Chorar no chuveiro
Lembro-me quando descobri estar grávida da minha primeira filha. Foi no chuveiro que chorei como um bebê abandonado. Um soluçar convulsivo e desenfreado. E toda minha vida intensificada ali, num divisor de águas. Chorei muitas vezes em chuveiros diferentes ao longo da vida. Chuveiros pinga-pinga, chuveiros fartos e generosos. Duchas choronas num banho de água quente.
Mas não somente lágrimas em cascata me provoca um bom banho. Chuva de idéias também. Quando trabalhava em criação publicitária, passava o dia inteiro angustiada para encontrar conceitos, títulos e soluções para uma campanha. Era à noite, no banheiro com espelho embaçado, que elas viam se aninhar a mim. Com o calor, pipocavam como mandiopã na minha mente. No dia seguinte, eu voltava para a agência com as ditas num papel manuscrito e borrado pela umidade das mãos ainda mal-secas. Ser batizada pelas águas do chuveiro salvava minha vida no trabalho.
Um banho quentinho também tem a ver com amor. Carícia. Conforto. Com ou sem companhia. Quando estou precisando me amar, é pra lá que eu vou. E se depois disso me enfiar num edredom, meu caro. Aí não há cristão no mundo capaz de me amar mais do que eu mesma. Nesse instante não preciso de elogios nem de reconhecimento social. Todo o ouro de Brunei não compraria auto-estima maior. Beijos e abraços são plus.
Às vezes o choro, as idéias e o amor se misturam. Não necessariamente nessa ordem. Para dar amálgama a essa mistura, uso sabonete hidratante. Tenho um amigo que diz que odeia esse tipo de sabonete. Reclama que seu corpo não fica crispando como deveria depois. Coisa de homem macho. Será que ele nunca chorou no chuveiro? Tenho vontade de chorar pelos homens.
Olha essa cena que vivi: um dia, um mar gelado, em Ipanema. Entrei vacilante na água, saltitando e soltando gritinhos. Um ex-namorado que me acompanhava entrou em seguida. Enquanto a água congelante lhe subia o corpo, ele se mostrava impassível. Forte. Poderoso. Nem um mar de cubos de gelo o deteria em sua bravura masculina. Em vez de admirá-lo, eu senti pena. E felicidade por ser uma mulher. Poder gritar, espernear e chorar a valer. É tão bom.
Então, minha dúvida hoje em dia é: será que os homens não choram nem debaixo do chuveiro? Nem quando cortam cebolas? A cozinha é outro lugar ótimo para chorar. Lavar louça também tem seu valor. Se não para chorar, para limpar a cabeça. Enquanto você vai lavando a sujeira da louça, aquele problemão lá do começo vai se diluindo, diluindo e indo embora pelo ralo com a água. E no final, com as panelas e talheres tinindo no escorredor, você só tem um probleminha. Um probleminha de nada, facinho de resolver. Aliás, você nem vai resolvê-lo de tão desimportante. Problema, que problema? Vou já preparar um almoço caprichado.
Contudo, não são todos os homens que se recusam a chorar. Existem os chorões profissionais. Aqueles músicos que se reúnem para tocar flauta, cavaquinho e violão. O chorinho pode não ser tão lacrimoso. Mas também tem poder de purificação. Ele pára o movimento das pessoas na Benedito Calixto e as elevam a um palmo do chão.
Qual seria a origem do choro? O molhado, digo. Aquele salgado que nos escorre à boca. Que, quando crianças, vinha misturado ao delicioso ranho esverdeado e também salgado que descia pelo nariz. Provavelmente o choro surgiu com a evolução da espécie. Sem ele não sobreviveríamos. Quem iria nos dar de comer? Quem iria nos acalentar? Êpa, então será por isso que algumas mulheres desesperadas dizem que os homens estão em extinção? Não creio. Deve haver algum lugar onde eles se põem a chorar. Só preciso descobrir onde. Além de no cinema, na sala, na cozinha, no quarto e na rua, eu choro no chuveiro. E você?
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Em junho li este teu texto e achei o maximo. Tanto que fiz um comentario sobre ele la no meu blog. Se te interessar, ta aqui o link: http://elesorriupramim.blogspot.com/2006_06_01_elesorriupramim_archive.html
Muito bacana mesmo ; )
Oi Cristiana,
Como muitas boas coisas na vida, encontrei esse seu texto por "acaso" já que também por "acaso" vim parar no seu blog por causa de um outro texto sobre chorar (o que fala sobre o filme "O ano em que meus pais saíram de férias").
Não chorei lendo o seu texto, mas me identifiquei muito com ele. Não que sua descrição seja exatamente o que acontece comigo, mas também, como você, já chorei sob o chuveiro e já tive idéias no chuveiro. Além disso já arfei no chuveiro após a loucura de tentar tomar banho com água congelante. E também já me lembrei de meus amigos e amigas enquanto estou com a mente limpa pela manhã e imagens flutuam entre a minha retina e a minha massa cinzenta.
Gostei muito do seu Blog e espero poder ler mais das suas reflexões, tenham elas brotado do reflexo do espelho da alma no embaçado espelho do seu banheiro ou não.
Um grande abraço.
Querida, temos isso em comum, chorar no banheiro. E muito. A absoluta sensação de liberdade, onde não há nada para esconder. Deixar rolar a tristeza ou a alegria ou a emoção em forma de água, temperar a água energética do chuveiro com o sal dos nossos olhos, e pensar que essa combinação salobra vai cuidar do descarrego. Saravá.
Depois disso, em geral, paz.
É muito bom ver suas idéias, que eu tanto gosto de ouvir, registradas em letrinhas. Assim, posso consultar se perder qualquer frase devido à minha deficiência de atenção. hahahahha
beijo enorme
Cris, fuçando achei esse texto, me identifiquei de novo.
Chorei no chuveiro a vida inteira, desde os 8 anos, quando minhas irmas estrangeiras vinham passar as férias e iam embora, no chuveiro ia chorar minhas saudades…é assim até hoje.
É no banho que me encontro comigo.
Amei.
Beijos
Eu já chorei no chuveiro, já inventei que caiu xampu no meu olho, troquei meu xampu por aqueles de criança que "não ardem os olhos" , não tenho mais desculpas…
Olá, adorei.Coitado do meu chuveiro…..Mais é meu grande companheiro, pois esta sempre disposto a me deixar chorar misturando as lágrimas com suas águas quentes, frias ou mornas.E os olhos vermelhos???????Bem, sempre colocamos culpa no pobre sabonte que deve ficar bem chateado, rsrsrsrsrsrs.Grande abraço, continue escrevendo palavras simples, mais que é nosso dia a dia.
LUCY SOUZA
De agora em diante, toda vez que escrever isso vou inserir um link para cá.
Uma delícia de texto.
ela me contou q desde q sua avo morreu (a 3 anos)nunca mais chorou...
acho q ela naum consegue
a menina ate se auto mutila, mas nunca chora...
passeei por seus escritos até chegar aqui no chuveiro.
muito sensível!
me fez lembrar das vezes que chorei, tão desconsolada como se pode ser ali.
sucesso!
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