London, London

30.09.08


I'm wandering round and round nowhere to go
I'm lonely in London London is lovely so

Eu contei de Liverpool, certo? Dos Beatles e tudo.

Meu plano era ficar em Liverpool ate dez da noite, assistir uma peca de teatro, pegar o onibus das onze e dormir dentro do onibus, para acordar em Londres, as sete da manha. Tudo lindo, neh?

O tour dos Beatles acabou as duas da tarde do dia 20, sabado. Sai do Cavern Club (onde bati uma foto sentadinha NAQUELE palco), e fui descobrir se realmente o onibus estava cheio. Com mapa na mao, e sendo Liverpool uma cidade muito bem sinalizada, eu me perdi tres ou sete vezes.Eu parava pra pedir informacoes, o povo de Liverpool eh maravilhoso. Eles te veem com um mapa na mao, olhando pra todos os lados, mochila na costa, e jah perguntam: "Are you ok?" Eu pedia informacao, e eles davam, muito felizes: "Oh, travel centre? I will tell iah. You go straight this way, turn right, parafuso macarrao estrogonofe five minutes walking." Pessoas maravilhosas com o pior sotaque do mundo...Eu entendia bem uns setenta por cento, mas os trinta or cento faziam uma falta danada. Achei o Travel Centre apos muito andar. Pra descobrir que, realmente, nao tinha vaga nenhuma.

Voltei pro Albergue onde eu tinha dormido, na Albert Dock, depois de me perder mais umas vezes. Perguntar se eles tinham vagas pra aquela noite: eu poderia dormir em Liverpool e pegar o onibus pra Londres de manha. Nao tinham vaga. E jah me adiantaram que nenhum outro hostel teria vaga, mas eu poderia procurar um hotel.

Acessei a internet pra resolver o caso. Mandei um e-mail pro hostel de Londres, perguntando se eu poderia mudar meu horario de chegada de sete da manha pra uma da manha. Eles demoraram meia hora pra responder, "ok, no problem, you can arrive at any time." Beleza. Vamos comprar a passagem de trem.

Muito bem. Me perdi trinta ou oitenta e sete vezes procurando a Lime Street Station, contando com a ajuda de meia Liverpool dizendo que era apenas six minutes walking. Apos quarenta minutos achei a estacao e comprei a passagem de trem. (Six minutes walking, QUANDO VOCE SABE O CAMINHO, logico.)

E nesse momento veio a dor, a pior dor de todas: a dor no bolso, a parte mais fragil da minha anatomia. A passagem de onibus era doze libras. A de trem? Sessenta. Minha mente preferiu nao calcular o cambio pra reais para nao sofrer mais. Tive de trocar euro por libra, o que piorou a situacao. Enfim. Faltando uma hora pro trem sair, com as memorias de um tour de sonho na cabeca, a tarde em Liverpool perdida, e completamente falida, fiz o que qualquer pessoa durona faria: liguei pra minha mae chorando. "Mamae, mamae, eu vi a casa do George!" E ela, com a voz tremula: "Foi, filhinha?" Desabei. Falei pra ela do rombo orcamentario que aconteceu, e ela, muito sensata: "Quer parar de pensar pequeno? Quando eh que tu vai ter uma chance dessas de novo? Esquece o dinheiro!" Adoro minha mae, adoro, adoro.

Eu falava alto, andando de la pra ca na estacao e chorando. Uma perfeita louca. Quando eu desliguei, fui procurar meu trem. Um grupo de brasileiros veio perguntar se eu estava bem e se precisava de ajuda. Fiquei com eles, e, olha soh: eram de Belem, a cidade da mamae. Arranjamos montes de assuntos, e foi mais facil aguentar as longas horas de trem, acertar a conexao. Quando chegamos em Londres (Victoria Station), outra moca brasileira que jah morava em Londres ha um tempo pegou o mesmo metro que eu, e jah me ajudou a achar as estacoes do metro e diferenciar as linhas coloridas. No fim, talvez tenha sido melhor ir de trem e encontrar essa mocada no caminho. Eu acredito em anjo da guarda, entao...

Nota: foi estranhissimo chegar em Londres, e a primeira impressao ser...ver O SUBSOLO da cidade. Mas enfim, o metro foi meu melhor amigo em Londres.

