sobre a autora

Cristiana é redatora e escritora, carioca, mora em Sampa. Mãe da Luísa e da Lorena, apaixonada por comunicação e internet. Autora do livro "Por que Heloísa?", Companhia das Letrinhas.

blog do livro

blog do livro
clique na imagem


na vizinhança

na web

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

Quando se perde um bom partido


Ele morava em Marechal Hermes. Usava uma camiseta azul-marinho com estampa do coelho Pernalonga quando o vi pela primeira vez. Mansur foi meu ardoroso melhor amigo durante os anos da faculdade. Inaugurou um estilo, inspirou discípulos e fez folclore na ECO (Escola de Comunicação da UFRJ).

Éramos um grude só. Todos achavam que havia um algo mais entre a gente. Mas posso garantir que da minha parte foi um grande amor fraternal. Sei que ele me amava com maiores desejos. Mas mantinha-se na distância que protege os grandes amigos, se estes são um homem e uma mulher.

Chegou a me dizer certa vez que eu era sua musa inalcançável. E para o Sérgio Rodrigues, nosso amigo em comum, que só se casaria um dia se fosse comigo.

Mas Mansur era muito mais do que um namorado ou marido poderia ser para mim até então. Um amor que transcendia a qualquer atração física.

Você já amou uma pessoa exclusivamente pelo que ela é? E não pelo que ela representa, tem ou te dá? Sem querer nadica de nada em troca? Nem mesmo sexo?

Uma vez o encontrei acabrunhado sentado no meio-fio (lugar que freqüentávamos com assiduidade) em frente à escadaria da ECO. Era apenas fome e falta de alguns trocados. Paguei-lhe um sanduba. Mas dureza mesmo era quando faltava às aulas porque não tinha grana para pagar o trem.

Certa época, ele já um conceituado crítico musical do Jornal do Brasil (no tempo em que este era um dos melhores jornais do país), engordou em alguns meses tudo o que pôde.

"Você não acha que está muito gordo?" (principalmente se comparado ao Mansur etíope que conheci), perguntei a ele. "Não. Estou acumulando calorias. Se um dia passar fome novamente, terei reservas", respondeu-me.

Morou na minha casa uns meses, quando editava a revista Bizz. Deixou um balde com algumas roupas de molho, que apodreceram, pois nunca as lavou.

Cabelos encaracolados, dentes da frente separados. Uma personalidade tão única que é impossível compará-lo a qualquer ente que conheci até o momento. Um jeito de falar e de se comportar que foi rapidamente imitado por todos os outros colegas. Criou-se uma dinastia.

Muito amigo do Rogério Durst. Quando não estava comigo, estava com ele.

Assim, vendo que todos acabavam seguindo sua linha comportamental (e levando em consideração algumas semelhanças físicas), comecei a criar os parentescos.

Zé José era filho do Mansur com o Rogério. Minhoca era filho do Zé José com o Gláuber. Jorge era filho do Minhoca, portanto bisneto do Mansur. E por aí foi crescendo a família. Eu era mãe ou avó de alguns, já que Mansur era bígamo (na verdade o Rogério era o amante, o outro). Não estou lembrando exatamente como era essa árvore genealógica. Vou ter que consultar alguns descendentes.

Mansur foi um dos meus maiores parceiros. Só tive outro igual na infância. Meu irmão do meio. Mas o tempo passou. Eu e meu irmão nos distanciamos com o correr da vida. Veio o Mansur para preencher a vaga.

Um belo dia o apresentei à Kathia. E para minha surpresa eles começaram a namorar. Ela, enciumada com a nossa estreita relação, começou a se gabar e a me provocar dizendo o quanto eles "isso e aquilo". Eu, que intimamente sabia que Mansur era meu, idiotamente, resolvi comprovar qual era o meu lugar nesse triângulo.

O que vou dizer agora é uma coisa muito feia. Fiz e me arrependo.

Convidei Mansur para um barzinho em Botafogo. Lá, perguntei-lhe se não queria se casar comigo. Ele, na mesma hora, respondeu que sim. Beijamos-nos. Depois de longos e assexuados anos de amizade.

É de se esperar, pelo que narrei até agora, que não consegui sustentar essa "nova relação". Foi somente uma estratégia para melar o namoro dele com a Kathia. Para provar a mim mesma que eu era "a preferida".

