Uma memória sobre algo que não existe
31.01.09
Comprei alguns Dvd's, originais ou oriundos do Distribuidor Calçada. Entre outros, estavam dois que me deixaram confusa.
"A Bela Adormecida" (o desenho da Disney) e "A cor púrpura" (do Steven Spielberg, com a Whoopi Goldberg maravilhosa e incrível).
Eu assisti aos dois filmes MUITAS vezes quando era mais nova. A Cor púrpura passou na TV centenas de vezes, e meu pai SEMPRE fez questão de assistir, por causa da maravilhosa trilha sonora de jazz, blues e gospel dos anos 20/30/40. A Bela Adormecida, sendo um grande clássico do Panteão Disney, assisti milhares de vezes.
Agora, com essas versÕes em dvd, senti falta de algumas cenas que estão nítidas na minha memória, mas que não estão nos filmes.
Em "A Bela Adormecida", no momento em que a Aurora sobe as escadas secretas do castelo, hipnotizada pela Malévola, minutos antes de espetar o dedo no fuso, eu me recordo VIVAMENTE de uma voz meio de bruxa querendo hipnotizar alguém a chamando: "Auroooora...Aurooooora..." E no meu DVD não tem essa voz! Nem no original em inglês, nem em Português, nem em lugar nenhum.
Em "A cor púrpura", quando o Pai do Sinhô vai até a casa para falar mal da Shug, dizendo que ela está com doença de mulher da vida, a Celie fica com tanto ódio que cospe dentro do copo de água, oferece o copo para o velho e fica ansiosa, aguardando que ele beba a água cuspida. Na minha cabeça, ele bebia a água, depois dava um arroto sonoro e longo, e devolvia o copo. Inclusive, escuto a voz do meu pai fazendo comentários: "Eita, que esse foi um arroto de gosto!" E, para meu espanto, no DVD não há arroto nenhum...
Estou ficando maluca? Alguém mais lembra dessas cenas desse jeito, ou eu inventei memórias?
Eu e Balão Mágico
08.04.08
Eu não assisti ao programa na TV. Eu não lembro do Tob, pelo qual a Luciana e a Patrícia, minhas colegas de blog, suspiram. Não lembro nem da Simony cantando com o Roberto Carlos - essa imagem eu só trago na memória graças ao Vídeo Show e ao Youtube.
Mas eu lembro das músicas, ah, como lembro. Eu tinha as fitinhas cassete.
Não sei dizer como é que eu tinha as fitas. Muito provavelmente, minha mãe comprou pra mim quando eu tinha um ou dois anos, porque eu nasci em 1985! Passei a primeira metade da década de 90 ouvindo Balão Mágico, o que comprova que esse meu anacronismo, de gostar do que está fora de moda, começou cedo.
Quem tem pai músico tem espaços musicais dentro de casa; eu ficava longo tempo na salinha de música, ouvindo minhas fitinhas do Balão. Dez ou quinze vezes seguidas, como convém a todo filho único.
(É adequado aqui relembrar como é o mecanismo de escutar uma fita cassete, pois deve haver leitores que não pegam numa fitinha há dez anos ou mais. A fita cassete tem lado A e lado B, ou "Programa A" e "Programa B", como vinha escrito. Você colocava a fita dentro do toca-fitas, apertava o play e ela começava a rodar. E aí, rodava em sequência, porque não dá pra separar as FAIXAS em uma fita. Se você quisesse pular uma música, tinha de acelerar a rotação e parar, escutar o pedaço que estava, acelerar de novo, escutar de novo, até ajustar. Nessas idas e vindas, perdia-se um tempo enorme, mas nada que uma criança de sete/oito anos não suportasse.
Nesse pula-pula de músicas, tinha uns esquemas. A fita tinha dois lados. Quando a música 3 do Programa A estava começando, você podia apertar stop, virar a fita, e ouvir o FINAL da música 3 do Programa B. Isso gerava toda uma gama de combinações, do tipo "Vou ouvir as três primeiras do programa A, virar, acelerar até o final da terceira do programa B, ouvir a quarta do Programa B e virar de novo pra ouvir a quinta do programa A".
E tinha as contagens. "Ouve a primeira música, aperta o botão de acelerar e um e dois e três e quatro e cinco e seis e sete e oito e PLAY!" E eu acertava direitinho o início da terceira música! Isso requeria bastante prática.
