Smoke gets in your eyes

31.08.09

Atualizando meu agregador de feeds e lendo textos dos meus queridos blogs, fiquei sabendo do auê que foi a lei anti-fumo em São Paulo. Teve relógio com contagem regressiva, né? Que horror.

Chegou a lei aqui em Manaus também. E nenhum manauara está se rasgando de ódio. Sabem por quê? Porque pouca gente em Manaus fuma.

É sério. Perguntem para a Darlana. Eu disse pra ela, no Largo São Sebastião (um dos lugares mais turísticos de Manaus, a céu aberto): "Olha ao teu redor, Darlana: ninguém está fumando." E é verdade, as pessoas aqui não fumam. Certamente, nao tanto quanto em São Paulo.

O manauara fumante faz parte de um público bem especifico. Normalmente, ele é jovem, rebelde, e está em algum lugar onde também há consumo de bebidas alcoólicas e música. E, aqui em Manaus, fumar tambem adquire um certo quê de rebeldia, contestação. Artistas geniais fumam. Gays fumam. Gente moderna fuma. Roqueiros? Também. Turistas, imigrantes, outras gentes de fora? Yes. Mas, ainda entre esses grupos, fumar na frente dos outros não é comum não.

(Antes que venham nos comentários dizer que isso é uma generalização grosseira, eu mesma digo: ISSO É UMA GENERALIZAÇÃO GROSSEIRA, NÃO-BASEADA EM ESTATÍSTICA ALGUMA. Certo?)

Olha, eu não sou palmatória do mundo. Acompanhei toda a discussão nos blogs sobre liberdade, o Estado legislando sobre o privado, fiquei realmente pensativa e até sou simpática aos fumantes que se sentem invadidos.

Mas.

Tenho que dizer que a chegada da lei anti-fumo (tem hífen ou não?) aqui em Manaus me deixou tão feliz. Agora eu posso ir ao Botequim (excelente barzinho de MPB que fica numa casa antiga, a dois passos do Teatro Amazonas) sem o desgosto de voltar pra casa com o cabelo cheirando a cinzeiro. Sem olhos irritados enquanto estou lá dentro. O Porão do Alemão (bar de rock que eu detesto e que Manaus Xóvem e nem tão Xóvem ama e frequenta, o que só prova que eu estou errada e mereço o exílio na Sibéria :D) vai ter ar respirável. Duvido que no Porão do Alemão a lei funcione. Mas se funcionar, vai ser tão legal para os garçons que não fumam, os músicos que não fumam, os frequentadores que não fumam.

Sério, gente, eu estou francamente puxando a brasa pra minha sardinha. Eu não fumo, não bebo, e não sou evangélica; isso me deixava sem nenhuma opção pra me divertir fora de casa! Minha diversão consistia em combinar DVD e partidas de Imagem e Ação na casa dos amigos drug-free como eu. Não temos dinheiro pra contratar música ao vivo domiciliar.

Agora, torço avidamente pela lei anti-bêbado chato. Ou anti-cheiro de bebida. Pois há muitos lugares que se tornam insuportáveis pelos consumidores de álcool sem noção. E eu adoraria ir a estes lugares. Caso eles fossem bem cheirosinhos.

Ia ser tão mais fácil se eu fosse evangélica, né? Eu iria a baladas gospel, drug-free. Acontece que eu não sou o público gospel. Sou o público do barzinho. Estou felicíssima com a perspectiva de madrugadas sem fumaça. E me arrisco até a sonhar - como é bom sonhar -com baladas sem bêbados. Todo mundo com seu suquinho de cupuaçu na mão. Ahhh, um mundo drug-free.

