São Luís do Maranhão, uma cidade do velho oeste

22.10.09

Cheguei em São Luís às sete da noite, comprei um cartão telefônico e liguei pra minha gentil anfitriã, a Lígia (que me hospedou em casa pelo CouchSurfing.) Ela me confirmou como chegar na casa dela. Peguei um táxi e fui explicando como se chegava lá. Fui inventar de perguntar sobre a estranha cassação do governador e a posse da Roseana como governadora, e descobri que era melhor ter ficado calada - o homem era fã da Roseana Sarney. "A senhora tá vendo esse viaduto? Quem fez foi a Roseana! A senhora tá vendo estes semáforos? Que fez foi a Roseana!"

Cheguei na incrível casa da Lígia, onde a filha dela me recebeu encantadoramente. Jantei alguma coisa deliciosa, dormi ouvindo o vento do mar.

Quando acordei na manhã seguinte (cedo, porque quando estou viajando gosto de acordar cedo e aproveitar bem o dia), saí para o Centro, pois meti na cabeça que devia comprar uma calça-que-vira-bermuda pra ir pros Lençóis. A Lígia me explicou que eu devia descer na praça Deodoro, pegar a Rua Grande (onde fica o comércio popular), andar a Rua inteirinha e ia chegar no Centro Histórico.

O Centro Histórico de São Luís foi restaurado há uns anos, através de um projeto chamado Projeto Reviver. Hoje, o povo chama essa parte restaurada e mais turística de Reviver. "Tu vai pro Reviver? Cuidado com a tua câmera!" Por causa desse aviso, bati poucas fotos nesse primeiro dia...

Pois bem, peguei o ônibus na avenida dos Holandeses, atravessei uma linda ponte com uma estupenda vista pro Rio Anil, rodei por algumas ruas com prédios caquéticos e indubitavelmente antigos, passei na frente da Reitoria da UFMA, e quando vi o ônibus voltando para a mesma ponte, perguntei pro cobrador:

- A Praça Deodoro já passou?
- Ih, faz tempo!

Ora, os prédios caquéticos ERAM o Centro Histórico e eu não percebi!

Desci do ônibus na linda praça Gonçalves Dias (linda, agradável, vista pro rio, arborizada com palmeiras onde cantam sabiás, hahahaha!), onde alguns militares do exército faziam caminhada, e subi uma ladeira cruel na rua da Independência até chegar na Rua Rio Branco e andar uns cinco ou seis quarteirões (sem ver NINGUÉM NA RUA) até chegar na Praça Deodoro. Um calor tão forte que eu me sentia em casa, hihihi. (Todo mundo comentou que o verão estava muito mais quente que todos os outros anos, o que também aconteceu em Belém e Manaus.)

Depois de andar bastante, cheguei na Praça Deodoro. Fiquei encantada com a feirinha de flores e plantas (tinha de tudo, até os cactos que eu morro de vontade de ter e não encontro), e com a quantidade de vestidinhos indianos em liquidação nos camelôs. Aliás, achei o comércio informal bem organizado, a quantidade de camelôs não é excessiva e eles não chegam a atrapalhar a calçada. Na Praça Deodoro tem o enorme prédio da Biblioteca Pública, que deve ter sido muito bonito em outros tempos, mas precisa urgente de um restauro para poder ser reaberto! Do jeito que está hoje, parece um elefante triste com doença de pele.

Pedi informação sobre como chegar na Rua Grande, e um rapaz me disse: "Você vai reto por aqui" e apontou com o lábio inferior, "depois você vai ver uma multidão na rua, e é lá que você entra à direita." Esse apontar com o beiço, que eu julgava ser tipicamente amazonense, me deixou maravilhada. Andei, e quando passei a terceira rua sem ver multidao nenhuma, resolvi perguntar de novo.