Só em pensar no que fiz, morro de vergonha do espelho. Expor isso aqui é uma espécie de dívida que tenho com ele. E com a Kathia. Podem me crucificar. Eu mereço.

Depois que a menina mimada conseguiu o que queria, é claro que saiu pela esquerda. E acho que foi aí que detonei definitivamente nossa passional amizade. A partir de então, Mansur não foi o mesmo comigo. E lhe dou total razão.

Ele conheceu uma menina muito querida e com ela se casou. Foi generoso e me convidou para ser sua madrinha no religioso. Usou nobre luva de pelica e depois me abandonou para todo o sempre. Foi morar em Portugal e nunca mais o vi.

"Mansur, por que não me casei com você?" A pergunta que girou dentro de mim durante anos. Culpa da nossa cultura que reprime o incesto.


Permalink11.07.07, 19:41:00, by Cristiana Soares Email , Comportamento 21 comentários


Trackback:

http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/28583

Posts similares:
Adeus: a senhora do café, o tchau para o pai e o último dia
Arqueologia literária
Valquíria

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Atalho pra o formulário

Comentários, Trackbacks:


Comentário de: Carola


Tomara que Mansur leia isso!


PermalinkPermalink 11.07.07 @ 22:08



Comentário de: Anonymous

impossível comentar! tenho que ligar pra vc depois de ler isso! bjs! cin


PermalinkPermalink 11.07.07 @ 22:41



Comentário de: Erik Malagrino

Chorei quando li, pois vivo algo identico…


PermalinkPermalink 11.07.07 @ 22:50



Comentário de: cogitas3d

Olá Cristiana!


Adorei esse texto. Muito bom mesmo, não deve ter sido fácil para ti expor essa verdade, encerrada nas regiões abissais de tua alma.



Forte abraço e sucesso!


PermalinkPermalink 12.07.07 @ 00:21



Comentário de: Túlio

Texto lindo!
Deu uma tristeza saber que vcs não têm mais contato…


PermalinkPermalink 12.07.07 @ 00:21



Comentário de: Ana Silvia Mineiro

Cris, revi nossos dias de faculdade lendo seu texto. Fiquei emocionada. O Mansur foi o meu primeiro amigo na ECO, meu primeiro 'ficante' e meu primeiro 'amante' (só de beijo na boca, por alguns dias apenas), já que eu tinha um quase-noivo. Anos depois, numa porranca de dar gosto, dividimos, desmaiados, a mesma mesa de sinuca do DCE. Tomamos glicose juntos. Eu fui pra casa, ele dormiu no hospital (Marechal Hermes é muito longe de Botafogo para um corpo embebido em álcool). Tomou café da manhã na enfermaria, antes de cruzar a rua e entrar na ECO para mais um dia de aula. Tenho lembranças adoráveis dele, desenhos de pequenos monstros simpáticos que enchiam um cartaz que fez pra mim, desejando feliz aniversário. Na época, o Mansur tinha o sorriso mais estranho e tímido e querido que eu já havia visto, uma maneira única de falar, um ar de desamparo. Saudades dele, saudades da ECO.


PermalinkPermalink 12.07.07 @ 11:09



Comentário de: Lu brasil

Mana, atire a primeira faca nas costas aquela que não fez merda pra provar que o seu "Mansur" era realmente seu?
Eu ja fiz, e nem sei se me arependo nao, a terceira tem que saber seu lugar rs.
bjs


PermalinkPermalink 12.07.07 @ 12:39



Comentário de: jorge cordeiro

uau, sensacional o texto. Eu, que não peguei essa época, me vi novamente na Eco. E devo dizer que eu fui filho do Minhoca (pai) e Glauber (mãe), neto do Zé José…:)


beijos!



(ah, nao sei se o Mansur que comentou no meu blog é irmão ou mesmo parente desse aí. Também estudou na ECO… vou perguntar e te digo.)