P.S.: Achei a contagem regressiva em São Paulo estúpida, sim.
P.P.S.: Cigarro fede, cigarro flutua no ar, cigarro enche o saco. Nem falo da parte de saúde, que todo mundo já sabe. O meu problema é mesmo o cheiro. Fico junto dos meus amigos que fumam por puro amor, porque tem coisas que a gente faz por amor. Inclusive ficar fedorenta.
P.P.P.S.: Seria um interessantíssimo estudo acadêmico descobrir porque se fuma mais no SulSudeste do que no restante do Brasil. Será que é mais agonia, mais estresse no cotidiano? Ou mais influência européia? Ou outra coisa, nada tendo a ver com isso? Os resultados seriam fascinantes.
P.P.P.P.S.: Não posso deixar de citar nesse post que, ainda vários meses após a morte do meu pai, os travesseiros e as paredes, a cabeceira da cama e as toalhas, tudo estava impregnado de cigarro, lembrando dolorosamente a mim e a minha mãe que o lugar dele estava vazio por causa do cigarro. Depois que ele adoeceu, nós pegamos um nojo de cigarro tão grande, uma raiva imensa. Enquanto ele era fumante, eu (criança, gente) convivia bem - eram os anos 90, fumar ainda era normal. Ele fumava Charm Box. Era fedidíssimo. Mas tem coisas que a gente faz por amor.

Espero do fundo do coração que fumar se torne a cada dia mais anormal, menos charmoso, menos aceitável. Egoisticamente falando, SIM. Que os fumantes sejam livres pra fumar, que sejam, afinal o cigarro é droga lícita (por milhares de motivos). Mas que não sejam comuns. Que as cidades (todas) se pareçam mais com Manaus: o fumante sendo a exceção, progressivamente menos visível, até que as crianças e adolescentes não mais achem divertido ou curioso soltar fumaça pelos buracos.

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Comportamento, Cotidiano, Família
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Noni-tícias

31.03.09

O noni não regulou meu intestino, pois nunca tive intestino desregulado.

O noni não melhorou minha pressão alta, pois não sou hipertensa.

O noni não sarou minha ferida brava da perna, pois não tenho ferida.

Mas uma coisa deve ser dita: a textura da minha pele mudou. Não sei explicar direito: não é maciez. É como se aquilo que está DEBAIXO da pele (derme?)fosse mais...consistente. Quem observa seu corpo sabe se ele mudou. Não é mera impressão.

Mamãe diz que as articulações estão respondendo bem. Como ela não está fazendo exercício nem tomando outro tipo de medicação, pode mesmo ser o noni. Pode também ser efeito placebo. Quem sabe, efeito Legião Urbana...

Estamos no fim da segunda garrafa de suco de noni. A primeira, vitaminada de noni com vinho barato, foi uma tortura. Azeda, ruim, arrotante (eca!). A segunda, frapê de noni com suco de uva sem açúcar, está MENOS RUIM. O que não quer dizer que seja boa. E continua arrotante (eca 2!).

Talvez eu já tenha superado a fase do sofrimento e esteja da fase da aceitação. Não é mais tão ruim engolir o troço. E há as técnicas. Pois para tudo há que se ter um método. Viro o cálice de noni com rapidez, jogo ele direto na garganta, evitando contato direto língua/noni. Logo em seguida, bochecho um gole de água, e não dispenso a ajuda de algo de sabor melhor: um copo de iogurte, um biscoito, um pedaço de bolo.

Aguardemos a terceira garrafa. A velhinha que fabrica o suco em série e revende (nos poupando do horroroso trabalho de esperar o noni amadurecer com todo seu cheiro de pesadelo e espremer a fruta-vômito na peneira com nossas mãozinhas) é como uma proclamadora dos poderes do noni. Ela tem uma série de fotos da ferida da perna da mãe dela, batidas semana a semana. Tipo "antes e depois do noni". E ela MOSTRA PARA OS FREGUESES. Foi uma melhora quase milagrosa, devo dizer. Poupem-se de querer ver as fotos.