Claro que eu tinha passado pela multidão da Rua Grande sem enxergar! Porque eu moro em uma metrópole de dois milhões de pessoas, né? O meu conceito de multidão é diferente do conceito de multidão em São Luís! Olha só a multidão que tinha na Rua Grande, e vê se eu não tenho razão.

uma multidao na rua grande

Particularmente, eu até gostei dessa multidão deserta. Não tinha empurra-empurra nem acotovelamento, nem aquele vapor que sobe de aglomerações humanas em dias de sol forte. Entrei em quase todas as lojas de roupa da Rua Grande, sem pressa nenhuma (férias, né?). E descobri umas coisas: a) Ou Manaus não é tão absurdamente cara como pensamos, ou os preços de São Luís estão bem equivalentes; b) São Luís sofre do mesmo desabastecimento de Manaus em termos de roupa: o comércio popular só vende roupa pra mulheres jovens que vestem 38 ou 40. Se você é gorda, tem que vestir roupas de senhora... c) a cintura dois dedos acima do púbis reina, soberana, vulgar e absoluta.

Não achei nada do que eu queria comprar, nem calça jeans com lycra tamanho 46, nem bermuda que vira calça, nem uma sandália papete feminina que sirva num pé 39. :D Eu sou uma grande mulher.(Disseram que o melhor lugar para comprar roupa é Fortaleza. Fica pra próxima.)

Quando cheguei no final da Rua Grande, eu andei sem objetivo nenhum pelas ruas de pedra portuguesa, com casas de azulejos portugueses. Entrava aqui, dobrava ali, subia aqui, descia ali. E comecei a ficar preocupada. Não via ninguém.

O Centro histórico de São Luís tinha um leve aspecto de filme de faroeste. Tons de terra, sol a pino, janelas fechadas, e ninguém na rua. E eu, turista-mulher-sozinha, sentindo uma aflição. Nem ousava tirar minha máquina fotográfica da bolsa - o que foge completamente do meu padrão de viajar tirando foto de tudo.

Depois de rodar um pouco, cada vez mais intrigada com a ausência de pessoas na rua, achei sem querer o Albergue da Juventude Solar das Pedras. Liiiindo, lindo o prédio, numa rua que poderia ter servido de locação pra novela Xica da Silva facilmente. Tortuosa, de pedra, com predios antigões. Puxei papo com a recepcionista do Albergue, comprei um mapa do Centro Histórico (ela foi muito ética ao me dizer que eu poderia pegar o mesmo mapa gratuitamente no centro de informação turística, mas como eu tava a fim de injetar dinheiro na economia local, eu comprei).

Os prédios antigos são realmente lindos, e eu me perguntei como foi que fizeram para que eles resistam em pé até hoje, livres da especulação imobiliária e tudo isso que fez os outros prédios contemporâneos irem pro chão no resto do Brasil inteiro. O Centro de São Luís, seja pela ausência de pessoas, seja pela uniformidade da arquitetura colonial, parece um cenário.Um cenário meio acabadinho, precisando de uma guaribada*, mas um lindo cenário.

fachada de azulejos

O centro histórico de São Luís foi considerado pela UNESCO Patrimônio da Humanidade, o que significa que não podem ser feitas modificações ou reformas - nem mesmo reformas ortográficas, hihihi.

reforma ortografica, que nada

Nas ruas há muitas escadarias, e por isso, em alguns lugares não passa carro. Eu adorei, e ainda acho que não devia passar carro em lugar nenhum do Centro Histórico. Sou radical mesmo.

Escadaria centro de sao luis

Fui ao Centro de Informações turísticas, onde fiquei mais ou menos uma hora. Os funcionários de lá são super fofos, me deram milhares de dicas, conversamos sobre a história do Maranhão, a cultura, o turismo, a pobreza, a natureza, os estrangeiros, como se pronuncia o th em inglês... O Centro é bem legalzinho, fica na praça Benedito Leite, em frente à Igreja da Sé, e é todo decorado com motivos populares do Maranhão. Festas Juninas, as estampas de chita da saia de quem dança Tambor de Crioula, bumba-boizinhos. (Descobri que os maranhenses chamam o bumba-meu-boi apenas de bumba-boi. Assim como o amazonense chama o Boi-bumbá somente de Boi!) Eles também tem uns adereços pra bater fotos engraçadas, e eu não perdi tempo.

Eva chapeu de fitas

Almocei no Restaurante-Escola do Senac, e ó. Ó. Ó. No que depender de mim, aqueles estudantes estao com nota dez. Comida divina, atendimento delicado e gentil, música ao vivo agradável, ambiente charmoso. Recomendo fortemente. Acho que o buffet sai trinta reais por cabeça, e você pode comer até sair pela orelha. Era o meu objetivo naquele dia, que foi plenamente cumprido.

