marcelo Hayena em músicas como "Carta aos missionários" não desmentia. O disco novo, no entanto, saiu bem diferente disso. São 12 músicas - até mesmo o tal instrumental, que se chama "Para cada amor um adeus" - girando em torno de um amor que não é bem o dos contos de fadas. Falar em "surpresa" pode até soar exagerado, mas o grupo quase chega lá, unindo brit pop a sons folk em músicas como "Eu matei o amor", "Depois do temporal" e "O céu e o inferno". Tem até uma versão de "Dia branco", de Geraldo Azevedo - vale dizer que o grupo carioca deu uma boa modificada na música e fugiu do esquema viciado de vamos-misturar-rock-e-MPB, no qual qualquer grupo mais preguiçoso cairia.
Falar qualquer coisa sobre Legião Urbana numa hora dessas seria horrivelmente cruel, mas o fato é que a sombra do grupo brasiliense até paira sobre o disco novo do Uns & Outros - seja nas letras sofridas de algumas músicas, seja no tom folk e triste de "No seu lugar" que, opa, poderia ser uma música do Nenhum de Nós, banda colocada na mesma prateleira do U&O nos anos 80. De qualquer jeito, nada que coloque o grupo na gavetinha das bandas fúteis - da qual eles, até pela persistência, já fugiram faz tempo. Saiba mais sobre os caras em www.unseoutros.com.

"QUEM MENOS TEM É QUEM MAIS OFERECE" - A FILIAL (Dubas)
Você imaginava que o rap brasileiro poderia ter uma cara for export? Não, peraí, não falei em Bonde do Rolê, em funk carioca, nada disso. O lance aqui é rap mesmo, com rimas sinuosas, bom ritmo, esperteza nas letras e - que ótimo - belas melodias, sem muitos experimentalismos e com inspirações que poucos tentariam arriscar. A banda carioca A Filial insere o rap num contexto que tem mais a ver com Tom Jobim, Roberto Menescal e Banda Black Rio do que com tudo o que se possa associar ao gênero. Tem a ver com a modernidade dos "coletivos", por incluir um núcleo duro e montes de convidados que podem ou não aparecer no palco - o guitarrista Bruno Pederneiras, autor de boa parte das músicas, sequer é "oficial" da banda. E ainda tem a chancela do selo Dubas, alinhado com uma MPB que faz tilintar os cofrinhos de lojas como a carioca Modern Sound (e que deixa os colecionadores gringos de boca aberta, já que o selo relançou Moacir Santos, João Donato, etc).
Em Quem tem menos é quem mais oferece, o grupo lança uma perspectiva quase jobiniana, carioca ao extremo, do que é fazer rap - e sem o papo "malandragem, dá um tempo" que poderia colocá-los no complicado limbo de cover do Planet Hemp ou algo do tipo. As letras têm positividade, relatos da vida urbana e bons refrões, como o sambão-rap de "Brilha o sol" (com flautas e violinos, presentes aliás em quase todo o disco) e os tons funkeados de "A arte do final e tarde", "Gosto tanto", "Pra quem trabalha com amor" e "Vero versátil". E se alguém ainda duvidava da ousadia do grupo, ainda tem a orquestral "Linda" e a mântrica "PS", com vocais falados e melodia quase psicodélica, diferente de tudo o que já se fez de rap no Brasil. Para saber qual é a da banda e baixar as músicas do EP A Filial, de 2002 (que em breve deve ser lançado lá fora) vá em www.afilial.com.br
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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com