Desci na estacao Earl's Court do metro e comecei a procurar o albergue. Eu tinha o nome, tinha as indicacoes sobre como chegar, mas nao tinha o endereco. Nunca facam isso, ouviram? Em Londres, com o endereco, todo mundo pode te dar informacao. Sem o endereco, ninguem sabe como te ajudar.

Uma da manha, mocinhas de quinze anos voltando da balada, e a Eva indo e voltando quarteiroes pra cima e pra baixo. Londres eh bem segura, e eu nao senti medo por isso.

"I cross the streets without fear"

Mas o meu pe (My left foot, hahahah) estava doendo desde Liverpool, a bota tinha uma pontinha que machucava. Yahoo! (pronuncia-se Urruul!). Ate que um dos recepcionistas indianos dos albergues vizinhos imprimiu a pagina do Google Maps pra mim, e assim eu achei o Earl's Court Youth Hostel. Fui atendida por um cara que nao achava meu nome na lista de quem tinha feito reserva para o dia. Obvio: minha reserva era pro dia 21, e, apesar de ja ser madrugada do dia 21, nao era o MEU dia ainda. E vejam soh: no site acusava nao haver vaga pro dia 20. Mas eu dormi lah, numa cama muito boa, o que quer dizer que eles nao disponibilizam todas as vagas no site. Enfim. O cara da recepcao fez questao de deixar bem claro que "breakfast is not included".

"I know, I know no one here to say hello."

Tomei um banho cheio de sofrimento e solidao, e subi na cama. (Logico que eu tinha de ficar no andar de cima do beliche, pra ser mais dificil.) Dormi pensando no que fazer no dia seguinte em Londres.

"Silent pain and happiness "

Acordei cedissimo, as seis da manha. Domingao LINDO de sol e ceu azul em Londres. I'm a lucky girl. Tomei banho, troquei de roupa, arrumei minhas coisas, tranquei minha mochila no armario (locker), e sai as sete e meia, com a intencao de ver a troca da guarda da rainha.

No proprio albergue, me venderam um ticket valido pro dia inteiro, metro e onibus. Cinco libras e trinta pence, mas soh poderia usar depois das nove e meia da manha (fora do horario de pico - off-peak). A viagem unica de metro custa quatro libras. Nao, nao tem logica.

(Nota explicativa: o nome completo do dinheiro do Reino Unido eh POUND STERLING (libra esterlina), mas o povo chama de Pound ou de Sterling. Um centavo eh One Penny; mais de um centavo, pence. As moedas tem a cara da Rainha, e sao bonitas. As notas nao sao bonitas, mas eu gostei da nota de ten pounds, que tem a cara do Darwin. :D Como fiquei com muita raiva pelo absurdo da passagem de trem, eu falo que a passagem nao custou sixty pounds. Custou SIXTY PAUS. :D)

Fui ao supermercado, apos contar meu dinheiro e perceber que soh tinha vinte libras pros dois dias em londres. No dia seguinte eu precisaria comprar outro cartao pro metro, pagar o transporte pro aeroporto (que eh CARO). Decidi que comer nao era uma prioridade: comprei uma garrafinha de leite (muito engracada, parece uma garrafa de amaciante em miniatura) e seis bananas, o que deu uma libra certinho. Aquilo seria meu cafe da manha e almoco, e eu poderia usar a garrafinha depois pra beber agua. Da torneira.

Mas comer eh coisa de quem eh apegado as coisas materiais, nao eh mesmo?

Eh bem facil se localizar no metro de Londres. Tem mapinhas gratis de bolso nas estacoes, tem totens com mapas em todas as paredes, a sinalizacao eh otima.

No metro de Londres, algumas dicas sao necessarias. Preste atencao em qual eh o destino do seu metro, senao voce anda ao contrario. Nas escadas, fique sempre a direita, deixando a esquerda livre pra quem esta com pressa e passa correndo."Everybody keeps the way clear." Deixe o bilhetinho a mao, pois voce soh sai se passar o bilhete na maquina.

Eu sabia o nome da estacao para onde queria ir (Green Park), e fui. Cheguei lah, casando o mapinha do metro com o mapinha do centro e o mapinha de uma revista que eu ganhei, atravessei o Green Park (LINDO DE MORRER, VERDE, ENSOLARADO), e neste momento sim, pensei "ESTOU EM LONDRES". Derrubei umas lagriminhas pela emocao da epifania.

