Primitivas, graças a Deus!
Fico imaginando como terá sido o primeirão. Quando a primata pré-histórica fabricou outra vida dentro de si. Provavelmente essa habilidade deve ter surgido aos poucos e em complexas fases, como toda a evolução biológica. Mas deve ter havido um momento divisor da espécie.
Uma fêmea rude e cabeluda deu o seu grito primal e de sua víscera saiu uma nova criatura. A mãe primitiva, sem entender o que se passara, olhou para aquela coisinha feia e também cabeluda e ficou perdidamente apaixonada.
Nem todas as mães têm essa reação de afeto imediatamente após o parto. Algumas rejeitam, no começo. Outras rejeitam para sempre. E ainda há as que jogam o rebento na lata do lixo ou no rio mais próximo. Mas não julgo nenhuma delas. Sinto pena e preocupação.
Vivi duas experiências opostas. Um parto dramático que deixou seqüelas na minha primeira filha e nas nossas vidas. E outro, que foi um case exemplar. O parto mais fácil e rápido de que já ouvi falar.
Não esqueço a sensação dos ossos do meu quadril se abrindo para dar passagem ao fluxo da existência.
Parir sempre esteve nos meus planos. Quando alguém me perguntava o que eu queria ser quando crescesse, não sabia o que dizer. Mas respondia, secretamente, para mim mesma: "parideira".
Já adulta e explicitamente grávida, quando alguém me dizia que eu era corajosa por optar pelo parto natural, pensava cá comigo: "De que outro jeito poderia ser? Cortando minha barriga? Para isso sim é preciso ter coragem".
Nem de anestesia eu fiz questão. Prefiro a dor produtiva a sua ausência artificializada. Além disso, sempre tive horror a anestesia. Pode dar chabu.
Mas chabu mesmo deu meu primeiro parto. O médico mandou induzi-lo e foi passear. Só voltou na hora H, quando eu já estava quase desfalecida de tanta dor. Overdose de ocitocina sintetizada. Li depois em um artigo científico que esse hormônio indutor, em doses não adequadas, pode causar sofrimento fetal. Foi o que aconteceu.
Mesmo esse drama não contaminou a surpresa de ver a carinha da minha filha, ainda toda inchadinha e silenciosa. Abriu-me uma nova dimensão. O tempo se perdeu. Os valores deram cambalhotas. O sentido da vida, enfim, ali. Cor de rosa e frágil.
Meu segundo parto conseguiu transcender às expectativas, medos e crenças. Conspiração dos céus, com o propósito de me fazer acreditar num mundo justo e numa possível existência de Deus.
Mesmo sendo agnóstica, ao ver minha segunda filha chorando a todo vapor e intacta, levantei os dois braços em direção ao teto e gritei repetidamente por um certo tempo: "Obrigada Senhor! Obrigada Senhor! Obrigada Senhor!". As enfermeiras pensaram que eu era da Igreja Universal.
Em seguida sussurrei palavras ininteligíveis de boas-vindas para a recém-chegada. Ela se calou imediatamente numa expressão de atenção como se dissesse: "Êpa, essa eu conheço!"
Milagre. Deve haver um Deus sim, Marx! Não é possível aquilo vir só de uma natureza evolutiva, Darwin!
Todas às vezes em que assisto ao programa, seja que tipo de parto ele estiver documentando (horizontal, de cócoras, dentro da água), no momento em que um corpinho sebento e chorão vem à luz, sinto vir à tona a herança genética que me liga aquela fêmea pré-histórica.
E, no país de primeiro mundo e tecnologia de ponta, não há desculpa de cordão enrolado no pescoço, pouca dilatação, bebê muito grande ou pressão alta, para se optar pela cesariana. O negócio é selvagem mesmo. E é disso que eu gosto.
Pelo menos nessa hora não precisamos ser belas, sem celulites, nem profissionais de sucesso. Apenas uma mulher primitiva e cabeluda.
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Acho que nunca li um post seu que não fosse no mínimo, fantástico.
Parabéns mesmo, pelo texto e por seguir o fluxo contrário da natureza brasileira e ter optado pelo parto normal!
Abraços!
Cris,
E não é isto o que somos? Fico pensando que o intuito de muita terapeuta é que o paciente se aceite, seja ele mesmo. Muita gente define felicidade assim. E neste mundo tão "plástico" é enorme a quantidade de gente perdida por viver uma vida fabricada, sem contato nenhum consigo. E vc teve a maior graça do mundo, a de saber o que queria. Graça número 2 concedida: ter a consciência disto. A terceira graça? Escrever tão lindamente sobre isto.
