sobre a autora

Cristiana é redatora e escritora, carioca, mora em Sampa. Mãe da Luísa e da Lorena, apaixonada por comunicação e internet. Autora do livro "Por que Heloísa?", Companhia das Letrinhas.

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Pequena história de um amor burro

“Só acredito que você me ama quando estou dentro de você”. E ela ficou pasma ao ouvir isso. Ela que achava que já tinha dado todas as demonstrações possíveis de amor. Verbalizado, inclusive, várias vezes. Mas ele não acreditava. Só quando estava dentro dela.

Eles tiveram filhos, que ela abraçou como causas nobres. Ele a criticava por ser uma mãe intensa. Por não ter mais só ele no mundo para amar. Ele começou a se tornar ferino, mas ela ainda o amava mesmo assim. Pelos momentos idílicos. E porque o amor não vai embora de um dia para o outro, mesmo quando a falta de respeito vem sem aviso, como susto que se prega.

Ele a traiu para chamar sua atenção. Ele negou socorro para provar que estava certo. Ele a despejou de casa para que ela se submetesse. E contra a sua vontade, enfim, ela optou por sair daquele filme, que nunca foi dela. Também para produzir uma história mais bonita para os filhos. Pela justiça mundial e porque sim. Porque ela era insubordinada.

Ele perambulou, bebeu, comeu muitas mulheres. Pediu para voltar. Foi insano em sequências. Acabou em direção oposta ao seu maior desejo.

Ela, livre, lutou sozinha pela sobrevivência. É difícil ser livre.

Ele continuou a odiá-la porque a amava.

Fim.


Permalink01.10.09, 15:40:19, by Cristiana Soares Email , Comportamento 25 comentários

Se eu fosse homem, invejaria as mulheres

Quando minha primeira filha nasceu, eu tive um pouquinho de pena do meu ex-marido. Ele ficava ali, me olhando dar de mamar a ela (foto). E não podia fazer nada. Tudo bem que contemplar uma cena dessa já é uma dádiva. Mas fazer parte dela está acima de qualquer compreensão masculina.

Entre 1 e 7 de agosto será celebrada a Semana Mundial da Amamentação. Ao ler essa notícia, quase senti o leite vindo pelos condutos e pingando através da blusa, como costumava acontecer de hora em hora.

Cheguei a sentir o prazer daquele corpinho quentinho coladinho no meu e de receber aquele sorriso de quem, com a barriga cheia, agradece o colo e o alimento ofertado.

Alimento que você não comprou no supermercado. O seu corpo simplesmente o produziu. Uma sensação de que você se derreteu para ser sorvido por alguém.

Nem tudo são copos-de-leite. Minha segunda filha tinha a sucção tão forte que chegou a ferir os mamilos, no começo. E dei literalmente meu sangue a ela.

Depois passou essa fase dolorida e ficou só o prazer. Inclusive o da própria sucção em si.

Se você é homem, deve estar confuso agora se perguntando: que prazer é esse? Tem algo a ver com o que se sente nos jogos sexuais entre um homem e uma mulher?

O bico do seio é cheio de terminações nervosas, sensíveis ao toque, à umidade, à sucção. Nesse sentido, tudo é prazer. Porém, o contexto é que dá significado a esse prazer e o direciona para situações bem diferentes. Cada uma a seu tempo e a sua hora.

Por isso é tão bom ser mulher. O mesmo corpo, várias sensações.


Permalink26.07.09, 17:46:28, by Cristiana Soares Email , Comportamento 15 comentários

Maria Mariana, seus quatro filhos e um mercado

Ela fez a cabeça de muitos adolescentes nos anos 90 com o livro e a série “Confissões de adolescente”. Depois casou, mudou e não nos convidou. Teve quatro filhos e agora está voltando para barbarizar a cabeça da mulherada. Maria Mariana, escritora, filha do cineasta Domingos de Oliveira, está lançando um livro que promete causar: “Confissões de uma mãe”.

Em entrevista recente para a revista Época, ela diz que apanhar cueca suja que o marido deixa no chão é um aprendizado de paciência e dedicação. Mulheres que não conseguem ter seus filhos através de parto natural têm problemas de ego e amamentar é para as mães que merecem.