Bem, vi o Palacio de Buckingham (pronuncia-se Baquinrram). Eh muito bonito, grandao, portoes com pontas douradas, um enorme monumento na praca em frente. Mas eu achei muito simplesinho... Quem mora do lado do Teatro Amazonas gosta de luxo, sabe? Na frente do Palacio de Buckingham, uma amigavel plaquinha: "No changing guard ceremony today". Puxa, que legal. Todo dia tem a troca da guarda, menos no dia que eu reservo pra assitir...

Bati umas fotos dos guardinhas sisudos de chapeu preto. No fim de semana que eu estava em Londres, as portas do palacio estavam abertas para visitantes - desde que os visitantes pagassem... Nao era meu caso, apesar da minha vontade de ver a casa da rainha mais famosa da atualidade. Continuei andando pelos arredores, na direcao do Hyde Park. My left foot estava doendo muito, muito, e nao tive coragem de entrar no Hyde Park. Depois de pererecar um tempo tentando atravessar brasileiramente a rua na frente dos carros, descobrir que existia um subway (passagem subterranea, daaa) pra pedestres. Peguei o onibus (VERMELHO DE DOIS ANDARES, segundo momento de epifania) na Hyde Park Corner, para chegar ate o Victoria and Albert Museum.

Surpresa 1: basta MOSTRAR o cartaozinho pro motorista. Nao precisa passar em maquina nenhuma.
Surpresa 2: quando perguntei ao motorista se ele me avisaria quando chegasse a parada, ele me respondeu: "Just listen." Bem, o onibus FALA o nome das paradas.Com uma linda voz de mulher. E, quando o onibus falou "Victoria and Albert Museum", eu desci!

O Museu? Ah, outro post.

Eva
este post teve participacao especial de Caetano Veloso, com sua musica London, London. Musica, alias, que refletiu exatamente TUDO o que eu achei de Londres.

P.S.: Essa ideia de colocar musicas nos posts eu roubei da Fal.

Escrito por Menina Eva
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Amazonas

04.09.08

Eu sou mais amazonense que brasileira. Muito mais.

Eu sou mais tapioquinha, mais suco de cupuaçu. Sou banana frita sendo vendida nas ruas; banana verde frita, que vira uma Banana Chips, e banana madura, que vira aquela coisa maravilhosa pra comer com leite condensado.

Eu sou mais calor. Mais calor. E em setembro, MAIS CALOR AINDA. (Este ano vou perder o alto verão pela primeira vez!) Reconhece-se um amazonense quando ele, no verão de 39 grausàs oito da manhã, brada em voz alta: "Esse verão é o pior de todos os tempos!" Todos os anos, os amazonenses bradam isso, o que me leva a crer que o pior verão é aquele o do momento. Nossos verões são horríveis. Mas só nós podemos reclamar, viu? Ai daquele que se queixar do nosso calor. Faremos um discurso, provando como o calor é melhor que o frio, e que, afinal, calor não é o fim do mundo.

Eu sou encontro das águas. Eu sou Solimões e Negro - e o Amazonas nasce em mim, nasce perto da casa do meu Senhor Galante, quando os dois rios correm juntos, respeitando as diferenças um do outro para formarem o maior rio do mundo.

Eu sou farinha, sou peixe, e também sou peixe com farinha, ahhh. Sou bombom de cupuaçu, de castanha, de açaí. Sou o feirante gritando "olha o açaí-buriti-bacaba-patoá", como se os quatro sucos diferentes fossem uma palavra só.

Eu sou Amazonas, até a ponta das unhas, em todos os fios de cabelo, em cada fibra do coração. Mesmo o Amazonas sendo apenas risquinhos no mapa, mesmo o Amazonas não existindo na vida real, na vida real dos ribeirinhos nortistas, acreanos, rondonienses, ou roraimenses ou amapaenses ou paraenses ou amazonenses. Somos todos tão parecidos, nós do Norte. Meu pai falava: "Pode vir forte, pois sou do Norte e não temo a morte!" Somos todos tão diferentes, aqui no Norte. Somos todos tão esquecidos, aqui no Norte. E acreditamos em linhas de mapas.

Sou Amazonas quando digo "Hoje eu tô cansada que só". Sou Amazonas quando olho para um orelhão da Telemar e penso, no silêncio do meu subconsciente, "Olha o telefone do Caprichoso". Sou Amazonas quando peço uma garrafa de dois litros de guaraná Baré na pizzaria, e declaro pra quem quiser ouvir que "esse é o melhor guaraná do mundo!".

