Mim quer comprar, mim gosta ganhar dinheiro...
12.12.07
Momento agridoce (mais acre do que doce, por suposto):
Há meses que fujo de certas discussões estéreis na internet. Plágio (Argh, alguém ainda discute sobre isso (pelo menos de forma sistemática)? Me digam pra eu fugir do blog da pessoa e não cair lá nem por engano), monetização, parar de blogar porque "a internet não é mais a mesma".
Na boa, isso pra mim soa como a TV Cultura encerrar sua programação por saber que a audiência deles é ínfima se comparada à de Gugus e Faustões, Fantásticos e Datenas, novelas e Big Brothers. Não, né?
(Sim, eu sei que a TV Cultura acumulou dívidas pesadíssimas anos atrás por causa do não cumprimento por parte do governo em assumir os compromissos para com a emissora. E que houve muita discussão e boatos falando sobre o fechamento mesmo da TV Cultura. Mas você não vai falir por causa do seu blog, né? Se precisa tanto de dinheiro oriundo dele, aí realmente a coisa é feia. Foi mais ou menos isso o que eu quis dizer).
Se você gosta de escrever e acha que tem algo a dizer, vai parar alegando que muitos blogs só querem saber de dinheiro, de cliques e adsense? Eu abandono o blog por semanas e até meses, mas jamais falaria que o motivo é "ter gente demais ganhando dinheiro com blog, e não concordo com isso". Meus motivos são sempre outros (e tão ou mais imbecis e injustificáveis quanto estes, a bem da verdade).
Se eu não lamento pelo fato de que os livros mais vendidos no país sejam os de auto-ajuda, os do Paulo Coelho, da Zíbia Gasparetto ou os dos gurus do Marketing? Ou pelo blog da Carla Perez certamente ter cem vezes mais visitação que o nosso? Claro que sim, isso é óbvio. Mas daí a parar de escrever seria o mesmo que admitir que não nasci com o menor pendor pra isso. Apenas ACHAVA que tinha nascido. São coisas distintas, vejam bem.
Não ligue "pro que a Internet virou". Há séculos que quase tudo no mundo acontece visando dinheiro, você acha mesmo que na Internet isso não aconteceria mais cedo ou mais tarde? Se preocupe com o seu espaço que você já estará fazendo demais.
Um exemplo que eu sempre penso é sobre os garotos-propaganda de alguns produtos. Até imagino entrar na casa daquele mala que fez por anos os comerciais das Casas Bahia e ver que os móveis dele são de lá. Pfff.
Certamente seus móveis são comprados nas lojas mais legais de São Paulo, como a Tok & Stok. Ou talvez em Embu das Artes. Ou nas feiras de móveis com designers descolados. Agora, nas Casas Bahia é que certamente não.
Eu não faria post pago de coisas que eu sei que não têm a ver comigo ou com as quais eu não concordo. De resto, talvez até pensasse. Imagina se eu não divulgaria iniciativas das meninas do Adote um Gatinho, ou de um autor que eu goste, cantor, banda, grupo de teatro, loja, marca de roupa, lingerie, marca de comida, marca de ração de gato que eu sei que é boa. Qual seria o mal nisso?
Já divulguei muito filmes do Woody Allen, do Nani Moretti (duas pessoas me escreveram na época falando que, por causa do meu texto, alugaram filmes dele e adoraram... olha que delícia saber disso...), bandas menos conhecidas, autores que eu gosto. Se algum deles um dia falasse: "Olha, obrigado pela divulgação que você fez de mim e do meu trabalho/produto, e sinta-se à vontade para receber algo por isso", por que raios eu iria achar que estaria "me vendendo"? Me vendendo eu estaria se fizesse divulgação paga justamente de coisas que citei mais acima e com as quais minha identificação é abaixo de zero: Big Brothers, livros da Zíbia Gasparetto ou maravilhas como "O Segredo", "Pai rico, Pai pobre" e quejandos.
Tempos atrás eu e Luciana (a Evinha ainda não tinha se juntado a nós) falamos muito sobre isso. E chegamos mais ou menos à conclusão que mais importa o destino que daríamos ao dinheiro arrecadado do que a opinião das pessoas (como pessoas adoram dar opinião em tudo ou fazer polêmicas, impressionante...