"Mas Eva", vocês perguntarão, "porque não ouvir a fita toda na sequência, com todas as músicas?" E eu responderei que eu queria pular as músicas que eu não gostava, oras (Esqueceram que eu era filha única?).
Nas minhas manhãs solitárias - jamais gostei do programa da Xuxa, olha o anacronismo aí, gente! - eu ficava lá, em companhia de Putz, o Grande Mago, que anda por um triz, pois fez sumir o seu amor e não pode ser feliz. Também tinha um gato que sempre entrava na tuba do Serafim, e um outro gato, que vivia sempre com um prato na mão. Era o Garfield.
Tinhas as músicas engraçadas. Eu gostava particularmente de Papabaquigrifismo. Porque eu me identificava COMPLETAMENTE com a personagem. Reparem:
"Meu nome é Clara dos Anjos Santos, sou professora, sou coisa e tal. Falou difícil? Falou comigo! Sou super-hiper, sou maioral...Eu tô sabendo, eu sei tudinho. Meu apelido é sabidão. Falou difícil? Falou comigo! Sou geniozinho, sou campeão!".
E vinha aquele refrão delicioso que eu aprendi a cantar de pura birra:
- Pa-pa-ba-qui-grifo!
- Pa-pa-ba o quê?
- Pa-pa-ba-qui-grifando!
- Não tá dando pra entender!
- Pa-pa-ba-qui-grifo!
- Pa-pa-ba o quê?
- Ora, vai vai vai!
- Ora, vai você!
Outra música que era muito engraçada, que contava uma parte da minha vida, era a alérgica "Ai, meu nariz". Eu fui uma criança asmática, alérgica a poeira no último grau, não podia tomar gelado (fui tomar picolé com DEZ ANOS, minha gente). Imaginem o que eu sentia: "Eu não sei o que é que eu fiz, eu só sei que o meu nariz funga, funga-a-a-a-ahhh... "
Não posso me esquecer das canções catárticas. Sim, sim. Aquelas que me faziam chorar, chorar, chorar, de tristeza por causa dos meus inúmeros, imensos, insolúveis, indescritíveis e infantis problemas pessoais - porque eu, como toda criança normal, me achava anormal. "Você é música" (linda, linda, poderia ser gravada por qualquer cantor adulto) me fazia pensar em como eu, sendo feia e gorda, nunca conseguiria ser feliz (céus, eu tinha preocupações existenciais aos sete anos); tinha a da excursão do ônibus, que hoje eu sei que é a Baby Consuelo do Brasil cantando, mas na época eu jurava que era minha professora, a Tia Marina; e tem aquela que é melhor nem lembrar porque senão eu..chuif...
E, é claro, é lógico, tem o super-mega-hit. Superfantástico. Todo mundo que ouviu essa música deve ter virado fã do Djavan, né? Eu virei!
No mais, foram horas doces, ingênuas, animadas. Eu nunca percebi que eles já tinham se desmanchado, porque eu nunca senti necessidade de vê-los na TV. Desde criança, o que importava pra mim era a música, e não a "atitude" do artista. A turma do Balão Mágico fazia shows lá em casa, sempre que eu queria. Eu deitava na rede e cantava junto, comendo biscoito Passatempo, num lugar onde a Terra era azul, azul tinteiro, azul luar. E, mesmo sendo asmática, filha única, anormal, eu fui uma criança bem feliz.
P.S.: Só quando começou esse revival dos anos 80 é que eu fui entender que eu NÃO TINHA vivido nada nos anos 80. Eu simplesmente não lembro da música do He-man, gente. Minha mãe lembra e canta inteirinha. ![]()
P.P.S.: É tão bom poder ser fã do Balão junto com a Pat e a Lu. Mesmo eu tendo nascido uma geração atrasada, me sinto parceira delas nisso. Acho que elas concordam. E vamos repartindo esse amor que faz viver.
P.P.P.S.: Eu não copiei nenhuma letra usada nesse post da internet, tudo saiu da minha cabeça musical; mas elas podem ser encontradas aqui. E também vale dar uma passadinha no bastante completo site Músicas Infantis 80.
P.P.P.P.Papelão.S.: É tão bom te ver / Chega mais pertinho / Faz um carinho / Gosto de você...