Sou Amazonas quando assobio a música do Raízes Caboclas. Sou Amazonas quando danço ciranda, e sou Amazonas quando passo pelas árvores que param pra bater foto. Porque nenhuma brisa sacode as folhas das árvores daqui.

Sou Amazonas no Teatro Amazonas, que a meu entender é fêmea. (O Teatro é tão enfeitado e luxuoso que só pode ser mulher, gente.) Sou Amazonas de história recente, povo misturado, vatapá nordestino nos aniversários, forró nordestino na rádio, filmes americanos no cinema, em busca de uma identidade, em busca do que ser, em busca do regional quando a moda é o globalizado.

Sou Amazonas na identidade e no passaporte. Sou Amazonas no chiado do "s" e no arrastado do "r". Sou Amazonas no fundo dos olhos, e com meus olhos amazonenses eu vou enxergar o mundo todo, pra poder voltar pro Amazonas todo dia, todo ano, sempre, como os peixes e como os pássaros, e como as árvores que nascem furiosas, morrem e geram novas árvores.

Sou Amazonas todos os dias, mas no dia cinco de setembro eu sou um Amazonas aniversariante. E quando todo o país se queixa do feriado que caiu no domingo, eu sou um Amazonas com Feriadão comçando na sexta!

P.S.: Cinco de setembro, dia da Elevação do Amazonas à categoria de Província. Dia internacional da Amazônia. Amanhã é meu dia; e amanhã eu serei o Amazonas fazendo check-in, o Amazonas indo embora do Amazonas. A perspectiva de ficar longe de casa é assustadora, mas a perspectiva de ficar um mês sem passar perto do Teatro Amazonas me causa uma dor quase física. Esse amor que eu tenho por esse lugar é tolo demais, tolo demais.
P.P.S.: Eu volto aqui ainda hoje pra deixar o endereço do meu twitter e do meu flickr e do etc etc.

Escrito por Menina Eva
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Dupla face

27.05.08

Dentro de mim tem um monstro.Quando eu estou sob pressão,ele aparece e estraga tudo o que eu fiz de bom antes.

Quem me conhece sabe como eu sou. Falante, desembaraçada, atenta, sempre cumprimentando o máximo de gente que der, sempre me esforçando pra ajudar, sempre tentando colocar um pouquinho de açúcar na vida, porque açúcar é gostoso que só e a vida da gente bem que podia ser melhor temperada.

Eu tento ser uma menina legal. Apesar de não saber ser meiga nem delicada nem feminina, e de não falar macio, sempre tento fazer um cafuné em quem estiver mais perto da minha mão, elogiar as coisas que merecem elogios (um batom lindo, uma comida ótima, um trabalho feito com dedicação).

Eu admiro muito quem é meiga-delicada-feminina, mas se eu fingisse ser assim estaria sendo hipócrita. Eu sou esculachada, rio bem alto mostrando a garganta mesmo, fico descalça sempre que dá.

Eu danço quando gosto da música, eu bato palmas sozinha quando o ritmo me contagia, eu adoro Bossa nova, eu danço forró sozinha quando não encontro parceiro, eu assumo quando acho um rapaz bonito (e falo isso pra ELE), eu dou em cima MESMO quando tenho vontade e/ou tesão.

Eu sou uma Menina, mesmo. Menina-criança, menina-sincera, menina-agitada. Menina.

O problema é o monstro.

O monstro aparece quando eu perco um arquivo do word sem salvar; quando eu tenho dez faces pra maquiar em trinta minutos; quando descubro que comeram todo o pão de queijo e não pensaram em guardar um pra mim, que estava varrendo o chão; quando repetem a mesma frase sem graça dez vezes;

E, principalmente, quando eu estou nervosa e alguém fala "Calma, Menina, calma." Se vier apertando os meus braços pra me fazer sentar, eu viro o Monstro.

O Monstro usa frases curtas. O Monstro manda nos outros. O Monstro empurra as pessoas, faz cara de quem comeu e não gostou e desconta sua raiva nos outros. O Monstro tem vontade de arremessar as coisas na parede. O Monstro destrói amizades apenas com um olhar gelado e um frase cortante. O Monstro acha que nunca erra. O Monstro grita sem necessidade. O Monstro usa o sarcasmo como arma. O monstro age grosseiramente.

