
Vendo o filme "Control" e, principalmente, lendo o livro "Touching From a Distance" (escrito pela viúva Deborah Curtis), não é difícil perceber que a depressão de Ian Curtis, vocalista do bom e velho Joy Division, vinha de longa data. Independentemente da epilepsia. Impressionante o quanto o sistema de saúde do interior da Inglaterra naqueles meados da década de setenta me pareceu uma bela bosta. Porque qualquer psiquiatra de botequim (de pub da esquina, no caso) seria capaz de fazer esse diagnóstico.
É claro que falar agora, depois do acontecido, parece muito fácil. Você ouve "New Dawn Fades" com o Galvão Bueno berrando "eu já sabia" por cima da música.
Mas dá uma baita sensação de desperdício. Serotonina, menina, tem vitamina! Umas doses de fluoxetina, um toque de paroxetina, umas gotas de fluvoxamina e voilà! Ian Curtis poderia ainda estar entre nós. É claro que, sem aquela angústia toda, o Joy Division provavelmente ia acabar, mas isso já é outra história - seria o equivalente ao Almodóvar fazer terapia, ou ao Tim Burton ter sido escolhido o quarterback do time de futebol americano do colégio. O fim de toda uma obra atormentada.
O filme é bem bom, fotografia linda. Mas é filme pra fã. E tem todo aquele lance do spoiler, tipo.. não fala que eu te contei, mas ele morre no final. Shhhh.

Esse assunto todo me lembrou uma historinha rápida.
Lilaise tinha acabado de me dar um cd do Interpol. Num dos lendários churrascos do falecido Suburbia Tales, lá vem ela toda saltitante na minha frente perguntando da música que tava tocando!, a música que tava tocando! Eu prestei atenção por alguns segundos e arrisquei "...Joy Division?". Não. Era Interpol, é claro. Eu era oficialmente um dinossauro.
Algum tempo depois.. bom, melhor explicar primeiro que eu vejo qualquer porcaria adolescente na tv. Então, algum tempo depois, num episódio do seriado "Life As We Know It", o protagonista dá umas porradas num moleque na escola e vai parar no psicólogo. No psicológo anão. O psicólogo anão era daqueles moderninhos, então eles ficam ouvindo música e jogando bola. O garoto, é claro, estava ouvindo Interpol. Sabendo disso, o terapeuta pega o seu próprio iPod e troca com o cara, "Interpol? Toma, ouve o original: Joy Division". Ferrou-se. Minha referência era o adulto da cena. Vocês tão acompanhando? Eu era oficialmente um dinossauro que se identificava com o psicólogo anão.
Tá, eu menti quando disse que a historinha era rápida.

Pra terminar, alguns links legais:
Documentário curtinho sobre o Joy Division em duas partes (uma e outra). Sim, é em inglês. Não, não tem legendas. Sorry.
New Order da pré-história tocando "Everything's Gone Green" e "Ceremony" em Nova York. Em 1981, eles ainda eram muito mais Joy Division do que New Order, se é que vocês me entendem.
"New Dawn Fades", "Shadowplay" e "Days of the Lords" ao vivo, trechos retirados do vídeo "Here Are The Young Men".
A Deborah Curtis não se suicidou no frescor dos seus 23 anos. Então ela cresceu e ficou assim.
Nenhum acorde de "Love Will Tear Us Apart" foi ferido por uma banda emo adolescente durante a execução desse post.
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