Arquivado em: Música, Açúcar, Amizade, Balão Roots, Infância, Papelão, Pirlimpimpim, Saudade, Crianças
6 comentários
Tantas coisas que eu não sei
18.03.08

As coisas orientais que eu não sei
Eu não entendo nada de cultura japonesa.Eu não saberia diferenciar o Jet Li do Bruce Lee. Mas queria muito ter a chance de participar da cerimônia do chá um dia. E queria muito entender o que você fala quando conta sobre aqueles desenhos de olhos grandes.
As coisas literárias que eu não sei
Eu não sei necas de quadrinhos cult. Gostei de ler Sandman. Só li "300" por causa do filme com o Rodrigo Santoro.
Eu nunca consegui passar da terceira página d'O Príncipe, de Maquiavel. Mas sei que ele diz que "é necessário ao príncipe que saiba ser mau".
Nunca li as obras adultas do Monteiro Lobato. Sei apenas que um dos livros se chama Urupês. E sou capaz de fazer ar sonhador e suspirar diante do livro na estante: "Ahhhhhhhh, Urupês!"
As coisas musicais que eu não sei
Eu não gosto muito de guitarra, e não sei dizer qual a diferença entre Metal, Punk e Hardcore (nem sei se existe diferença ao certo, apesar de todos os meus amigos já terem me explicado). Gosto dos Beatles. Do Elvis vestido de havaiano. (Eu sou uma decepção pra você, não sou?)
Eu não sei diferenciar uma obra de Mozart de uma do Beethoven. Mas gosto de ir a concertos, e me divirto horrores.
Eu não sei quem é o grande nome do Jazz atualmente. Mas eu gosto do Armstrong e da Billie, porque meu pai me botava no colo e tocava trompete pra mim. Eu gosto de naipes de metais. Mas eu gosto mais das músicas de Big Band; eu seria muito feliz se pudesse viver dentro de um musical da Metro dos anos 40, junto com o Fred Astaire e a Judy Garland.
As coisas cinematográficas que eu não sei
Não assisti Cidade de Deus. (Não me bata!)
Eu nunca assisti Amarelo Manga. Nem nenhum filme do Godart. Nem sequer um filme iraniano. Mas assisti aquele do Woody Allen (Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo...etc etc etc), e soube reconhecer que foi ele quem inventou a "roupa de espermatozóide", sendo copiado milhares de vezes a tal ponto que isso entrou pro imaginário popular.
E se o assunto é cinema, eu sei que o Hitchcock semore aparecia nos próprios filmes. Nunca assisti a um filme dele sequer.
As coisas da vida que eu não sei
Eu não entendo profundamente sobre nenhum assunto, não conheço raridades, não sou culta, sequer sou informada. Eu não sei discorrer sobre nada. Mas pesco um pouco de tudo. E de tudo, um pouco.
Eu decoro palavras complicadas - convulsão do mundo moderno, pulsões sociais, indicadores de desempenho de políticas públicas, consolidação das leis trabalhistas - e uso nas minhas conversas como se soubesse o que são, mas eu a verdade é que eu sou burra que dói.
Eu sou super burra. Mas você pensa que eu sou muito inteligente, porque eu finjo muito bem fingidinho. Eu sou uma farsa: tenho boa memória, decoro o nome dos cientistas e dos filósofos. Nunca entendi muito bem o que significa a queda da bolsa de valores.
Eu sou comum, querido, comum. Mas tenho devaneios de superstar.
P.S.: Pra não dizer que não sei nada, sei porque o Negro não mistura com o Solimões, sei empregar a crase e a vírgula, e sei sentir sua falta às terças-feiras.
Arquivado em: Cinema, Comportamento, Egotrip, Catarse, Indignação, Infância, Livros
8 comentários
Brincar de boneca - Nível avançado
26.02.08
Visitei uma exposição no Shopping. (Aqui em Manaus, quando você fala "o Shopping", todo mundo sabe qual é. Não que só tenha um: tem cinco ou seis shoppings grandes, mas "o shopping" foi o primeiro.)
A exposição fala sobre a evolução histórica das roupas. Mais especificamente, da roupa feminina. Mais especificamente, dos vestidos. Mais especificamente, dos vestidos franceses. Da idade média aos anos 50.
Tá, e daí? Daí que as modelos são bonecas! Com vestidos de época!
As roupas estão lindamente acabadas. Pra mim, que lido com teatro, é enlouquecedor ver tantas roupas lindas e cheias de ricos detalhes. Rendas, laços, flores! Dá vontade de dançar um minueto...
Cá entre nós, essa exposição é a cara do Cintaliga, então eu PRECISEI escrever sobre ela!
