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Cristiana é redatora e escritora, carioca, mora em Sampa. Mãe da Luísa e da Lorena, apaixonada por comunicação e internet. Autora do livro "Por que Heloísa?", Companhia das Letrinhas.

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Nascida no k11


K11 fica no quinto dos infernos. É um bairro. Foi lá que nasci. A rua onde passei minha infância tem o nome do meu bisavô: Capitão Edmundo Soares. Desbravador de uma cidade, no tempo em que era repleta de laranjais: Nova Iguaçu. Só depois da década de setenta, começou a receber os migrantes que vinham do nordeste em busca de oportunidades na cidade do Rio de Janeiro, a 100 km. Então Nova Iguaçu saiu do status de cidade promissora e passou ao de cidade dormitório.

Para uma criança, um bairro tranqüilo onde se podia andar livremente pelas ruas e ir à padaria apenas de shorts ou calcinha. Sim, isso um dia foi possível. Só de pensar agora, minha pele de mãe se arrepia. Por onde andariam os pedófilos de plantão?

Por causa do cabelo a la joãozinho, os balconistas da "Flor do k11" gostavam de me provocar perguntando se eu era menina ou menino. E eu criançamente ainda os respondia. Mas o chiclete com anel, o doce de abóbora exageradamente cristalizado e os suspiros esfarelentos recompensavam o desconforto de ter minha feminilidade colocada em dúvida.

Apesar de dois irmãos, primas e amiguinhas, sempre que me lembro dessa fase bicho-solto, estava sozinha. Brincando de casinha, de mamãe e filhinha, subindo em árvores, andando perigosamente em cima do muro, cavando o quintal para encontrar minhocas intra e extraterrestres.

Quando a cidade começou a ganhar fama de perigosa, eu me valia disso para folclorizá-la ainda mais. Dizia que para sair de casa tinha que pular um riacho de sangue. Porém, só presenciei uma violência de fato, no ônibus de volta da escola: um bandido assassinar outro com uma bala chamada dum-dum.

No mais, a infância foi perfeita e tanta liberdade ajudou a construir um traço da minha personalidade que na análise eu chamo de "selvagem". Aquela que não se subjuga pela força. Nem sob ameaça de corte de suprimentos de sobrevivência.

Havia os morros ao redor. Subi-los era uma excitante aventura. E fazia isso sozinha também. O meu limite era a casa da costureira que ficava bem no pico. E lá conheci o cheiro da miséria.

À noite eu ouvia o batuque da macumba que vinha do alto. Era sinistro, assustador e misterioso. Era muito bom o frio na barriga. Criança gosta de sentir medo. Ainda mais uma que se aterrorizava no escuro e via "coisas" ao redor da cama, antes de dormir. Fui obrigada a deixar esse medo de escanteio quando me tornei mãe. Mãe não pode sentir medo.

Das vezes em que me lembro de estar acompanhada ou era de uma prima chantagista e competitiva, mas a quem amava, ou do meu irmão do meio que me ensinou o amor igualitário. Ele me levava para o cerne da molecada. Só eu de menina. Foi assim que aprendi a ter amigos homens e a ser respeitada por eles.

As outras meninas do bairro ficavam presas atrás das grades das suas casas moralistas. Minha mãe não tinha tempo de me reprimir muito porque trabalhava fora.

O primeiro amor aconteceu no k11. Eu o vi em cima da sua bicicleta, resgatando seu cachorro, e me apaixonei. Era filho de portugueses e um mocinho adorável. Meu primeiro beijo. Viramos camaradas. Mais tarde o apresentei para uma amiga e acabaram se casando ainda jovens.

Chegou a fase em que tudo me sufocava naquele território limitado. Eu nem tinha noção do que seria fora daquilo, mas sabia que era para lá que eu queria ir.

Entrei para a faculdade de comunicação, que ficava em Botafogo, na cidade grande, Rio de janeiro. Não olhei para trás e fui sem carregar saudades.

Dentro da ECO, pela primeira vez, eu me senti uma pessoa "normal". Essa sensação de encontrar sua praia é indescritível. Só senti isso novamente na Vila Madalena, em São Paulo, depois do exílio de 10 anos no sul do país.

