Estabilidade. Isso existe? Quanto custa?
Acompanhe comigo: homem, 18 anos, entra para a faculdade de medicina, conhece mulher, também 18, estudante de artes. Eles namoram, casam. Ele termina a faculdade e começa a fazer plantões. Ela larga a faculdade para cuidar do primeiro filho. Ele, de plantão em plantão, vai crescendo profissionalmente. Ela segura a barra da casa e dos dois filhos (porque nesse meio tempo apareceu mais um). Ele "se faz" graças à estrutura que ela proporciona na retaguarda e vice-versa. A família prospera. Agora ele já tem seu consultório particular, compra casa em área nobre e dois automóveis. Alguns anos depois, ele um profissional bem-sucedido, filhos crescidos. Ela encontrou uma atividade artística, que pratica num ateliê montado em casa. Nesse meio tempo, entre tantas batalhas para conquistarem o patamar desejado, afastam-se um do outro. Desgastados, já não têm desejo sexual recíproco nem assuntos em comum. Odeiam-se silenciosamente. Ele, que está mais exposto às tentações do lado de fora, apaixona-se perdidamente por outra mulher que tem tudo a ver com o seu momento de vida. E agora? O que fazer? Vida estável ou lançar-se no escuro e recomeçar? E se deixar como está e permanecer com a boca cheia de dentes esperando a morte chegar? Ela, nessas alturas, já virou freguesa dos goles de vodca, que esconde no fundo do congelador. Os filhos, intuindo que algo não vai bem, estão indo mal na escola. O mais velho, sentindo-se perdido, tenta se encontrar nos "rachas" com a motocicleta que ganhou do pai (o terceiro veículo da família). A mais nova, cúmplice da mãe, flagela-se secretamente fazendo pequenos cortes no próprio braço. A foto dos quatro no porta-retratos da sala sugere união. Felicidade. Parentes e amigos invejam aquela família tão linda. Outro exemplo, mais dramático: mulher, 30 anos, casada, terapeuta ocupacional, apaixonada e feliz, engravida do seu primeiro filho. Logo depois do parto sofre um AVC e fica tetraplégica. Casamento se desfaz. Ela vai morar com a mãe, que cuida dela e do bebê. Um caso real. Minha amiga de infância. Bussunda, amigo de faculdade, deixa, precocemente, mulher, filha, fãs e Copa na Alemanha depois de uma pelada com seus companheiros de Casseta. De repente. Assim, sem avisar. Sem despedidas, parte dessa para melhor. E se ele não tivesse batido aquela bolinha? É, meu querido Bussunda, para morrer, basta estar vivo. Mil horas de silêncio pra ti. Se eu listar aqui todos as possibilidades de curvas inesperadas da vida, não vou terminar esse texto. A questão é: por que corremos tanto atrás da estabilidade enquanto ela não está nem aí pra gente? E quando está, mesmo que apenas por um período, nos cobra os olhos da cara. É claro que casa, comida e roupa lavada são o básico. Direitos do cidadão. Devemos lutar por isso. Investir nos relacionamentos afetivos, sem dúvida. Quanto ao resto, deveríamos aprender desde a escola que não está sob nosso controle. E, com exceção da morte e das grandes tragédias, deveríamos parar de nos comportarmos como crianças mimadas, fazendo pirraça ao menor sinal de mudança, e nos concentrarmos no que nos sobra sob nossas rédeas: as emoções e as atitudes diante do inesperado. Aliás, segundo especialistas, dentre todos os tipos de estabilidade, a que mais devemos cultivar é a estabilidade emocional. Ai, meu Deus, então estamos realmente na pré-escola da estabilidade.
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Oi Cris, certo dia me senti o máximo ao perceber que o que há de mais constante (portanto, próximo da estabilidade) é a instabilidade. O charme dos paradoxos!!!! Produzi várias metáforas sobre a relação com esse universo que é antes o do risco do que o da frustração (perceber a instabilidade como regra, diminui a frustração). Uma dessas metáforas era o "equilíbrio em corda bamba". Sendo que a minha corda bamba era relativamente baixa e bastava não se deter por muito tempo e evitava a queda. Eis que conversando com um amigo soube de "evoluções" incríveis em corda bamba. Resumo da ópera: para a instabilidade realmente valer a pena é preciso desafiá-la com monociclos ou cadeiras apoiadas num pé só. Vou me inscrever na escola de circo. Adorei!!! Tá vendo, seu escrito instigante me levou a essa longa digressão.
Cristiana,
Fui em uma exposição de design na Dinamarca e era um super-mercado. Poderias comprar estabilidade, bom senso, tolerancia, gratidao, etc etc. Tinha freezer, prateletiras, capsulas, liquidos, e tal. Uma graça!
Comprei tolerancia. Preciso dela para conquistar estabilidade!
Leticia
Oi… hehe…
Entre uma renderização e outra (são cálculos que o micro faz para criar imagens fotorealistas apartir de dados geométricos) no meu micro estou lendo os teus artigos. Não consigo parar. E pior, além de não conseguir para não controlo a ânsia de postar um comentário. Impressionante como tenho identificado-me com as tuas palavras. Essas observações sobre "felicidade por fora", "estabilidade" foram felizes e creio que aproximam-se do que conhecemos por realidade. Claro que não é a que sonhamos na tenra idade, mas a verdade como diria Gandhi, é dura como um diamente mas também é delicada como flor de pessegueiro.
Tenho sentido isso nos teus textos, observações precisas recheadas de nobres sentimentos.
Abraço carinhoso
Lembrou-me muito aquele filme do Bergman, "Cenas de um casamento", já viu?
Pô, vi um comentário seu no blog do Inagaki e resolvi conferir o post aqui. Parabéns, concordo em muitos pontos com o que você escreveu.
Talvez correr atrás de estabilidade com com uma vontade cega não seja tão bom quanto muitos pensam. O que diferencia o ser humano é a capacidade de mudar seu rumo, então porque querer transformar sua vida em uma linha reta?
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