No mais, ouço muitos relatos quase milagrosos dessa fruta. Depressão curada, a mãe que não briga mais com os filhos por besteira, mau-hálito matinal reduzido, intestino regulado, formigamento no órgão sexual masculino (e subsequente potência na hora de coisar) sem falar na cura da ferida brava da perna da mãe da "noneira" ( = mulher que faz suco de noni).

*******

Aliás, um dia, chegamos em casa às quatro da manhã, saindo de uma festa de formatura. Diálogo sonolento:

Mamãe - E aí, tu ainda vai "nonar"?
Eu - Não, vou "nanar".
Mamãe - Tem certeza que não vai tomar o noni?
Eu - Nonada!

Guimarães Rosa, às quatro da manhã? Na minha casa, tem.

Agridoce

11.11.08

Olá!

Vim aqui, com a devida permissão da Eva, para conforme o prometido comunicar aos meus dois ou dez leitores o endereço do meu blog novo.

Ainda falta ajustar algumas coisas, mas eu tô achando bem lindo de cara.

Escolher um nome para um blog novo não foi nada fácil. Eu pensava: depois de CINTALIGA não conseguirei bolar nada mais incrível. Porque, vamos combinar, CINTALIGA é o nome de blog feminino mais perfeito do mundo!

Depois de muito matutar e consultar milhares de pessoas, decidi por AGRIDOCE. Não é o nome de blog feminino mais perfeito do mundo, mas tem tudo a ver comigo, quem me conhece sabe... Hahahahahahaha!

Então, a Eva agora tem 100% das ações do CINTALIGA, esse blog lilás e incrível que eu ajudei a construir e desejo que cresça cada vez mais.

Quanto a mim, criei o miniportal familiar que falei na minha despedida - ele se chama DIALÉTICA -, e nele vou construir pouco a pouco o AGRIDOCE.

É isso. Leitor, você sabe, a emoção continua. Porque eu só sei escrever assim.

Eva, querida, eu não te disse que se um dia tivesse que deixar o CINTALIGA de herança pra alguém eu deixaria pra ti? E nem foi preciso morrer. Que bom! ;)

Beijo!

E o meu medo de ter medo de ter medo...