Recentemente uma amiga do k11 me encontrou no Orkut. Senti saudades particularmente dela, da sua gargalhada. Mas não pretendo voltar um dia. A infância foi boa demais. Mas meu universo continua em expansão. Agora só volto para o k11 no próximo big-bang. Apesar do encanto que ainda sinto por essa letra e número. Deve ser porque foi lá onde aprendi a escrever.


Permalink27.10.08, 13:22:00, by Cristiana Soares Email , Comportamento 27 comentários


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Comentários, Trackbacks:


Comentário de: Fábio Adiron

Delicioso o texto, como imagino que deva ter sido deliciosa a infância.


PermalinkPermalink 27.10.08 @ 15:26



Comentário de: Anonymous

que delícia de texto… me lembrou demais da conta os dias no cabula, bairro soteropolitano em que vivi uma infância feliz e uma adolescência sufocada. amei minha infância. ainda bem que passou. beijo grande. cin


PermalinkPermalink 27.10.08 @ 17:15



Comentário de: Carla Beatriz

Cristiana,



Eu também passei parte de minha infância em um bairro de uma cidade pequena, onde se podia brincar até tarde da noite sem medo e sem perigo. Eu andava de bicicleta, brincava de esconder, polícia e ladrão, me aventurava em um bosque (aqui chamado "capão") e curtia muito a natureza. Uma infância muito diferente da que meus filhos têm, infelizmente. Eu amava aquele lugar e como vc, não tenho intenção de voltar lá, somente para visitar meus amigos de infância.


Beijos mil


PermalinkPermalink 28.10.08 @ 08:37



Comentário de: Lilian

Dica de leitura…Textos ácidos e sarcásticos, pra quem quer ficar por dentro dos assuntos políticos e dos últimos acontecimentos de forma leve.


http://www.mosaicodelama.blogspot.com


Boa leitura!


PermalinkPermalink 28.10.08 @ 09:22



Comentário de: .lucas guedes

engraçado esse negócio de querer (ou precisar) sair do interior ou de qualquer lugar que não seja o centro. eu sempre vivi na capital de sp, mas moro na zona leste. e agora tô procurando casa no centro. acho meu bairro meio interiorano. pois é. ainda não saí do meu K11…


PermalinkPermalink 28.10.08 @ 11:27



Comentário de: Atilio

Realmente muito gostoso <img src="/blogs/rsc/smilies/icon_smile.gif" alt=":)" /> é ótimo poder olhar para a infância como algo bom e que vc se lembra com carinho… sem saudosismo! Não era uma época nem melhor, nem pior, era diferente.


Nossas marcas são nossas marcas, precisamos olhar para elas com muito respeito…


PermalinkPermalink 28.10.08 @ 14:20



Comentário de: Fábio Adiron

Constatação infeliz: quando você não fala mal dos homens o Ibope dos comentários cai drasticamente…risos



Beijos


Fábio


PermalinkPermalink 29.10.08 @ 00:23



Comentário de: Vilma

Vou fazer de conta que não li o comentário acima…


Cristiana nasci no K12, deve ser perto, porque até hoje me lembro daqueles suspiros esfarelentos e cheios de corantes que gostava.Agora não gosto mais, porque ele fazia parte de uma realidade que já não existe.



Beijos


PermalinkPermalink 29.10.08 @ 18:29



Comentário de: Flavinha

Texto delicioso!


Infância é uma fase boa, né? Deu até vontade de escrever sobre a minha… Adolescência já é mais sofrida… Mas fui uma muito feliz em ambas as fases e, à medida que o tempo passa, consigo perceber melhor como eu me formava e o reflexo de tudo hoje!