No Restaurante do Senac foi onde eu conheci meu mais novo amor: o Guaraná Jesus. O Guaraná Jesus é tão típico do Maranhão que é visto como produto turístico. Ele é bem doce, tem um aroma de groselha e um sabor parecido com trident de canela. Mas o principal de tudo é que ele é rosa. Pink. Um refrigerante rosa, gente. Tudo o que é rosa ou é bom ou é meigo - e é meio difícil um refrigerante ser meigo...então eu decidi que ele é bom. Fica lindo na taça, fica lindo na garrafa, fica lindo na foto! Eu realmente gostei, e enquanto eu andei por lá, andei movida a Guaraná Jesus - que é chamado só de Jesus. "Tem Jesus? Então me traga um Jesus!"

Eva almoçando no restaurante do SENAC

Depois do almoço, estufadinha de tanto comer torta de camarão, fui para o Theatro Arthur Azevedo. A visita guiada que fiz lá merece um post só pra ela.

*Eu e o povo daqui usamos a palavra guaribada como sinônimo de pequena ajeitadinha, superficial, só pra ficar mais bonitinho. Nâo sei se é amazonês, nortês ou se a palavra é usada também em outros lugares.

Escrito por Menina Eva
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Problemas com a Oi - a saga continua

24.03.09

A história começa aqui, e continua aqui.

Era uma vez uma mulher que tem o mesmo número de celular há dez anos.

Após ter esse número injustamente transferido para o nome e CPF de uma mulher que mora em Coari, essa mulher se recusou durante dois meses a pagar a conta desse celular.

A OIperadora má, cruel e bagunçada fez pouco caso dos protestos e o celular passou a apenas receber chamadas.

A filha da dona do telefone, que é blogueira, foi ao Procon buscar orientação. Descobriu que o Procon só fica aberto até duas da tarde...

Acuadas pela necessidade premente de usar o celular, a dona do telefone e sua filha blogueira pagaram a conta, mesmo a conta estando com um nome de outra mulher, moradora de Coari.

A conta foi paga na sexta. Hoje é terça. Dizem que o prazo para religar o telefone é de cinco dias.

Então, além de SER OBRIGADO A MUDAR DE OPERADORA, pagar conta com nome e CPF errado, por culpa DO SISTEMA DA OPERADORA, a gente tem que esperar a BOA VONTADE DA OPERADORA pra fazer o telefone voltar a funcionar.

Você ainda quer um Oi Chip? Quer ser cliente da Oi, essa operadora que RESPEITA A SUA LIBERDADE (desde que você não seja cliente dela)?

Eu não quero. Assim que a conta voltar pro nome da minha mãe, com endereço em Manaus, ela vai dar entrada no pedido de portabilidade.

Estou cogitando inclusive mudar de telefone fixo, para não ser mais cliente da Oi em hipótese alguma.

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Comportamento, Tecnologia, Consumismo, Indignação
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Intercâmbio, uma decisão custosa

14.08.08

Eu já sabia, desde o momento em que escolhi fazer intercâmbio na Europa, que ia doer. No bolso, a parte mais frágil da minha anatomia.

(Quando eu tinha entre dez e onze anos, a gente passou por uma fase de pindaíba em casa. Papai ficou sem trabalhar quase um ano. Nunca passamos fome nem ficamos morando na casa dos parentes, mas o aperto foi sério. Desde essa época, eu morro de vergonha de falar sobre dinheiro, ganhar dinheiro, e o pior, de GASTAR dinheiro. Morro de vergonha. Ou seja, eu sou pão-duro pra chuchu. E só se o chuchu estiver na promoção.)

Então, eu me preparei. Desde março DO ANO PASSADO, quando eu ainda nem sabia se ia fazer mestrado ou viajar em 2008, abri um fundo de Renda Fixa e comecei a socar dinheiro lá, religiosamente. Optei pelo fundo de renda fixa porque na época oferecia melhores rendimentos que a poupança. Foram meses ótimos: todo dia tinha cerca de quatro reais A MAIS na minha conta. Ai que delícia ver o dinheiro AUMENTAR.

(Desde novembro, a renda fixa tá rendendo menos que a poupança, que raiva. Mas ainda assim, é bom ver todo dia o dinheiro rendendo.)