Antes que você, mulher moderna e batalhadora, caia da cadeira giratória, e você, homem que não coaduna com a luta feminina, festeje a volta da Amélia, vejamos outro enfoque que Maria Mariana dá à maternidade.

“A verdade é que eu só descobri o que é trabalhar depois de ser mãe! Ser mãe é um trabalho social, o maior deles. É um esforço para garantir a criação de indivíduos de valor, mentalmente sadios, que contribuam para o bem geral. Pessoas equilibradas, educadas, que consigam se manter. Quando pequeno, o filho precisa de atenção especial e exclusiva. É nesse período que se forma a base do que ele será, o caráter, os valores. Depois, é difícil consertar.”

A meu ver, está aqui o x do discurso dela, muito sintonizado com o momento histórico e social em que vivemos. Numa outra entrevista para o Via Filhos ela completa:

“Quando escrevi (o livro) não tinha essa intenção de criar polêmica. Não acho que seja culpa das mulheres, mas sim da sociedade, que está impondo uma forma mais materialista e competitiva de viver. Isso vai totalmente ao desencontro da maternidade.”

Se houve intenção de polemizar ou não, se a Época foi sensacionalista ao destacar a frase dela no titulo, “Deus quer o homem no leme”, o que me importa é a discussão altamente relevante, e muito desconfortável para as mulheres, que ela levanta.

Dentro da minha experiência como mãe e profissional, posso garantir que conciliar maternidade e outro trabalho é praticamente inviável nessa estrutura de mercado vigente nas grandes cidades, com jornada de 14 horas. E a gente acaba tendo, sim, que priorizar uma coisa ou outra. Senão a gente não faz bem nenhuma das duas.

Eu pago um preço alto, profissionalmente falando, aqui em São Paulo, por ter priorizado a maternidade nos primeiros anos de vida das minhas filhas (vivendo em cidades menores, onde o mercado é menos competitivo e os horários mais flexíveis). Mas não me arrependo. Porque, na minha opinião (que combina nesse ponto com a da Mariana), não existe investimento que valha mais a pena do que filho. É o que dá mais retorno a curto e a longo prazo.

Não estou defendendo aqui que tenhamos que catar a cueca do marido. Aliás, nem as cuecas e calcinhas das crianças. Porque são elas que devem cuidar dos seus pertences e não bagunçar o coreto.

Nem tão pouco acho que mulher tem que parar de trabalhar. Mas diminuir o ritmo, se quiser realmente fazer o servição que é a educação dos filhos.

Se essa diminuição de ritmo a torna não-competitiva para o mercado, então o problema está no mercado. O problema é social. Não individual. Vamos tirar a mãe da berlinda e colocar o nosso sistema de vida capitalista e desumano no centro da questão.

Mulheres injuriadas que blasfemam contra Maria Mariana na internet, não vamos nos acusar nem julgar umas às outras, vamos nos concentrar no inimigo em comum. Inclusive do homem, que também é uma vítima desse estilo de vida esquizofrênico. Ele, com certeza, também gostaria de realizar sua paternidade estando mais presente na vida dos seus filhos.

Reengenharia do tempo poderia ser a saída. Menos horas de trabalho e mais horas para a vida. Menos competição e mais colaboração. Utopia?

Neste contexto, outra coisa que me deixa a refletir é a questão dos papéis de cada gênero. Se antes eu achava que éramos iguais, homens e mulheres, em tudo e o tempo todo, anos de maternidade me mostraram que ter alguém “no leme” enquanto parimos, amamentamos e cuidamos das crias pequenas é importante sim. Nos dá segurança para fazer nosso trampo (de magnitude social e não reconhecido nem remunerado).

E acho que isso não é machismo. É divisão de tarefas, numa sociedade em que é necessário pagar as contas.

Não precisa ser assim a vida inteira. Mas numa fase em que as crianças são bem pequenas. Não precisamos parar de estudar nem de ter uma profissão por causa disso. Não é um retrocesso. Pelo contrário. É um avanço humanista.

