Maria Mariana, seus quatro filhos e um mercado
Ela fez a cabeça de muitos adolescentes nos anos 90 com o livro e a série “Confissões de adolescente”. Depois casou, mudou e não nos convidou. Teve quatro filhos e agora está voltando para barbarizar a cabeça da mulherada. Maria Mariana, escritora, filha do cineasta Domingos de Oliveira, está lançando um livro que promete causar: “Confissões de uma mãe”.
Em entrevista recente para a revista Época, ela diz que apanhar cueca suja que o marido deixa no chão é um aprendizado de paciência e dedicação. Mulheres que não conseguem ter seus filhos através de parto natural têm problemas de ego e amamentar é para as mães que merecem.
Antes que você, mulher moderna e batalhadora, caia da cadeira giratória, e você, homem que não coaduna com a luta feminina, festeje a volta da Amélia, vejamos outro enfoque que Maria Mariana dá à maternidade.
“A verdade é que eu só descobri o que é trabalhar depois de ser mãe! Ser mãe é um trabalho social, o maior deles. É um esforço para garantir a criação de indivíduos de valor, mentalmente sadios, que contribuam para o bem geral. Pessoas equilibradas, educadas, que consigam se manter. Quando pequeno, o filho precisa de atenção especial e exclusiva. É nesse período que se forma a base do que ele será, o caráter, os valores. Depois, é difícil consertar.”
A meu ver, está aqui o x do discurso dela, muito sintonizado com o momento histórico e social em que vivemos. Numa outra entrevista para o Via Filhos ela completa:
“Quando escrevi (o livro) não tinha essa intenção de criar polêmica. Não acho que seja culpa das mulheres, mas sim da sociedade, que está impondo uma forma mais materialista e competitiva de viver. Isso vai totalmente ao desencontro da maternidade.”
Se houve intenção de polemizar ou não, se a Época foi sensacionalista ao destacar a frase dela no titulo, “Deus quer o homem no leme”, o que me importa é a discussão altamente relevante, e muito desconfortável para as mulheres, que ela levanta.
Dentro da minha experiência como mãe e profissional, posso garantir que conciliar maternidade e outro trabalho é praticamente inviável nessa estrutura de mercado vigente nas grandes cidades, com jornada de 14 horas. E a gente acaba tendo, sim, que priorizar uma coisa ou outra. Senão a gente não faz bem nenhuma das duas.
Eu pago um preço alto, profissionalmente falando, aqui em São Paulo, por ter priorizado a maternidade nos primeiros anos de vida das minhas filhas (vivendo em cidades menores, onde o mercado é menos competitivo e os horários mais flexíveis). Mas não me arrependo. Porque, na minha opinião (que combina nesse ponto com a da Mariana), não existe investimento que valha mais a pena do que filho. É o que dá mais retorno a curto e a longo prazo.
Não estou defendendo aqui que tenhamos que catar a cueca do marido. Aliás, nem as cuecas e calcinhas das crianças. Porque são elas que devem cuidar dos seus pertences e não bagunçar o coreto.
Nem tão pouco acho que mulher tem que parar de trabalhar. Mas diminuir o ritmo, se quiser realmente fazer o servição que é a educação dos filhos.
Se essa diminuição de ritmo a torna não-competitiva para o mercado, então o problema está no mercado. O problema é social. Não individual. Vamos tirar a mãe da berlinda e colocar o nosso sistema de vida capitalista e desumano no centro da questão.
Mulheres injuriadas que blasfemam contra Maria Mariana na internet, não vamos nos acusar nem julgar umas às outras, vamos nos concentrar no inimigo em comum. Inclusive do homem, que também é uma vítima desse estilo de vida esquizofrênico. Ele, com certeza, também gostaria de realizar sua paternidade estando mais presente na vida dos seus filhos.
Reengenharia do tempo poderia ser a saída. Menos horas de trabalho e mais horas para a vida. Menos competição e mais colaboração. Utopia?
Neste contexto, outra coisa que me deixa a refletir é a questão dos papéis de cada gênero. Se antes eu achava que éramos iguais, homens e mulheres, em tudo e o tempo todo, anos de maternidade me mostraram que ter alguém “no leme” enquanto parimos, amamentamos e cuidamos das crias pequenas é importante sim. Nos dá segurança para fazer nosso trampo (de magnitude social e não reconhecido nem remunerado).
E acho que isso não é machismo. É divisão de tarefas, numa sociedade em que é necessário pagar as contas.
Não precisa ser assim a vida inteira. Mas numa fase em que as crianças são bem pequenas. Não precisamos parar de estudar nem de ter uma profissão por causa disso. Não é um retrocesso. Pelo contrário. É um avanço humanista.
Enquanto isso, os homens podem nos ajudar a trocar fraldas aos domingos, feriados e depois do horário comercial. Porque no trabalho com as crianças todos os dias são úteis e o horário é fulltime.