). Eu resgato gatos de rua, e não seria naaaada mal contar com uma grana extra para alimentá-los e pagar suas consultas e castrações nos veterinários. Vai uma grana pesada todo mês e, sinceramente, não a tenho por completo.
A Lu tem os aluninhos dela (ela dá aulas em colégio estadual e tem muitos alunos carentes), lindos e queridos, e que, tal qual o personagem do Tennessee Williams, infelizmente muitas vezes "dependem da bondade de estranhos". E sai do bolso dela o dinheiro para lápis, canetas e cadernos para muitos dos alunos, a cada início das aulas.
A Eva divulga iniciativas lindas em Manaus, apresenta peças de teatro para crianças carentes, e é uma das pessoas mais preocupadas com as comunidades menos lembradas e favorecidas da Amazônia. Sem muito a declarar sobre isso, né? Por isso que eu tenho as melhores companheiras de blog do universo.
Enfim, minha consciência estaria mais do que limpa caso alguém nos pagasse por anúncios aqui (o que eu sinceramente sei que não vai acontecer, pelo menos não tão cedo), desde que, como eu falei acima, fosse algo realmente a ver comigo ou que eu considerasse bom e merecedor de divulgação.
Escrevi tudo isso foi porque li tanta coisa nas últimas semanas envolvendo este tipo de discussão que cansou. Aí quis dar minha opinião. (Pessoas adoram dar suas opiniões em tudo, lembram?
)
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P.S.: Logo mais saem meus dois centavos sobre o plágio. (Porque eu sou uma das pessoas mais fora de timing do mundo).
P.S. 2 tardio: NÃO escreva visando dinheiro. Se ele vier depois, ótimo. Eu não faço quase nada pensando neste vil metal que move o mundo. Talvez devesse pensar, para ter mais. Quis deixar isso claro pra não vir gente aqui me acusando de estar fazendo apologia a dinheiro (ou pior, a ganhar dinheiro de qualquer jeito, mesmo que seja divulgando coisas com as quais não há identificação). Jamais faria isso.
P.S. 3: Aliás, last but not least, alguém clica mesmo nestes anúncios do Google nos blogs? Juro que queria saber, por curiosidade... acho isso um tanto estranho e muuuuito ingênuo... 
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Era uma vez, o Natal
10.12.07
A mitologia do Natal me traz ecos de qualquer coisa boa, brilhante, ingênua, mágica.
Anjos aparecem. Um casal se lança numa viagem longa e cansativa. Uma criança nasce.Bichinhos fofos. Uma estrela marca o local certo. Homens ricos e poderosos vão de camelo pra entregar uns presentinhos.
É quase um conto de fadas.
Sempre que chega essa época, um sininho que fica dentro de mim (será o sino pequenino de Belém?)começa a soar. E o som dele sai de mim, espalha-se pela rua, enche os meus vazios.
No Natal, enfeito a casa com luzes pra que ela fique combinando com o meu lado de dentro. E o meu sorriso vai pelos dias e noites felizes de dezembro, um sorriso que pisca-pisca sem parar.
Já falei pra vocês que eu AMO o Natal?
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E o meu medo de ter medo de ter medo...
01.12.07
Depois de um texto da Lu que me fez chorar de tão lindo e bem escrito (Ó, grande novidade, né, Luluzinha? Tanto o seu texto ser bem escrito quanto eu chorar.
), deixo um desabafo e um poeminha pueril ao extremo, escrito tempos atrás. Aliás, ele foi publicado na Agenda da Tribo de 2002/2003, junto com mais nove poemas meus.
Lembrei dele ontem, após ficar nervosa por causa de um tiroteio na maior e mais movimentada estação de metrô de São Paulo, a da Sé.
Sei que os tiros partiram de um policial à paisana que presenciou uns bandidos fugindo - após assaltar um banco - em meio à multidão. E que os tiros, além de não terem matado nenhum marginal, atingiram cidadãos comuns que estavam nos vagões e na plataforma.
Um dos disparos atingiu de raspão a cabeça de um homem. E eu me pergunto: por quantos milímetros a vida deste homem não foi ceifada?