Eu não sei se eu sou a Menina Eva ou se o meu verdadeiro jeito de ser é ser monstro.

(Escrevi este texto em 17 de julho de 2004. Não mudei nada, nada, nada, nada - apenas o pseudônimo mudou. Ai, que vergonha.)

Escrito por Menina Eva
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Eu e Balão Mágico

08.04.08

Eu não assisti ao programa na TV. Eu não lembro do Tob, pelo qual a Luciana e a Patrícia, minhas colegas de blog, suspiram. Não lembro nem da Simony cantando com o Roberto Carlos - essa imagem eu só trago na memória graças ao Vídeo Show e ao Youtube.

Mas eu lembro das músicas, ah, como lembro. Eu tinha as fitinhas cassete.

Não sei dizer como é que eu tinha as fitas. Muito provavelmente, minha mãe comprou pra mim quando eu tinha um ou dois anos, porque eu nasci em 1985! Passei a primeira metade da década de 90 ouvindo Balão Mágico, o que comprova que esse meu anacronismo, de gostar do que está fora de moda, começou cedo.

Quem tem pai músico tem espaços musicais dentro de casa; eu ficava longo tempo na salinha de música, ouvindo minhas fitinhas do Balão. Dez ou quinze vezes seguidas, como convém a todo filho único.

(É adequado aqui relembrar como é o mecanismo de escutar uma fita cassete, pois deve haver leitores que não pegam numa fitinha há dez anos ou mais. A fita cassete tem lado A e lado B, ou "Programa A" e "Programa B", como vinha escrito. Você colocava a fita dentro do toca-fitas, apertava o play e ela começava a rodar. E aí, rodava em sequência, porque não dá pra separar as FAIXAS em uma fita. Se você quisesse pular uma música, tinha de acelerar a rotação e parar, escutar o pedaço que estava, acelerar de novo, escutar de novo, até ajustar. Nessas idas e vindas, perdia-se um tempo enorme, mas nada que uma criança de sete/oito anos não suportasse.

Nesse pula-pula de músicas, tinha uns esquemas. A fita tinha dois lados. Quando a música 3 do Programa A estava começando, você podia apertar stop, virar a fita, e ouvir o FINAL da música 3 do Programa B. Isso gerava toda uma gama de combinações, do tipo "Vou ouvir as três primeiras do programa A, virar, acelerar até o final da terceira do programa B, ouvir a quarta do Programa B e virar de novo pra ouvir a quinta do programa A".

E tinha as contagens. "Ouve a primeira música, aperta o botão de acelerar e um e dois e três e quatro e cinco e seis e sete e oito e PLAY!" E eu acertava direitinho o início da terceira música! Isso requeria bastante prática.

"Mas Eva", vocês perguntarão, "porque não ouvir a fita toda na sequência, com todas as músicas?" E eu responderei que eu queria pular as músicas que eu não gostava, oras (Esqueceram que eu era filha única?).

Nas minhas manhãs solitárias - jamais gostei do programa da Xuxa, olha o anacronismo aí, gente! - eu ficava lá, em companhia de Putz, o Grande Mago, que anda por um triz, pois fez sumir o seu amor e não pode ser feliz. Também tinha um gato que sempre entrava na tuba do Serafim, e um outro gato, que vivia sempre com um prato na mão. Era o Garfield.

Tinhas as músicas engraçadas. Eu gostava particularmente de Papabaquigrifismo. Porque eu me identificava COMPLETAMENTE com a personagem. Reparem:
"Meu nome é Clara dos Anjos Santos, sou professora, sou coisa e tal. Falou difícil? Falou comigo! Sou super-hiper, sou maioral...Eu tô sabendo, eu sei tudinho. Meu apelido é sabidão. Falou difícil? Falou comigo! Sou geniozinho, sou campeão!".

E vinha aquele refrão delicioso que eu aprendi a cantar de pura birra:
- Pa-pa-ba-qui-grifo!
- Pa-pa-ba o quê?
- Pa-pa-ba-qui-grifando!
- Não tá dando pra entender!
- Pa-pa-ba-qui-grifo!
- Pa-pa-ba o quê?
- Ora, vai vai vai!
- Ora, vai você!

