Morte por sufocamento cultural
Nunca havia ouvido a palavra "vagabunda" tantas vezes como naquela capital onde morei. Foram longos cinco anos testemunhando homens se referindo a mulheres usando esse linguajar, em geral pelas costas. Além de ficar chocada com a óbvia falta de respeito e com a pouca delicadeza, refletia com meus botões cariocas: "O que é ser vagabunda para eles?" Instalava-se um choque cultural do tamanho da Amazônia devastada.
Num barzinho badalado entre os moderninhos, escutei um cidadão dizer à namorada que é feio mulher beber no gargalo (detalhe: ela tomava uma long neck, embalagem criada especialmente para ser utilizada dessa forma). E ainda arrancou o cigarro da boca da moça.
Na agência onde trabalhava, dei um tapinha amistoso no braço de um colega e o chefe, que estava ao lado, fez um comentário buscando o olhar cúmplice masculino: "Aeee… tá te dando mole…"
Uma profissional de atendimento me contou que um cliente havia lhe dito que uma mulher na idade dela (nem tinha completado 30), solteira, só servia para amante. Noutra oportunidade, quando eu comentei por acaso que havia sido casada duas vezes, ela ficou impressionada e me chamou de sortuda. Medo.
Muitos deles deixavam suas namoradas em casa cedo para poderem cair na noite. Pré-revolução de costumes ou implicância minha?
Numa festa de publicitários, qual não foi meu susto ao abrir os olhos no meio do embalo e ver um paredão de pessoas "botando reparo" em quem estava dançando. Sabe aquele olhar crítico de fofoqueira da década de 50? No dia seguinte, teriam muito o que comentar na firma.
Aos domingos, passeando com as crianças (na feirinha de artesanato, no parque ou no shopping), só via casais com seus rebentos. Nem pai nem mãe separados. Apenas eu cometi tal heresia? Ou pelo menos só eu tinha o desplante de exibir esse infortúnio. Um morador acrescentou, em off, que ninguém se separava mas todo mundo se traía. Tudo muito família, é claro.
Na fila do supermercado, comentei com a senhora distinta algo a respeito do preço ou qualidade de um produto. A mulher me olhou de cima abaixo como que dizendo "Te conheço?".
Uma amiga ousou me levar como companhia de última hora a uma reuniãozinha na qual fui educadamente ignorada. Trauma.
Levei minhas filhas ao aniversário da amiguinha de uma delas e no final a mãe da aniversariante, entregando as lembrancinhas, disse-me que só havia a quantidade certa de convidados, dando-me a indireta de que não deveria ter levado a irmã. Eu respondi, constrangida, mas digna, que não tinha importância, pois lá em casa, tudo o que era de uma era de outra. Uma lembrancinha bastava para as duas.
Foi chato ter que ser a Leila Diniz da agência. No começo eles nem entendiam o que era "aquilo" (no caso, eu). Não me computavam, não conseguiam me classificar. Aos poucos foram me absorvendo, mesmo eu falando mal deles para eles (era até divertido, confesso, e acabei me apegando àquele grupo). No final, a carola, que antes não falava palavrão, me superou. Dei minha contribuição modesta aos costumes locais.
Em troca, minha identidade foi enfraquecendo, ficando sem ar. Vesti a armadura de Joana d'Arc para ir da casa para o trabalho, do trabalho para casa. Desisti de vida social, antes que me tornasse vítima de um sufocamento cultural.
São Paulo me salvou.
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oi Cristina, eu já senti isso em uma cidade….fiquei curiosa pra saber qual cidade que te sufocou dessa forma, e se foi na mesma que senti isso…
Tenho 51 anos e grande parte de minha família veio do interior do RS. Ora, lá era assim; só que com um detalhe: era assim em 1970 ou antes. São histórias que ouvi na pré-adolescência.
Podes vir para Porto Alegre tranqüila. Para o bem E para o mal, estamos no século XXI.
Mas fico pensando: uma referência imediata à amazônia… Palmas, Goiânia, Cuiabá, Campo Grande?
Bom, deixa assim… O post é de foro íntimo, não antropológico.
Um beijo.
(Nossa, ele mandou um beijo logo no segundo comentário!!!!! O que será que esse hômi tá querendo, hein?????)
Flavytcha, vamos ver se as pessoas descobrem qual é a cidade?
Milton, o mais incrível é que essa cidade não é do interior! Sobre o beijo, poderia ter sido já no primeiro comentário sem problemas! Adoro ganhar beijo ![]()
Estou chocada, Cris. Você não estava em outra cidade, você estava em outro século!
Que bom poder te ler de novo, agora com mais freqüência.