Não, eu não estava no metrô, mas passei nervoso do mesmo jeito. Admito que não tenho estrutura para morar em uma cidade com índices de violência como São Paulo ou a lindíssima Rio de Janeiro. Já passei por situações que me fizeram recorrer a terapia, sim, e ultimamente novos acontecimentos envolvendo entes queridos me jogaram novamente na categoria "pessoas com pânico, ansiedade e constante sensação de perigo iminente".
Muitas vezes eu penso que eu deveria ter nascido em uma cidadezinha nas Serras Gaúchas, integrar uma família que vivesse da produção de vinhos artesanais e passar os dias a esmagar uvas com as mãos, liberando tensões e rindo com minhas irmãs e primas. Penso nisso e me dá uma sensação ao menos boa.
Aqui a gente vai levando e aceitando tudo, apenas ficando feliz a cada noite por ter sobrevivido a mais um dia. E saindo todas as manhãs com a sensação de ter que fazer um testamento, deixar as senhas dos e-mails e do Orkut com a família, fazer declarações de amor a pessoas que a gente quer que saibam que são muito amadas, mas que na nossa correria a gente não pára pra dizer ou demonstrar isso.
Não é todo mundo que está nesta paranóia, é claro, e ainda bem. Não desejo mesmo pra ninguém sentir este incômodo, ficar nervoso a cada moto que pára ao nosso lado no farol, com telefones tocando às duas da manhã (com crianças passando trote, mas o primeiro pensamento que temos é de ser algo deveras preocupante), a cada vez que um estranho nos aborda na rua depois das oito da noite.
Queria demais uma cidade mais segura, me sentir mais parte dela, usufruir de parques e praças, andar pelas ruas do centro, andar com o vidro do carro aberto (não uso nem Rolex e nem jóias, minhas roupas são baratas (e boas, muito boas, faço questão de ter roupas que durem anos), e meus maiores bens são minha vida, minha família, meus gatos e meus livros, de modo que deixo roupas e bolsas da Daslu e relógios Rolex para pessoas menos imaginativas e mais ostensivas), sair de bicicleta, me sentir cidadã, afinal.
São desejos de todos, óbvio, e não vou ficar chovendo no molhado ou sendo Polyana.
Sou contra muros altos, sou contra cercas elétricas (argh, me digam, a que ponto uma sociedade chegou, para fazer uso de coisas que, além de não matarem bandidos, matam gatos e pássaros desavisados, e de uma forma cruel?), sou contra condomínios fechados que só fazem é segregar ainda mais todo mundo. Pode ser que um dia eu mude de idéia, mas arrisco com forte chance de ganhar que isso não vai acontecer. Uma sociedade tem que se ver, tem que se esbarrar, tem que interagir e fazer a cidade ser dela. Casas com muros de dez metros, câmeras por todos os lados e cercas elétricas me dão calafrios. Moro muito próximo ao bairro do Morumbi e fazer um passeio por ali é garantia de depressão. Você não vê uma pessoa nas ruas. Nada. Apenas guaritas e seguranças. E o mais irônico é que várias casas ali sofrem assaltos. Algumas a cem, duzentos metros do Palácio do Governo (houve pelo menos dois casos de assaltos a condomínios fechados naquela região, de um ano pra cá). Igualmente irônico é pensar que os vinte metros de muro na casa do "homem do Baú" Sílvio Santos não impediram que ela fosse invadida.
Posso estar falando bobagens aos olhos de muita gente, mas li na revista Trip do mês passado entrevistas com cinco arquitetos que têm a mesma linha de pensamento que a minha, e isso me confortou. Talvez eu devesse ser arquiteta, ao invés de ficar nervosa sem fazer nada de concreto. Ou vereadora. Enfim, agir de alguma maneira.
Só não quero é imaginar que as crianças de hoje serão os neuróticos de amanhã, andando em carros blindados, morando em condomínios fechados de alto padrão e sem contato com a realidade quase nunca ou sendo como eu, que mesmo não tendo nada disso, vivo assustada. Prum ladrão, minha vida não vale nada e ele pode me matar apenas por causa do meu celular ou do meu lap top usado e barato. Eu seria só mais uma nas estatísticas.