Lindo!
Beijos
Gabi
Bem, só pra dizer q sou seu fã !!!!!
Ler seus textos colore a vida!!!
Meus 2 filhos tb nasceram de parto natural e eu estive de corpo presente nos 2 e uma das mães vc conhece muito bem.
Bj grande
Elcio.
"Mas respondia, secretamente, para mim mesma: "parideira"." foi das coisas mais bonitas que já li a esse respeito.
Critiana, lendo teu post sinto até as dores do parto! Selvagem, parideira, fêmea. Com prazer, claro!
Eeee Cristiana! a Gabriela Simionato me avisou pra passar por aqui pois estamos falando do mesmo assunto, depois dá uma passada lá no meu blog… adoro suas pitadas de humor até quando o assunto é tão sério. Um beijo pra vc.
Lindo texto!!!!
Hoje conheci um outro lado seu e tbm gostei muito!!!
Continuo sendo sua fã!!!!!!!!!!
Beijinhos!!!
Cristiana, vi teu comentário sobre o relato de parto que o Felipe escreveu e resolvi vim aqui te conhecer melhor.
Eu ando bem 'partófila', achei que a onda ia baixar logo mas a Dora já está pra fazer 1 ano e meio e relatos de parto, debate sobre atendimento ao parto e tudo mais ligado ao tema continua mexendo comigo… Gostei muito das coisas que você escreveu aqui (eu vivo repetindo pras pessoas exatamente o que você diz sobre a coragem e o parto natural), e também fiquei tocada demais com a história do nascimento da Luísa.
Sou carioca em Sampa, trabalho com texto (tradução, especificamente), mãe de duas meninas. Acho que temos algo em comum.
beijos e muito prazer,
Olá Cristina!
Mas do que nunca, ao ler este teu texto visceral (todos sempre são!) sou obrigado a concordar com o Caetano Veloso… a única inveja que ele tem das mulheres é da exclusividade delas de parirem os filhos…
Acompanhei o parto de uma das minhas filhas, mas nas três gravidez tive esse seu mesmo sentimento:
"Milagre. Deve haver um Deus sim, Marx! Não é possível aquilo vir só de uma natureza evolutiva, Darwin!"
Sentir a barriga crescer todos dia, depois começar a mexer e por fim sair um criança de lá é uma experiência única…
Nas três vezes eu sempre fiquei surpreso, abobado e agradecido a Deus pela experiência!
[]'s
LINDO texto. Eu, que ainda não sou mãe e nem acho que seja a hora, tenho certeza de que, quando for a hora de começar a planejar a vinda do baby, vou dar um passo para um mundo novo, lindo e sem volta.
Parabéns e vê se aparece!
Beijoooo
Fico tão feliz em saber que esse não é um assunto "de meninas", quando leio os comentários do Bruno, do Élcio, do moço da "física"…
Os homens que estão presentes "na hora" com certeza têm muito mais chances de formar um vínculo íntimo e duradouro com seus filhos. Quanto mais puderem estar presentes, melhor. E isso vale por toda a vida.
Gabi, adorei vc levantar essa questão do "autocontato"…
Carola, eu não me lembro, com certeza, se cheguei a pensar exatamente nessa palavra, mas, com certeza, era exatamente no significado dela que eu pensava.
Letícia, gostei do apoio. E tb quase cheguei a sentir as dores enquanto escrevia.
Marina, que sintonia mesmo, hein? Deixei comentário a respeito lá no seu blog. Quem fez a ponte foi a Gabi, né?
Simone, tá vendo, eu não sou tão cética e descrente assim como vc pensava… heheh…
Dani, vc foi aquela do parto em casa, não? Sensacional! Adorei ler a respeito na narrativa do seu marido e a invejei, sabia? Pois esse foi um sonho: ter minhas filhas em casa… Tentei entrar em contato com vc pelo link, mas dá num perfil indisponível. Vou tentar outro jeito… precisamos nos conhecer!
Carla, é sem volta mesmo!!! Hehehehe… Pro bom e pro ruim. Mas posso garantir que o bom ganha de 98%.
Física do CP2, se eu fosse homem tb teria inveja da gente! Hehehe… Deve ter sido por causa disso que freud inventou aquela picaretagem de que a mulher tem inveja do pênis… quá, quá, quá! A única inveja que sinto dos homens já descrevi aqui em outro post: "Eles não têm angústia. Eles Têm o futebol".
