Você lembra?
20.09.09
Lembra que nós planejamos esta viagem? Que sonhamos com ela, e quase compramos a passagem naquela promoção de cinquenta reais?
Lembra que nós pesquisávamos sobre o lugar, e mandávamos por e-mail fotos e notícias sobre as coisas que aconteciam lá?
Lembra dos nossos sonhos?
Eu estou indo pra lá. E, juro, não estou mais com medo de ver você por lá.
Eu consegui. E torço muito pra que você tenha conseguido também.
Todos os meus textos em itálico são pra você.
As pequenas vitórias de todo dia
26.05.09
Eu começo a trabalhar às sete da manhã. Moro na Zona Sul de Manaus, e meu trabalho fica na zona oeste - longe, longe, muito fora de mão.
Para facilitar as coisas, minha mãe me deixa de carro no trabalho, e depois vai para o trabalho dela. Esse nosso caminho é, normalmente, um dos nossos momentos mais íntimos do dia, qando podemos conversar, comentar as manchetes dos jornais (que não compramos), atualizar as fofoquinhas dos respectivos trabalhos.
Quem faz sempre o mesmo caminho no mesmo horário, acaba encontrando coisas que se repetem. Além do eterno engarrafamento na Bola do Coroado (que é menos pior antes das seis e meia), o mesmo ônibus 213 vindo ao nosso lado no V-8 (às seis e vinte), a mesma moça sentada na calçada da UTAM esperando a carona (ou a rota do trabalho, a gente não descobriu ainda).
Um dos personagens que sempre encontramos é o senhorzinho da bengala. Ele faz caminhada no sentido contrário ao nosso. As primeiras vezes que o notamos, ele andava com passinho curto, uma bengala numa mão e um cabo de vassoura na outra.
As semanas foram passando. Primeiro, ele abandonou o cabo de vassoura. Mais um pouquinho, e ele andava com a bengala na mão, porém sem usá-la como apoio; concentradíssimo, olhando pra frente. Percebemos que o ritmo dele de caminhar estava cada dia mais forte.
Foram vários meses de caminhada com a bengala na mão. Infalivelmente (a não ser em manhã de chuva), o senhorzinho ia no seu passinho de marcha, com a bengala na mão sem ser usada. Mamãe achava que ele levava a bengala por medo de sentir tontura, cair, tropeçar; eu achava que a bengala era usada na descida da ladeira que vinha depois do ponto onde o encontrávamos.
Hoje, amanheceu um dia muito azul, bonito e quente depois de várias manhãs meio nubladas. E o encontramos de novo. Passinho firme, um-dois, um-dois. Um saco plástico com três ou quatro ovos dentro.
E eu escutei o gritinho da mamãe: -Filha, olha! Sem bengala!
Eu e mamãe batemos até palmas dentro do carro.
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Noni-tícias
31.03.09
O noni não regulou meu intestino, pois nunca tive intestino desregulado.
O noni não melhorou minha pressão alta, pois não sou hipertensa.
O noni não sarou minha ferida brava da perna, pois não tenho ferida.
Mas uma coisa deve ser dita: a textura da minha pele mudou. Não sei explicar direito: não é maciez. É como se aquilo que está DEBAIXO da pele (derme?)fosse mais...consistente. Quem observa seu corpo sabe se ele mudou. Não é mera impressão.
Mamãe diz que as articulações estão respondendo bem. Como ela não está fazendo exercício nem tomando outro tipo de medicação, pode mesmo ser o noni. Pode também ser efeito placebo. Quem sabe, efeito Legião Urbana...
Estamos no fim da segunda garrafa de suco de noni. A primeira, vitaminada de noni com vinho barato, foi uma tortura. Azeda, ruim, arrotante (eca!). A segunda, frapê de noni com suco de uva sem açúcar, está MENOS RUIM. O que não quer dizer que seja boa. E continua arrotante (eca 2!).
Talvez eu já tenha superado a fase do sofrimento e esteja da fase da aceitação. Não é mais tão ruim engolir o troço. E há as técnicas. Pois para tudo há que se ter um método. Viro o cálice de noni com rapidez, jogo ele direto na garganta, evitando contato direto língua/noni. Logo em seguida, bochecho um gole de água, e não dispenso a ajuda de algo de sabor melhor: um copo de iogurte, um biscoito, um pedaço de bolo.
Aguardemos a terceira garrafa. A velhinha que fabrica o suco em série e revende (nos poupando do horroroso trabalho de esperar o noni amadurecer com todo seu cheiro de pesadelo e espremer a fruta-vômito na peneira com nossas mãozinhas) é como uma proclamadora dos poderes do noni. Ela tem uma série de fotos da ferida da perna da mãe dela, batidas semana a semana. Tipo "antes e depois do noni". E ela MOSTRA PARA OS FREGUESES. Foi uma melhora quase milagrosa, devo dizer. Poupem-se de querer ver as fotos.