Enquanto isso, os homens podem nos ajudar a trocar fraldas aos domingos, feriados e depois do horário comercial. Porque no trabalho com as crianças todos os dias são úteis e o horário é fulltime.

Não acredito em “Deus quer que o leme fique nas mãos do homem”. Simplesmente porque não acredito em Deus nem em predestinação. Então o leme pode ficar temporariamente na mão de um ou de outro ou dos dois, ao longo do tempo.

Quanto à cesariana e à amamentação, penso que Maria Mariana quis apenas ser emblemática e acabou metendo o pé na jaca. Não é novidade que o parto natural e a amamentação são melhores para mãe, filho e até para o governo.

Mas se por uma razão ou outra (muitas vezes pressão médica) a mãe não conseguiu, paciência. Isso não vai ser determinante para uma melhor ou pior maternidade. O que define a relação com os filhos é um complexo de coisas. Começar parindo e amamentando, ajuda bastante. Mas não define. Se fosse assim, mães adotivas não seriam boas mães.

Então vamos nos concentrar na mudança do entorno. Dessa forma, homens e mulheres podem ser mais pais e mais mães. O parto fica mais fácil, o leite flui e as contas são pagas.


Permalink14.05.09, 00:09:34, by Cristiana Soares Email , Comportamento 29 comentários

Arranjando marido, desarranjando amigas

“O quê?” Eu perguntei abismada à adolescente de 12 anos, amiguinha da minha filha. E ela repetiu, dessa vez melhor articulada para não deixar dúvidas: “Eu estava dizendo para a Lô que a gente pode morar junta até arranjar marido”. Minha filha me olhou com cara de espanto, sabendo que daqui viria bomba.

E veio uma saraivada. Um discurso feminista que iniciou indignado e terminou engraçado, quando enchi a bola das meninas e levantei a autoestima da casadoira. Ela riu e se achou. Talvez não tenha tido bom exemplo feminino em casa.

Até teve, mas resolveu seguir as idéias da avó, com quem passa a maior parte do tempo. Já que a mãe, advogada, divorciada, está ausente durante o dia labutando para sustentar casa e filha. Mas essa é uma outra conversa.

Como assim “arranjar marido”? E como assim “a gente é amiga até encontrar um homem”?

Infelizmente é um comportamento comum entre as mulheres. Já aconteceu com mais de uma amiga minha. A amizade vai muito bem até que elas “arranjam” um homem e somem. Ou reduzem a amizade a uma relação burocrática.

E ai de você se reclamar, pois vai parecer dor de cotovelo. Ciúmes. Não que eu não sinta ciúmes dos meus amigos (as). Claro que sinto. Mas aprendi com o mano Caetano a deixar o ciúme chegar e deixar o ciúme passar. Não é esse o bode.

É com a atitude mulherzinha que não lido bem. Você, amiga, é importante até ela encontrar o macho que será o centro absoluto da vida dela. Só vai voltar a te procurar quando a relação entre os dois estremecer. Aí adivinha com quem ela virá desabafar? Com a velha e confiável amiga.

Oi?

É difícil, para mim, falar mal de mulher. Sou corporativa, confesso. Mas ultimamente estou entregando as bandeiras. Triste constatar que o ranço machista tem grande contribuição feminina.

E se a amiga se envolve em treta com homem casado? A saia fica tão justa que atocha. Se você incentiva, sabe que está metendo a pobre em roubada. Se você a chama na real, periga ela ficar com o sujeito e parar de falar com você, por vergonha.

E aquela que briga com o bofe e de tanto ouvi-la chorar ao telefone altas horas da madrugada você começa a ajudá-la fortalecendo suas qualidades e lembrando os defeitos do sujeito. Mas aí ela volta com ele e te evita também para não lembrar o quanto já compartilhou as canalhices dele com você.

Casada ou namorando, nunca me afastei das amigas. Pelo contrário. É tão bom ter relações diversificadas. Uma não substitui a outra. Só soma. Maridos, namorados, amizades, filhos e quem mais chegar se entrelaçam numa rede confortável e gostosa.