A exposição está encantadora. A sensação de proximidade com a figura humana vestida, muito mais charmoso do que se fossem usados manequins, é o forte. Além do mais, os textos explicativos sobre o momento histórico relativo a cada vestido estão muito claros, e evidenciam as interessantes relações da arquitetura com a moda. Fernanda comentou comigo que a saia ampla do Renascimento imitava o formato dos sinos de Notre-Dame. Essa bonequinha abaixo veste-se como uma contemporânea do Leonardo da Vinci.
Depois veio o Barroco. O homem debatia-se entre contrastes, o pecado e a virtude, as formas exageradas e a vida simples, o céu e o inferno. E a mulher? Bem, ela era assim.
O rococó levou o Barroco às últimas consequências. Acrescentou enfeites, riqueza, um toque de futilidade, sim, que nós adoramos isso. Flores, rendas, fitas, laços, tudo ao mesmo tempo! Eba!
No reinado de Luís XVI, as mulheres descobriram que fazer esculturas com os próprios cabelos era garantia de sucesso nos salões. Um penteado assim podia durar meses, fixo no lugar com cera. Pensem na quantidade absurda de piolhos! Eca!
Na época de Napoleão, a moda era parecer grego. Ai, ai. Sou só eu que acho lindo?
Já no Período da Bèlle-Epoque, as mulheres precisavam ser esguias, cheias de curvas.
Nos anos 20, as mulheres promoveram a primeira revolução feminista. Ficaram malucas, mostraram os joelhos, tornaram-se seres vaporosos e diáfanos.
A última bonequinha vem vestida com o new look de Christian Dior. Depois de duas guerras mundiais, os anos de fartura trouxeram de volta uma moda mulherzinha, com grandes saias rodadas, cintura marcada. Ser feminina era um privilégio de tempos de paz.
Fernanda Gomides, a expositora, já foi estudante de moda e hoje em dia cursa Design e estuda francês na Aliança Francesa, que promove a exposição. Ela estava lá, circulando na exposição, e eu e ela agarramos num papo de uma hora e meia.
Ela me falou que teve ataques de ódio contra o cabelo cor de rosa das bonecas; tentou tingir, tentou cortar, mas não teve jeito. Me falou dos materiais que usou, da máquina de costura temperamental. Dos estilistas de Madame Pompadour. Da próxima exposição que está montando, sobre a história do sapato.
Eu comentei sobre a idéia incrível de botar as bonequinhas como modelos. A exposição ganha um ar lúdico, a gente se sente próximo. Caras, elas estão vestindo as roupas que eu sempre quis colocar nas MINHAS bonecas.
Não é incrível notar que, mesmo sendo reprimida, presa e tratada como propriedade masculina, a mulher sempre teve uma cultura toda própria?
Arquivado em: Comportamento, Fotografia, Turismo, Cintaliga, Consumismo, Gente, Infância, Jornalismo, Mulherzinha, Crianças, Artes
14 comentários
Ela sonha com um beijo de amor de um príncipe encantador
03.01.08
Entre os adoradores de cinema, existe um tipo de dogma: filme dublado não presta. Bom mesmo é escutar o áudio original.
Inclusive alguns adultos que nunca deixaram de ser crianças fazem esse discurso. E ficam se lamentando, batendo a cabeça na parede, porque no Brasil, esse país atrasado, só duas ou três salas têm cópias legendadas de desenho animado.
Acontece que cinema é mercado. E quando se tem um produto em mãos, os esforços de venda são dirigidos ao público que se julga adequado. Filmes são produtos, assistir é consumir, e o público-alvo de animações, Harry Potter e alguns outros filmes [comédias leves, aventuras] é o público infantil - que, quando sabe ler, não lê depressa o suficiente para acompanhar as legendas. Sim, queridos, lamento muito, mas o mundo é cruel e feio, e as pessoas gostam de ganhar dinheiro. Eu gosto!
Aliás, alguns cinéfilos radicais que gostam de filmes com apelo infantil entram em estado de desespero absoluto quando a sala de cinema esta cheia de... crianças! Absurdo dos absurdos. “O que essas criancinhas gritalhonas estão fazendo aqui, assistindo a Ratatouille? Oh, céus, vamos todos engolir rolos de película em protesto. Vamos soltar pombos CGI em passeata, para que os cinemas exibam desenho depois das onze da noite.”.
