Comendo o sistema
- Consegui despentear o cabelo dele. E pelado, sem terno, ele se veste de outro homem. Minhas botas que ele critica ficam observando como pode um burguês e um bicho-grilo na mesma cama. E eu concluo que cama é o lugar mais democrático do mundo, junto com as praias cariocas.
Eles se conheceram num site de relacionamentos. Melhor dizendo, ele a encontrou. As fotos de webcam em baixa resolução o encantaram instantaneamente. Enviou uma mensagem. Ela, de cara, percebeu pela pinta de engomadinho e pela descrição do perfil que aquele sujeito era o que costumava chamar de burga. E falou quase que num tom audível para si: "Ele não sabe com quem está falando".
Educada e até comovida com a abordagem espontânea e simples do homem de gravata, respondeu com risinhos, naquele estilo "mulher dando mole". Afinal ele era bonito e tinha uma pele morena que lhe falou mais alto do que as ideologias. Num rompante, deu o e-mail pessoal. O que vai contra as sugestões do site para a preservação da privacidade.
Por que ela deu o seu e-mail particular? Porque com as informações que ele passara, na mensagem assertiva e contundente, foi direto ao Google e confirmou todas elas. Se ele não a poupou de sua privacidade. Por que ela o pouparia do seu e-mail?
Afoito, ele escreveu pedindo o telefone. Ela queria MSN antes.
Num misto de atração e rejeição, ela conversa com ele enquanto repete interiormente o mantra. "Ele não sabe com quem está falando". E pensa se não o enganou com sua cara de mulher clássica. Pois os closes não mostravam as roupas de sarja, os colares de sementes, pés descalços, bife de glúten e arroz integral que carrega na alma. Ainda não existem máquinas que fotografam essência.
Ele provavelmente não sabe com quem está falando.
Durante a troca de mensagens instantâneas, entre as várias revelações de gostos pelas coisas da vida, a temperatura começa a subir quando se esbarram num ponto onde invariavelmente mulheres e homens se esbarram. Quantas coincidências no que se refere a preferências sexuais. Intimidade à primeira vista.
Partiram para o telefone. Ele falava tão desembestadamente que ela quase desistiu. Ele, num susto de consciência, se refreou a tempo. E deu a palavra a ela. Mas ela não conseguia ser ouvida. Porque ele só queria desejá-la. Fantasiá-la. E ela tentava dizer que ele não sabia com quem estava falando.
Ok, ela topa um encontro para ele parar de falar tanto. E quem sabe convencê-lo das extremidades que habitam.
Ela não deixou que ele a buscasse em casa. Não queria que a confundisse com uma namorada em potencial. Ela nunca o namoraria. Seria como um palestino namorar um israelense.
O encontro aconteceu num bistrô francês onde ela nunca tinha entrado antes (nesse e em nenhum). Para garantir pelo menos uma noite de paz, ela colocou seu vestidinho de boutique e não usou sua bolsa tipo carteiro, enviesada no corpo. Sapatilha de mocinha comportada.
Desceu do táxi como quem vai resolver um problema. Mostrar para aquele cara quem era ela, o quão distante estavam um do outro e acabar com aquela palhaçada de uma vez.
A recepcionista abriu a porta para ela entrar. E ela se sentiu entrando no campo do inimigo.
Lá estava ele no balcão todo garboso, feliz, ansioso. Veio em direção a ela com o olhar mais iluminado da vida. O terno até combinou com toda aquela luz. Ela o achou mais bonito do que na foto.
Com velas e o escambau, houve ali uma noite romântica. Ele cheio de boas intenções, fazendo planos para o futuro. Ela com uma sapatilha dentro, outra fora.
Depois de duas taças de vinho orgânico e de esclarecer a série de diferenças que os separavam (e ele não se abalar nadinha com nenhuma), ela se entregou à situação: se não pode ir contra ele, coma-o. Foi assim que ela comeu o sistema.
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Ah, a mudernidade.
Dragonball é "Emocionante Visualmente"!
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Belo texto. Já estive na situação, só que o bicho-grilo era eu e a burguesa, ela.