Mais inteligente do que lançar todas as fichas emocionais numa relação exclusiva.

Moças, ouçam a voz de uma mulher experiente: a gente casa, descasa e as amigas ficam. E fica também a dica.


Permalink10.04.09, 16:48:31, by Cristiana Soares Email , Comportamento 19 comentários

Feminismo com maracujá

Mastigando sementes de maracujá e refletindo sobre minha condição de mulher: se o feminismo está fora de moda, por que eu tenho que falar para minha filha tomar cuidado no caminho da escola? Não é das mulheres que a estou querendo proteger.

Chamar uma mulher de feminista hoje em dia é o mesmo que xingá-la. Eu mesma até pouco tempo atrás rejeitava o rótulo. Mas por que foi necessário o presidente de um dos países mais poderosos do mundo assinar uma lei que igualasse os salários entre homens e mulheres, agora em 2009?

No primeiro mês que trabalhei em determinada agência de propaganda, deixei as crianças na cidade em que morava antes porque queria preparar tudo direitinho para levá-las com calma.

Durante esse período, eu saía do trabalho e ia beber umas cervejinhas com os homens da equipe de criação (só havia eu de mulher). Tudo ia de vento em popa até que minhas filhas se mudaram e voltei à rotina de sair do trabalho e ir para casa. Dar atenção a elas. Colocá-las para dormir etc.

Repentinamente, passei a ser tratada de forma diferenciada pelos meus colegas de trabalho. E, aos poucos, percebi que estava ganhando um status de café-com-leite. Lembro-me de uma reunião de brainstorm em que meu chefe sequer olhava para mim e tampouco ouvia minhas idéias.

No primeiro corte de pessoal, adivinha quem foi mandada embora? Dei graças a deus por sair daquele antro machista e me desvencilhar de um chefe misógino.

Mas para onde eu me viro continuo testemunhando atitudes que ainda colocam a mulher em situações delicadas, para não dizer humilhantes.

Já vivi literalmente na pele uma situação dessas. Fui assediada por um médico ginecologista durante um exame. E, pasmem, o meu ex-marido estava presente. Foi tudo muito "sutil". Só eu senti.

Ao sairmos do consultório, para provar a mim mesma que eu não estava maluca, tamanho estado de choque em que me encontrava, perguntei ao meu ex-marido se ele havia percebido algo de estranho. Ele me respondeu de bate-pronto que sim, observara que em uma determinada hora lá o tom de voz do médico dera uma alterada.

O filho da puta de branco narrava o que estava fazendo durante o exame, enquanto meu ex-marido estava posicionado atrás de mim, de onde não podia ver a cena do crime.

É claro que o meliante não narrou os detalhes da manobra que me estuprou a alma. Eu nem sei como explicar o que senti. Uma humilhação inigualável. Nada do que eu vier a escrever aqui estará à baixeza desse sentimento.

Foi tudo tão rápido e maior do que eu, que não tive reação no momento. Nenhuma mulher está preparada para reagir a tamanho abuso numa circunstância dessas.

Aí vem o formador de opinião me dizer que feminismo é coisa dos anos 60/70. Que já estamos no poder. Que poder, mané?

Por falar em poder, talvez esta seja a grande questão feminista atual: não queremos poder. Não esse poder do homem branco, competitivo, destrutivo, desumano.

Queremos viver num mundo onde não haja esse poder opressor. Queremos direitos e não poder. Queremos respeito e não poder.

Mas nenhuma atitude monstruosa machista vai bulir no meu orgulho de ser mulher. Pelo contrário. Quanto mais eu vivo, mais esse orgulho aumenta. Concluo, abocanhando meu último pedaço de torta de maracujá feita pela minha filha.


Permalink25.03.09, 16:04:27, by Cristiana Soares Email , Comportamento 14 comentários

Por que os homens viram meninos diante das mulheres?

Só faltou fazer beicinho e bater o pezinho para manifestar a frustração diante da minha negativa. Nem lembro mais o que neguei. Alguma bobagem qualquer. Mas foi assim que o homem barbado se comportou, não uma, mas várias vezes durante o nosso namoro.