Meu décimo-terceiro, minhas férias, a rescisão da minha mãe, tudo foi disciplinadamente enfiado investido no fundo.

E é esse dinheiro que está pagando o curso, passagens (mais de mil cruzcredos de taxa de embarque, cuidado com a British Airways), o seguro-saúde, o passaporte, e mais as pequenas comprinhas que tive de fazer por estar indo para um país frio.

Gastei cerca de oito mil. E é delicioso dizer que, faltando menos de um mês pra viagem (dia sete de setembro piso em Dublin), esses oito mil estão completamente pagos, e eu não precisei pegar empréstimo. Não fiz dívidas: economizei ANTES e paguei na bucha.

Tive sorte. O dólar chegou a níveis baixíssimos, peguei dólar a R$ 1,60. O Euro caiu duas vezes na semana passada.

Meus erros, que eu compartilho aqui para que você, que pensa em fazer intercâmbio, não repetir:

a) Esperei tempo demais pra comprar passagem. Eu cheguei a cotar passagem no preço de estudante por novecentos dólares, pela Iberia. Mas achei que seria melhor esperar mais um pouco, juntar mais dinheiro, receber a restituição do imposto de renda. Quinze dias depois, haviam acabado as vagas pra estudante, o preço era uma cacetada, só tinha vaga pela British Airways com a tal taxa de embarque de mil cruzcredos (espero que alguém me carregue no colo e me dê comida na boca, por esse preço!). Resultado: quatro mil reais de passagem aérea. Eu mereci, queridos, eu mereci. E a pão-duro dentro de mim se contorce com dor no bolso.

Lição: COMPRE A PASSAGEM LOGO. Seis meses antes. Quatro meses antes. Depressa. Não espera o dólar baixar mais um pouquinho.

b) Raciocinei em rais.
Eu via as cotações com os valores em dólares e meu subconsciente pensava em reais. Por um triz o dinheiro não deu - por falha de cálculo MINHA.

c) Menosprezei o poder do câmbio.
Eu SEI que preciso levar cerca de oitocentos euros em DINHEIRO pra mostrar lá na imigração. "Oi, meu nome é Eva, esse é o meu dinheiro, não quero ficar ilegal no seu país, mês que vem eu volto pra casa." EU SEI DISSO PORQUE EU ESCREVI E-MAIL PRA EMBAIXADA DO BRASIL EM DUBLIN, e eles me alertaram. Alertaram em MARÇO.

Adivinhem quantos euros eu já comprei, desde março?
Começa com Z.

Oitocentos euros de uma vez só é uma cacetada. Não façam isso, crianças. Programem-se, comprem aos pouquinhos, façam um planejamento - "Vou comprar cem euros por mês, vou usar o décimo-terceiro" -, e evitem dor no bolso.

Mas nem tudo são erros. Outro conselhinho útil: Aproveite as liquidações.

Manaus é quente pra caramba. Eu vou pra Irlanda, um lugar onde no pior verão faz vinte graus. Preciso garantir a minha chegada na Irlanda sem congelar no caminho do aeroporto pra casa. Roupa de frio, aqui em Manaus, é difícil de encontrar, pelos motivos evidentes. Quando se encontra, é bastante cara, pelos mesmos e óbvios motivos.

Eu pesquisei bastante, mas também tive uma sorte que me levou a crer que o Santo das Liquidações é meu Padroeiro.

Pois bem. Consegui comprar dois bons casacos de frio em um brechó na internet, com uma moça do Rio de Janeiro. Tem muitos blogs que vendem roupas (Recomendo o Filet pra quem é Mignon, e TODA SUA EXCELENTE LISTA DE LINKS), e pra quem gosta daquele antro azul que se chama Orkut, também tem gente que vende roupas usadas por lá. Negocie, pesquise, mande e-mails. Telefone.

Faltava um super-casaco peludo. Eu já tinha colocado na cabeça que ia arranjar esse casaco lá pela Irlanda mesmo (na minha pesquisa, descobri que comprar roupa lá é bem mais vantagem que no Brasil). Até que, semana passada, eu entrei na Taco, procurando uma pantufinha quentinha - para a viagem. Não tinha pantufa, mas tinha um SALDÃO DE ROUPA DE INVERNO.