E contrariando estas mesmas estatísticas, espero presenciar ainda muitas mudanças positivas na minha cidade, especialmente no quesito violência. De preferência, sendo sempre agente atuante para estas mudanças. Não tenho mais paciência para esquerdista que discute problemas sociais em boteco fumando seu Marlboro e muito menos pra direitista que filosofa nos restaurantes finos e caríssimos da cidade fumando seu charuto, se ambos não fizerem mais nada além do que abrir a boca. Porque é tão fácil fazer algo. Qualquer coisa que a gente pense em fazer para ajudar o próximo, já é uma diferença grande. Resgate de animais (ou ser veterinário voluntário em campanhas de castração da prefeitura), trabalho voluntário em escolas ou hospitais, dar aulas de alfabetização ou reforço escolar para uma escola ou comunidade carente, levar roupas/sapatos/brinquedos usados em instituições, doar sangue, doar livros para bibliotecas de escolas públicas (ou bibliotecas de comunidades), plantar uma árvore, enfim, doar algumas horas do seu tempo para qualquer coisa que não te leve necessariamente rendimento, mas satisfação por saber que ajudou alguém ou alguma causa, seja lá qual for. Quando dizem que "gentileza gera gentileza", pode apostar que é verdade.
Aqui vai o poeminha, antes que eu esqueça:
Outro dia, fui assaltada.
Pela quarta vez
Entreguei tudo,
sem reagir.
E corri pro analista
Afinal, vão-se os anéis
e ficam os medos.
É bobo e infantil, mas é de coração. ![]()
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Daniel, o caçula
17.11.07
Hoje meu irmão mais novo estaria completando 28 primaveras. O Daniel, ou Dani, como eu o chamo ainda hoje, faleceu criança, no Recife, onde está enterrado e recebeu pouquíssimas visitas desde o dia 1º de maio de 81.
Ele seria o mais bonito de nós, sem dúvida; foi o único que herdou os olhos verde-esmeralda da minha avó Magdalena.
Era escorpiano, signo da água, como o meu, peixes. Sempre penso nisso nas inúmeras discussões literalmente acaloradas em que minha mãe sagitariana e o André, meu irmão leonino, conseguiam fazer minha água toda entrar em fervura. "Dois elementos fogo versus um de água é sacanagem. Com o Daniel aqui as coisas talvez fossem mais equilibradas", eu pensava.
Quando uma pessoa falece muito nova, não tem como não ser vítima de milhões de idealizações por quem fica, especialmente seus pais e irmãos.
"Será que ele amaria os livros, como eu? Será que tocaria um instrumento musical, como eu sempre quis e nunca consegui? (Toco flauta doce e amo, mas um dos maiores desejos seria mesmo ter nascido com o dom de tocar violão e flauta transversal), será que adoraria escrever e arrebataria corações com letras ou poemas de amor? Gostaria de animais e especialmente gatos como eu? Gostaria de praias desertas, de céu estrelado, de comprar roupas em brechó, de passar horas numa livraria ou sebo, de ver o Mágico de Oz tendo The Dark Side of The Moon como trilha ao fundo, numa sala escura, ao lado de amigos e da irmã? Teria sido um excelente aluno de matemática, possibilitando livrar esta mesma irmã de algumas reprovações no ginásio?
Gostaria da Mafalda, do Calvin, do Woody Allen, de artes em geral, de ler Leminski, de escutar Beatles e Chico Buarque?"
Não adianta, nas minhas idealizações, não há espaço para pensar que ele poderia ler só coisas como "Quem mexeu no meu queijo" e "Pai rico, pai pobre". Que compraria CDs de pseudo-caipiras milionários que rimam amor com dor ou do Kenny G. Que compraria um carro potente e sairia por aí tirando racha.
E, muito pior que isso tudo, que bateria em prostitutas ou queimasse índios em pontos de ônibus.
Só penso que ele seria uma pessoa incrível. Um menino de ouro, sensível, bonito, educado, inteligente, bom caráter, de alma rara.