Mariana, uma amiga, vem dando prioridade à faixa etária entre 40 e 50. Primeiro porque essa é a faixa etária dela. E, além de gostar de relações igualitárias, imagina encontrar, entre esses, homens maduros com os quais tanto sonha. Homem-homem, sabe? Mas só tem encontrado homens-meninos.

Já que tocamos no assunto, existe homem-homem? Porque a impressão que dá é que todos, independentemente de idade, credo, cor e nacionalidade, seguram muito bem a onda no trabalho, se comportam como heróis em catástrofes, até se verem diante de uma mulher que lhes inspire sentimentos que poderíamos chamar de amor.

Aí acontece uma coisa maluca: eles regridem cronologicamente. E demonstram as mais de mil facetas negativas infantis que um ser humano possa vir a ter: insegurança, ciuminho bobo, pirraça, emburramento, molecagem e malcriação.

A gente praticamente os ouve pronunciarem a palavra “mamãe” durante cada reação citada acima.

Será que acontece o mesmo ao contrário? As mulheres viram umas menininhas diante dos homens? Eu acho até que sim. Algumas. Ou todas, em alguns momentos. Mas a homarada puxa com mais força as barras das saias femininas.

Vamos botar a culpa nas mães? Pois afinal quem é a mulher que os cria para a vida e imprime neles as relações freudianas? Quem os mima, faz suas vontades, delega-lhes poderes antes da hora, protege-os além da hora, serve-os como reizinhos?

Mas há casos em que a mãe foi ausente e, paradoxalmente, isso também gera um resultado psicológico similar: carência, insegurança, necessidade de atenção plena.

Podemos culpar o machismo também. A doutrina que apregoa que o centro do mundo são os meninos. E ai daquela que os tirar do meio da roda. Na verdade, mãe e machismo estão intimamente ligados.

Tenho uma conhecida que deixa essas diferenças bem claras na hora de educar seus filhos. Da menina ela cobra, pressiona, impõe limites, educa, enfim. O menino ela poupa e protege da irmã mais velha quando brigam. “Não faz assim com ele!” O que esperar desse mocinho quando adulto?

Minha filha terminou com o seu primeiro namoradinho (ambos com 14 anos) porque ele a sufocava. Queria atenção exclusiva e ficava com aquela famosa cara de bunda (que toda mulher conhece) quando ela ia ter com a turminha na hora do recreio.

Numa conversa de sogra para genro, ele me disse que gosta muito dela. E depois de descansada do sufocamento, ela me revelou que também gosta muito dele. Sabendo do lindo amor recíproco, aconselhei o guri a tomar coragem e pedi-la em namoro novamente.

Ele me disse que achava que não conseguiria. Perguntei o porquê e ele respondeu que faria tudo igual. Sabia que cometeria o mesmo erro novamente. Nesse contexto, eu o aconselhei a experimentar e tentar mudar, já que está apenas começando nessa coisa de vida a dois. Mas de fato ele não conseguiu.

Fiquei realmente consternada com o menino porque já o vejo sofrendo futuramente com outras mulheres ao longo da vida. Assim como elas sofrerão com ele.

Perguntei-lhe se não gostava da minha filha do jeito que ela é. Independente, autônoma. Se não preferia outro tipo de menina. Do tipo que gira em torno do namorado. Ele me confirmou que na escola havia um monte dessas, mas que ele gostava mesmo era do jeito da minha filha.

Então, meu querido, o conflito é seu. Vai passar a vida fazendo beicinho e batendo o pezinho cada vez que for contrariado pela mulher que ama.


Permalink01.03.09, 13:56:31, by Cristiana Soares Email , Comportamento 26 comentários

Desculpe por existir

Não é fácil ter 1,80 de altura. Para um homem, pode até ser. Mas para uma mulher é complicado, por mais que todos a elogiem, projetados no biotipo das top models. Não sei quanto a elas, que ganham muito dinheiro por serem mais altas do que a média. Mas para mim só tem dado prejuízo.