01.12.07

Depois de um texto da Lu que me fez chorar de tão lindo e bem escrito (Ó, grande novidade, né, Luluzinha? Tanto o seu texto ser bem escrito quanto eu chorar. :P), deixo um desabafo e um poeminha pueril ao extremo, escrito tempos atrás. Aliás, ele foi publicado na Agenda da Tribo de 2002/2003, junto com mais nove poemas meus.
Lembrei dele ontem, após ficar nervosa por causa de um tiroteio na maior e mais movimentada estação de metrô de São Paulo, a da Sé.
Sei que os tiros partiram de um policial à paisana que presenciou uns bandidos fugindo - após assaltar um banco - em meio à multidão. E que os tiros, além de não terem matado nenhum marginal, atingiram cidadãos comuns que estavam nos vagões e na plataforma.
Um dos disparos atingiu de raspão a cabeça de um homem. E eu me pergunto: por quantos milímetros a vida deste homem não foi ceifada?
Não, eu não estava no metrô, mas passei nervoso do mesmo jeito. Admito que não tenho estrutura para morar em uma cidade com índices de violência como São Paulo ou a lindíssima Rio de Janeiro. Já passei por situações que me fizeram recorrer a terapia, sim, e ultimamente novos acontecimentos envolvendo entes queridos me jogaram novamente na categoria "pessoas com pânico, ansiedade e constante sensação de perigo iminente".
Muitas vezes eu penso que eu deveria ter nascido em uma cidadezinha nas Serras Gaúchas, integrar uma família que vivesse da produção de vinhos artesanais e passar os dias a esmagar uvas com as mãos, liberando tensões e rindo com minhas irmãs e primas. Penso nisso e me dá uma sensação ao menos boa.
Aqui a gente vai levando e aceitando tudo, apenas ficando feliz a cada noite por ter sobrevivido a mais um dia. E saindo todas as manhãs com a sensação de ter que fazer um testamento, deixar as senhas dos e-mails e do Orkut com a família, fazer declarações de amor a pessoas que a gente quer que saibam que são muito amadas, mas que na nossa correria a gente não pára pra dizer ou demonstrar isso.
Não é todo mundo que está nesta paranóia, é claro, e ainda bem. Não desejo mesmo pra ninguém sentir este incômodo, ficar nervoso a cada moto que pára ao nosso lado no farol, com telefones tocando às duas da manhã (com crianças passando trote, mas o primeiro pensamento que temos é de ser algo deveras preocupante), a cada vez que um estranho nos aborda na rua depois das oito da noite.
Queria demais uma cidade mais segura, me sentir mais parte dela, usufruir de parques e praças, andar pelas ruas do centro, andar com o vidro do carro aberto (não uso nem Rolex e nem jóias, minhas roupas são baratas (e boas, muito boas, faço questão de ter roupas que durem anos), e meus maiores bens são minha vida, minha família, meus gatos e meus livros, de modo que deixo roupas e bolsas da Daslu e relógios Rolex para pessoas menos imaginativas e mais ostensivas), sair de bicicleta, me sentir cidadã, afinal.
São desejos de todos, óbvio, e não vou ficar chovendo no molhado ou sendo Polyana.
Sou contra muros altos, sou contra cercas elétricas (argh, me digam, a que ponto uma sociedade chegou, para fazer uso de coisas que, além de não matarem bandidos, matam gatos e pássaros desavisados, e de uma forma cruel?), sou contra condomínios fechados que só fazem é segregar ainda mais todo mundo. Pode ser que um dia eu mude de idéia, mas arrisco com forte chance de ganhar que isso não vai acontecer. Uma sociedade tem que se ver, tem que se esbarrar, tem que interagir e fazer a cidade ser dela. Casas com muros de dez metros, câmeras por todos os lados e cercas elétricas me dão calafrios. Moro muito próximo ao bairro do Morumbi e fazer um passeio por ali é garantia de depressão. Você não vê uma pessoa nas ruas. Nada. Apenas guaritas e seguranças. E o mais irônico é que várias casas ali sofrem assaltos. Algumas a cem, duzentos metros do Palácio do Governo (houve pelo menos dois casos de assaltos a condomínios fechados naquela região, de um ano pra cá). Igualmente irônico é pensar que os vinte metros de muro na casa do "homem do Baú" Sílvio Santos não impediram que ela fosse invadida.
Posso estar falando bobagens aos olhos de muita gente, mas li na revista Trip do mês passado entrevistas com cinco arquitetos que têm a mesma linha de pensamento que a minha, e isso me confortou. Talvez eu devesse ser arquiteta, ao invés de ficar nervosa sem fazer nada de concreto. Ou vereadora. Enfim, agir de alguma maneira.
Só não quero é imaginar que as crianças de hoje serão os neuróticos de amanhã, andando em carros blindados, morando em condomínios fechados de alto padrão e sem contato com a realidade quase nunca ou sendo como eu, que mesmo não tendo nada disso, vivo assustada. Prum ladrão, minha vida não vale nada e ele pode me matar apenas por causa do meu celular ou do meu lap top usado e barato. Eu seria só mais uma nas estatísticas.
E contrariando estas mesmas estatísticas, espero presenciar ainda muitas mudanças positivas na minha cidade, especialmente no quesito violência. De preferência, sendo sempre agente atuante para estas mudanças. Não tenho mais paciência para esquerdista que discute problemas sociais em boteco fumando seu Marlboro e muito menos pra direitista que filosofa nos restaurantes finos e caríssimos da cidade fumando seu charuto, se ambos não fizerem mais nada além do que abrir a boca. Porque é tão fácil fazer algo. Qualquer coisa que a gente pense em fazer para ajudar o próximo, já é uma diferença grande. Resgate de animais (ou ser veterinário voluntário em campanhas de castração da prefeitura), trabalho voluntário em escolas ou hospitais, dar aulas de alfabetização ou reforço escolar para uma escola ou comunidade carente, levar roupas/sapatos/brinquedos usados em instituições, doar sangue, doar livros para bibliotecas de escolas públicas (ou bibliotecas de comunidades), plantar uma árvore, enfim, doar algumas horas do seu tempo para qualquer coisa que não te leve necessariamente rendimento, mas satisfação por saber que ajudou alguém ou alguma causa, seja lá qual for. Quando dizem que "gentileza gera gentileza", pode apostar que é verdade.

