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Cristiana é redatora e escritora, carioca, mora em Sampa. Mãe da Luísa e da Lorena, apaixonada por comunicação e internet. Autora do livro "Por que Heloísa?", Companhia das Letrinhas.

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A tua barba de cada dia


Entro no banheiro para trocar a toalha, mas o que eu quero é ver você. Manhã de segunda. Hora de se transformar em um homem civilizado, responsável e trabalhador. Para isso, ejeta a espuma na palma da mão esquerda. Repousa a direita por cima e com as duas, suavemente, lambuza o rosto. Espalha o mousse de forma a cobrir os pêlos que não sabem a diferença entre domingo preguiçoso e dia em que os bancos abrem.

Meu pai usava o pincel para aerar e espalhar o creme, formando um chantilly. Em transe, eu babava. Os movimentos circulares. As subidas e descidas. E a lâmina perigosa que podia cortar o rosto dele. Como de fato aconteceu algumas vezes. E a pedra-ume vinha estancar o sangue. Uma pedra que não fere, mas cura. Só o meu pai poderia ter uma assim.

Você estica o pescoço. E no sentido de baixo para cima o percorre com o aparelho até o queixo. O barulhinho dos pêlos sendo cortados pela base. Esse barulhinho de homem. Depilação feminina ou é silenciosa (gilete) ou é histérica (cera). Mulher não tem mesmo meio-termo.

Pequena, deitava ao lado dele sobre o tapete felpudo da sala, enquanto na vitrola tocava concertos para violino, sinfonias. Eu ficava ali encaixada entre o seu braço esticado sob meu pescoço e o seu tórax. Ele olhava para cima e viajava com Mendelssohn. Eu, que não enxergo de longe, colava meus olhos no seu maxilar e via, um a um, os fios nascendo de cada poro. Absorta, encantada. Não havia coisa mais bonita de se ver nascer.

Você estica os músculos da região entre o lábio e o nariz para a lâmina não encontrar obstáculos. Infla a bochecha e faz uma bolha de ar interna. A lâmina sobe. Desliza. Desce.

Agora é aquela hora em que há vestígios de espuma espalhados por toda a região. Às vezes resta um cavanhaque, às vezes costeletas. Poderia fotografar e usar como inspiração para quando você estiver longe.

Oferece as duas mãos em concha à torneira e se inunda com a água gelada que transborda entre os dedos, molha os pelos dos braços e escorre pelos cotovelos. A toalha felpuda que eu acabara de trocar agora nas tuas mãos te toca enquanto sinto inveja de um pedaço de pano.

A essência de mentol arde na minha boca imaginária que te beija. Ouço os tapinhas que se dá no rosto. Geladinho, receptivo, irresistível. Lamberia sentindo ainda as minúsculas protuberâncias que resistem.

Para o meu deleite, à tarde elas estarão ainda mais salientes. Obrigando você a repetir o ritual na manhã seguinte. E será assim até o último dia. Por enquanto, me despedirei de você com um beijo no rosto para guardar o suave pinicar na boca.

À noite, a barba por fazer arranhará minha nuca, meus lábios, meu corpo. Acordarei no dia seguinte com a pele exposta. Seqüela de quem dorme com você.


Permalink17.09.08, 15:00:00, by Cristiana Soares Email , Comportamento 28 comentários


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Comentários, Trackbacks:


Comentário de: Ana

Bela e amorosa descrição de um ritual masculino…


PermalinkPermalink 17.09.08 @ 16:17



Comentário de: Vilma

As sequelas da barba são melhores que as sequelas do ronco, pelo menos não ficamos com cara de coruja no outro dia.


PermalinkPermalink 17.09.08 @ 18:59



Comentário de: Cristiana Soares

Huhauhauhauhauhauahua!


PermalinkPermalink 17.09.08 @ 19:08



Comentário de: Carola

Eta que tá numa fase inspiradíssima!


PermalinkPermalink 17.09.08 @ 20:16



Comentário de: J. Caribé

Nossa, que bonito!
Muito mesmo!