Não acredito em “Deus quer que o leme fique nas mãos do homem”. Simplesmente porque não acredito em Deus nem em predestinação. Então o leme pode ficar temporariamente na mão de um ou de outro ou dos dois, ao longo do tempo.
Quanto à cesariana e à amamentação, penso que Maria Mariana quis apenas ser emblemática e acabou metendo o pé na jaca. Não é novidade que o parto natural e a amamentação são melhores para mãe, filho e até para o governo.
Mas se por uma razão ou outra (muitas vezes pressão médica) a mãe não conseguiu, paciência. Isso não vai ser determinante para uma melhor ou pior maternidade. O que define a relação com os filhos é um complexo de coisas. Começar parindo e amamentando, ajuda bastante. Mas não define. Se fosse assim, mães adotivas não seriam boas mães.
Então vamos nos concentrar na mudança do entorno. Dessa forma, homens e mulheres podem ser mais pais e mais mães. O parto fica mais fácil, o leite flui e as contas são pagas.
Trackback:
http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/35021 Posts similares:
Quero ser "apenas" uma mãe
MARIA MARIANA, TUITEIRAS NERVOSINHAS E OUTROS LIVROS OFENSIVOS À MATERNIDADE
Não. Eu não sou fodona
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Comentários, Trackbacks:
realmente não consigo imaginar como as pessoas criam filhos trabalhando 30 horas por dia. acaba ficando tudo com a babá, com a escola, com terceiros. uma pena.
acho que essa, hoje "utopia", será algo mais buscado amanhã. tomrara!
belo texto.
bjs
R: Eu acho que a gente já está em um momento em que as pessoas começam a se questionar. Tá acabando aquele orgulho workaholic dos anos 80. A nova geração dos sem-limites, carentes e perdidos está mostrando o preço que a gente paga com esse esquema.
fui escrever, mas é tanta coisa, vou te mandar um email. beeijo
Sei que o mercado sobreviverá sem mim.
Eu troquei muita fralda de 2a à 2a feira...
R: Mas, Fábio, no seu caso, não é sua mulher que trabalha fora enquanto vc trabalha em casa?
R: Ótimo seu depoimento, Carina! Só que a gente tem que lembrar para os leitores que vc mora em Londrina. Cidade que tem um ritmo bem mais tranquilo que São Paulo. E o sindicato dos jornalistas aí é forte. Impôs as cinco horas diárias que são perfeitas para quem quer criar filhos.
Sobre o leme acho que nossas vidas têm muitos, cada um toca o seu no momento e quando precisar mudam.
acho que o grande salto da discussão é perceber que não se trata só de um questão pessoal (ou do casal) é social.
Eu e minha companheira somos professores, é mais tranquilo conciliar jornadas de trabalho para educar nossas filhas, mas tem um momento que a mãe impacta mais na criação do que o pai...
E, uma impressão que tenho (subjetiva, não tenho estatísticas), é que a garotada em que a mãe e pai (nesta ordem) está/esteve ausente, costuma dar mais "problema" na escola e na vida :-)
Tudo bem que a Escola produzirá "problema" em qualquer pessoa mais crítica, mas isto já é outro papo :-)
abs
Mas vale a opinião da menina, que aliás já não é mais uma menina...eu é que tô coroa, com pensamentos nem tão conservadores (sou casada há 25 anos, não tenho empregada e nunca catei cueca!) mas estou definitivamente coroa!!
Concordo plenamente com seu post, mas o que me incomoda profundamente é a maneira como Maria Mariana deu declarações, como ela diz não julgar ninguém e ao mesmo tempo julga.
A questão da discussão está essencialmente no que você citou, a maneira como o trabalho e a dedicação a ele são vistos hoje. Eu não tenho filhos, mas sempre que algum colega de trabalho precisa resolver problemas com os filhos estamos aí para segurar o rojão. convênios com creches, horários flexíveis, isso tudo deveria ser direito das pessoas, justamente para criarem bem seus filhos.
E ter um homem que a apóie no momento em que se decide parar de trabalhar para ter filhos é ótimo, justamente pelo que você disse, divisão de tarefas. Da maneira como MM falou, parecia que o homem servia para o leme e a mulher apenas para parir. é uma pena que em nossa sociedade não se busque mais a igualdade nos papéis. Aposto que você continuou tendo voz em decisões da casa, não há um leme, há duas pessoas convivendo e construindo uma família.
Tanto que nenhuma das pessoas que li os post condena o fato de ela ter se tornado apenas mãe, mas sim a idéia de que este seja o único caminho para a plena realização feminina.
a Rolling Stone deste mes traz o FHC - nao se pode falar nao a Gilmar Mendes.
fui na entrevista, seco por revela;oes bombasticas. ele se referia a um convite para uma palestra em Brasilia. broxei.
A Elza atravessa a rua para trabalhar. Por outro lado, eu passei os dois últimos dias na rua em clientes.
