Tantas cosas debo decirte

10.02.09

Ando tão ocupada, gente. Estou trabalhando, fazendo curso de teatro, voltando ao convívio do pessoal da universidade, baixando dezenas de teses e dissertações sobre políticas públicas no www.dominiopublico.gov.br, pegando muita chuva em Manaus, essa terra cujo clima é um caos. Assumindo compromissos no meu grupo de teatro, de interpretar a personagem mais diferente de mim mesma que eu já vivi. Providenciando uns artigos pra publicar em eventos científicos, tentando superar minha próprio mediocridade e vencer a certeza que eu sou uma farsa, uma grande mentira que eu inventei e na qual o resto do mundo, curiosamente, acreditou.

Beijos com saudade,

Eva

O Tiotor

20.01.08

"Tudo está vivo,
Tudo respira
Eu e você..."

Gaia - Nilson Chaves

Enquanto estive na faculdade, e mesmo agora, depois que me formei, me envolvi nas atividades do Programa de Educação Tutorial (PET).

Por conta disso, eu tive umas chances que os alunos regulares do curso de Administração não têm. Uma das chances é trabalhar junto com alunos de outros cursos que também têm grupo PET.

E trabalhando com outros cursos, eu conheci o pessoal de Engenharia Florestal.

Grupo PEt-Florestal

E conheci o Professor Valmir, tutor do grupo PET de Engenharia Florestal da UFAM.

com a camisa do pet florestal

O Professor Valmir era mansinho. Ele era calmo, e sempre nos fazia seguir as portarias, regulamentos e leis.

Professor Valmir de blusa azul

O Professor Valmir era carequinha, baixinho e gordinho. A gente o chamava de Tartaruga Ninja. Ele ficava zangado, mas achava graça.

O Professor Valmir era chamado de "tutor dos tutores". Eu não sei nem o que escrever. Morreu o meu "Tiotor". Ele saiu de casa pra ajudar os alunos a cuidar da floresta, e não vai mais voltar. É estranho. A gente ficou esperando que o rádio desmentisse a notícia. "Não, nos enganamos, o professor está vivo e passa bem." Mas é verdade, ele morreu. Que droga.

No enterro do professor, alguém pediu que todos se abraçassem, e obedecemos. Demos um abraço pela Amazônia - pois o professor Valmir morreu por ela. Lutando por ela. Trabalhando por ela. Foi um abraço tão bonito e triste que chega doeu grande e feio. E eu escrevo errado pra poder transmitir o meu sentimento do jeito que eu senti na hora.

E agora, o professor Valmir está no céu dos professores queridos, cuidando das árvores que a gente derruba aqui e vão nascer lá, no jardim de Deus.

P.S.: Meus sentimentos a todos os envolvidos no acidente e suas famílias, em especial a família da Jahranda. Todos saíram com marcas profundas - inclusive nossa Universidade.

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Catarse, Emoção, Gente, Indignação, Jardinagem, Saudade, Trabalho, Escola
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Não me socorre que eu tô feliz

08.11.07

"A barata diz que tem
um anel de formatura

é mentira da barata
ela tem é casca dura..."


Meu nome é Eva. Mas pode me chamar de administradora Eva, se tiver fôlego suficiente...

P.S.: Colação hoje, baile amanhã.
P.P.S.: Abaixo,minhas coleguinhas e eu, numa foto especial para o Cintaliga.

Formandas para Cintaliga

Ó de casa

18.10.07

Preciso escrever meu primeiro post pro Cintaliga.

Mas o quê colocar aqui, céus? Eu leio o Cintaliga desde a época em que ele era dois blogs, separados no endereço, com duas autoras unidas pelo coração. O que escrever? Como falar de identificações com duas meninas que são tão bacanas?

Sinto-me meio intrusa. Aquela aluna que chegou na escola no segundo semestre, as panelinhas formadas. Onde me encaixo?

***

Quando comecei a entrar na Internet, [tão distantes tempos, idos de 2001], meu principal interesse eram letras de música e piadas. Meu pai me falava, dos museus com tour virtual, dos jornais em todos os idiomas. E eu, copiando e imprimindo [notem que eu sou saudosista, imprimo as coisas] as piadas sobre químicos e físicos do Humor na Ciência.

Já em 2002, eu terminando o Ensino Médio, surgiu um fenômeno estranho. Todas as vezes em que eu buscava algo no Google, surgia um blog no primeiro resultado. E outro blog no segundo resultado. Atrapalhando minhas pesquisas.

Peguei pinima de blog. Não queria nem saber de blog.

Até o dia em que li o blog da Zel. E depois veio Marcurélio. E depois, Inagaki. E fez-se a luz.

O blog traz uma nova perspectiva: a capacidade de qualquer um [alfabetizado e com acesso à Internet] colocar seu pensamento para todos [igualmente alfabetizados e com acesso à Internet] tomarem conhecimento. E interagir, em tempo real, com os leitores.