E, o que eu acho mais curioso nesse chororô todo quando do lançamento de algum filme-família [ficou feio agora dizer que o filme é infantil; tem que ser "filme pra toda a família"], é que todos os cinéfilos-que-gostam-de-filmes-com-apelo-infantil [crianças crescidas?] assistiram a Dumbo, Mary Poppins, Chaves e, mais recentemente, Cavaleiros do Zodíaco em suas dublagens brasileiras - ótimas, por sinal. Por que esse drama?
Eu assisti a "Encantada" no cinema. (Eu sou uma criança crescida que usa sutiã 44 e cinta-liga G, assumo. Adoro filmes infantis.) Fiquei absolutamente deslumbrada. Os bons tempos da Disney estão de volta. Os tempos pré-Shrek. Deixe o trailer do filme carregando e venha ler o resto do meu texto.
É um conto de fadas. Tem mocinha ingênua, bichinhos do bosque, tem bruxa malvada, tem príncipe montado num cavalo branco. Até florzinhas no cabelo (LOIRO, como sói acontecer) a mulher tem.
O filme começa como desenho animado. Mas aquele clássico: bosque com árvores retorcidas, passarinhos, cervos, coelhinhos fofos, esquilinhos. Aquele bosque onde a Branca de Neve acorda, onde a Bela Adormecida mora com as fadas, onde o Bambi passeia com a mãe dele. O Bosque Disney. Você certamente passou muitas tardes lá.
Giselle é uma mocinha que conversa com os bichos, exprime seus pensamentos por meio de canções que ela vai inventando enquanto canta, mora na casa da árvore e passa os dias esperando um príncipe com quem poderá trocar um beijo de amor verdadeiro. Rá, grande coisa, eu também.
Quando o Príncipe Edward a salva de um ogro verde feio e mau, eles se apaixonam e marcam o casamento. Segue transcrição do diálogo:
- Então é você?
- Sou. E você, quem é?
- Giselle.
- Giselle! Nós vamos nos casar amanhã!
Eu ADORO essas coisas. É uma piada interna muito inteligente.
Bem, o príncipe é enteado de uma rainha malvada e versada nas artes da feitiçaria, como toda rainha que se preze. A Elizabeth II não tem a menor graça. E, quando a rainha nota que a camponesa panaca vai casar como príncipe e tomar o seu lugar, providencia pra que ela saia do caminho. Arremessa a bichinha no poço.
E, depois de muito cair (numa leve citação a Alice no País das Maravilhas), ela sai num bueiro em Nova Iorque.
E aí, tudo vira festa. Imaginem uma ingênua e pura princesa de um reino mágico vivendo nos nossos dias. Acreditando que amor dura pra sempre, que os bichos são nossos amigos, que cantar é um jeito natural de realizar coisas.
Eu sorri durante o filme inteiro. Personagens secundários cativantes (o príncipe Edward e suas mangas bufantes, que pensa que a TV é um espelho mágico; o esquilo Pip, que não entende como não consegue falar em Nova Iorque; Susan Sarandon confortabilíssima como Rainha Má); lindos números musicais (o musical no parque é absolutamente INCRÍVEL, tem tudo: velhinhos, velhinhas, noivas, pombinhos voando, skatistas, balões de Hélio, arcos de flores, jamaicanos, mariachis. Ai, ai, eu adoro musicais.).
Vão assistir. A dublagem brasileira esta ótima, as musicas estão lindas, do mesmo naipe da dublagem de Mary Poppins. (Aliás, lembrei de Mary Poppins muitas vezes, deu vontade de rever.) Esse filme entrou no cânon. Musical, comédia romântica, desenho animado, conto de fadas, blockbuster. Vão, vão, vão. E saiam do cinema com vontade de usar saia rodada e fitinhas no cabelo, cantando as músicas e sonhando com um beijo de amor que prenuncie que seremos felizes para sempre.
Ah, e claro: na sessão que eu fui, as crianças estavam envolvidas no filme, rindo na hora que era pra rir, torcendo na hora que era pra torcer ("vai, vai, beija, beija”), e fazendo TODA a diferença. Saí do cinema com o coração leve, a alma contente. E diversão não é exatamente isso?
P.S.: A secretária do advogado é interpretada por Jodi Benson, a dubladora da Pequena Sereia na versão original.
P.P.S.: O ogro usa as conchas da Pequena Sereia como brincos. Quer saber mais coisas assim? Leia na wikipedia em inglês. Se você não lê inglês, aprenda. Enquanto aprende, leia essa resenha do G1, por Débora Miranda.