Elcinho, sou testemunha: vc é um paizão…
Bruno, fiquei impressionada realmente com o seu comentário. Nunca imaginei que um cara de vinte e poucos anos fosse se interessar por um texto como esse. Que bom que a gente se engana e se surpreende nessa vida. Obrigada.
Cristiana.
Que delícia ler teu blog!
Não consegui ler todos os textos, mas vez em sempre estarei passando por aqui, para apreciá-los.
Encontrei ele, através do blog da Gabriela Simionato, que também é muito bacana.
Continue nos contemplando com teus belos textos.
Bom domingo.
Guilherme
Cristiana, eu vi o lance do perfil indisponível mas não consegui arrumar. Escreve pra mim no kaleidoscopio_blog@hotmail.com. Depois de comentar sobre o texto do parto fiquei lendo mais coisas e vi que vc foi da ECO também! Este mundo realmente é um ovo de codorna. ![]()
cris, seu relato é fantástico! as mulheres são mesmo bicho esquisito…
bjs
Oi Cristiana, tudo bem?
Adorei seu texto, sei bem o que você quer dizer. Sou mãe de três, e antes de ser eu sonhava com um parto exatamente como você descreveu. Sou agnóstica também, mas se existe algo de sagrado nessa vida no parto isso deve se manifestar em sua amplitude máxima. Infelizmente não foi assim comigo, tive três cesárias, sendo que ná última foi tão traumatizante que mal lembro do meu bebê na sala de cirurgia. Coisas da vida, nem sempre podemos viver o que sonhamos do jeito que sonhamos… O que importa mesmo é aquele cheirinho maravilhoso de bebê que fica!
Abraço!
olá, miga-de-blog… vc continua perfeita… continuo curioso, por isso venho "dar meus pulinhos" por aqui de vez em quando - o "siteMeter" que o diga - pra me inspirar… sensíveis bem ao meu gosto, suas palavras continuam emocionando… parabéns, Cristiana…
Gostei muito deste post. Mas por não ter conseguido ter o meu filho por via natural, fiquei deprimida…noutros tempos que me teria acontecido ? Bem, a vida é curta e vivemos noutra era. Viva a maternidade, com cortes ou sem ela… Beijos
Cristiana,
Os programas do Discovery Home & Health são realmente maravilhosos. Depois dos partos, é só emendar com um reality show sobre como criar os filhos e a vida fica uma beleza.
Eu, como ainda não tenho prole, fico só me preparando =)
*PS: Confesso, de todas as coisas que eu imaginei ser na vida a única que não mudou é o meu desejo em ser mãe. Acho que nasci pra ser uma 'parideira', como você mesma disse.
Beijo e obrigada pelo comentário no blog.
Cristiana,
fiquei muito feliz lendo o seu blog, e resolvi te contar a história do meu segundo parto. Também foi muito rápido!
"Ele chegou na sexta-feira, dia 19 de janeiro, às 19:54h. Chegou pesando 3,035 kg e medindo 49 cm.
Ele é lindo! Fofo, calminho. E chegou com pressa!
De manhã a minha médica havia dito que não estava bem encaixado, mas que o colo do útero já estava "mais fino", mas não tanto quanto deveria. E que eu deveria esperar entrar em trabalho de parto no fds, mas que não havia como garantir que seria na sexta.
Fomos pra casa, e estávamos assistindo TV, eu e a Cláudia (minha sogra, um anjo). Meus instintos diziam que seria naquela noite, e eu já estava com contrações a cada hora e meia. Entre elas, umas colicazinhas bobas, sem importância (assim eu achava…
.
Quase 18h, resolvi tomar um banho, lavar os cabelos e secá-los (pra ficar com uma cara de gente, quando fosse pro hospital…
. Entrei no chuveiro, e a água quente, muito relaxante, desencadeou o trabalho de parto, uma contração atrás da outra! Achei que não conseguiria tirar todo o shampoo…
Saí do banho e liguei no celular do meu marido. Ele desligou. Pensei comigo: "se ele não entrar pela porta AGORA, eu o mato qdo chegar!!" E ele entrou.
Falei que era melhor a gente iro pro hospital, e ele achou que era melhor contarmos os intervalos entre as contrações. Começamos a contar: 2 minutos!!!
O Caio ligou para a médica, que disse que já era pra termos ido. Voamos para o hospital, saímos de casa umas 19:10h. Chegando lá, o médico de plantão quis que eu andasse até a maca, e eu dizia: "eu não consigo! me leva mais perto!" e ele: "vamos, já passou a contração!", mas ele não entendia que estavam muito próximas uma da outra.