Tive blog hospedado em dois portais gratuitos, e estou vindo do Wordpress. Já me chamei Menina Prodígio, e mudei para Menina Eva. Estou quase fazendo cinco anos de blogagem. Já tive fases de receber dezenas de comentários por dia. Já tive fases de dois ou três comentários. Fiz amigos por meio do blog. Aprendi coisas, muitas coisas, lendo blogs. Vi o Biajoni surgir e fazer fama em caixas de comentários, para só depois criar um blog. Vi o Idelber aparecer e subir veloz em popularidade e relevância. Vi a Alê Félix ser estupidamente processada por aquela marca que comercializa o licor de marula. Ri muito com os Virunduns, em sua PRIMEIRA fase, ainda no Blogger Brasil. Isso para citar apenas alguns, pois eu adoro blogs.

Talvez o que eu goste no blog seja o clima de conversa, de estar frente a frente com a pessoa que escreve. Já gostei muito de blogs onde os autores falavam de suas próprias vidas [e já escrevi muito sobre minha vida pessoal no blog], mas hoje, nesse tempos de uma lan house em cada esquina, falar de suas intimidades tornou-se, mais que tolice, uma atitude perigosa.

Hoje, gosto de blogs que falam sobre diversos temas, sem perder aquilo que é o melhor do blog: liberdade para escrever de uma forma mais pessoal, quase como numa mesa de bar ou num banco de praça: informalmente. Porém, informalidade não significa escrever mentiras tolas. [Mentiras inteligentes me interessam!]

***

E essas duas meninas, Pat e Lu. As duas já estudaram Letras, as duas futuras jornalistas, as duas tão gabaritadas. Sou fã delas, há tempos. E, mesmo sendo leitora quase diária das duas, eu não conseguia deixar um comentário que prestasse. Pois o que elas escreviam era tão "meu", era tão parecido com o que eu escreveria, o tom era tão familiar, que eu terminava não dizendo nada. [E levando bronca das duas, claro.]

Surgiu o Cintaliga, e eu consegui comentar em quase todos os textos, durante esse ano tão lilás. Agora, mais que leitora e comentarista, elas querem que eu escreva também. Duas doudas.

Bem, desci pro play. E me resta aprender a brincar, ensinar alguns joguinhos que eu já sabia, e que seja divertido, que seja para sempre, que seja assim, que assim seja.

P.S.: Caros leitores, para saber melhor quem eu sou, leia (ou releia!) a entrevista que a Luciana e a Patrícia fizeram comigo via MSN. Como eu sou a mais nova, elas inventaram de me chamar de Fraldaliga... Hunf. Vou mostrar quem é fralda aqui, aguardem!

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Blogosfera, Egotrip, Amizade, Cintaliga, Gente, Lugar, Papelão, Escola
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Pat Pimentinha

27.02.07

Mônica

Quando eu tinha uns 11 anos de idade, estava andando com uma colega de classe pelo pátio da escola, sorvendo aos poucos o chocolate quente que nos serviam nos dias muito frios.
Um menino passa correndo, dá um esbarrão em mim que quase me derruba e me faz virar o chocolate todo - que estava realmente muito quente - no pescoço e na minha roupa. Todas as crianças em volta viram e, como era de se esperar, deram risada.
Olhei atônita pro menino, que virou para trás e sabia que havia feito besteira. Ele me olhou apenas uns segundos, esboçou uma risada e prosseguiu sua corrida implacável em busca de algum outro colega.
Eu não tive sequer um minuto de dúvida. Caminhei célere rumo à moça que servia os chocolates, expliquei a situação e pedi mais uma caneca. A cara que ela fez não foi das melhores, mas ela me cedeu.
Saí pelo pátio à procura do menino, de quem seria capaz de reconhecer o rosto mesmo hoje, vinte anos depois (rancorosa, eu? Imagina, intriga da oposição!). Ele continuava brincando com seus colegas e não foi tão difícil assim achá-lo. Assim que o reconheci, cheguei perto dele e o chamei, batendo com os dedos em suas costas. Ele se virou e, dois segundos depois, havia levado um banho de chocolate quente, no rosto, pescoço e camiseta.
Eu disse: “E então? Vai rir agora disso?”, escutando ao fundo as gozações típicas da molecada dos seus 11, 12 anos: “iiiahhhhhhhhhh, vixeeeeeeeeeeeee..., eu não deixava, meu!” e coisas parecidas. Confesso que senti um pouco de medo de uma possível retaliação, mas ele foi milhões de vezes menor do que o sentimento de vingança. Foi algo inexplicável. Naquele momento eu percebi que era, sim, uma pessoa muito justa e que iria ainda me ferrar na vida algumas vezes por isso. Por este lado meio justiceira e de menina pacata que perde as estribeiras, transformando-se momentaneamente numa heroína (ou maluca, sabe-se lá).
Daquele episódio até hoje, já vivenciei ao menos umas cinco situações como esta, incluindo uns tapas e pontapés que dei num menino com o dobro do meu tamanho, que havia feito algumas gozações do meu irmão mais velho (que era muito baixinho), arrancando risos das crianças presentes e lágrimas do meu irmão.
Alguns me chamavam de Mônica, e não era mesmo à toa. Baixinha, invocada e que batia em alguns meninos folgados quando preciso.
Não me ufano disso, não. Sei do meu lado destemperado que precisa ser controlado em alguns momentos. Mas, de qualquer forma, ainda assim acho melhor do que permanecer calada e guardar mágoas por muito tempo. Sei lá, isso sempre me angustia, e de vez em quando prefiro resolver as diferenças a morrer de cólera. O único momento em que me controlo de verdade para não perder o controle é no trânsito, cada vez mais beligerante nas grandes cidades e onde algumas discussões, mesmo as mais tolas, resultam em morte.
Hoje eu faço de tudo para me conter, mas em situações como a descrita no meu último post, ainda brigo pelos meus direitos.
Enfim, complicado. Do estágio Mônica ao Monja Coen há um looongo caminho, mas pelo menos acho que já passei da metade. :)