A cama não me pareceu democrática; afinal, ela levou para a cama seios de silicone, dos quais gostei, elogiei e ouvi em resposta:
- Não são perecíveis. Nós até podemos ter filhos que tu ficarás com eles.
Algo assim. Se já não a tivesse comido, broxaria. Tinha 30 anos, não queria filhos nem morto.
Bem, mas minha tese furou, pois se já a tinha comido — e lembro que foi bom para mim e pareceu bom para ela –, a cama FOI democrática. De acordo, mas a nudez dos minutos seguintes já não foi.
Besos.
Cris
Fiquei muito feliz com a sua visita no meu blog.
Adoro seus textos, bem resolvidos, admiro sua forma de encarar a vida de frente e a forma como lida com as diferenças e preconceitos de cara lavada e com a força que as mulheres de verdade têm.
Hummm.. quanto ao homem de terno, como vc mesmo disse não se fotografa essência e quem sabe?
adorei!abaixo o sistema, a casca, os rótulos!
beijo enorme e volto sempre!
Deh
solemescorpiao.wordpress.com
Cris, adorei… Seu texto está muito bom. Cada vez melhor. beijos saudosos
Engraçado se ter vivido uma história contada por outra pessoa que não sabe se quer da sua existência.
Como viver com essa diferença? E como viver essa democracia íntima?
Seria tão mais fácil deixar a razão de lado. Ou quem sabe, mais fácil seria não viver alguns tipos de histórias. Mas aí não teríamos o que contar e nem experiências para outras "vivências", não é mesmo?
Belo texto. Convenceu-me a voltar sempre.
Beijos
Às vezes a realidade pode ser tão boa quanto aquilo que imaginamos e em que quase não acreditamos. Parabéns pelo jeito de contar a história. Gosto muito de vir aqui.
Alguns relacionamentos pela net causam choque anafilático quando transferidos para vida real, deve ter sido esse é o caso…Eu indicaria um hospital para o bicho grilo, local nem sempre democrático, mas se ele conseguisse uma vaga, conseguiria um injeção letal, melhor que sofrer aos pouco…
adorei o texto. até porque nunca tinha pensado em COMER o sistema. talvez seja a forma mais interessante de relação com ele. é meio como andar em cima do muro, não? não no sentido da indecisão e sim por ser dificílimo mantermos uma relação com o sistema sem sermos contaminados por ele. mas é o caminho, comê-lo pra não ser engolido.
A história é interessante por si só, preconceito parece ser o tema do dia. Preconceito é algo que faz parte do ser humano, da nossa cognição (percepção e interpretação): se precisássemos parar em frente a uma cadeira e formar um conceito sobre ela a cada vez, não seríamos capazes de operar no mundo… então criamos pré-conceitos. A questão toda é como lidamos com eles pois eles são direcionados de muitas maneiras, principalmente sociais.
Mesmo nas coisas mais simples como um encontro entre duas pessoas em que rolou um clima, mas fazemos questão de colocar o peso dos nossos julgamentos no caminho…
Comer o sistema é uma metáfora genial que me cheira a tropicália e bem mais, concordo que a melhor forma de transformar é primeiro botando pra dentro e depois pra fora ;P
A fome e a vontade de comer.
Perfeito, antigo. Sempre funciona, em qualquer sistema!
Adorei o "clima"!
Adorei seu texto, muito bom a forma como ela comeu o sistema (de terno mesmo!) -risos!.
beijos da janela
Texto delicioso de ler! Adorei!
Este blog devia virar livro! Não para mim, pois o acompanho muito bem pelo monitor. Mas seria um belo presente para tanta gente que lembro enquanto leio! De vez em quando eu mando um link para um ou outro!
Beijos
Show!
Essas diferenças são justamente a pimenta que abre o apetite pra engolir o sistema.
bjos
Eles querem uma mulherzinha que seja fodona, entende? Sim, tm que ser densa, culta, inteligente… mas tem que se cuidar. Não é isso que a gente quer também? Eu é que não vou ficar com um inteligente, culto que bebe o dia todo e tem orgulho de uma barriga imensa. Muito bom o seu texto. E como diz o meu amor "a gente só quer alguém que nos ame" - isso ele falou quando eu postei um texto parecido com o seu no meu antigo blog (e antes de nos conhecermos pessoalmente).
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