PermalinkPermalink 18.09.08 @ 11:14



Comentário de: Atilio Baroni Filho

Muito bonita mesmo, para nós que precisamos fazer (teoricamente) todos os dias… ou "dia sim dia não"… ou uma vez por semana… erm, veja bem, é preciso abstrair. <img src="/blogs/rsc/smilies/icon_smile.gif" alt=":)" />



Esse tipo de atividade "altamente entrópica", das que é preciso serem feitas repetidas vezes pois os resultados não são duradouros, muitas vezes são rebaixadas por serem trabalhosas ou sem propósito aparente, mas muitas filosofias de vida e religiões presam o cotidiano acima de tudo como caminho para ser feliz, e o cotidiano é feito principalmente dessas pequenas coisas que fazemos o tempo todo.


PermalinkPermalink 18.09.08 @ 12:36



Comentário de: carina paccola

Adorei, Cris. Eu sempre achei o máximo aquele creme branco no rosto do meu pai. Uma vez, enquanto eu escovava os dentes, espalhei a espuma no meu rosto (argh) e, com o cabo da escova de dentes, "fiz a minha a barba" (hehe).


PermalinkPermalink 18.09.08 @ 22:09



Comentário de: Milton Ribeiro


Texto belíssimo. Nunca minha filha terá tais lembranças. uso barba desde que me conheço e às vezes vou a um barbeiro. Mas há outras coisas: as cócegas da barba, as mãos dela fazendo carinho sob os pelos. Ora, sempre dá-se um jeito.


Era Curitiba? Ô cidade provinciana!


PermalinkPermalink 18.09.08 @ 22:54



Comentário de: Vinícius K-Max

Cris, eu particularmente odeio fazer isso que te agrada ver. Mas agora graças a beleza do teu texto, o chato ritual ganhou ar de charmoso e quaaase me senti um privilegiado por ser homem. <img src="/blogs/rsc/smilies/icon_smile.gif" alt=":)" />


PermalinkPermalink 19.09.08 @ 00:37



Comentário de: oscilantemente

olha isso!!! meu barbeador elétrico nunca me pareceu tão sem charme, como agora.


PermalinkPermalink 19.09.08 @ 01:36



Comentário de: Museu do Cinema

Cristiana, nunca mais o ritual de fazer a barba será o mesmo depois de ler esse minucioso ensaio sobre o barbear.


Se vc foi dura com os homens com o texto "Por que é tão bom ser mulher? ", se redimiu aqui. Me impressiona sua delicadeza e sensibilidade.


PermalinkPermalink 19.09.08 @ 10:19



Comentário de: Brown

é engraçado como a gente esquece essas coisas…
era apaixonado por essa visão…adorava acompanhar as manhãs do meu pai se preparando…
hoje em dia faço o mesmo e nem noto, não tiro nada das minhas manhãs…
e ainda acho estranho qdo pequenos amores me observam, e acham lindo…
hahaha
boas essências, visuais e olfativas…obrigado pelo presente…
pra mim é sexta feira ^^

bjk =o*


PermalinkPermalink 19.09.08 @ 11:41



Comentário de: Madame Mim

Acho lindo barba de um dia.
Que jeito mais lindo de descrever um ato no qual nunca prestei muita atenção.
beijos


PermalinkPermalink 19.09.08 @ 13:31



Comentário de: Jorge Cordeiro

uau, que texto inspiradíssimo!!!


PermalinkPermalink 19.09.08 @ 19:43



Comentário de: Carol

Ai, que bonito!
Eu adoro barba por fazer, de um dia pro outro, de uma semana, um mês… Mas eu gosto da barba acabada de fazer também… Te entendo!

Beijo
Carol
http://www.meuveneno.com


PermalinkPermalink 22.09.08 @ 03:01



Comentário de: andrea

Também sou vulnerável a esse feitiço de homem fazendo barba, desde a infância. Esse feitiço se intensificava ante o risco do barbeiro de posse da velha navalha. Ui. Que beleza e requinte de descrição, Cris! Adorei!


PermalinkPermalink 22.09.08 @ 21:30



Comentário de: Carla Martins

Meu pai é barbudo e meu marido tem pouca barba e, além disso, é publicitário. Por isso, não convivi com esse ritual. Mas, pelo jeito, vc descreveu tudo suuuper bem, como sempre.



beijo!


