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Cristiana é redatora e escritora, carioca, mora em Sampa. Mãe da Luísa e da Lorena, apaixonada por comunicação e internet. Autora do livro "Por que Heloísa?", Companhia das Letrinhas.

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Feminismo com maracujá

Mastigando sementes de maracujá e refletindo sobre minha condição de mulher: se o feminismo está fora de moda, por que eu tenho que falar para minha filha tomar cuidado no caminho da escola? Não é das mulheres que a estou querendo proteger.

Chamar uma mulher de feminista hoje em dia é o mesmo que xingá-la. Eu mesma até pouco tempo atrás rejeitava o rótulo. Mas por que foi necessário o presidente de um dos países mais poderosos do mundo assinar uma lei que igualasse os salários entre homens e mulheres, agora em 2009?

No primeiro mês que trabalhei em determinada agência de propaganda, deixei as crianças na cidade em que morava antes porque queria preparar tudo direitinho para levá-las com calma.

Durante esse período, eu saía do trabalho e ia beber umas cervejinhas com os homens da equipe de criação (só havia eu de mulher). Tudo ia de vento em popa até que minhas filhas se mudaram e voltei à rotina de sair do trabalho e ir para casa. Dar atenção a elas. Colocá-las para dormir etc.

Repentinamente, passei a ser tratada de forma diferenciada pelos meus colegas de trabalho. E, aos poucos, percebi que estava ganhando um status de café-com-leite. Lembro-me de uma reunião de brainstorm em que meu chefe sequer olhava para mim e tampouco ouvia minhas idéias.

No primeiro corte de pessoal, adivinha quem foi mandada embora? Dei graças a deus por sair daquele antro machista e me desvencilhar de um chefe misógino.

Mas para onde eu me viro continuo testemunhando atitudes que ainda colocam a mulher em situações delicadas, para não dizer humilhantes.

Já vivi literalmente na pele uma situação dessas. Fui assediada por um médico ginecologista durante um exame. E, pasmem, o meu ex-marido estava presente. Foi tudo muito "sutil". Só eu senti.

Ao sairmos do consultório, para provar a mim mesma que eu não estava maluca, tamanho estado de choque em que me encontrava, perguntei ao meu ex-marido se ele havia percebido algo de estranho. Ele me respondeu de bate-pronto que sim, observara que em uma determinada hora lá o tom de voz do médico dera uma alterada.

O filho da puta de branco narrava o que estava fazendo durante o exame, enquanto meu ex-marido estava posicionado atrás de mim, de onde não podia ver a cena do crime.

É claro que o meliante não narrou os detalhes da manobra que me estuprou a alma. Eu nem sei como explicar o que senti. Uma humilhação inigualável. Nada do que eu vier a escrever aqui estará à baixeza desse sentimento.

Foi tudo tão rápido e maior do que eu, que não tive reação no momento. Nenhuma mulher está preparada para reagir a tamanho abuso numa circunstância dessas.

Aí vem o formador de opinião me dizer que feminismo é coisa dos anos 60/70. Que já estamos no poder. Que poder, mané?

Por falar em poder, talvez esta seja a grande questão feminista atual: não queremos poder. Não esse poder do homem branco, competitivo, destrutivo, desumano.

Queremos viver num mundo onde não haja esse poder opressor. Queremos direitos e não poder. Queremos respeito e não poder.

Mas nenhuma atitude monstruosa machista vai bulir no meu orgulho de ser mulher. Pelo contrário. Quanto mais eu vivo, mais esse orgulho aumenta. Concluo, abocanhando meu último pedaço de torta de maracujá feita pela minha filha.


Permalink25.03.09, 16:04:27, by Cristiana Soares Email , Comportamento 14 comentários


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Comentários, Trackbacks:


Comentário de: Conceição Oliveira · http://www.mariafro.wordpress.com

Ei bonitinha, na veia!
Este maracujá é poderoso.
beijo nas duas!

PermalinkPermalink 25.03.09 @ 17:13



Comentário de: Cassiano · http://museudocinema.blogspot.com

Concordo que temos muito ainda para caminhar e chegarmos um dia aos direitos iguais, mulheres, negros, homossexuais.

Mas as vezes é necessário mesmo essa sacudida que seu texto nos dá.

É engraçado essa coisa do feminismo, afinal todos nós somos filhos da mãe, as vezes nem sabemos o pai, e fomos educados por elas, portanto o "chefe misógino", os colegas de trabalho machistas e o filho da puta de branco tiveram uma mulher lhes ensinando a vida, e principalmente as relações humanas, por mais que pensemos que essas pessoas selvagens sofreram influência do lado paterno, é sempre o lado materno quem nos chama a razão, principalmente em nós homens.

PermalinkPermalink 25.03.09 @ 17:13



Comentário de: danilo · http://blog.imaginariamente.com

acho bem complicada essa situação. no dia da mulher vi algumas manifestações de algumas mulheres, que me deixaram assustado. elas diziam que, por causa das feministas, elas acabavam sozinhas. é muita inversão de valor. gostei da parte em que vc diz que as mulheres não querem este poder, porque me incomoda muito quando esse assunte descamba pra uma competição homem/mulher, o que não trás nada de bom. mais humanidade pra todos, é o que mais desejo.

PermalinkPermalink 25.03.09 @ 17:26



Comentário de: Flavita · http://flavitavalsani.wordpress.com/

Olha, ao longo do tempo feminismo se tornou sinônimo de chata, feia,mal comida, mal amada etc. Isso quando não associam com orientação sexual, como se ser lésbica fosse sinônimo de odiar homens (portanto feminista). Ridículo.