Ele quase caiu pra trás qdo viu que estava com dilatação total. A Dra. Leonor (minha médica) chegou em seguida, e pediu uma maca imediatamente, ou o Ravi nasceria na recepção mesmo. Ainda bem que a bolsa não havia estourado, ou ele teria nascido em casa mesmo…
Subimos para o centro cirúrgico, o anestesista perguntou se era pra dar anestesia ou não, e eu disse que sim. Após a analgesia, tive uma contração, e na segunda o Ravi "pulou"! Eram 19:54h, arrebentou a bolsa, trouxe placenta, foi muito rápido! O Caio assistiu a tudo do meu lado.
Ele teve Apgar 9 e 10, muito bom!
No sábado, o Cauê veio conhecer o irmãozinho, e ficou encantado!
Foi muito lindo ver os 3 juntos, fiquei emocionada…"
Beijos e parabéns pelo blog. Já está nos meus favoritos.
Cris, querida, também tive filhos de parto natural, um deles sem anestesia nem nada - nem mesmo um centro cirúrgico -, e sei exatamente o que é essa sensação primitiva. Nos dois partos, percebi que saí do meu corpo. Tenho um lapso de memória exatamente no momento da expulsão, como se eu deixasse a carcaça e me voltasse para dentro, para puxar aqueles bacorinhos para a vida. No nascimento do Ivo, me lembro de gritar com a enfermeira que segurava o bebê lindo e queria dar um tapinha no bumbum dele para chorar porque estava meio roxinho: "você não vai bater no meu filho, não, me dá ele agora!"
Eu sangrava, mas sentia que havia uma força enlouquecedora que me faria partir para cima dela, se desse a tradicional palmada nele. Isso foi primitivo, foi ancestral, foi instintivo.
Ela percebeu e me entregou o neném - eu falava sério e ela não queria apanhar.
Em vez de tapa, enrolei meu filho em panos e o aconcheguei nos braços, para aquecê-lo, e ele ficou coradinho, sem choro nenhum.
O nascimento é uma bênção, é um momento de renovação de forças. É o momento em que entendemos todo o nosso mecanismo feminino.
Ta aí um dos prazeres (hÃ?) que nunca sentirei na vida: o parto.
Simplesmente excelente o texto.
Os vídeos não estão mais acessíveis, mas mesmo assim, Cris… É MARAVILHOSO!!!!!!!!!!!!!!!
E o seu texto…ah! o seu texto!!!
Nos faz pensar, sobre os partos normais: Isso é que é tecnologia de ponta!!!!
Cristina, parabéns pelo texto!!! Muito emocionante e tocante.
Sou mãe de uma menininha nascida de cesárea (pélvica) mas sonho com meu VBAC que espero seja num lndo parto domiciliar.
Vou adicionar seu blog nos meus favoritos.
Bjs, Paty Bortolotto (cheguei aqui por meio da PP).
Olá Cris, já nos falamos antes.
Só agora q achei seu orkut (por acaso), rs.
Gostei mto. do texto "PRIMITIVAS, GRAÇAS A DEUS".
Concordo com td que vc disse.
Eu tbém sou espectadora de "Maternidade".
As 19h ou as 00h eu estou assistindo com certeza.
Sempre quis ser mãe, sempre mesmo.
Qdo. era adolescente e me deparava com problemas (eu os achava enormes), enfim o que sempre me consolava era lembrar que um dia seria mãe e que ai sim eu seria feliz completamente.
A principio o q me facinava era mesmo estar grávida. Sempre tive loucura por isso.
Acho q comigo aconteceu na hora certa.
Tinha 23 anos, mais por conta de uma pré-eclampsia fui submetida a uma cesariana de emergência que salvou a minha vida e de minha filha porém ficaram sequelas até hoje.
Minha filha teve PC e hoje eu luto em sua reabilitação.
Luto p/ ser forte, p/ continuar…é mto. difícil mesmo.
Agora eu sei o que são problemas de verdade.
Mais não lamento, acho q ser mãe foi td que eu sempre quis.
Lamento por não ter tido talvez o parto dos meus sonhos…quem sabe um dia?
Hoje estou com 26 anos e minha filha 3.
Ela se chama Laila Vitória e eu Luciene.
Cris um beijo e parabéns por suas filhas lindas.
Agora vou tentar saber mais sobre o livro, tem p/ vender em Santos?
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