Aqui vai o poeminha, antes que eu esqueça:

Outro dia, fui assaltada.
Pela quarta vez
Entreguei tudo,
sem reagir.
E corri pro analista
Afinal, vão-se os anéis
e ficam os medos.

É bobo e infantil, mas é de coração. ;)

Pessoas de Família

25.11.07

Esta madrugada assisti a um filme com o Nicolas Cage, chamado Homem de Família (The Family Man, de 2000), num canal qualquer da TV a cabo.
Peguei o filme já começado (namorado é que me ligou pra falar pra eu ver... dizendo que não era um filmaço, mas que algumas passagens dele provavelmente eu acharia legais, e acertou), mas deu pra entender a história sem me perder.
Nicolas Cage é Jack Campbell, um bem-sucedido corretor de Wall Street, prestes a fechar um negócio milionário. Treze anos antes, ele abandonara sua namorada do colégio, Kate (a linda e carismática Téa Leoni), porque havia conseguido uma bolsa de estudos em Londres. O velho dilema amor versus carreira (sim, tem muita gente no mundo que realmente não sabe ou não consegue conciliar as coisas). E ele então
parte para a Inglaterra, iniciando sua vida de executivo estressado e rumo ao salário de seis zeros pra cima.
Uma noite algo acontece e um estranho o oferece a chance de passar por uma experiência única. Naquela noite Jack adormece, acordando na manhã seguinte imerso em uma vida totalmente alheia à dele.
Ele agora não é mais o executivo Jack Campbell, mas sim o "homem de família" (que dá nome ao filme) Jack Campbell. Está casado com Kate, tem um casal de filhos destes que até nos dão um pouco de raiva, de tão fofos e perfeitos e é gerente de vendas no varejo da fábrica de pneus do seu sogro.
Seu carro não é mais uma super máquina de milhares de dólares, mas sim uma perua do tamanho ideal para sair com os pimpolhos.
Não usa mais ternos de estilistas famosos, mas sim roupas confortáveis e mais práticas (e infinitamente mais baratas, claro).
O filme me deixou apreensiva em muitos momentos. Especialmente naqueles em que Nicolas tem fortes crises de questionamentos de suas escolhas.
Não recomendo mesmo que nenhum homem ou mulher com grandes ambições no mundo dos negócios e que tenha dúvidas a respeito das limitações que um casamento impõe veja algo assim. Certamente vai ter certeza de que casamento é uma das piores coisas criadas pela sociedade.
Eu posso ter meu ponto de vista baseado em experiência completamente pessoais, mas o que eu sei é que tem pessoas que não nasceram mesmo para casar. Não conseguem, estão sempre pesando as coisas e questionando tudo. Isso coloca qualquer casamento a perder.
Há também as pessoas que simplesmente têm fortes desajustes e nem se dão conta, fazendo casamentos infelizes e tornando seus cônjuges tão infelizes quanto.
Não parece ser o caso do personagem do filme, no entanto. Ele não tem desajustes (aparentemente), os questionamentos advêm do fato de ele ter vivido a realidade do dinheiro em abundância e do mundo dos negócios, e agora se ver diante das restrições de dinheiro e da liberdade para fazer o que bem quiser com seu tempo livre - inerentes a 95% das famílias - em prol dos filhos.
Bom, é um filme, é com o Nicolas Cage e é americano, então obviamente que o final será feliz e previsível, fazendo a alegria de milhares de casais, especialmente mocinhas românticas.
Como o Tuca bem disse, não é mesmo um filmaço, mas vale a pena, caso esteja passando em uma madrugada qualquer em que você esteja de bobeira frente à TV.
E, se você ainda tem, uma réstia que seja, de esperança no amor, como eu, não deixe de ler este texto do Inagaki que eu sempre indico e leio de tempos em tempos.
Porque, como ele, eu também procuro um Amor-Fênix. ;)