Eu sempre tive cara de "meiga", mas quem convive comigo sabe que estou mais pra Jason, em sexta-feira 13. Eu costumo dizer que eu não sou brava, sou assertiva, direta, na lata. Mas pra mulher isso é pecado. Se estivéssemos na época da Inquisição já estaria na fogueira faz tempo.

Eu sou feminista e adoro os homens. Mas não é por isso que vou dizer que temos direitos iguais, que tudo mudou e não precisamos mais pensar nisso. Aliás, tenho sentido que nos últimos anos houve um retrocesso imenso. Ainda se paga melhor uma mulher que mostra a bunda do que aquela que estuda física nuclear. Fico impressionada com a quantidade de garotas que tem como meta ser a capa da Playboy. Dá mais dinheiro, status e futuro profissional do que ser professora. Ok, existem várias outras questões envolvidas aqui, mas não vou fazer tese no comentário. Divago...

Enfim, tudo que eu quero dizer é que estamos no mesmo barco. =*

PermalinkPermalink 25.03.09 @ 17:37



Comentário de: @anarina

não suporto mais o uso errôneo da palavra feminismo. (é um comentário sobre o conteúdo do seu texto, não sobre o seu texto, claro.)

seu texto está muito equilibrado, by the way. o meu favorito do blog =)


PermalinkPermalink 25.03.09 @ 18:08



Comentário de: carina

Cris, gostei muito do seu texto. Que bom que vamos nos ver para conversarmos ao vivo. beijos, querida!

PermalinkPermalink 25.03.09 @ 22:31



Comentário de: Márcia · http://www.maricotamg.blogspot.com

Cara Cris,

não sei porque nunca tive coragem de deixar um comentário aqui no seu blog. Gosto muito do que você escreve. Até já indiquei para outras amigas. Agora, com a sua iniciativa, fiquei mais à vontade para escrever também.

Que história! Haja maracujá para manter a paz, a calma, o equilíbrio e a dignidade. Mas, como você, tenho cada dia mais orgulho de ser mulher e mãe.

Abs


PermalinkPermalink 26.03.09 @ 11:22



Comentário de: stephanie

a definicao de "feminista" é uma pessoa que quer direitos iguais. mas o termo hoje em dia mais parece ser o oposto de "machista", ou seja, uma mulher que quer estar acima dos homens. tem uma camiseta que eu vi por ai que fala "this is what a feminist looks like" que mostra que qualquer um (homem, mulher, cachorro, bebe) pode ser um\uma feminista!! vamos nos lembrar disso!

PermalinkPermalink 26.03.09 @ 18:54



Comentário de: Sérgio F. Lima · http://sergioflima.pro.br/blogs

Acho que seu texto anterior intimidou seus leitores homens ou então não temos muito mesmo o que falar sobre a ideia de feminismo...

Eu penso que temos que entender que somos diferentes! E é esta diferença (homens e mulheres) que nos atraem e que faz o mundo mellhor.

Diferença não significa superioridade no todo, embora aqui e ali elas possam ser melhores em alguns pontos e piores em outros :-)

Sim, [piada]porque mulher não entende de futebol[/piada]!

abs

PermalinkPermalink 28.03.09 @ 04:07



Comentário de: Emerson Luis · http://www.nasretinas.com.br

Seu texto é forte como os seus olhos. Beijos.

PermalinkPermalink 01.04.09 @ 00:54



Comentário de: Leticia BTK · http://educacaocondutiva.blogspot.com/

Ei Cristiana, casa nova! Parabéns blogueira, cada vez mais profissional. SORTE!

Adoro seus textos profundos falando do ser, do prazer, do estremecer...

Te citei no Prêmio Grandes Atitudes com o Porquê Heloísa.

http://educacaocondutiva.blogspot.com/2009/04/grandes-atitudes.html

Estou em SP para a feira, quem sabe nos vemos?

Um super beijo com amor,
Leticia


PermalinkPermalink 01.04.09 @ 10:10



Comentário de: Adília · http://sexismoemisoginia.blogspot.com

Gostei do seu texto, mas... Você diz que não quer poder que não quer competir, etc, e há aí um camarada que concordou logo consigo. Mas repare e pense um pouco, sem poder não há direitos, os direitos conquistam-se e para os conquistar é preciso pôr a mão na massa, às vezes é mesmo preciso sujar as mãos, veja o exemplo das sufragistas que na época até presas foram por acções menos ortodoxas, mas muito do que temos hoje lhes devemos e ainda estamos longe de viver no lugar que por justiça meremos.

PermalinkPermalink 05.04.09 @ 11:21



Comentário de: Gianna

Os homens nascem e são criados pelas mulheres, que os conduzem e os ensinam a serem homens. Os futuros homens estão nas mão das mulheres e o futuro da hiumanidade também. Aliás sempre esteve.

PermalinkPermalink 13.04.09 @ 12:51



Comentário de: Vanessa Aguiar · http://www.desbancandobalzac.blogspot.com

Belo texto, Cris. Que situação! É impressionante como ainda vivemos situações para lá de humilhantes.
E gostei de ver alguns comentários sobre a responsabilidade que nós, mães de meninos, temos na criação desses que serão os novos homens. Falamos sobre isso no nosso último post.

Agradecemos pelo link! ; ) Beijo grande.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 17:14



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