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Cristiana é redatora e escritora, carioca, mora em Sampa. Mãe da Luísa e da Lorena, apaixonada por comunicação e internet. Autora do livro "Por que Heloísa?", Companhia das Letrinhas.

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Futebol, trauma de infância

Meu avô fumava Alfa e ouvia futebol no radinho de pilha. Meus tios também. Aos domingos. Criança também tem depressão, sabia? E naquela época não tinha remédio bom para os nervos que nem tem hoje.

Domingo, sofrimento arrastado, com trilha de radinho mal sintonizado.

Flamenguista a vida toda, meu avô virou a casaca. América. Até hoje eu não entendi o motivo. Mas aprendi o hino: "Hei de torcer, torcer, torcer. Hei de torcer até morrer, morrer, morrer…"

E meu avô morreu. Torcendo. Sem me dizer o porquê da troca de camisa. Desconfio que foi pela predileção que tinha pelo filho caçula, meu padrinho Lico.

Tio Lico, americano, e tio Denga, flamenguista, ganharam umas três ou quatro vezes na loteria esportiva. Junto com zilhões de outras pessoas, o que era motivo de chacota na família.

Filipetas da loteria voavam como leves penas a granel no quintal do meu avô. Eu e meu irmão íamos catando uma a uma. Era divertido preencher as colunas. Mas aí chegava a noite de domingo. Aquela zebrinha do Fantástico lá. Com aquela boquinha patética e aquela voz ridícula. A depressão chegava em seu cume. Era morrer ou dormir.

Eu ia pra cama. Pois havia a promessa de uma segunda-feira por vir. E o que era dia ruim para os adultos, era a minha salvação. Nem tudo acabava em futebol. Havia as segundas.

Esse ritual acompanhou toda a minha infância. E talvez explique meu trauma de futebol. Mas por que só comigo? Por que com meus primos não? Por que eles continuam a ouvir, a ver, a torcer e a discutir futebol até hoje? A explicação pode estar em uma alteração maligna no gene masculino.

Mas há mulheres que amam futebol. É verdade. Conheci uma, certa vez. Aliás, minha melhor amiga no colegial. A Luciane era Fluminense. Era não, ainda é (melhor cuidar, caso a reencontre). Fluminense doente, como se diz entre os torcedores.

Enquanto eu e outras meninas éramos doentes pelos rapazes e nos apaixonávamos pelos professores, Luciana desenhava o escudo tricolor nos seus cadernos. Escrevia repetidamente palavras como "Flusão", "Nense" e frases: "Eu amo o tricolor" etc.

Luciane gostava de meninos. Mas, assim como os homens, priorizava o futebol. Casou, teve filho, separou. E continua fiel ao Fluminense, até que a morte os separe.

Vê como eu odeio mesmo futebol? Minha melhor amiga do colégio era fanática, o homem com quem eu queria casar, Chico Buarque, também. E olha a coincidência: Chico também é tricolor. Se eu gostasse de futebol, até teria um time já escolhido.

Hoje, tenho amigos de todos os times. Eu os aceito como são, com seus genes futebolísticos, com os times que escolheram.

Pois se assim não fizesse, morreria não de depressão, mas de solidão. Sem energia masculina à minha volta, eu não vivo. Então uma coisa compensa a outra. Sinto saudades do meu vô e seu radinho de pilha.


Permalink30.11.06, 19:53:00, by Cristiana Soares Email , Comportamento 27 comentários


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Comentário de: Anonymous

Como sempre, mais um ótimo texto. Parabéns! =)


A propósito: sou uma dessas mulheres que amam futebol. E sou Santos, sempre Santos!


Beijo.


PermalinkPermalink 01.12.06 @ 10:41



Comentário de: Ana Vivência

Crisóstoma,
meus domingos, e não o futebol, ainda são fantasmas do mal na minha vida. Sempre foram dias de prostração e insegurança do porvir.
Mas, como para você, para mim a magia também chega às segundas-feiras, com o grande arrastão da vida, que, sei lá por que, me faz lembrar da roda do Dodô, o pássaro marinheiro, de Alice no País das Maravilhas.


PermalinkPermalink 01.12.06 @ 10:49



Comentário de: Cinthia

cris do céu! super-hiper-mega-blasted-plus-advanced me identifiquei com o seu texto! só que meu avô torcia para o bahia!!! eu lembro até hoje da vinheta do rádio, com aquela voz de, bem, rádio: "bahia-ia-ia-ia-ia… dois! vitória-ia-ia-ia-ia-ia… zerooo!!!" rsrsrs eu o-di-a-va!!! ficava deprê tb! mais ainda quando entrava o sílvio santos na tv (meu avô ouvia o rádio e todo mundo assistia à tv, tudo ao mesmo tempo, no mesmo sofá;): "e a sônia lima lá, lá, lá, lá, lá…" menina, que suplício!!! eu adorava as segundas-feiras! tinha gosto de vida! era como se a vida voltasse ao movimento! o domingo era um lapso, um gap, um 'pause'… sei lá. AMEI!!!