Ou seja, na prática, os dois tem dupla jornada como profissionais e pai/mãe.
Eu sou filho dessa divisão (pai trabalha em emprego, mãe trabalha em casa), mas nunca me deixei cair na mesma armadilha.
Aqui vai sugestao praquela tuitagem, cabendo nos terriveis 140:
RT denisearcoverde Para pesquisadores, pais de meninos ficam conservadores e pais de meninas, mais progressistas http://bit.ly/8jV0M
Beijocas!
É isso, mais uma vez acho que não consegui me expressar direito por falta de talendo pra coisa mesmo, mas acho que deu pra entender minhas ideias...
Beijos
Deus te abençoe
Amanda
Deus te abençoe
Amanda
Sim, concordo que houve sensacionalismo por parte da imprensa, mas no blog a autora não se expressa tão bem assim ao se "explicar". Há vários conceitos (e pré-conceitos) completamente errados ali. Se é questão de fé, se é opção pessoal, não questiono: cada um faz seu caminho. Mas quem lida com a mídia deve ter cuidado com o que diz, ainda mais em um país como o nosso. Já temos machismo e homofobia demais, não precisamos de mais alguém pra defendê-los, mesmo que não o faça intencionalmente.
Concordo com a sua posição de diminuir a jornada de trabalho, mesmo pra quem não tem filhos. Questão de qualidade de vida, é bom pra todo mundo. E também acho válido ter um companheiro (ou uma companheira - por que não?) que assuma tarefas para aliviar o trabalho da mãe (ou do pai), pra "dividir o leme". Isso não significa que a minha função será cuidar da casa, e a do meu marido, sustentar a família: como você mesma colocou, existem inúmeras variáveis.
Enfim, o estilo de vida atual precisa mudar, urgente. Mas, desculpe, declarações como as de Maria Mariana não colaboram para isso, só reforçam velhas idéias e preconceitos, sem trazer propostas novas. Já o seu texto faz outra abordagem, que eu considero muito mais frutífera. Tomara que tenha a mesma repercussão que o livro dela.
(Engraçado a Amanda vir aqui falar em ofensas... se não me engano, ela mesma se referiu às meninas que discordaram da MM como "mal-amadas" lá no blog)
De início, também achei um absurdo as declarações da Maria Mariana (e algumas ainda acho), mas realmente é um assunto importante pensar na relação maternidade X mercado de trabalho. O ideal realmente seria a mãe poder se dedicar mais aos filhos nos seus primeiros anos de vida. Mas isso também levanta a questão: todas as mulheres querem isso? Conheço mulheres que acham que estão perdendo o seu tempo quando "apenas" o que fazem é cuidar dos filhos pequenos. Obviamente, não concordo com elas.
E na minha opinião,pra que vc seja uma boa mãe e transmitir a eles segurança,é necessário vc estar bem consigo mesma,seja trabalhando ou não...é o conteúdo e não a disponibilidade de tempo que vc dedica a eles que vão determinar uma boa educação ou não.
Uma mulher pode ser Amélia e moderna ao mesmo tempo,pq no fundo é o que somos,só que algumas querem fazer uma separação absurda,
é aí que entra uma discusão que pra mim não leva a nada.
Amei seu cantinho...estarei sempre te visitando....já está nos meus favoritos.
Bjus
não consigo te mandar recado pelo orkut e vc não conseue clicar o meu blog!!!
Que desencontroOO!!!
Escreve só onlycristin pra vê se dá.
bju
não consigo te mandar recado pelo orkut e vc não conseue clicar o meu blog!!!
Que desencontroOO!!!
Escreve só onlycristin pra vê se dá.
bju
Mudando o assunto para outro livro... comprei o "por que heloísa?"! Adorei! Coloquei o link no meu último post e também no blog!
Beijocas e bom feriado!
E, se é para deixar criança sendo criada por babá ou pela avó, é melhor nem pôr no mundo.
Beijo,
Pablo
http://cadeorevisor.wordpress.com
O seu cantinho tá mto lindo...parabéns...eu amei!
"A felicidade é como uma borboleta.
Quanto mais você a persegue, mais ela lhe escapa.
Mas se você volta sua atenção para outras coisas,
ela vem e, suavemente, pousa no seu ombro"
...um fim de semana ótimo pra vc...
Beijinhus
Magiagifs(Li)
Recebi o link do teu post no tuiter, depois de divulgar um post detonando a Maria Mariana.
Concordo com ela sobre a importância da maternidade e tal, mas, nem o milagre que é ser mãe dá à moça o direito de falar tanta bobagem.
Mas gostei de ler o teu ponto de vista.
Decididamente, muito mais equilibrado.
Este post tem 1 comentário aguardando aprovação...
Deixe seu comentário:
Post anterior: Arranjando marido, desarranjando amigasPróximo post: Se eu fosse homem, invejaria as mulheres