Pensem num casaco acholchoado. Forrado de pêlo. Impermeável. Com BOLSINHO PRA COLOCAR MP3 E CELULAR, o que eu considero que é um modo do fabricante reafirmar que é REALMENTE à prova d´água. Com capuz. E o capuz tem uma ABA, que fica quase como um boné. E ele tem também dois bolsos na manga. Não sei pra que servem dois bolsos nas mangas, mas enfim, ELE TEM. Queridos, até os ZÍPERES do casaco são a prova d'água.

Enfim, tudo o que eu precisava pra ser feliz e impermeável. No saldão.

Ah, e lembram-se da pantufa quentinha que eu procurava? Já tinha me convencido que em Manaus só existiam pantufas de pano e espuma. Até que entrei na Jogê, uma loja de lingerie.

Olhem quem estava me esperando lá....

A pantufa

É como pisar em uma nuvem, queridos leitores.

Ah, sim. Comprei um pijama DE MOLETON, todo macio, cor de chiclete, verde com rosa e branco, no saldão de inverno da Hering. :D

Então, é isso. Cuide do seu dinheirinho, não para que ele fique parado inutilizado debaixo do colchão, mas sim para que ele proporcione vivência, alegria, experiências legais, comida, casa, calor e algum conforto.

P.S.: Nenhuma das marcas citadas deu um centavo sequer pra eu falar bem delas. Mas caso alguém queira, estamos aí, um trato legal, eu posso ser sua amiga-friend.

Escrito por Menina Eva
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E o pulso ainda pulsa

12.08.08

Aqui no Brasil, todo mundo tem em casa aquela farmacinha básica: se doer a cabeça toma esse; se inflamar a garganta toma aquele; se for cólica aquele outro é muito bom; passa essa pomadinha em cima da picada do mosquito que melhora.

E, caso os remédios acabem, nada mais simples: é só ir até a drogaria mais próxima e pedir os remédios desejados.

Só que na Irlanda isso não funciona. Ao contrário do Brasil, que não é um país sério, lá não se compra remédio sem receita médica. Eu tenho seguro de saúde que cobre consulta médica, mas francamente, preciso ir ao médico pra dizer que estou com dor de cabeça? Que um mosquito me mordeu? Que espirrei e estou com o nariz escorrendo? Até o seguro liberar, até eu ser atendida, o problema já passou. E pelo amor de Deus, todo mundo sabe que o médico não vai fazer exame de sangue pra descobrir que eu estou resfriada. Aliás, ao menos aqui em Manaus, os médicos me perguntam sempre : "O que você acha que você tem? Qual remédio você costuma tomar quando tem isso?" Porque na verdade, a maioria dessas coisinhas do dia-a-dia têm tratamento apenas sintomático. E quem conhece meu corpo melhor que eu? :D

Então, resolvi levar MINHA farmacinha pra Europa. E descobri que, mesmo pra levar os meus remédios em uma viagem internacional, preciso de uma receita de um médico, dizendo a dosagem e uma quantidade razoável pro meu tempo de permanência lá (trinta dias). Caso abram minha mala e eu não apresentar receita, terei de jogar meus remedinhos fora na lixeira do aeroporto.

Vou me consultar com um clínico geral amanhã, e preparei uma listinha do que eu quero que ele coloque na receita.

Primeiro, tenho que levar meus remédios de uso diário. Eu tomo pílula anticoncepcional, por causa dos ovários policísticos(cof,cof). E vocês sabem, né? Com ovário policístico não se brinca! ;D

Também uso todo dia colírio pra prevenir o glaucoma, e esse eu vou ter de usar pro resto da vida.

Depois, vêm os remédios ocasionais. Eu tenho um bloco malfeito no dente que causa uma dor bem incômoda vez em quando. Fui ao dentista uma vez, e ele me receitou um antiinflamatório. Como sou alérgica a nimesulida (gravemente alérgica, aliás), eu tomo diclofenaco, o bom e velho Cataflam. Ou Neotaflam, pois o similar é mais barato. Cataflam é bom pra tudo: dor de garganta é com ele mesmo. Vai passear comigo na Europa.