PermalinkPermalink 12.07.07 @ 17:32



Comentário de: Marisa Sevilha Rodrigues

Cris, eu tb adorei o texto…vou apoveitar para ler seu blog inteiro neste final de semana…é incrível como, através de vc, e dos seus escritos, eu me recomponho diante das palavras, e sinto vontade de tomar-lhes as rédeas, finalmente, na vã tentativa de domá-las ou dominá-las…inútil tentativa.



bjs


PermalinkPermalink 13.07.07 @ 01:45



Comentário de: Gabriela Simionato Klein

Cris,


Vc se supera a cada texto. Transporta a gente para outro mundo. Joga para um lado, depois para o outro. Fecha com chave de ouro. Eta escrevinhadora boa esta!


PermalinkPermalink 13.07.07 @ 13:29



Comentário de: Sangue de Barata

tb gostei do texto, que conheci por acaso lá no escriba.
Vou voltar mais vezes.


PermalinkPermalink 13.07.07 @ 21:12



Comentário de: andrea

Cris,


Seus textos são maravilhosos! Este é de extrema beleza e delicadeza. Fiquei sinceramente emocionada.



Grande beijo,


PermalinkPermalink 18.07.07 @ 15:01



Comentário de: carina paccola

Cris,
Fiquei pensando bastante neste seu texto. Acho difícil julgar nossas escolhas passadas porque elas são feitas com o que temos e o que somos naqueles momentos.
Queria muito que aparecesse um outro Mansur na sua vida…
beijos


PermalinkPermalink 22.07.07 @ 18:21



Comentário de: Marina Tanner

nossa, nossa… como é que só fui ler isso hoje, menina?!


PermalinkPermalink 23.07.07 @ 20:17



Comentário de: simone

Cris nunca é tarde!!!!!
Quem sabe ainda vc vai para Portugal?????Ou ele fica viúvo e volta!!!????!A vida dá tantas voltas!!!!


PermalinkPermalink 25.07.07 @ 13:54



Comentário de: Lucia Freitas

Oi, Cris
Vim aqui porque a Gabi Klein falou que você era escrevinhadora de primeira. Eu completo: porreta!
Maravilhoso.
bjs


PermalinkPermalink 26.07.07 @ 23:17



Comentário de: Bello

Ri muito e me entristeci um pouco lendo suas lembranças do Mansur. Sorte a minha que estava por lá, naqueles tempos. Ele é, realmente, uma figura. Lembro de estarmos num encontro estudantil em Floripa. Acampamos dentro da UFSC e comíamos todos os dias no farto bandeijão de lá. Ele, duro como sempre, ainda dava um jeito de entrar no restaurante sem pagar, andando de costas, pela porta de saída. Era uma atração à parte em nosso almoço. Também foi companheiro da Raposa, em sua primeira coma alcoólica de calouros. Terminaram a noite, juntos, no Rocha Maia. Vc e ele estão fazendo falta aqui no Rio. Um beijo.


PermalinkPermalink 02.08.07 @ 18:14



Comentário de: Paulo Sacramento

Caracas… esse lance de amizade entre homem e mulher tem hora que é complicado…


PermalinkPermalink 25.08.07 @ 03:32



Comentário de: Deds

Uau. Aqui vc abriu sua alma mesmo… <img src="/blogs/rsc/smilies/icon_smile.gif" alt=":)" /> Eu acho que falhas como essas sao compreensiveis, por mais que acabemos por magoar aqueles que estao em nossa volta com atos como esses. Voce nao fez por maldade, fez por amar demais. Fraternalmente. E reconheceu que foi infantil.

Eh o caso do brinquedo na prateleira… A menina nao brinca e nao deixa ninguem brincar com ele.

E vai ver que a tal da Katia nem era a mulher da vida dele… Quem saberá se nao foi melhor assim? <img src="/blogs/rsc/smilies/icon_smile.gif" alt=":)" />

Nao ha ninguem para escrever a historia do que poderia ter sido.
Ufa.


PermalinkPermalink 30.12.07 @ 01:27



Comentário de: Anonymous

O bom de não ter dado certo êsse relacionamento, foi, que deste fato , resultou êste texto.


PermalinkPermalink 21.04.08 @ 02:41



Comentário de: Dona Zefa


Lendo esse seu texto, tive a vontade de chutar o balde e escrever tudo aquilo que reprimo dentro de mim.


PermalinkPermalink 21.07.08 @ 16:36



Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Post anterior: Quando eu descobri que mulher é diferente de homemPróximo post: Lançamento do livro "Por que Heloísa?"


[ La Brute - Jogo Online em Flash Grátis ]