Beijos
Adorei o texto! Já passei por situações semelhantes. É frustrante mesmo…
Parabéns pelo livro e pelo blog! ![]()
O que deve ser maior fator de discriminação, não é você ser "sozinha" , nem ser independente, inteligente. Seu maior "fardo" é ser bonita demais. Nunca pensou nisso? Assusta a homens e a mulheres.
Concordo plenamente com a Lúcia. Mas, no meu caso jamais me assustei ou ousei discriminar qualquer mulher bonita. Principalmente quando esta é uma talentosa e curvilínea escritora, naturalmente talhada pela natureza.
T !!!
Caí nesse blog meio que por acaso e adorei. Quando comecei a ler as discrições, descobri em instantes que cidade era.. rs afinal, vivo isso diariamente. Um abs vou voltar mais aqui
Você diz : ninguém se separava mas todo mundo se traía…
Em São Paulo as pessoas são mais liberais, elas "se separam E traem"…KKK
Santa felicidade esse texto
Impressionante mesmo o preconceito e a inversão de valores…
Beijo.
Seria uma capital do Nordeste? Eu senti isso em uma delas…
Ei, tem prêmio pra quem acertar??![]()
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Tenho quase certeza que é de Curitiba que vc está falando.
Ei, essa cris aqui de cima não sou eu!
Cris, acho que vou abrir uma enquete aqui no blog. O que achas?
Morei aqui muito tempo, fui embora, voltei por razões profissionais.
Hoje gosto do que a cidade tem de legal.Tenho amigos curitibanos, mas olha, demorou, viu. Isso só aconteceu porque eu morei muuuito tempo aqui mesmo.
O povo é complicado.
Tem um ditado (e tbém uma piada)que diz que curitibano não fala com estranhos, vc conhece?
Essa parte da pessoa te olhar estranho quando tu puxa papo sobre o preço/qualidade do produto…guria, me vi aí! Qtas e qtas vezes fiquei falando sozinha, qdo puxava papo desse jeito no mercado? Se vc puxa papo, todo mundo te olha esquisito…curitibano não fala com estranhos.
E sobre a festinha, quem nunca morou aqui não entende. Eu acho horrível, mas não estranhei, pois eu mesma já fui em festas com um outro convidado e daí a dona da festa ficava me olhando de cara feia, dando indiretas.
ADoro Curitiba (a cidade) e tenho um poucos e ótimos amigos daqui (mais por sorte do que por empenho)
,mas o povo em geral é assim fechado e provinciano.
Ah, e se vc é carioca, então os curitibanos tem mais um motivo pra te olhar feio, porque eles têm uma invejinha de cidade que tem praia, pois as praias do Paraná são todas um lixo (exceção pra Ilha do Mel)
Bom, escrevi um monte, não resisti
, se não for Curitiba,eu não sei. Mas que parece, parece.
Conte aí, please!
Fiquei muito curiosa.
Beijos
Vou assinar Cris leitora pra não confundir…![]()
bjos!
Acho bem legal a ideía da enquete.
Snif, achei que tinha acertado!!!!!!
Antes de chorar, vote na que vc acredita ser! Eu não disse nem que sim nem que não. E mande um contato seu (e-mail)?
bom, pelo depoimento da Cris (a outra, não a autora do blog), só pode ser Curitiba mesmo, o que muito me espanta, embora eu não tenha nenhuma razão pra me espantar, na verdade. se não for Curitiba, o motivo de espanto seria encontrar outra cidade que se encaixe na descrição, quase um estereótipo, na verdade. como dizer que no Rio nada dá certo (eu acho que isso é verdade). mas, de tudo que foi falado, o que mais achei estranho mesmo foi essa antipatia com estranhos. vamos ser antipáticos, tudo bem, eu mesmo sou um, mas sem deixar de ser civilizados, né? civilidade é fundamental e requer seu naco de mentira.
É Curitiba, sim! I`m sure!
Fui lá a passeio. Fiquei pouco e amei. Mas a passeio é fácil amar, né? Morar é diferente. Já ouvi várias histórias sobre Curitiba e seus preconceitos e tradicionalismos. Que pena, porque a cidade é uma graça!
Acho que é Curitiba tb, mas ai já fica sem graça, todo mundo falou.
Um abraço!
puxa vida! que coisa, hein?!
capitais e capitais.
sou muito mais você Cristina!!
Obrigada Cris. Mas ca entre nos, nao eh que Joinvila nao deve nada a Curitiba. E a Europa soh eh mais chique porque eles chamam BITCH, mas vc ficaria chocada com o que eles dizem pelas costas das garotas liberais.
Oi Cris! Uma recomendação da Cinthia tbm, vim dar uma espiada.
É difícil sair do estereótipo, mas é um comportamento de que vejo citação constante sobre essa região em específico (até imagino qual seja).
Nesse sentido, sampa é melhor porque existe tanta diferença, tantos malucos, que quando vc sai gritando e dançando na rua, você é só mais um doido.