Às vezes, dá aquela dorzinha de cabeça sem causa específica. Mudança de clima, óculos sujos, muito tempo em frente ao computador (Eva levantando a mãozinha). Até um penteado muito apertado por causar isso. Eu costumo esperar a dor passar sozinha, e normalmente passa. Mas Tem aquelas dores de cabeça que só te causam sofrimento. E eu me dou maravilhosamente bem com o Paracetamol efervescente (o Sonridor), que em menos de meia hora dissolve a minha dor de cabeça. Alás, eu sempre tenho um Sonridor na carteira, não só para mim, como para os meus colegas que acaso precisem. (Sempre alguém precisa, dor nas costas, dor de cabeça, as dores humanas.)

E há aqueles dias em que você exagera na comida. Come coisas gordurosas, ou muito temperadas, diferentes do seu habitual. Ou come muito. Nessas horas, é bom ter aquilo que a mamãe chama de "tubinhos de fígado". Enterofigon ou Eparema, em forma de flaconetes.(Quando a gente chega de festas, ela já vai falando: "Filha, toma um tubinho de fígado!") Pra essas mesmas ocasiões, um antiácido para um estômago solitário e longe de casa (eu gosto de Sal de Andrews, não sal de frutas), um elixir paregórico para um pâncreas cansado, um Luftal para...er...enfim, um Luftal sempre é bom.

Caso você tenha um nariz que funga-funga a-a-ahh, como o meu, é bom se prevenir, não? Eu me conheço. Quando chove, meu nariz escorre; em locais secos, meu nariz coça; mudança de temperatura? meu nariz entope. Poluição? Meu nariz odeia. Ai meu nariz, ele parece muito mais um chafariz. Eu costumo cheirar vick, mas como na Irlanda faz frio, vou levar um descongestionante. Ah, e lenços de papel!

O que afeta o nariz pode afetar os brônquios, não é mesmo? Pra quem vive resfriada, um bom antigripal é o melhor companheiro. Eu ADORO o Trimedal, que ataca todos os lados do resfriado: anti-inflamatório, analgésico,vitamina c, cafeína pra levantar o astral, mitiga a dor no corpo, combate a coriza, uma beleza. Mamãe discorda, prefere o Superhist, e há pessoas que gostam do Resfenol ou Coristina, ou ainda o Benegrip, e ainda tem o Apracur pra curar, pra curar, Apracur. (Lembram desse comercial? Bem melhor que o atual, com o Leonardo rimando "requenguela" com "o nariz mela"...) Eita, brasileiro adora um papo de doença...

No mais, a minha farmacinha contém Gelol (nunca se sabe!), bandeide, atadura, algodão, cataflam pomada (unha encravada, espinha dolorida? Cataflam nela!), cotonete e Trofodermim (uma pomada ótima pra reações alérgicas da pele, como picada de mosquito). Meus remedinhos naturebas amazônicos, copaíba com mel pra garganta, castanha da índia que eu tomo todo dia pra circulação, Passiflorine pros dias de TPM, sabonete íntimo de crajiru.

Mania de doença, quem? Eu? Imagina.
Será que esqueci alguma coisa?|-|

Escrito por Menina Eva
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Pense, fale, compre, beba

10.04.08

"Aí você me pergunta: “mas adianta proibir?”. Olha, eu te digo: ninguém vai morrer por falta de uma cerveja na viagem. Nenhum apreciador de cerveja, vinho (onde eu me incluo) ou cachaça, vai deixar de apreciar sua bebida por falta de propaganda. Por outro lado, a associação “mulher gostosa - cerveja”, “festa - cerveja”, “balada - ice”, “felicidade - alcoolismo” vai ficar cada vez mais fraca, cada vez mais menos freqüente na cabeça da população - especialmente na cabeça de crianças e adolescentes. E é disso que nós precisamos. Não podemos seguir achando normal que 33 milhões de brasileiros consumam álcool em excesso. Não podemos achar que é mera coincidência o fato de 70% dos laudos cadavéricos de mortes violentas indicarem a presença de álcool no organismo"

Falou tudo, Carlinha.

O que me irrita não é que as pessoas bebam. Não é que meus amigos bebam. Não é o cheiro das latas de cerveja pelo chão.

O que me irrita é a glamourização de um líquido, como se colocar um certo líquido na boca e fazê-lo descer pelo esôfago fosse transformar a habilidade social de alguém, fazer cinturas afinarem e blusas encurtarem. Como se milagres acontecessem quando algo fermenta. Viver em uma sociedade que valoriza estados de consciência alterados me perturba. A diferença entre o bêbado caído na sarjeta e a moça caída no banheiro da boate, qual é? Pra mim, não há.