P.P.P.S.: Leia uma entrevista com o diretor Kevin Lima, onde ele esclarece que a cena de Giselle subindo a colina verdejante no Central Park não foi baseada n'A Noviça Rebelde, mas sim em A Bela e a Fera. Os meus amigos no cinema pensaram que era homenagem aos Teletubbies...
P.P.P.P.S.: Algumas frases do filme, no IMDB.
P.P.P.P.P.S.: Deu pra notar que fiquei viciada no filme?
Arquivado em: Cinema, Comportamento, Amor, Infância, Animais, Crianças, Artes
9 comentários
Daniel, o caçula
17.11.07
Hoje meu irmão mais novo estaria completando 28 primaveras. O Daniel, ou Dani, como eu o chamo ainda hoje, faleceu criança, no Recife, onde está enterrado e recebeu pouquíssimas visitas desde o dia 1º de maio de 81.
Ele seria o mais bonito de nós, sem dúvida; foi o único que herdou os olhos verde-esmeralda da minha avó Magdalena.
Era escorpiano, signo da água, como o meu, peixes. Sempre penso nisso nas inúmeras discussões literalmente acaloradas em que minha mãe sagitariana e o André, meu irmão leonino, conseguiam fazer minha água toda entrar em fervura. "Dois elementos fogo versus um de água é sacanagem. Com o Daniel aqui as coisas talvez fossem mais equilibradas", eu pensava.
Quando uma pessoa falece muito nova, não tem como não ser vítima de milhões de idealizações por quem fica, especialmente seus pais e irmãos.
"Será que ele amaria os livros, como eu? Será que tocaria um instrumento musical, como eu sempre quis e nunca consegui? (Toco flauta doce e amo, mas um dos maiores desejos seria mesmo ter nascido com o dom de tocar violão e flauta transversal), será que adoraria escrever e arrebataria corações com letras ou poemas de amor? Gostaria de animais e especialmente gatos como eu? Gostaria de praias desertas, de céu estrelado, de comprar roupas em brechó, de passar horas numa livraria ou sebo, de ver o Mágico de Oz tendo The Dark Side of The Moon como trilha ao fundo, numa sala escura, ao lado de amigos e da irmã? Teria sido um excelente aluno de matemática, possibilitando livrar esta mesma irmã de algumas reprovações no ginásio?
Gostaria da Mafalda, do Calvin, do Woody Allen, de artes em geral, de ler Leminski, de escutar Beatles e Chico Buarque?"
Não adianta, nas minhas idealizações, não há espaço para pensar que ele poderia ler só coisas como "Quem mexeu no meu queijo" e "Pai rico, pai pobre". Que compraria CDs de pseudo-caipiras milionários que rimam amor com dor ou do Kenny G. Que compraria um carro potente e sairia por aí tirando racha.
E, muito pior que isso tudo, que bateria em prostitutas ou queimasse índios em pontos de ônibus.
Só penso que ele seria uma pessoa incrível. Um menino de ouro, sensível, bonito, educado, inteligente, bom caráter, de alma rara.
Eu converso com o Dani em muitos dias no ano, mas nos 17 de novembro, em especial, a coisa é mais forte. E NESTE, este sábado nublado no meio de um feriado prolongado, ando conversando com ele mais do que nunca. Imaginando que tipo de conselhos e ajuda ele me daria para dissipar estas nuvens que invadiram minha cabeça e meus dias de semanas pra cá.
Dani, eu sou uma cretina duma cética que não acredita em nada, nem mesmo que você "esteja aí em cima olhando pra mim". Eu queria, mas não consigo. Desculpe por não visitar suas proteínas (como disse a Eva num lindo texto semanas atrás), depositadas a três mil quilômetros de mim. E, mesmo que eu não acredite que iremos nos reencontrar e nem que você esteja aí em cima olhando pra mim, tenha certeza de que eu estou aqui embaixo olhando pra você. ![]()
P.S.: Eu sempre escuto a música Daniel, do Elton John, pensando em você, Dani. ![]()
Arquivado em: Comportamento, Cotidiano, Fotografia, Relacionamentos, Amizade, Amor, Emoção, Esperança, Espiritualidade, Infância, Saudade, Família, Diálogo
10 comentários




















Assine por e-mail