No mais, ouço muitos relatos quase milagrosos dessa fruta. Depressão curada, a mãe que não briga mais com os filhos por besteira, mau-hálito matinal reduzido, intestino regulado, formigamento no órgão sexual masculino (e subsequente potência na hora de coisar) sem falar na cura da ferida brava da perna da mãe da "noneira" ( = mulher que faz suco de noni).
*******
Aliás, um dia, chegamos em casa às quatro da manhã, saindo de uma festa de formatura. Diálogo sonolento:
Mamãe - E aí, tu ainda vai "nonar"?
Eu - Não, vou "nanar".
Mamãe - Tem certeza que não vai tomar o noni?
Eu - Nonada!
Guimarães Rosa, às quatro da manhã? Na minha casa, tem.
Arquivado em: Comportamento, Cotidiano, Açúcar, Indignação, Família, Diálogo, Saúde
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O melhor elogio possível
23.02.09
Na qualidade de trabalhadora da arte espírita, envolvida com maquiagem, texto, cenário, platéia e personagens desde o ano 2000, quando eu tinha apenas 14 anos e uma monte de certezas, o movimento espírita amazonense ocasionalmente conta com minha voz projetada e inha memória boa pra textos pra usar o teatro como recurso pedagógico.
Pois bem, fui me apresentar no retiro-que-não-é-retiro, segunda-feira gorda. Sete da manhã, amores, eu de base, pó e rímel, metida num vestido "de mãe", porque se você tem mais de um metro e sessenta e um par de peitos 44, vão te dar o papel de mãe, ainda que você tenha 23 anos e nenhum filho.
Uma encenação bonitinha, o grupo ensaiou pouco mas é bem entrosado, algumas frases do texto foram invertidas, mas o resultado foi bom. E aí, depois da apresentação, nós confraternizando com os adolescentes - alvos das ações pedagógicas do retiro-que-não-é-retiro - no meio da confraternização vem um menino enorme, carinha de 14 anos, corpo de jogador de basquete da NBA.
- Oi, eu gostei muito de você na peça!
- Ah, que bom! Amanhã a gente vai fazer a segunda parte, viu?
- Legal. Sabia que você parece uma mulher do Almodóvar?
Eu, burra de dar dó:
- A esposa dele?
- Não, as personagens. Você tá meio que nem as mulheres do Almodóvar.
****************
GANHEI O ANO TODO, DEPOIS DESSA. Sério, o mundo ficou melhor. Te cuida, Penélope. Te cuida, Paz Vega.
(Não tenho nenhuma foto da encenação... Mas o vestido era da minha mãe, branco com umas estampas verdes retorcidas, meio Almodóvar mesmo. Não é maravilhoso que rapazes de quatorze anos conheçam Almodóvar? )
Tantas cosas debo decirte
10.02.09
Ando tão ocupada, gente. Estou trabalhando, fazendo curso de teatro, voltando ao convívio do pessoal da universidade, baixando dezenas de teses e dissertações sobre políticas públicas no www.dominiopublico.gov.br, pegando muita chuva em Manaus, essa terra cujo clima é um caos. Assumindo compromissos no meu grupo de teatro, de interpretar a personagem mais diferente de mim mesma que eu já vivi. Providenciando uns artigos pra publicar em eventos científicos, tentando superar minha próprio mediocridade e vencer a certeza que eu sou uma farsa, uma grande mentira que eu inventei e na qual o resto do mundo, curiosamente, acreditou.
Beijos com saudade,
Eva
Arquivado em: Blogosfera, Comportamento, Catarse, Cintaliga, Emoção, Esperança, Diálogo, Escola
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Coisas que eu detesto escutar
19.08.08
Gente que fala a palavra ESTRESSE como se fosse Istréiz.
Gente que, ao invés de dizer CIR-CUI-TO, dizem CIR-QÜÍ-TO. Aiiiiiiii!
Gente que fala "rúbrica", quando o certo é "rubrica". Aiiii 2!
Sotaque de pessoas de telemarketing. Parece sotaque de mano, meu. "Poir favoir, a senhóira conhêice o nôvô seirviço de cairtãouô de créditôu? Aguairde um momeinto, senhóura."
Gente que usa gíria pra tudo. Arre, que ódio. Há pessoas que não têm amigos, tem "os trutas", não tem trabalho, tem "trampo", não pega ônibus, mas sim "buzão". Nunca está tudo bem, e sim "firme", e nem pense em fazer uma refeição ou lanchar: com esse tipo de gente, você "faz uma broca". Odeio, odeio. Uma coisa é utilizar uma gíria aqui ou ali,até mesmo pra fazer brincadeira; outra coisa é falar como um presidiário.



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