Outra música que era muito engraçada, que contava uma parte da minha vida, era a alérgica "Ai, meu nariz". Eu fui uma criança asmática, alérgica a poeira no último grau, não podia tomar gelado (fui tomar picolé com DEZ ANOS, minha gente). Imaginem o que eu sentia: "Eu não sei o que é que eu fiz, eu só sei que o meu nariz funga, funga-a-a-a-ahhh... "

Não posso me esquecer das canções catárticas. Sim, sim. Aquelas que me faziam chorar, chorar, chorar, de tristeza por causa dos meus inúmeros, imensos, insolúveis, indescritíveis e infantis problemas pessoais - porque eu, como toda criança normal, me achava anormal. "Você é música" (linda, linda, poderia ser gravada por qualquer cantor adulto) me fazia pensar em como eu, sendo feia e gorda, nunca conseguiria ser feliz (céus, eu tinha preocupações existenciais aos sete anos); tinha a da excursão do ônibus, que hoje eu sei que é a Baby Consuelo do Brasil cantando, mas na época eu jurava que era minha professora, a Tia Marina; e tem aquela que é melhor nem lembrar porque senão eu..chuif...

E, é claro, é lógico, tem o super-mega-hit. Superfantástico. Todo mundo que ouviu essa música deve ter virado fã do Djavan, né? Eu virei!

No mais, foram horas doces, ingênuas, animadas. Eu nunca percebi que eles já tinham se desmanchado, porque eu nunca senti necessidade de vê-los na TV. Desde criança, o que importava pra mim era a música, e não a "atitude" do artista. A turma do Balão Mágico fazia shows lá em casa, sempre que eu queria. Eu deitava na rede e cantava junto, comendo biscoito Passatempo, num lugar onde a Terra era azul, azul tinteiro, azul luar. E, mesmo sendo asmática, filha única, anormal, eu fui uma criança bem feliz.

P.S.: Só quando começou esse revival dos anos 80 é que eu fui entender que eu NÃO TINHA vivido nada nos anos 80. Eu simplesmente não lembro da música do He-man, gente. Minha mãe lembra e canta inteirinha. :D
P.P.S.: É tão bom poder ser fã do Balão junto com a Pat e a Lu. Mesmo eu tendo nascido uma geração atrasada, me sinto parceira delas nisso. Acho que elas concordam. E vamos repartindo esse amor que faz viver.
P.P.P.S.: Eu não copiei nenhuma letra usada nesse post da internet, tudo saiu da minha cabeça musical; mas elas podem ser encontradas aqui. E também vale dar uma passadinha no bastante completo site Músicas Infantis 80.
P.P.P.P.Papelão.S.: É tão bom te ver / Chega mais pertinho / Faz um carinho / Gosto de você...

Ciranda, cirandinha

05.04.08

Eu passei um tempo bem comprido sem ler blogs direito. Eu sempre fui leitora fiel, de ler todo dia, comentar em todos os posts; aquela leitora que entende piadas internas do autor, que sabe quem é amigo de quem, qual blog interage com qual, que vai seguindo os links e inscrevendo tudo no RSS.

E eu estava parada. Acho que foi desde maio do ano passado. Descobri tanta coisa ruim de mim mesma, vi tantos aspectos lastimáveis da minha personalidade egocêntrica, possessiva e interesseira, que não deu. Fechei-me, não mais conseguia receber o que os outros me falavam de suas próprias vidas e visões. O Marmota diz que blogs são pessoas - e eu andava meio que fugindo das pessoas. Foi quase um ano de jejum. Meu Google Reader acusava: 1000+. Mil ou mais textos que eu não tinha lido. Mil ou mais posts esperando pelo meu comentário. Eu fechava a janela, alt+F4. Desinstalei o MSN. Do Orkut, nunca gostei mesmo. Minha vida internauta passou a ser mais restrita ao e-mail, eu adoro escrever e ler e-mails, e a minha caixa de entrada é muito bem frequentada, graças à Deusa.

Pois bem. Num acidente desses que acontecem, eu marquei todos os meus mil ou mais posts do Google Reader como lidos. Zuuuuuuuuup, você não tem nenhum item não lido. Senti o calafrio subindo pela coluna, "Ai, caramba, e agora?"

Bem. Os textos novos continuam a aparecer. "Eva, você tem 13 itens não lidos." E eu me vejo, novamente, naquele ciclo gostoso: abre, lê, gosta, clica, comenta.

