Cobrador para quem precisa
Brigou com a mãe por telefone e desceu pelo elevador para pegar um ônibus de Laranjeiras a Botafogo. Enquanto passava na roleta, um bandido que acabara de assaltar um botequim da Rua das Laranjeiras entra pela porta da frente apontando o revólver para o motorista, gritando: “Fecha as portas e segue em frente! Não pára! Não pára!"
Ela pensou se aquilo não era uma espécie de praga que sua mãe rogara.
O ônibus ainda estava quase vazio, pois havia acabado de sair do ponto final, no Cosme Velho. Umas seis ou sete pessoas. A essas alturas, todos no chão. Então ela sente o corpo de um homem magro arqueado sobre o seu. O braço dele por cima da sua cabeça.
Foi tudo rápido e instintivo. Era o cobrador, aquele homem franzino, que a protegia como uma irmã. A perplexidade só não foi maior do que o terror por estar dentro de um ambiente fechado com um fugitivo armado.
Cinco minutos levam horas. Antes de descer do ônibus, o bandido acalma a velhinha que estava quase a ter um enfarte: “Calma, tia, eu não quero machucar ninguém, não”. Ele desce e some entre as ruelas do bairro.
Pernas tremem. Ela salta do veículo logo no próximo ponto. Sem saber em que ano estava. Devia ter agradecido ao cobrador, pelo menos. O que faz uma pessoa dispor da sua vida para salvar a de outra que nunca viu antes? Ninguém sabe. Mas ela devia ter agradecido. Se pelo menos o reencontrasse algum dia...
Semana passada, numa matéria do programa Domingo Espetacular, Paulo Henrique Amorim entrevistava o cobrador do ônibus 499, seqüestrado por um ciumento passional, agarrado à sua ex-mulher, ameaçando matá-la e depois se suicidar.
O cobrador narrava alguns detalhes da sua conversa com o desequilibrado durante horas dentro do ônibus e a mediação que fez junto à polícia.
A arma colada na cabeça da bonita loura estudante de enfermagem. Os passageiros apavorados. Como poderiam confiar num ex-marido com tal comportamento?
Cercados pelos policiais, o perigo só aumentava. Insegurança pela possibilidade de invasão dos representantes da lei. A matança seria generalizada.
O cobrador contou que falava com o seqüestrador o tempo todo. Tentava acalmá-lo e fazê-lo cair na real: “Amigo, pensa nas crianças...”
Na locução em off, Amorim referia-se ao cobrador como um herói, pois ele evitou o pânico maior e a possível morte de uma pá de gente.
Chamaram a mãe do meliante, que passou mal e foi parar no hospital. Chamaram o irmão, o cunhado e nada. Nada fazia o homem mudar de idéia e querer partir dessa pra melhor com a mãe dos seus filhos.
E o cobrador lá. Conversando, conversando...
Foi um dos últimos a sair, junto com o agressor e seu alvo. Na entrevista ele dizia que se saísse antes a polícia invadiria e seria pior. Por isso achou melhor sair no final.
Além de ser bom no troco e na conversa, era um homem sensato.
Hoje, só sinto segurança nas ruas quando há um cobrador por perto. E ponho-me a imaginar em que itinerário andará meu anjo da guarda.
Trackback:
http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/28595 Posts similares:
Notícias do dia
Da Gratidão e outras virtudes
Festival de Gramado exibirá adaptação de O Cobrador, de Rubem Fonseca
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Comentários, Trackbacks:
que bonitinho… já tentou mandar essas colunas para uma revista dessas? devia tentar… e o nosso café? vem me visitar quando? bjs!
cris, gostei do texto. esses cobradores só seriam melhores se, em vez de cobrar, nos pagassem, né?
bjs
Ótimo texto!
De uma jornalista para uma ótima escritora: PARABÉNS!
Parabens ótimo texto. Eu Tb sou apaixonada por internet e artes cênicas.
Quando puderes dá uma passadinha lá no meu blog :
http://artescenicas.blogspot.com
Eu acho q as gatas gritam de prazer… será?
O teu relato do ônibus é muito bom.
Texto enxuto, sem firulas e a fidelidade aos fatos, que essa ferramenta nos permite. Não tem ninguém pra editar etcs e tal.
Ruth, fui lá e achei lindo!! Tentei deixar um recado pra ti, mas "deu pau". Não consegui.
No momento estou em um cyber, pois meu micro está na assistência técnica.
Assim que ele voltar pra casa, voltarei lá com calma para fuçar e ler tudo!
Oi Cristiana… achei seu blog pelo orkut, e vc pediu pra dizer se achei algum erro…
No começo do seu texto o cobrador pede pra parar ou continuar???
"Fecha as portas e segue em frente! Não, pára! Não pára!"
Se for pra parar falta uma vírgula no segundo "não pára" e se for pra continuar vc deve tirar a vírgula do primeiro…
Essa é a nossa língua portuguesa.
Bjus e achei também um ótimo texto, parabéns!!
Cobradores de ônibus e vendedores de loja, são ótimos amigos e lutam pela gente até o final kkkkk, seria interessante perguntar às esposas deles como eles as tratam em casa… embora eu já imagine a resposta…kkkkk.
Um beijo
Deixe seu comentário:
Post anterior: Coisas pra fazer chorarPróximo post: Futebol, trauma de infância