Outra coisa que me irrita: "Hoje vou sair, me divertir, beber todas até cair". Sério que isso é divertido? O legal é beber? A diversão não seria conversar com os amigos, ou então ouvir música boa, ou então comer comida gostosa, ou então encontrar um grande amor, pra vida toda, pra noite inteira, pras próximas três horas?

Esses conceitos esquisitos de diversão sempre me deixaram deslocada. Eu adoro dançar forró. Nunca pisei em um Forró. Homens cheirando a cerveja, gente fazendo xixi pelos cantos (odeio o verbo mijar), lugar abafado, latinhas de cerveja pelo chão. Por favor, não dá pra se divertir assim. Aliás, por isso tambem não fui mais dançar na boate gay que eu gostava - todo mundo fumando, fumando, fumando, ai que ódio, meus olhos ardendo, a garganta fazendo arram arram arram.

(Por isso, adoro sair com meus amigos artistas. A gente conta piada, interpreta personagens, joga Verdade ou Consequência e toma sorvete de chocolate. Todo mundo já é tão doido naturalmente que não é preciso mais nada. )

E esse post não tem conclusão nem lição de moral. Eu não bebo, e não gosto das propagandas com mulheres irrealmente lindas e sugestão irrealmente loucas de felicidade e prazer em uma lata.

Escrito por Menina Eva
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Framboesa, per brindare um incontro OU Então eu me afogo num copo de framboesa OU Tô de saco cheio, pega uma framboesa e põe na minha mesa

22.03.08

Outro dia, entrei numa livraria com o mui nobre objetivo de olhar, olhar, olhar, se possível ler um livro inteiro e não levar nada pra casa. Deparei com um título interessante. Não decorei nem o título nem o autor, mas era algo como "Vinhos para quem não entende nada de vinho".

O autor começa o livro falando um pouco sobre as espécies de uvas usadas para fazer vinhos brancos e vinhos tintos. E aí começou o meu estranhamento.

Ele descreve, por exemplo, os vinhos brancos feitos com a uva Sauvignon Blanc como sendo vinhos "alegres, otimistas, de sabor ensolarado, recendendo a verão com um sorriso de limão no final".

Um sorriso de limão? Esse cara bebeu, foi?

Eu não bebo álcool. Nenhum tipo de bebida alcóolica. Nada. E não bebo exatamente porque, das vezes que provei, não consegui gostar. Pra mim, vinho é tão-somente "azedo". A distinção mais sofisticada que meu paladar consegue fazer diante de uma bebida alcóolica é "RASCANTE" - ou seja, dá coceira no fundo da garganta.

Não sei enxergar prazer em vinho. Acho bonito, sim, acho chique, sim, adoro as histórias das famílias que passaram gerações pisando uva.

Mas nem mesmo as uvas eu consigo comer - ô frutinha azeda e rascante! Só gosto de passas, porque passas são...doces! Acho que tenho paladar de criança.

E, francamente, se é pra brindar à alegria, ao prazer, eu posso usar qualquer coisa pra brindar, até mesmo água do bebedouro. Uma taça de suco de framboesa pode sim, celebrar o amor; e há muitos romantismos ocultos em um copo descartável, com suco de laranja geladinho.

Um brinde bem docinho a todos os leitores do Cintaliga.

Eu hoje viro essa mesa, se o suco for de framboesa

Foto tirada pela Luciana, minha parceira de blog. Modelo: O melhor Suco de Framboesa do mundo.

P.S.: Descubra se você é um enochato, que enxerga sorrisos de limão por aí. Link via Ticcia.

P.P.S.: Músicas que foram parafraseadas no título: "Champagne" (Depsa - Jodice - Di Francia, um clássico da música italiana), "Que se chama amor" (gravada pelo grupo de Pagode Só Pra Contrariar, não consegui encontrar os compositores) "Cerveja" (Leandro e Leonardo gravaram, sei lá quem compôs). Na legenda da foto (botão direito/propriedades), eu parafraseei uma música do Reginaldo Rossi: "Eu hoje viro essa mesa". Tantas músicas sobre álcool, nenhuma sobre suco de framboesa? O mundo é injusto.

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Comportamento, Consumismo, Humor, Livros
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