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Cristiana é redatora e escritora, carioca, mora em Sampa. Mãe da Luísa e da Lorena, apaixonada por comunicação e internet. Autora do livro "Por que Heloísa?", Companhia das Letrinhas.

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Seqüestro emocional


Cantar dirigindo é uma das alegrias da vida. Sozinha, gritando loucamente, com os vidros fechados. Ou com as crianças presentes, fazendo coro em giroflê, giroflá. Momentos que ficarão marcados até o fim da minha existência.

Certo dia, em Florianópolis, depois de pegar as meninas na escola e levá-las para casa para o almoço (com os segundos contados, pois eu deveria voltar para o trabalho), ao entrar na minha rua, uma viela, iniciada por um trecho ainda mais estreito, dei de cara com um caminhão de entregas de frios, entalando essa garganta e obstruindo a passagem.

De um lado uma birosca, onde o caminhão descarregava os embutidos e companhia. Dou outro, uma escolinha da Prefeitura.

Já fiquei nervosa, pois não era a primeira vez que isso acontecia. E sempre nas horas mais críticas, quando eu não podia perder tempo. Fiquei indócil. Vamos dizer assim que eu fiquei alterada. Melhor: eu estava prestes a ter um ataque.

Lembrando do que lera no livro "Inteligência emocional", resolvi me acalmar, manter a voz num tom moderado e ir ter com o nosso amigo motorista.

- Senhor, o senhor sabia que está cometendo um delito, impedindo a liberdade de ir e vir dos outros cidadãos que têm os mesmos direitos que o senhor?

Usando palavras politicamente corretas, tentei persuadi-lo a tomar uma atitude civilizada e retirar o seu veículo do caminho. Assim, poderíamos sorrir um para o outro e fazer daquele episódio uma experiência de cordialidade humana e respeito mútuo. Fico até emocionada.

Eis que ouço como resposta do nosso querido motorista:

- É, não dá pra discutir com mulher!

Nesta hora, todo o sangue distribuído uniforme e saudavelmente pelo meu corpo subiu como o vapor de uma panela de pressão para a minha cabeça. Como a dita não foi feita para suportar tamanha pressão, e antes que ela explodisse literalmente, a boca entrou em ação com fazem aquelas válvulas de escape (brilhante engenhoca, descoberta por algum gênio)

Esqueci toda a educação para a cidadania e convivência com a diversidade que havia aprendido na minha vida até aquele momento. Fui possuída por algo mais forte do que eu. O lado negro da minha força emergiu. Em inteligência emocional, chamamos isso de "seqüestro emocional". E com o dedo em riste exclamei a uma altura acima do que pode suportar o ouvido humano:

- Vai tomar no c*, vai tomar no c*, vai tomar no c*, vai tomar no c*…

O motorista não titubeou. Num ato reflexo, manobrou seu caminhão para um canto que surgiu milagrosamente, deixando espaço suficiente para eu que passasse com meu automóvel em direção ao almoço e à volta ao trabalho.

Naquele momento, minhas meninas aprenderam que um homem jamais pode se referir a uma mulher daquele jeito. Não sei o que as crianças da pré-escola do outro lado da garganta aprenderam. O motorista, com certeza, aprendeu a nunca mais subestimar uma mulher.

Eu aprendi que ser politicamente correta, calma, civilizada, dona das suas emoções, na maioria das vezes, é o melhor a ser feito. Sou pacifista e tenho aversão à violência. Mas há momentos em que, como diz uma amiga minha: "Com louco, louco e meio".

Que Mahatma Gandhi e o Greenpeace não me ouçam.


Permalink28.02.08, 13:31:00, by Cristiana Soares Email , Comportamento 15 comentários


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Comentário de: Soneto


Seus textos são tão saborosos que tinham que vir embalados em celofane. Parabéns (e um beijo fraterno). :o)


PermalinkPermalink 28.02.08 @ 16:17



Comentário de: Cinthia

YEEEEEEEEEEEAH!!! SHE'S BACK!!! Beijoquinhas enormes! Cin


PermalinkPermalink 28.02.08 @ 17:31



Comentário de: carina paccola

Eu já conhecia este episódio, mas adorei ler aqui. Ainda bem que voltou a alimentar este blog. Um beijo


PermalinkPermalink 28.02.08 @ 17:58



Comentário de: carina paccola

Gostei tanto que esqueci de dizer que a gente até tenta ser educada, mas às vezes tem que usar a linguagem do interlocutor pra ele entender. E não é muito difícil encontrar homem que só é macho diante de uma mulher. Com outro homem, aí ele afina.


