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Cristiana é redatora e escritora, carioca, mora em Sampa. Mãe da Luísa e da Lorena, apaixonada por comunicação e internet. Autora do livro "Por que Heloísa?", Companhia das Letrinhas.

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Coisas pra fazer chorar

Existem coisas criadas especialmente pra fazer chorar. É o caso do filme "O ano em que meus pais saíram de férias". Se você foi criança na década de 70, não vai conseguir escapar. Aliás, não precisa ser nenhum velho bobão. Minha filha de 12 anos não escapou.

O filme conta o episódio da vida de um menino também de 12 anos. Seus pais, militantes políticos contra a ditadura, saem repentinamente "de férias" e deixam o garoto em frente a casa do avô paterno, em São Paulo, no bairro Bom Retiro. O menino, é claro, não entende o que está acontecendo, mas, mesmo contrariado, acata a decisão dos pais.

Preocupado com o que estaria por vir, o avô sofre um infarto fulminante, horas antes de se encontrar com o neto. O vizinho do avô, um judeu imigrante, leva o menino até o enterro e depois não sabe o que fazer com o moleque.

Mas essa não é a parte que faz chorar. Ouvir o hino "90 milhões em ação", ver o álbum dos jogadores da Copa de 70, a tv preto e branca, as roupinhas das crianças (eu tive uma blusa igual a da menina Hanna), os móveis, os utensílios domésticos, o futebol de botão, a ausência da tecnologia digital, as brincadeiras na rua, Roberto Carlos cantando "Eu sou terrível" enquanto as crianças dançam… São muitas "emoções".

Para minha filha, ver o garoto aguardando o fusca azul dos pais, na expectativa de revê-los, enquanto se desenrolava a final do campeonato mundial de futebol (o pai havia prometido que voltaria para a Copa), foi mortal. Ela já tinha a informação sobre os anos de chumbo e compreendeu empaticamente tudo o que se passava.

"90 milhões em ação. Pra frente Brasil, do meu coração…"

Papeizinhos picados flutuando no céu. Ruas decoradas com a bandeira nacional.

"Todos juntos vamos. Pra frente Brasil. Salve a seleção…"

O filme não mostra, mas comunica, através da ausência dos pais, os horrores que aconteciam nos bastidores dessa história. Pessoas eram torturadas e assassinadas cruelmente a troco de um nada. Nenhuma razão pra justificar tanta barbárie. Só a repressão pela repressão. O poder pelo poder.

Naquela sala escura, sofri e me revoltei por aquilo que nem vivi. E eu estava viva em 1970.

Sussurrei no ouvido da minha filha; "Se eu fosse adulta nessa época, também teria sido presa ou exilada". Ela confirmou com a cabeça, conhecendo-me como conhece.

Havia visto uma entrevista com as crianças protagonistas e o diretor do filme, Cao Hamburger, no programa do Jô, e mesmo antes de assistir ao filme já tinha gostado.

Sinto uma nostalgia profunda pelas décadas de 60 e 70. Sou membro de uma comunidade no Orkut chamada "Eu queria ser jovem nos 60s". Tenho a impressão que foi a última vez em que houve ideologia no mundo.

Ao terminar a projeção, passei pelo banheiro. Uma mulher dizia à amiga: "Ai, meu Deus, tudo voltou à minha mente". E contou, emocionada, detalhes do sumiço do filho, na época. Saí de perto para não constrangê-la.

O filme não apelou. Só contou os reveses de um menino diante de fatos reais. Então não foi o filme que foi feito pra chorar. A história do Brasil é que foi.


Permalink07.11.06, 14:25:00, by Cristiana Soares Email , Comportamento 5 comentários


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Comentário de: Cinthia

Queria muito ter ido com vcs, mas a aula terminou quando a projeção estaria começando. Então, só ouvi seu recado lá pelas 16h50. Depois de ler o seu texto, e fungar um pouquinho, fiquei ainda mais a fim de ver. Super bacana, Cris. Beijo enorme.


PermalinkPermalink 08.11.06 @ 13:56



Comentário de: Henrique

Também vi o filme com meus filhos - de 8 e 12 anos - Cris. E gostei muito. COmo você, vivi essa época como "espectador", pagando meia. Minha empatia, além dos objetos e da Copa, se estendeu à comunidade judaica do Bom Retiro. Aquela velharada engraçada falando iídish, torcendo pro Brasil, debochando uns dos outros, me lembrou muito os meus avós e os amigos deles.


Bjs muitos,


Henrique


PermalinkPermalink 10.11.06 @ 16:59



Comentário de: Pluschkatt

Magnífico!
Só isso.
Um abraço!


PermalinkPermalink 21.11.06 @ 14:33



Comentário de: Ruth Mezeck

Pois é… eu vivi intensamente os anos sessenta, e às vezes tb tenho
essa impressão que só houve ideologia e se lutou bravamente por ela na minha geração.
Abraços blogueiros.


PermalinkPermalink 24.11.06 @ 12:05



Comentário de: Gustavo Gitti · http://nao2nao1.com.br

"Então não foi o filme que foi feito pra chorar. A história do Brasil é que foi."

Genial.

PermalinkPermalink 17.02.09 @ 00:02



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