PermalinkPermalink 01.12.06 @ 19:53



Comentário de: Anonymous

belo texto, em rima e métrica. Você conseguiu falar de futebol de uma maneira feminina, quase Clarice Lispector, amarga e saborosa.
beijos!


PermalinkPermalink 01.12.06 @ 20:20



Comentário de: LeticiaBúrigoTK-1288

Cristiana,
tardes de domingo com fantástico quando criança…Sabes o que me lembra ? Os trapalhões! <img src="/blogs/rsc/smilies/icon_wink.gif" alt=";)" /> Mas eu queria ver o Didi e minha mãe me levava pra missa, era sempre uma briga, Os trapalhoes eram usto no horario da missa!! Chegavamos de volta, a tempo de ver a zebrinha…
Esses pais nos fazem cada coisa! hehehe
Leticia


PermalinkPermalink 01.12.06 @ 20:25



Comentário de: Serjones

aquela zebrinha era realmente de foder… pau na coluna do meio dela!


PermalinkPermalink 02.12.06 @ 13:52



Comentário de: Cristiana Soares

Carla, vc conhece alguma pesquisa que mostra a porcentagem de brasileiras amantes de futeba? Tenho essa curiosidade…


Ana Vivência, nunca vi uma segunda-feira ser tão lindamente definida.


Cínthia, morri de rir com sua "super-hiper-mega-blasted-plus-advanced identificação"!! E lembrar a Sônia-Lima-lá-lá-lá é megadeprimente!!!



Anônimo, eu pensava que anonimato servia apenas para encobrir opiniões ofensivas. Elogio anônimo é uma surpresa pra mim.


Letícia, bem que a missa poderia ser na hora da Zebrinha, né?


Serjones, vai ver que foi um pau na coluna do meio que mandou a Zebrinha de volta para o raio que a parta!


PermalinkPermalink 02.12.06 @ 15:27



Comentário de: Ricardo Belmonte

parabéns pela coluna "Futebol, trauma de infância", você descreveu exatamente a depressão dominical que me acometia quando novo…naquele tempo, dia de domingo não tinha empregada doméstica em casa e, por isso, além do barulho do radinho, jornais voavam de forma blasé pelo chão da casa, tudo bem bagunçado, mas uma baderna que não parecia incomodar a família inerte naquele dia da semana, tal como irritaria em dias úteis…enfim, parabéns!


PermalinkPermalink 02.12.06 @ 16:19



Comentário de: Ana K.

Cristiana,
Obrigada por ter visitado o meu blog, que acredito que vc tenha encontrado pelo link no blog do meu amigo Fausto, o Boteco Sujo, que tá linkado aí o lado. Também adorei o seu blog e o seu texto sobre futebol me fez mexer em muitas lembranças boas.
Ah, o design do Duelos y Delícias foi uma amiga designer que me "deu", como meu presente de 30 anos, no começo deste ano.
Apareça mais vezes!
Beijos!


PermalinkPermalink 02.12.06 @ 20:48



Comentário de: Marina Gaya

OI Cris…amei seus textos..mas o do futebol me fez relembrar um velho trauma de infancia…kkk….

Eu faço aniversário dia 12/12…e venho de uma casa de fanáticos por futebol…acontece que sempre no fim de semana que faríamos meu aniversário era a final dos campeonatos nacionais de antigamente…e eu tinha que ficar controlando a hora ds festinhas para não chocar com o jogo….kkk…me lembro que me achava injustiçada por nascer nesta data…kkkkk…
Trauma ridículo né…mas vou agora mesmo ligar pro meu pai e contar pra ele que me lembrei disso…ele vai ficar com mais um pesinho na consciência…kkk….

Parabéns pelos textos…adorei

Beijos


PermalinkPermalink 04.12.06 @ 08:22



Comentário de: Anonymous

Me conte T-U-D-O sobre esses números da pesquisa de mulheres amantes de futebol!!


Sobre meu post, não tinha lido a entrevista na Trip. Acabei agorinha de ler. Esse senhorzinho é único, né? Que figura! hahahahahah


Beijo.


PermalinkPermalink 04.12.06 @ 13:23



Comentário de: Dulcineia

Oi Cristiana


Que texto legal. Uma delícia! Pelo jeito você remexeu o baú de lembranças de muita gente, inclusive o meu.


Lembro de voltar da casa dos meus avós nos domingos à tarde, quando era criança. Uma viagem de 70 km, com o sol caindo e o rádio sintonizado em alguma emissora AM cheia de chiados chatos, o que torna muito pior qualquer narração de jogo de futebol.



Parece que até consigo sentir de novo a dor de cabeça que essas viagens me provocavam. Mas da zebrinha eu gostava!