Escrito por Patrícia Köhler
Arquivado em: Comportamento, Cotidiano, Infância, Escola
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Pro Dia Nascer Feliz

22.02.07

Valéria

(Dedico este texto à Luciana, que tenta, dia após dia, passar bons valores aos seus alunos e fazê-los não desistir dos seus sonhos.)

Semana passada fui assistir ao documentário Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim. A minha vontade é de que todos os brasileiros que freqüentam escolas de primeiro e segundo grau pudessem ver.
O filme começa com a história de Valéria, uma menina de 16 anos moradora de Manari (PE), uma das cidades mais pobres do país.
Estuda, trabalha e tem sonhos de um dia ascender de alguma forma. Sabe que sua vida cheia de obrigações pode ser um entrave para que isso ocorra. Ela é mais articulada do que a esmagadora maioria dos alunos do meu curso de Jornalismo, numa faculdade particular burguesa de São Paulo. Não teve como não chorar ao vê-la declamando seus poemas e também ao se dizer fã ardorosa de Vinícius e Manuel Bandeira.
Ao longo dos 90 minutos de filme, vemos adolescentes, jovens e adultos estudantes de colégios paupérrimos de periferias e também de outros particulares do Rio e São Paulo. O abismo entre as realidades é gritante, e nem precisa me avisar que estou cometendo clichês ao escrever isso. Eu sei. Mais do mesmo.
O filme me fez lembrar da minha própria condição de estudante entre a 5ª e a 8ª série. Eu era muito, muito pobre. De dividir cama com mãe e jamais ter dinheiro para "luxos" como lanches em cantinas de escola.
Aos 13 anos entrei para um colégio particular num dos bairros mais ricos aqui da capital (onde minha mãe trabalha até hoje e motivo pelo qual eu tenho direito à bolsa de estudo) e posso dizer sem errar que foi um dos maiores equívocos da minha vida. Misturar ricos e pobres é sempre muito arriscado. Fui alvo de muitas piadinhas ao longo do ano escolar ("Nossa, você não tem mais roupas, não? Usa a mesma calça a semana toda!", "Ai, nem adianta chamar a Patrícia pra ir ao lugar X, ela nunca tem dinheiro pra nada") e praticamente não fiz amizades. Aquilo minou minha auto-estima a ponto de não querer mais levantar da cama para ir ao colégio.
Eu queria demais voltar pro meu colégio estadual, mesmo sabendo que o ensino era totalmente aquém daquele que eu estava "usufruindo" (ou ao menos tentando).
Me identifiquei muito com a menina poetisa, já que minhas redações eram sempre as de nota mais alta e as mais elogiadas pelos próprios alunos. Eu estava lá, perdida, num colégio estadual de periferia, sonhando em um dia ter uma vida melhor. Como a cativante Valéria, eu também ‘deveria ter uma péssima impressão da vida, se não fosse a paixão que tenho pela arte de viver’.
Obviamente que, mesmo eu tendo estudado na periferia, São Paulo sempre será diferente de Manari. A realidade dela é muito mais dura do que a minha foi. Seu colégio fica a vários quilômetros de casa e a viagem de ônibus que ela e outros alunos fazem (quando o veículo não está quebrado!) leva algumas horas. A persistência, no caso dela, é mais do que admirável, é um exemplo.
Não vou comentar muito sobre o "núcleo rico" do filme, sobre os adolescentes um tanto acéfalos que foram retratados como a média geral dos freqüentadores dos colégios particulares. Aquilo me entristeceu demais. Prefiro crer que o diretor pegou os piores exemplos, para chocar mesmo, fazer um belo contraponto.
Leitores queridos, vejam este filme. Debatam. Eu estou aqui, hoje, num blog que entrou para um Portal, por simplesmente não ter desistido do que eu queria. Por mais que fosse duro não ter dinheiro para muita coisa e me desanimar perante vários períodos de vacas anoréxicas, eu alimentava esperanças. Um jeito meio Joseph Climber de encarar a vida, sabe? :p

Para encerrar, uma frase do Millôr que eu gosto muito: "Rapazinho, estuda depressa, pois burro aos 30 é burro à beça". ;)

ps: na foto acima do texto, a sonhadora e persistente Valéria. :)

Escrito por Patrícia Köhler
Arquivado em: Cinema, Comportamento, Cotidiano, Emoção, Escola
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