Não bastasse ser a maluquinha da escola. A quatro-olhos dos fundos de garrafa. A que não conseguia ficar sentada na carteira por horas. A que fez xixi na calça uma vez porque a professora não a deixou ir ao banheiro. A que perguntava o porquê de tudo à exaustão. A que achava que a vida era mais legal fora da sala de aula. Um verdadeiro protótipo de outsider.

Mas isso ainda era pouco. Dos 15 aos 16 anos espichei ossos e músculos e ganhei altura indesejável para uma mocinha. E aquela que já não tinha tendências para bom comportamento, agora ganhava essa característica que a tornava ainda mais visada.

Se a turminha fazia bagunça, adivinha quem era identificada de longe pelas autoridades do estabelecimento de ensino? E de uma simples destrambelhada passei a cabeça da quadrilha, involuntariamente.

Rezava aos céus para pelo menos ganhar peso, já que a magreza agregava à minha aparência uma esquisitice sem medidas. Apelidos não faltavam: pau-de-virar-tripa, trocadora-de-lâmpada. E piadinhas do tipo: “Como está a temperatura aí em cima?”

Mudar de uma cidade média para uma grande foi revelador e vivi uma fase um pouco melhor: “Por que você não é modelo?” ou “Você não joga basquete?”

Bem que tentei aos 18 anos fazer um curso de modelo e manequim (como era chamada naquela época quem desfilava em passarela). Tudo muito bem. O corpo combinava. Mas a cabeça não. Eu achava aquela passarela estúpida demais. Mas a estúpida era eu. Hoje me arrependo porque talvez fosse rica, viajada e culta, se tivesse investido na carreira.

Esportes nem pensar. Sabe aquela bobinha (no meu caso, bobona) para quem ninguém passa a bola?

Falando assim parece até que eu era desprovida de qualquer talento. Na verdade, o único que eu tinha era, apesar de tudo, “fazer amigos e influenciar pessoas”, aproveitando o fato de já ser um banner gigante natural.

E hoje eu me valho da comunicação em tudo o que faço. Resolvo até problemas pessoais usando as habilidades e ferramentas da comunicação. E como chamo atenção tal um neon piscante, potencializo essa presença para dar uma função a ela.

Mas em muitas situações a altura continua a ser um fardo.

As pernas nunca cabem em mesinhas de bares e restaurantes. As liquidações nunca têm números maiores. Penetrar discretamente em festinhas é impossível.

Chefes mais baixos se sentem ameaçados. Homens mais baixos se sentem oprimidos. Já ouvi de um namorado, enquanto passeávamos de mãos dadas na rua: “Você me intimida”. Sem contar algumas mulheres que também se sentem incomodadas ao meu lado. Tá, gente, desculpe por existir!

Existir com 1,80 não é uma existência qualquer para uma fêmea numa cultura machista. Paga-se um preço por isso.

E as opções de namorados diminuem em larga escala. Eu sei, eu sei. Há o fetiche dos baixinhos que enlouquecem na frente de uma mulher com o dobro do seu tamanho. Mas convenhamos que é chato ter que se abaixar muito para beijar.

E driblar a ditadura dos saltos altos? Qualquer dois centímetros a mais já é o suficiente para você causar e ser cobrada pelo pecado: “Nossa, como você tá alta hoje!”

Soma-se à altura em excesso uma voz determinada, extroversão e liberdade acima da média. As mãos e braços que não cabem num quadrado.

Minorias, eu entendo vocês.

Mas basta encontrar uma mulher mais alta do que eu e me bate uma sensação de inferioridade. Estou enormemente mal-acostumada.


Permalink16.02.09, 13:40:12, by Cristiana Soares Email , Comportamento 25 comentários

Dom Casmurro: uma leitura coletiva


Sei que eu não sou nenhuma atriz e que o vídeo está fora de sinc. Mas fiz questão de participar, do meu jeito, dessa leitura coletiva do livro Dom Casmurro. Aliás, eu o havia relido há pouco tempo. Tudo por causa da cena inesquecível do beijo de Bentinho e Capitu. Não consegui gravar esse trecho porque uma espertinha chegou antes de mim. Mas gravei outro igualmente lindo que o precede, no capítulo "O Penteado".