Vocês vão me ver por aí. Assinando agora como Menina Eva, dando o endereço do Cintaliga. Porque esse blog é, sim, a minha casa. Porque dividir esse espaço com a Luciana e a Patrícia é, de longe, uma das coisas mais legais que poderia acontecer. Eu estou rodando de novo, nessa ciranda de escrever e ler.

E porque um ano de jejum, sem vocês, queridos, ninguém merece. Ô turma talentosa. Dou uns exemplos.

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Na Internet da era pré-emoticon, quando as pessoas queriam informar que estavam rindo, gargalhando, achando uma graça danada, usavam a sigla LOL (laughing on loud; em inglês, rindo alto).

Pois bem, fizeram o melhor trocadilho de todos os tempos.
"LULA LOL, Brilha uma estrela."
Lula em internetês.

LulaLOL

Clica, vai. De que vale viver num país livre e democrático sem sacanear o Presidente?

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Prosseguindo na linha das imagens editadas, outra idéia ótima. Produtos modernos anunciados como propagandas antigas(em português, vintage :D). Ou produtos vintage anunciados em propagandas modernas, também vale. Talento aos baldes. Tem brasileiro lá.

[Como se pronuncia vintage? Vintáji, Vântáji ou Vanteije?]

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Isso é uma das coisas mais lindas que eu já li na Internet inteira. Li todos os arquivos hoje de manhã, chorei, ri, me enterneci. Chorei mais um pouco. O blog foi feito para Francisco, mas nós também saímos ganhando.

Esse post aqui é lindo de doer de tanta lindura linda.

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Ai, como é bom quando alguém diz tudo o que você pensou. Melhor ainda quando é a Vivien.

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A vantagem de você fazer parte de um grupo de e-mail onde só tem mulheres, todas amigas, é que você só precisa contar o babado uma vez.

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Eu não curto muito horóscopo, apesar de já haver recebido a "massagem do leonino" e ter adorado (Aliás, adorei, viu?). Mas esse é interessante. O dia que você nasceu diz as características suas. O meu combinou bastante. Nasci no dia 6 - DIA DO AMOR (Bem adequado). Diz que eu sou sentimental, tenho personalidade magnética, atraio as atenções (ai, que delícia, adoro chamar a atenção), possessiva. Sofro problemas nervosos após frustrações amorosas, e a melhor profissão pra mim é embelezar o planeta. Ahn, e diz também que sou excelente amante. Rá. Andaram me seguindo por aí. :D Curiosamente, não fala nada da minha modéstia, meiguice, doçura e simplicidade. Porque será?

se o seu combina também!

(link via Bel)

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Você disse que eu parecia uma menina de catorze anos. Mas sabe o que é? É que você faz aparecer o melhor de mim.

Escrito por Menina Eva
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Carta aberta a um senhor galante

06.03.08

Tem muita coisa que você não sabe sobre mim. Algumas dessas coisas eu sei, outras finjo que não sei, e outras são tão tenebrosas que nem eu mesma descobri.

Você disse que queria me conhecer melhor, desvendar meus mistérios, saber quem eu sou. Como eu te disse uma vez, eu sou muitas, e junto comigo andam sempre grandes tristezas e pequenas certezas.

Eu sou uma menina alegre, expansiva e animada. E também sou uma moça chata, mal-humorada e casmurra. Ao mesmo tempo ou então o tempo todo; não entendo direito como, mas é assim que acontece.

Dentro de mim tem uma porção de peças quebradas, que podem ser postas novamente em movimento. Você não imagina o pavor que eu tenho de você, de como somos parecidos e como somos radicalmente diferentes, e de como eu gosto quando você presta atenção em mim, mesmo tendo vontade de sair correndo quando você aparece.

Eu tenho um passado esquisito, menina asmática, moça solitária, adulta vacilante. Caso um dia você me carregue no colo, vai sentir o meu peso, culpas que carrego no ombro e levo no olhar. Tenho olhos pesados; tenho pés doloridos; mas meu sorriso é leve, e meu coração, infantil.

No mais, eu gosto de bossa nova, escrevo em um blog na internet e tenho um gosto estragado por comédias românticas.

Aguardo sua resposta,
Eva

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Relacionamentos, Amizade, Catarse, Emoção, Papelão
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