Daniel, o caçula

17.11.07

Hoje meu irmão mais novo estaria completando 28 primaveras. O Daniel, ou Dani, como eu o chamo ainda hoje, faleceu criança, no Recife, onde está enterrado e recebeu pouquíssimas visitas desde o dia 1º de maio de 81.
Ele seria o mais bonito de nós, sem dúvida; foi o único que herdou os olhos verde-esmeralda da minha avó Magdalena.
Era escorpiano, signo da água, como o meu, peixes. Sempre penso nisso nas inúmeras discussões literalmente acaloradas em que minha mãe sagitariana e o André, meu irmão leonino, conseguiam fazer minha água toda entrar em fervura. "Dois elementos fogo versus um de água é sacanagem. Com o Daniel aqui as coisas talvez fossem mais equilibradas", eu pensava.
Quando uma pessoa falece muito nova, não tem como não ser vítima de milhões de idealizações por quem fica, especialmente seus pais e irmãos.

"Será que ele amaria os livros, como eu? Será que tocaria um instrumento musical, como eu sempre quis e nunca consegui? (Toco flauta doce e amo, mas um dos maiores desejos seria mesmo ter nascido com o dom de tocar violão e flauta transversal), será que adoraria escrever e arrebataria corações com letras ou poemas de amor? Gostaria de animais e especialmente gatos como eu? Gostaria de praias desertas, de céu estrelado, de comprar roupas em brechó, de passar horas numa livraria ou sebo, de ver o Mágico de Oz tendo The Dark Side of The Moon como trilha ao fundo, numa sala escura, ao lado de amigos e da irmã? Teria sido um excelente aluno de matemática, possibilitando livrar esta mesma irmã de algumas reprovações no ginásio?
Gostaria da Mafalda, do Calvin, do Woody Allen, de artes em geral, de ler Leminski, de escutar Beatles e Chico Buarque?"

Não adianta, nas minhas idealizações, não há espaço para pensar que ele poderia ler só coisas como "Quem mexeu no meu queijo" e "Pai rico, pai pobre". Que compraria CDs de pseudo-caipiras milionários que rimam amor com dor ou do Kenny G. Que compraria um carro potente e sairia por aí tirando racha.
E, muito pior que isso tudo, que bateria em prostitutas ou queimasse índios em pontos de ônibus.

Só penso que ele seria uma pessoa incrível. Um menino de ouro, sensível, bonito, educado, inteligente, bom caráter, de alma rara.

Eu converso com o Dani em muitos dias no ano, mas nos 17 de novembro, em especial, a coisa é mais forte. E NESTE, este sábado nublado no meio de um feriado prolongado, ando conversando com ele mais do que nunca. Imaginando que tipo de conselhos e ajuda ele me daria para dissipar estas nuvens que invadiram minha cabeça e meus dias de semanas pra cá.

Dani, eu sou uma cretina duma cética que não acredita em nada, nem mesmo que você "esteja aí em cima olhando pra mim". Eu queria, mas não consigo. Desculpe por não visitar suas proteínas (como disse a Eva num lindo texto semanas atrás), depositadas a três mil quilômetros de mim. E, mesmo que eu não acredite que iremos nos reencontrar e nem que você esteja aí em cima olhando pra mim, tenha certeza de que eu estou aqui embaixo olhando pra você. ;)

P.S.: Eu sempre escuto a música Daniel, do Elton John, pensando em você, Dani. ;)

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