Engraçado… te conheço pouco, aqui pelo blog, mas já considero muito e lendo sobre sua infância me senti mais próxima e não foi por me identificar, pois a minha infância foi bem diferente… Para início de conversa vivia no meio só de meninas e muito distante da rua…



Beijocas


PermalinkPermalink 30.10.08 @ 11:39



Comentário de: Andréa

Cris, adorei seu texto:sempre delicado e saboroso. Ele funcionou pra mim como máquina do tempo. Morei até os 6 anos, num subúrbio chamado Vista Alegre (agora tem até Lona Cultural). Faz mais de 15 anos que não ponho meus pés, lá. Mas foi lá que conheci bala juquinha e chiclete ping-pong. As iguarias eram vendidas numa vendinha fascinante e tenebrosa. O lugar era meio escuro e bagunçado, mas o barulho da tampa de metal do porta-balas de vidro, enorme e maravilhoso, sendo desenroscada causava frisson. Adorei conhecer o seu o K11! Beijos


PermalinkPermalink 30.10.08 @ 15:33



Comentário de: Carlos E. Bonini

Que texto delicioso, Cris. Quase consegui sentir os cheiros e enxergar a luz do K11.


Beijos!


PermalinkPermalink 02.11.08 @ 13:56



Comentário de: WONDERFUL LIFE

Ola Cristiana
Td bem? Eu como uma pessoa que adoro ler blogs, escolhi alguns e adicionei aos meus favoritos. Hoje, passando por aqui em busca de novidades, Li o titulo do seu texto sobre o K11 e nao acreditei!!! Seria o mesmo bairro que eu conheço, de Nova Iguaçu? E eu tinha lido que voce mora em sampa. Bem eu tb morei no K11 e toda a minha familia tb. De repente vc possa ate conhecer, + ache interessante essa coincidencia. Abraços


PermalinkPermalink 03.11.08 @ 15:53



Comentário de: WONDERFUL LIFE

Ah esqueci de comentar, meu nome é Cristina… muita coincidencia


PermalinkPermalink 03.11.08 @ 15:54



Comentário de: Cristiana Soares

cristina, deixe alguma pista sua para eu entrar em contato <img src="/blogs/rsc/smilies/icon_smile.gif" alt=":)" />


PermalinkPermalink 03.11.08 @ 16:05



Comentário de: WONDERFUL LIFE

Oi Cris… Me add no msn onlychrys@hotmail.com. Minha mae era medica e se chamava Ivanize Cabral Ferreira e meu pai se chama Pedro. Ele tem 3 irmaos, Leninha, Lica e Zeca, meu avo era o seu Jose bananeiro e minha avo Gracinda… N sei se te ajuda muito. Eles moravam na Rua Benjamin Chambarelli. bjsss


PermalinkPermalink 03.11.08 @ 21:18



Comentário de: rapidamente

"dentro da ECO, pela primeira vez, eu me senti uma pessoa 'normal'"


entendo perfeitamente, porque morei no interior 10 anos e quando voltei pra sampa, senti como se tivesse "voltado pra casa".


PermalinkPermalink 05.11.08 @ 12:13



Comentário de: Carol Rodrigues

Po Cris
Essa eu vou ter q comentar!
Eu nasci em Nova Iguaçu - terra de gente boa hauhahuahuauhaa


PermalinkPermalink 05.11.08 @ 19:20



Comentário de: Fuzileiro

nasci,morei e passei toda minha infancia no k11 depois fui para ipanema,tijuca e leme hoje sou da marinha do brasil conheci quase todo pais mais nenhum lugar parecido ou igual ao k11…k11 e tudo de bom


PermalinkPermalink 08.11.08 @ 16:35



Comentário de: FÁBIO

OLÁ CRIS O MEU NOME É FÁBIO, EU NASCI E VIVO ATÉ OS DIAS ATUAIS NO K-11,NA SAMOEL MORENO DIVISA COM A JUVENAL VALADARES, TENHO 26 ANOS DE IDADE E POSSO TE AFIRMAR COM GRANDE FATISFAÇÃO EM MEU CORAÇÃO QUE AQUI AINDA É UM DOS MELHORES LUGARES DO RIO DE JANEIRO PARA MORAR, AO CONTRÁRIO DO CENTRO DO RIO, APE DO GRANDE CRESCIMENTO DO BAIRRO, AQUI AINDA SE VIVE COM MUITA PAZ,AINDA TEMOS UM AR PURO, O VERDE DAS MATAS,UMA LINDA CACHOEIRA E ATÉ OS DOCES DA PADARIA FLOR DO K-11, MAIS O MELHOR DE TUDO,É QUE SE PODE CRIAR OS FILHOS COM A MESMA LIBERDADE DE ANTES,PODENDO JOGAR BOLA NAS RUAS, ANDAR DE BICICLÉTA, SOLTAR PIPAS E ATÉ DERRUBAR FRUTAS DO QUINTAL DA VIZINHA;ADOREI SABER QUE VOCÊ É FILHA DO K-11 ASSIM COMO EU TAMBÉM SOU.


