Às Marias da minha vida
Maria era negra e peituda. Bem-humorada, entendia tudo de novelas e contava histórias "reais" de saci, do tempo em que morava na roça. Existe uma mãe melhor do que essa? Assim, com olhos de filha, eu via as empregadas que passavam pela minha infância. A maioria se chamava Maria.
Minha mãe também tem Maria como primeiro nome. Mas era ausente na maior parte do tempo. Ou estava trabalhando fora. Ou estava em casa com a cabeça fora. De mim, pelo menos. Acho que na cabeça dela só cabiam meu pai e o primogênito, um menino "com problemas".
Então vinham as Marias me trazer calor, alegria e presença.
Maria da Conceição, Maria de Lourdes, Maria da Penha. Houve as Creusas também. E outras das quais esqueci os nomes.
Todas com ancas fartas e colos a granel. Colos por onde pulei um após o outro. Colos que minha mãe não ofertou. O máximo que ela liberou, uma época, foi um cantinho na sua cama nas manhãs de domingo. Mas sem abraços, por que aí já era abuso.
Noutro dia, disse-lhe por telefone, em tom casual, depois de anos de silêncio sobre o assunto, enquanto ela reclamava que o meu irmão mais velho não era de beijar: "Mãe, mas você nunca beijou a gente!". Ela ficou ofendidíssima.
Mas as Marias me salvaram do deserto de afetos maternos.
Meu irmão do meio também tem seu mérito. Foi com ele que aprendi o que é amor incondicional (mesmo ele me batendo de vez em quando). Vivíamos grudados (ou brigando ou nos beijando).
Meu pai deu uma cobertura afetiva até eu completar uns sete anos. Contato físico. Aconchego. Mesmo sendo um sujeito extremamente anti-social. Foi muito generoso comigo até uma certa hora em que os ciúmes que minha mãe sentia da nossa relação falaram mais alto.
Como era ela quem dormia com ele, acabei sobrando. Fim dos mimos paternos.
E o dia-a-dia era com as Marias. Fui criada como os índios. Na aldeia, há a mãe biológica e as outras mulheres que cuidam da curuminzada. Uma espécie de criação coletiva.
Foi com várias mães, correndo solta pelo bairro, escalando árvores e muros, fugindo de cachorro maluco no mês de agosto, que eu cresci.
Também no meio dos moleques, quando meu irmão me levava. E ele sempre me levava.
Vejo vantagens nessa vida sem porteira. A gente acaba ganhando autonomia existencial. Personalidade única. Independência emocional.
E a desvantagem: a gente fica meio selvagem e com dificuldades de adequação em um mundo formatado, principalmente, para as mulheres comportadas.
De uma Maria lembro em particular. Aquela uma a quem eu atazanava, numa fase especialmente peste da minha infância. Eu entrava pela porta da cozinha e, enquanto ela lavava a louça, mirava bem o alvo, saia correndo em sua direção, pulava nas suas costas e lhe arrancava o lenço da cabeça. Ela levava as mãos para o alto e me perseguia pela casa.
Mas a maldade-mor aconteceu numa tarde de tempestade com raios e trovões que prenunciavam o fim do mundo. Na minha descrença inata, evoquei Satanás, clamando aos céus, só para aterrorizar Maria, temente a Deus, crente das crentes.
Tenho uma tia que dizia que eu era o cão voando. Deve ser por isso que minha mãe não conseguia me alcançar para dar aquele beijo que eu nunca ganhei.
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Tive só uma Maria, a Azi. É uma de minhas tias mais velhas que ficou viúva jovem e cuidou de toda a família. Mora aqui comigo, é a criatura que mais amo na vida e minha mãe/trabalhadora/ausente nunca entendeu nossa cumplicidade silenciosa.
Onde andam estas Marias de anca farta e coração gigante que chegavam a gostar mais da nossa casa do que da delas…
Procura-se Marias.
Cristiana,
mesmo que esse teu (belo) texto seja ficção, agora entendo o porquê de você comentar aquilo sobre a família no meu post de ontem.
Abraços flores estrelas
Cris,
Dispostos a dar afeto de plantão sempre acabam marcando nossa memória. A minha Maria chamava-se Francisca. Mas ganhei muitos beijos de pai, mãe e irmão também. Bjs
Eu tenho uma Maria até hoje.
Com outro nome, mas também temente a Deus.
E sobre o conto em cima de noticiário, nunca vi algo parecido também.
A vida real consegue superar a imaginação ![]()
Que coisa mais gostosa de ler, moça.
Tô espionando seu blog há algum tempo.
Parabéns!
Té!
Certamente não seria por algum parágrafo que eu deixaria de comentar.
Mas o que vou dizer ? Se não dá para melhorar é mais sábio ficar em silêncio
Mas tenho um comentário que não tem nada a ver com o texto….
Gostava mais das outras fotos no snapshot
Postei um conto novo hoje, tá no ar.
Depois me passa seu e-mail, vou te colocar na minha lista (mando poesias todas as sextas para os amigos, além de algumas outras bobeiras).
Eu também tive Marias! Era a branca, a preta e a vermelha. Na verdade, a vermelha era preta tambem, mas assim nao havia confusoes.
A unica maldicao que lancei foi algo assim, na filha da preta: forças ocultas, poderes do mal, transforme a cristiana numa pessoa normal.
Parece que funcionou.
Abração
Fabio
Cris, amei seu texto. Muito, muito, muito. Acho que é um dos que mais gosto (ele acabou de nascer e eu já o adotei). Imaginei vc feito uma serelepe na infância. É a sua cara. Saudades! beijos
Lindo e verdadeiro. Quantos pais nao cobram dos filhos coisas que nunca foram ensinadas…
Demais, Cris. Nesse você estava inspirada, né?
Eu não tive uma Maria porque minha mãe sempre se desdobrou em mil para trabalhar e criar os filhos ao mesmo tempo, sem nunca deixar faltar nada. A gente nunca nem chegou a almoçar comida de restaurante ou de empregadas, acredita? Guerreira demais. Minha inspiração.
Mas ter tido uma Maria também é bom. Bom para aprender que não precisa ser do mesmo sangue para ter sintonia e para amar de maneira incondicional. Mais especial do que a família de sangue é a família que a gente escolhe.
Parabéns, baby!
beijo
A minha Maria era Rosa. A minha mãe, como a sua, nunca foi de beijos e abraços, então entendo muuuito bem até o que você não disse.
E eu sou a Maria do meu filho, porque mãe e Maria num pacote só é tudo de bom e é tudo o que eu sempre quis ter (apesar de que uma Maria para fazer a comida e limpar a casa seria um sonho).
Beijinho.
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