Eu converso com o Dani em muitos dias no ano, mas nos 17 de novembro, em especial, a coisa é mais forte. E NESTE, este sábado nublado no meio de um feriado prolongado, ando conversando com ele mais do que nunca. Imaginando que tipo de conselhos e ajuda ele me daria para dissipar estas nuvens que invadiram minha cabeça e meus dias de semanas pra cá.
Dani, eu sou uma cretina duma cética que não acredita em nada, nem mesmo que você "esteja aí em cima olhando pra mim". Eu queria, mas não consigo. Desculpe por não visitar suas proteínas (como disse a Eva num lindo texto semanas atrás), depositadas a três mil quilômetros de mim. E, mesmo que eu não acredite que iremos nos reencontrar e nem que você esteja aí em cima olhando pra mim, tenha certeza de que eu estou aqui embaixo olhando pra você. ![]()
P.S.: Eu sempre escuto a música Daniel, do Elton John, pensando em você, Dani. ![]()
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Cartões de Natal, o retorno
05.11.07
Relendo os arquivos do Cintaliga, achei um texto da Luciana (ótimo como sempre) sobre cartões de Natal. Fui ao Shopping semana passada, colocar uns documentos muito importantes no correio, andando depressinha, toc-toc-toc. E subitamente, eu a vi.
A árvore de Natal do Shopping. Iluminada, musical, grande - não tão grande quanto era quando eu tinha oito anos e a vi pela primeira vez, mas linda, linda. Esse ano, tem até um trenzinho pras crianças brincarem. Chega me deu um confrangimento no coração. Ah, eu adoro o Natal. Adoro escrever. Adoro coisinhas artesanais. E, assim como a Lu, adoro cartões.
E eu me lembrei dos meus cartões feitos à mão, no ano passado. Deu uma saudade. Já que não posso colocá-los no Flickr do Cintaliga *suspiro profundo*, coloquei no meu.
Divirtam-se com o meu Álbum de Cartões de Natal. Tem uns pavorosos...Mas dêem um desconto, foi a primeira vez que fiz isso! Esse ano, sairão coisas mais aceitáveis, eu juro. Comprei até uma tesoura que tem corte ondulado, e ando de olho em umas flores secas...
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Papéis do Papai
23.10.07
It seems to me I've heard that song before,
It's from an old, familiar score;
I know it well, that melody.
It's funny how a theme
Recalls a favorite dream,
A dream that brought you so close to me.
I know each word,
Because I've heard that song before;
The music said "forever more."
Forever more's a memory.
Please have them play it again,
And I'll remember just when
I heard that lovely song before.
Meu pai era um engenheiro acumulador de papéis.
Nasceu no mesmo dia, mês e ano do Chico Buarque (ele afirmava que era na mesma HORA
); no mesmo lugar que o Macunaíma.
Rabiscava barquinhos, iates, veleiros.Traçava a planta da nossa casa de dois andares que ele dizia que um dia, "quando a economia melhorasse", ele ia erguer.
Fazia muitas contas. Todos os anos, em janeiro, chegava o material escolar fresquinho da livraria. Enquanto eu lia avidamente o livro de Português, ele resolvia o meu livro de matemática por pura diversão. Tinha um gosto especial pela Teoria dos Conjuntos: "Que idéia chibata, no meu tempo não ensinavam isso não."
Escrevia escalas inteiras de sustenidos e bemóis, que ele tocava no trompete, soprando música dentro do quartinho onde ficava o aparelho de som dele, nossos LP´s, nossos cd´s, as partituras.
Esse fim de semana, fizemos uma faxina lá em casa, eu e mamãe. Encontramos uma pasta gorda, cheia de papéis cobertos com a letra dele. Plantas de obras que ele fez, no interior. Blocos e mais blocos de papel quadriculado. Procurações, notas fiscais. Barquinhos, barquinhos. A assinatura repetida muitas vezes, cada vez mudando alguma coisa - a perninha do J, a cabeça do M. Dó, fá, sol sustenido sol bequadro sol, lá dó ré, dó ré menor, fusas e colcheias e claves.
-Mãe, tu vai jogar fora os papéis do papai?
-... [Ela ficou pensando um tempinho.]