O sufocamento que existe aqui é o "sócio-econômico". Quem mora, vive ou convive só no centro e redondezas acha que sampa é o mundo, e que é perfeita e tem tudo. Quem nunca foi ao capão redondo, onde não existem shoppings, cinemas, teatros, nada disso que faz sampa "cultural", não conhece a cidade onde vive e os que se sacrificam para que nós tenhamos tudo isso.
São Paulo também me salvou do marasmo de uma cidade do litoral Sul, eu sei bem como é isso!
Obrigada pelo comentário em meu blog!
Beijos
Carol
http://www.meuveneno.com
achei q tivesse sido brasília
onde foi, Cris?
poderia ter sido em sampa tbm, viu. não sei dos outros países, mas brasileiro é isso aí. a vantagem de sampa é q, por ser tão grande, se vc encontra ua turminha tchupitchura como essa, sempre dá pra sair procurando outras. :***
O que menos importa é a cidade. A curiosidade sobre ela está ficando mais importante que o post, rs.
Aqui em Curitiba é bem assim mesmo, do mesmo modo como no Rio o povo é malandro e folgado, em Salvador é preguiçoso e desligado, etc.
Moro em Curitiba, estive no Rio e em Salvador, posso dizer que não tem erro, os estereótipos, as generalizações e as caricaturas, eles todas funcionam bem, impressionante seu poder de persuasão.
O ruim é que elas pouco importam, quando a questão é o indivíduo. E, convenhamos, chega de generalizações! (rs)
Sobre Salvador, conheci pessoas incríveis, de um caráter excepcional e extremamente solícitas. A ponto de saírem da "preguiça" e me fazerem passear a cidade toda, rs. Já no Rio, não conheci as pessoas mais a fundo, mas tenho colegas de lá aqui em Curitiba, que aos poucos estão sacando qual é a beleza do curitibano, para além do estereótipo e também de sua sisudez
Abs.
Estou quase salva, Londrina é um misto de cidade grande com vilarejos do interior, é possível correr o dia todo como se fosse primeiro mundo e descansar à sombra das árvores ouvindo uma carola qualquer falando da vida dos outros. Meio mussarela, meio mortadela, para todos os gostos e desgostos.
O engraçado é que, durante a leitura, fiquei achando que a cidade era São Paulo. Sempre achei São Paulo horrivelmente conservadora, aliás foi por isso que foi embora. Mas já que não é, também chuto Curitiba: todo mundo diz que é uma das cidades mais retrógradas do Brasil, apesar de tudo.
Não sei de Curitiba, nunca nem fui la, mas soa como Belo Horizonte, onde morei por quatro anos. Eles ainda têm a mentalidade do tempo de El-Rey.
naum concordo com a patricia.Vim do interior de MG e moro em bh a 5 anos, sempre fui muito bem tratada, aki tem um ar d cidadezinha d interior..como dizem meus amigos BH é uma roça grande..acho q esa cidade eh do sul msm, mas naum sei qual? Porto Alegre talvez????
Eita… você morava no Afeganistão no auge do regime Taleban? rsrs
Assustador. Ainda mais porque eu também já trabalhei em agências e as pessoas eram BEM tranqüilas em relação aos costumes.
Mas isso foi em SP. ![]()
Eu já me senti assim em um emprego. Sufocada, cansada de tentar quebrar paradigmas todo dia e sendo apenas uma porcentagem de mim mesma em horário comercial.
Mudei de emprego e agora sou 100% eu. Sabe que está sendo ótimo?
Beijos, descobri seu blog ontem e estou adorando!
O mais engraçado é que hoje quase todos do time são meus amigos do peito. Aliás, eu tenho muitos amigos homens. Eu bebo no gargalo, e bebia tanto ou até mais que os meninos. Eu xingo tanto quanto eles, e não me importo com o que digam.
A gente aprende da pior forma, a relevar certas coisas. Que mundo é esse que não ser você mesmo? Que por ser mulher tem que tá perfeita, impecável. Não pode falar nem fazer baixaria. Pra namorada, beijinho e abracinho. Pra saliência, pega as “vagabundas”.
Que mundo, né? 2009? Jura?
Eu acho que não...
Conheço poucas capitais, mas Curitiba me impressionou pelo machismo (mais até do que em Belo Horizonte, onde moro). Lá eu era apenas e tão-somente a mulher do Fulano, e conto nos dedos de uma mão as pessoas que perguntaram se eu tinha curso superior (e ficavam de olhos arregalados quando eu respondia que tinha mestrado). Mesmo na universidade, as professoras falavam que lá era importante porque foi onde conheceram o marido.
E fico muito feliz por você ter sido salva por São Paulo. É uma pena que pouca gente tem essa oportunidade de ouro...
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