PermalinkPermalink 28.02.08 @ 18:01



Comentário de: Fábio Adiron

Estava com saudades dos textos, que bom que a persona blogueira voltou.


PermalinkPermalink 28.02.08 @ 18:05



Comentário de: Carola

Voltou!


PermalinkPermalink 28.02.08 @ 19:48



Comentário de: Paulo Netho

tem horas que precisamos destampar a panela e o riso é sempre uma boa medida. que delícia de texto.


abração


paulo netho


PermalinkPermalink 28.02.08 @ 22:48



Comentário de: Vilma

Um prazer estar aqui, pode passar com seu carrão que meu fusquinha já saiu da frente, tô dispensando os palavrões de duas letras…Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose para você também!


Um beijo!


PermalinkPermalink 28.02.08 @ 23:53



Comentário de: Laerte

"AMASSA-SE O BARRO, FAZEM-SE OS TIJOLOS, ERGUEM-SE AS PAREDES. MAS É PRECISO DEIXAR LACUNAS PARA AS PORTAS E JANELAS, QUE TORNARÃO A CASA HABITÁVEL. CORTÁ-SE O TRONCO, DESBASTA-SE A MADEIRA, FAZ-SE A RODA, MAS É PRECISO CAVAR O BURACO QUE PERMITE A INTRODUÇÃO DO EIXO. PORTANTO, O SER PRODUZ O ÚTIL, MAS É O NÃO SER QUE O TORNA EFICAZ"
(Lao Tsé;)

"UM HOMEM TAMPA NOSSO CAMINHO COM SEU CAMINHÃO. TENTAMOS A VIA DA PAIXÃO PRA RESOLVER A SITUAÇÃO. MAS O HOMEM NEM DA BOLA, MAIS PARECE UM TATU. ENTÃO, SÓ NOS RESTA UMA FALA: VAI TOMAR NO C…."
Hehehehehehehehehe. resolvido e pronto
Tô contigo e não abro
Laerte


PermalinkPermalink 01.03.08 @ 18:35



Comentário de: Cristiana Soares

HuAhUaHUaHuAHuAhUaHUaHuA!!!!!


PermalinkPermalink 01.03.08 @ 18:44



Comentário de: Cristiana Soares

HuAhUaHUaHuAHuAhUaHUaHuA!!
HuAhUaHUaHuAHuAhUaHUaHuA!!!
HuAhUaHUaHuAHuAhUaHUaHuA!!!!!


PermalinkPermalink 01.03.08 @ 18:47



Comentário de: Si

Cris, eu ri muito agora, pois eu lembrei de vc me contanto esta história pessoalmente, lá em Floripa. Se escrita ela já é hilária, imagina vendo vc encená-la ! rsrsrs Além de me fazer rir sozinha, me deu nostalgia e saudade de vc. Vou te ligar !
Super beijo pra vc e as crianças.
Si.


PermalinkPermalink 14.03.08 @ 19:02



Comentário de: Anonymous

Deve ser êste mesmo motorista.Eu passava quando ouvi uma velhina irritada. Só que a velhinha bateu forte.Aos gritos disse: Quer saber de uma coisa: ´vá tumá no c. da mãe! da mãe! ouviu? seu filho da p.t.Parece-me que o motorista estacionara na faixa de pedestres.


PermalinkPermalink 20.04.08 @ 01:19



Comentário de: Cristiana Soares

HuAhUaHUaHuAHuAhUaHUaHuA!!
HuAhUaHUaHuAHuAhUaHUaHuA!!!
HuAhUaHUaHuAHuAhUaHUaHuA!!!!!


PermalinkPermalink 20.04.08 @ 18:28



Comentário de: Tica

ri muito alto com esse texto!

PermalinkPermalink 07.10.09 @ 02:14



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