PermalinkPermalink 14.11.08 @ 20:19



Comentário de: Cristiana Soares

poxa, fábio, assim dá até vontade de voltar!


PermalinkPermalink 14.11.08 @ 20:24



Comentário de: FÁBIO

HAMMM CRIS, DE TUDO QUE VOCÊ RELATA EM SEU TEXTO,EU PERCEBO QUE VOCÊ PODE ATÉ TER SAÍ;DO DO K-11,MAS O MELHOR DE TUDO É QUE ELE NÃO SAÍU DE DENTRO DE VOCÊ.


PermalinkPermalink 14.11.08 @ 20:26



Comentário de: Cristiana Soares

hahahah, é verdade!


e fico muito feliz em saber que o K11 da minha infância está preservado <img src="/blogs/rsc/smilies/icon_smile.gif" alt=":)" />


PermalinkPermalink 14.11.08 @ 20:30



Comentário de: Tarcila Martins

Oi Cris o meu nome é Tarcila,fiquei mui to feliz com o seu texto,por que támbem nasci e me criei e vivo aqui no K-11tenho receio em me afastar do bairro,pq aqui convivo com pessoas amigavéis, que ainda tem amor ao próscimo, e ainda temos áreases de fauna e flora preservadas , mesmo com o crescimento urbano, amo muito esse bairro, mas é claro que como em todos os lugares, tambem temos problemas todavia não se compara com os das outras cidades, aqui ainda é um bairro tranquilo para se viver… bnjxs Tarcila Martins.


PermalinkPermalink 19.11.08 @ 10:35



Comentário de: mllemnemosyne

'Uns têm saudade
E dançam maracatus
Uns atiram pedra
Outros passeiam nus'


PermalinkPermalink 30.11.08 @ 09:12



Comentário de: WONDERFUL LIFE

Nossa Cris!
Esse post teve varias repercussoes! Q legal assim podemos conhecer uns aos outros. Moramos tao perto, + ao mesmo tempo tao longe….bjs


PermalinkPermalink 30.11.08 @ 22:20



Comentário de: antonio coelho

Lindo texto Cristiana !

Concordo com o comentario do Fabio
"VOCÊ PODE ATÉ TER SAÍO DO K-11,MAS O MELHOR DE TUDO É QUE ELE NÃO SAÍU DE DENTRO DE VOCÊ."

bjus

PermalinkPermalink 27.07.09 @ 21:29



Trackback de: banco de imagem

banco de imagem
Será que alguém sabe onde posso encontrar imagens espaciais para compor um anúncio para um cliente?

PermalinkPermalink 03.08.09 @ 16:19



Comentário de: Alvaro

Cristiana,

Difícil começar...adorei a leitura dos teus posts, todos eles. Quantas pessoas em uma só. A maravilha que somente uma mulher parece ser capaz de produzir convincentemente.
Muito boas as tuas colocações sobre a maternidade, teus comentários sobre as declarações da Maria Mariana (aliás, não são só as mulheres que sentem a urgência em poder participar, mais, da vida de seus filhos. Eu mesmo virei minha vida de cabeça para baixo e me abri ao universo, para que pudesse ter a minha vida de volta e poder dá-la às minhas filhas, que chegariam logo depois. A primeira dois anos depois da mulher maravilhosa que surgiu na minha história, a segunda um ano e dois meses depois da primeira,e a terceira (o?) a caminho. De executivo de multinacional em São Paulo a piscicultor e produtor de maracujás no interior de Rondônia em 2 anos.)...
...impressionante a tua capacidade de se expor de maneira tão singela e clara, e tornar-se tão doce como quando se revela em detalhes tão tocantes, tão frágil, como quem pede colo.

Quando eu conseguir ir embora prometo que volto.

Vou aguardar os novos posts.

PermalinkPermalink 02.09.09 @ 17:36



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