O texto abaixo saiu na última fase do DB há algumas semanas, quando começou a pipocar na mídia aquele papo do Roberto Carlos mandar recolher o livro do Paulo César Araújo, Roberto Carlos em Detalhes. Agora que esse papo volta a fazer sentido, resolvi voltar com o post.
Quem quiser ler logo o post original que estava no meu blog, ele está aqui. Tem uns comentários bem engraçados dos leitores, inclusive de um sujeito que se diz o próprio RC e outro da... Fafy Siqueira??

"ROBERTO CARLOS EM DETALHES" - PAULO CÉSAR DE ARAÚJO (Planeta)
A essas alturas, Roberto Carlos em Detalhes já deve ter virado um best-seller tão grande quanto os próprios discos do Rei (sim, virou, já vendeu 60 mil livros - marca fodona pra um país que não lê nada)- pelo menos os dos bons tempos, já que os mais recentes, em sua maioria, vendem mais pela fama e pelo nome do Rei do que por qualquer coisa. Só pra você ver, o livro do jornalista e historiador Paulo César de Araújo é a melhor coisa com o nome de Roberto Carlos a aparecer nas lojas nos últimos tempos. E nem por isso deve servir para dar um refresco na carreira do Rei, que já ameaçou o autor de processo (mas não conseguiu nada, ao que parece) e provavelmente vai seguir fazendo as coisas da mesma forma.
Ainda que o livro tenha servido para mostrar qual é o verdadeiro papel de Roberto na MPB, ainda que Paulo César tenha conseguido fazer um livro sobre a história da música brasileira tomando Roberto como um grande fio condutor, ainda que ele tenha arregimentado um verdadeiro exército de grandes nomes para falar do Rei (tem até Dorival Caymmi!), o que importa para RC é seguir na mesma linha idiota e corporativa que rege quase 100% do ramo da música no Brasil. Aqui, com raras exceções, biografar artistas, só se for pra transformar o cara num deus-astronauta. Ninguém é inimigo de ninguém, ninguém comeu ninguém (mesmo A vida até parece uma festa, dos Titâs, não explica certas fofocas que rondavam a banda nos anos 80), ninguém prejudicou ninguém, etc. E como eu sigo a teoria de que pessoas famosas não têm direito à vida particular (quem quer ter privacidade que vá ser escriturário ou contador), só me resta considerar Roberto Carlos em detalhes um dos livros mais corajosos e ricamente apurados da história da música brasileira.
Agora que Roberto deve dar uma entrevista dizendo quais foram as partes do livro que fizeram com que ele se sentisse prejudicado (ele já falou disso, afinal? disseram que ele não gostou da parte que fala sobre Maria Rita) talvez dê pra entender alguma coisa - mas já que o Rei disse que sua vida é seu "patrimônio", dá pra entender muita coisa. Seja como for, Roberto Carlos em detalhes é um puta livro e merece respeito pela trabalheira que deu e pela fluência de sua leitura. É um caso raro de livro MUITO grande - em extensão e peso - que não cansa. A história do livro começa lá na infância de Paulo César - que já era fã de RC desde a infância, quando morava em Vitória da Conquista, na Bahia - e segue pela extensa pesquisa que ele fez, consultando jornais brasileiros e estrangeiros, correndo atrás de fotos raras e buscando declarações de raridade inestimável. Tim Maia aparece falando sobre como foi, digamos, passado para trás por Roberto na época de sua primeira banda; Ronaldo Bôscoli fala sobre como as manias de Roberto zicaram sua primeira e única parceria com ele, em 1980 ("Procura-se", música pouco conhecida do LP que tem "A guerra dos meninos"), etc.
Surgem aqui e ali declarações do próprio Roberto, pinçadas sabe-se lá de onde - Paulo Cesar diz que Roberto nunca lhe deu uma entrevista, mas na própria abertura do livro diz que ele andou frequentando algumas coletivas e que chegou a ir na casa do Rei, na aba do jornalista Lula Branco Martins. Aliás, as peripécias de Paulo César atrás da equipe do Rei devem ter sido um dos detalhes (opa) que mais irritaram Roberto, que não mexe em seu próprio time faz séculos. Ainda que, em vários momentos, sua equipe sirva até mesmo para alimentar suas próprias manias de uma forma que talvez lhe seja bem mais prejudicial do que ele imagina - o livro chega a citar aquela fábula sobre o pedreiro que chegou para trabalhar de calça marrom na casa do Rei e foi barrado na porta pela equipe (como não deve haver muitos pedreiros morando na Urca, imagine o cara voltando pra Nova Iguaçu puto da vida).
Seja lá o que for que aconteça com Roberto Carlos em Detalhes, o que importa é que o livro já é tão histórico quanto os melhores discos do Rei. A decisão da editora de manter o livro em catálogo - foi um dos primeiros projetos negociados por eles, em boca de siri total - já mostra, para quem ainda não leu o livro (tá, o preço - 60 paus - não ajuda muito...) que o trabalho realizado é sério, bem sério. Roberto, que não é um cara lá muito chegado em leitura (talvez por isso ele nem tenha vindo à público para falar detalhadamente sobre o que deixou ele tão puto assim no livro), pode até nem fazer idéia disso, mas seu "patrimônio" está em muito boas mãos.
Aliás, só ficaram duas coisas sem explicação no livro:
1) Onde foram parar Bruno Pascoal e Gato, respectivamente ex-baixista e ex-guitarrista da primeira banda de RC? No livro diz o que aconteceu na época em que eles saíram da banda, mas onde estão eles hoje?
2) Porque é que Paulo César Araújo não convidou Raul de Souza para dar depoimento no livro? Raul, hoje morando na França (ele visou recentemente o Brasil e até concedeu uma longa e ótima entrevista para o site Gafieiras), foi membro do naipe de metais do Rei por um bom tempo. Para ele meter o pau em Roberto é um palito e para contar casos escabrosos da época, é outro. A história de quando ele pulou em cima do Rei chamando-o de "crooner do RC7" e ameaçando arrancar sua perna mecânica - ele estava puto da vida com alguns pagamentos atrasados - é de chorar de rir (saiu numa entrevista dada à revista Vip, há alguns anos).
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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com