Participe você também desse projeto histórico. Basta entrar no site Mil Casmurros, escolher um trecho e gravar. É facinho e não dói nada. Fica só a sensação de fazer parte dessa obra-prima machadiana.


Permalink26.11.08, 17:20:00, by Cristiana Soares Email , Comportamento 14 comentários

Borboletas que se acotovelam


Esperar um e-mail. Um telefonema. Ficar no vácuo. Cair como Alice no buraco da árvore. Sem saber o que se vai encontrar lá embaixo. Por que não podemos conviver com a tranqüilidade de prever o futuro próximo? Já que o futuro longínquo seria assaz prejudicial. Mas os próximos três meses não fariam mal. Tempo suficiente para saber se sim, se não.

Uma proposta de trabalho. Uma manifestação de amor. Uma notícia de alguém doente. Um filho que está fora.

Borboletas que se acotovelam. Barbantes que se enrolam. Lombrigas bagunceiras. Ácidos que zoam com as paredes do estômago.

Sabendo de antemão o que estaria por vir facilitaria a digestão. Frustrações bem mastigadas são mais fáceis de engolir. Porque o difícil é lidar com aquilo que ainda não sabemos. Fantasiamos. Elucubramos. Viajamos. Piramos.

E se pendemos para o lado dos nossos desejos efusivos? Podemos incrementar o tamanho da queda. E se, cautelosos, puxamos para o lado contrário? Adiantamos e até estragamos aquilo que nem chegou a acontecer.

Situação também conhecida como extrema ansiedade. Há um remédio paliativo: bromazepam. Funciona que é uma beleza. Temporariamente. Você dorme acordado. Enquanto isso, o máximo que pode acontecer é: nada. Nada que desvie a rota do destino.

Depois desse estado zumbi, acordar para a realidade é a parte mais difícil. Por falar nela, o que é exatamente a realidade? É o que acontece sincronicamente ao mesmo tempo agora comigo, com você e com o resto da humanidade? Isso é realidade? Tenho dúvidas.

Será que as coisas existem quando não as presenciamos? A Física Quântica diz que não. Elas não existem. Já tentei entender, mas não consigo. Só sinto que pode ser assim. Ainda pequena, certa vez, tive esse insight. Mesmo antes de saber que existiria uma ciência para teorizá-lo.

Será que nossos pensamentos influenciam nessa "realidade" como apregoam os defensores do "pensamento positivo" e a própria Física Quântica de Botequim?

Ah, quantas voltas para tentar aplacar um coração fora de esquadro.

Escrever é o que me sobra, a despeito das borboletas, das lombrigas e da acidez. O Word como interlocutor. Coitado. Oferece suas páginas em branco sem se fazer de vítima. Não conheço ninguém mais generoso. Vc escreve e ele agüenta quietinho.

Música. Música também pode ser tudo nessa hora. Mas cuidado para não errar na escolha. Vai depender do tipo de ansiedade. Que pode exigir uma melodia mais calminha ou um ritmo mais cadente ou até mesmo uma batida pauleira.

Quem tem bichinhos de estimação também pode se valer deles. Pra mim, abracinho apertado de filho pequeno resolve muito. Mas eles crescem e já não é a mesma coisa. Se houver uma criança à vista, eu cato.

Sair correndo. Para muitos também funciona. Gritar. Dançar. Se embriagar. Mas essa última opção é perigosa se for usada com freqüência. As lombrigas ficam ainda mais festejantes.

Passear no bosque enquanto seu futuro próximo não vem. Aproveitar e expulsar as borboletas. Como faz?


Permalink17.11.08, 10:41:00, by Cristiana Soares Email , Comportamento 12 comentários

Uma vida lá fora?

Não costumo postar vídeo aqui. Mas esse tem tudo a ver com o texto abaixo e algumas observações levantadas pelos leitores a respeito dele. Assista, emocione-se e confira o final inesperado. Ou nem tão inesperado assim, infelizmente.


Permalink04.11.08, 11:41:00, by Cristiana Soares Email , Comportamento 11 comentários

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