PermalinkPermalink 04.12.06 @ 17:32



Comentário de: Cristiana Soares

Carla, mas eu perguntei se VC conhecia. Eu não conheço…


Marina, como dizia minha filha, Lorena, quando era pequenininha: "Isso não é justo!" (cruzando os braços em sinal de protesto)


Dulcineia, rádio chiando e narrando futebol, dentro do carro, no crepúsculo… ai, ai, ai… nem Prozac resolve…


PermalinkPermalink 05.12.06 @ 09:24



Comentário de: erika pelegrino

Cris, os domingos embalados pelas narrações de futebol afetaram muita gente,heim? Eu também faço parte deste "time" (hahaha). Aos domingos meu pai socava a família toda no carro - cinco filhos e a mulher - e saía para passar….no rádio, óbvio, um jogo sempre importantíssimo rolando….me dá arrepios só de lembrar daqueles passeios. Cinco crianças literalmente esprimidas no banco de trás de uma caravan - carro relativamente grande, mas não o suficiente, para não nos sentirmos sardinhas enlatadas - nossa aquilo era horível..eu odiava domingo, e para mim tbm, era a expectativa de uma segunda-feira que me fazia suportar os domingos, com o passeio em família e o futebol no rádio do carro…. Não suporto futebol!!! E os domingos ainda me são penosos…..!!!!!

Cris seu texto está maravilhos
grande beijo
saudades!


PermalinkPermalink 07.12.06 @ 13:22



Comentário de: Gabriela S Klein

Lindo, lindo, lindo! Depressão de domingo na infância, saudade do avô querido, sensação de não fazer parte do grupo "futebolístico"…Teu texto me abraçou e me fez sentir menos sozinha nas minhas sensações de infância.



Obrigada


PermalinkPermalink 07.12.06 @ 16:20



Comentário de: Carlos Romero

Posso te linkar no meu blog?


PermalinkPermalink 09.12.06 @ 13:18



Comentário de: Anonymous

Eu também já quis me casar com o Chico Buarque :-)
beijos pra vc, Cris!


PermalinkPermalink 11.12.06 @ 15:33



Comentário de: Anonymous

ah sou eu, Viviane…amiga da Carina de BSB…


PermalinkPermalink 11.12.06 @ 15:34



Comentário de: Gabriela

GENIAL, nossa!!! primeira vez que entro aqui e não me arrependo, você conseguiu traduzir parte da minha aversão ao futebol em algumas linhas. E olha que os homens da minha família nem são muito "futebolísticos"… abraço.


PermalinkPermalink 14.12.06 @ 17:27



Comentário de: Anonymous

Olá, Cris!



Escrevi sobre o seu blog no meu! Dá uma olhada quando tiver um tempo!


Beijo!


PermalinkPermalink 20.12.06 @ 10:39



Comentário de: Carola

Eu gostava da zebrinha e adorei relembrá-la com seu texto!


PermalinkPermalink 30.12.06 @ 10:31



Comentário de: Sam

Cristiana, hoje não temos mais os radinhos (como é que eles entendiam o que se passava só ouvindo?) mas algumasx sortudas tem maridos tricolores que ouvem os jogos na CBN e depois assistem aos repetecos no Sport TV e aguentam o Milton Neves! Eu tb aprendi a amar a segunda-feira!
Detalhe: meu marido não é FLU, é SPFC, já pensou quanta noticia aguentei em 2006?
Adorei seu texto e passarei aqui com mais frequência. Descobri vc pelo Desabafo de Mãe!


PermalinkPermalink 10.01.07 @ 11:24



Comentário de: Diegio Cox

O que é sensacional, o post ou o comentário do Alê ? hehehehehe


PermalinkPermalink 11.01.07 @ 10:28



Comentário de: Diego Cox

muito obrigado,
fico muito lisonjeado com o elogio…

:-)


PermalinkPermalink 11.01.07 @ 10:53



Comentário de: Bruno Fontes

Que isso, eu sou homem e ODEIO futebol!



Não precisa generalizar! =P


PermalinkPermalink 05.02.07 @ 00:04



Comentário de: Carla Beatriz

Eu também tenho o futebol como trauma de infância, mas por outro motivo …


Te convido a conhecer meu blog: Vai, Carla! Ser Gauche na Vida! , já que fiz um post a respeito.


Beijos


PermalinkPermalink 02.04.08 @ 16:01



Comentário de: AtomicBlue · http://www.twitter.com/atomicblue

Sabe aquela - q eu canso de postar no meu twitter: “O esporte é a alta cultura dos sem-imaginação, que são 3/4 da humanidade.” (Paulo Francis, RT @KosherX)?
Então, acho que ilustra bem não só a influência do futebol no Brasil, mas o motivo pelo qual eu o detesto - bem como toda a renca. Não é que esporte seja ruim, mas, fazer dele sua "ALTA CULTURA"... né? É pra chorar. Ao menos pra mim.


Sobre os domingos depressivos... acho que o domingo tem espírito de auto-reflexão, introspecção. Nem que seja sentimentalmente falando.

Abraço.

"O aspecto mais triste da vida atual é que a ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria." (Isaac Asimov)

"Conhecimento é ação, do contrário é só informação" (Albert Einstein)

PermalinkPermalink 24.05.09 @ 19:10



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