PermalinkPermalink 23.09.08 @ 15:30



Comentário de: Flavinha

Cris, amei o texto! Lindo! Me tocou profundamente! Lembrei muito do meu pai, que antigamente usava a espuma… Gostava de ver! Hoje acho muita graça, pois ele aderiu ao barbedor elétrico e de vez em quando coloca pilha no aparelho e sai fazendo barba pela casa! Uma cena tão oposta àquela do ritual de antigamente!
Também pensei no marido lindo, que me arranha à noite!
E lembrei que minha irmã, quando pequena resolveu fazer barba: arrancou um tampo no queixo, tadinha…
Beijos


PermalinkPermalink 01.10.08 @ 11:43



Comentário de: Joseph

Ia passando por aqui, parei e entrei. Comecei a ler. Sentei para ler melhor.
Que belo texto! Você tem talento e pode voar mais alto. Não fique aí. O ceu é o limite.


PermalinkPermalink 17.10.08 @ 19:43



Comentário de: silvia

Adoro seu blog e esse texto sobre o homem fazendo a barba, uau!
Moça, que talento lindo o seu!
Invejas reverentes dessa sua admiradora.


PermalinkPermalink 09.11.08 @ 12:08



Comentário de: Gustavo Gitti · http://nao2nao1.com.br

Texto de mulher. Coisa que homem algum nunca terá a manha de escrever. Belo, belo, "belo" deveria só vir no feminino, mesmo se referindo a um texto.

3 lições que vejo aí em cima:

- Mulher sempre compara seu parceiro a seu pai. Não tem jeito.

- Homem com barba tem seu charme até quando a remove todo dia.

- Mulher gosta é de homem cortante. Nosso aspecto destrutivo, nossa capacidade de arrancar, cortar, destruir, aniquilar, matar, isso parece dar tesão em vocês.

;-)

Abração, Cris.

PermalinkPermalink 05.09.09 @ 19:14



Comentário de: anunciação

Muito bom!Inspirado e fez-me lembrar quando era pequena acompanhando esse ritual de papai.Sensação agradabilíssima.

PermalinkPermalink 05.09.09 @ 19:14



Comentário de: Vivianf

Lindo! Que saudade do meu pai pegando o pincel de barba, passando o creme no rosto e fazendo careta pra mim! Fiquei emocionada...

PermalinkPermalink 05.09.09 @ 19:21



Comentário de: jean boechat · http://www.boechat.com

muito bom =^*

PermalinkPermalink 05.09.09 @ 19:28



Comentário de: Z

Sempre disse isso.
Um dos momentos que me sinto mais homem nessa vida, é justamente na hora de fazer a barba.

Incrivel o texto Cris.
Barba e lucidez é pra poucos. :)

PermalinkPermalink 05.09.09 @ 19:30



Comentário de: conradoo · http://twitter.com/conradoo

Sangue preto e russo, guarani e espanhol, essa herança que me deu olhos verdes e cabelos crespos não permite aos homens de minha família fruírmos do ritual.

Pseudofoliculite é o nome do monstro. Doencinha tratável e tal, mas ridícula.

Mais ainda, por não acometer a maioria de nós homens, aparece.

Um fio encravado machuca quem o porta (apesar de, para o bem e para o mal, pinicar, como de resto faz qualquer fio de barba). Grita que tem alguma coisa errada.

Pseudofoliculite é a celulite dos homens.

A diferença é que não dá pra esconder num jeans justo.

Parabéns pela descrição. Sorte de quem pode aproveitar, em si ou no seu.


PermalinkPermalink 05.09.09 @ 19:38



Comentário de: Maysa · http://www.centoeuma.com.br

Adorei! Não morei com meu pai, então não vi esse ritual na infância, mas adoro ver meu marido se barbear. Sem dúvida que a graça de observar o barbear de todo dia é imaginar o "estrago" que a barba faz quando nasce. lol

Lindíssimo o texto!

Beijos

PermalinkPermalink 05.09.09 @ 19:39



Comentário de: Carla Pompilio

lindo, lindo, lindo...
chega a dar saudade...
lindo...

PermalinkPermalink 05.09.09 @ 23:54



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