-?
-A gente não tem mais onde guardar, falta espaço aqui em casa.
-...tá.
****
Meu pai comia leite com bolacha em uma caneca de esmalte. Blém, blém, blém, ele quebrava e mexia as bolachas até elas virarem um mingau. Eu estou esquecendo como era o rosto dele, e me sinto um verme por isso. Mas não esqueço do cheiro de leite e café, da bolacha que ele me dava na colher, e de como era morno e macio deitar lado a lado e ver televisão apoiados sobre os cotovelos, estragando nossa coluna. Não esqueço dos pés balançando antes de dormir, como se ele ninasse a si próprio.
Meu pai era meu dicionário de inglês, meu baú de referências culturais e meu explicador de filmes cabeça. "Tu viu como ele conseguiu provocar Ira, o sétimo e último pecado no policial?"
Era um estudante de música quase obssessivo, repetindo centenas de vezes a mesma frase musical. E me chamava para o quartinho, para ouvir a fita gravada: "Diz se não ficou igual ao Armstrong!" Eu lembro do cheiro do metal do trompete (que eu, criança, achava que fosse ouro), a fumaça do cigarro queimando e os primeiros acordes do Jazz, que me chegaram fortes demais. "Ah, pai, esse apito incomoda a minha orelha." Eu ainda não estava pronta...
Lembro do balão de oxigênio morando no quarto, e do papai colocando o braço ao redor dele como se fosse um amigo. Se eu já tivesse máquina digital, com certeza teria batido uma foto boba. (Não entendo como nunca tivemos a idéia de fotografá-lo tocando trompete.)
Papai saiu de Manaus em agosto de 2002 pra se livrar de um tumor pulmonar do tamanho de uma laranja. Mamãe conta que, quando foi levá-lo ao aeroporto ele ia, no banco do carona, com a mão encostada na janela, fazendo adeuzinho pra Manaus, pro Teatro Amazonas, pras bancas de banana frita, pra ponte da Sete de Setembro, pro Palácio Rio Negro, pras palafitas e pros igarapés, pro sol, pros termômetros marcando 39 graus, e para a praia da Ponta Negra. Ele disfarçou pra que ela não notasse. Mas ela notou.
E ele acertou ao se despedir. Morreu na véspera do aniversário de Manaus, cinco anos atrás.
Lembro da visita mais recente que fiz ao túmulo dele, em Belém. Eu toda corajosa, espiritualizada, dizendo não entender porque as pessoas iam ao cemitério homenagear as proteínas das pessoas amadas. Que aquilo que amamos em alguém não cabe dentro de um túmulo. E lembro de soluçar, sofrida, no lugar onde estão as proteínas do meu pai.
**********
Ao jogar os rascunhos de barquinhos fora, pensei que, se papai um dia for famoso e pesquisado como o Leonardo da Vinci, terei jogado no lixo documentos históricos.
Como sou uma sentimental incorrigível, guardei um dos papéis. É uma folha de papel A4, com uma linda lancha rabiscada em cima e uma sequência incompreensível de notas musicais embaixo. Ainda tenho o trompete e a surdina, o capacete de engenheiro e as calculadoras científicas. As partituras e os cd´s de Jazz.
Nas nossas estantes apertadas não cabe história. Mas no meu coração fica sempre o registro de uma ausência que não passa, não diminui, e com a qual eu apenas convivo, sem me acostumar. Em mim, ainda soa um trompete dourado,e agora eu penso que deve estar soando igualzinho ao do Armstrong. "I´ve heard that song before..."
****
P.S. de aniversário: E parabéns pra Manaus, essa cidade grávida de quase dois milhões de pessoas! Amanhã Manaus completa 338 anos de cidade, essa púbere mocinha amazônica de cocar na cabeça e celular na orelha, filha mimada do Amazonas, olhos brilhando, cabeça nas nuvens, coração gentil, encastelada na sua solidão verde! Onde quer que nós, manauaras, estivermos, acontecerá alguma coisa em nossos corações quando o Rio Negro encontrar o Solimões...
Arquivado em: Relacionamentos, Açúcar, Emoção, Espiritualidade, Gente, Saudade, Família
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