O Brasil de verdade

01.10.09

Barreirinhas, no Maranhão, é uma pequena cidade que vive basicamente de castanha de caju e turismo.

Eu andei hoje à tardinha. Vi meninos e adolescentes (aqui tem MUITOS JOVENS, o que deve ser indício de que os adultos morrem cedo) jogando Dunabol. Tem uma enorme duna no meio - no meio - da cidade, e eles jogam futebol lá em cima. Entrei em um mercadinho e vi que tem guaraná jesus de todos os tamanhos.Latinha, 200 ml de vidro, 250 ml de plástico, 1 L, 2L, uma farra. E a CocaCola, que é esperta, distribui o Jesus em todos os cantos, e ainda faz lindos cartazes de propaganda, e a latinha rosa. Penso no meu Baré, que teve o azar de ser comprado pela antarctica, e é vendido como venda casada em Manaus - e ainda assim, ainda assim, sem latinha e sem cartazes e sem propaganda, vende mais que CocaCola por lá.

Eu andei sozinha em bairros muito pobres de ruas de areia,e escuras. E tenho de me acostumar a não sentir medo. Nâo preciso sentir medo, não vou ser assaltada - e todos já me reiteraram isso, mas os meus sentidos estão alertas e eu sinto medo dentro de mim, seguro minha bolsa enquanto os meninos acendem uma fogueira na frente de casa. O medo está em mim, e eu cada vez mais penso que a nossa civilização não vai aguentar mais esse medo, essa paranóia, essa desigualdade. Isso vai explodir - e em breve.

Aqui todos os guaranás são rosa, imitando o Jesus. Eu rio, pensando nos dez ou doze guaranás de Manaus, e em como eu sempre pensei que beber guaraná era normal, até ir para o Rio e descobrir que ninguém conhece mais de dois guaranás.

O povo não sabe ganhar dinheiro. Passei de barco por Vassouras, um nini-povoado do Rio Preguiças. A mulher mora NA FRENTE do rio, ATRÁS dos Pequenos Lençóis, e sabem o que ela vende? Coco, bolsas de palha de buriti e cerveja, enquanto toca o disco do Roupa Nova. Se eu pudesse dar uma consultoria pra ela, eu colocaria cd´s maranhenses pra tocar, inclusive de tambor de crioula e bumba-meu-boi, e venderia os cd´s, além de vender juçara geladinho e bombom de buriti. TODAS as lanchas de turistas passam pela venda dela, meu pai.

Caburé é linda, mas virou point, e o camarão pra duas pessoas custa 50 reais. Choquei.

O mar daqui é cinza, o que me lembrou fortemente a Irlanda, mais especificamente Howth.

Negros. Negros por todos os lugares, ninguém é branco, quem é branco é turista ou é radicado aqui. Nunca me senti tão turista. Todo mundo me deseja bom passeio, boa volta, boa viagem, antes mesmo de eu dizer que não sou daqui.

Ah, homens lindos. Um monte. A cidade é minúscula, mas já vi cinco academias!

Muita gente tem parentes que moram em Manaus. Ainda agora conversei com um senhor que morou 23 anos em Manaus, e agora voltou pra casa. Mas as filhas ainda estão lá.

Pobreza. Pobreza. Pobreza e falta de recursos. O turismo é como uma tábua de salvação pra algumas famílias: "Meu filho sustenta a casa com o aluguel de bóias pra descer o rio." Me arrependi de não ter comprado o bóia-cross.

Estou injetando dinheiro na economia local, fazendo comprinhas de artesanato, supermercado, refeições, INTERNET :D, mototáxi. Amanhã, tenho a manhã livre: acho que vou fazer manicure!

Todos têm enorme orgulho dos Lençóis, da beleza da paisagem e do sossego da cidade. Mas têm uma visão ambiental deficiente, em alguns sentidos.

Férias, férias, férias. Não tem TV no meu quarto, mas e daí?

Eva - blogando de Barreirinhas, Maranhão, com as costas ardendo de sol e a barriguinha cheia de camarão

Escrito por Menina Eva
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As pequenas vitórias de todo dia

26.05.09

Eu começo a trabalhar às sete da manhã. Moro na Zona Sul de Manaus, e meu trabalho fica na zona oeste - longe, longe, muito fora de mão.

Para facilitar as coisas, minha mãe me deixa de carro no trabalho, e depois vai para o trabalho dela. Esse nosso caminho é, normalmente, um dos nossos momentos mais íntimos do dia, qando podemos conversar, comentar as manchetes dos jornais (que não compramos), atualizar as fofoquinhas dos respectivos trabalhos.

Quem faz sempre o mesmo caminho no mesmo horário, acaba encontrando coisas que se repetem. Além do eterno engarrafamento na Bola do Coroado (que é menos pior antes das seis e meia), o mesmo ônibus 213 vindo ao nosso lado no V-8 (às seis e vinte), a mesma moça sentada na calçada da UTAM esperando a carona (ou a rota do trabalho, a gente não descobriu ainda).

Um dos personagens que sempre encontramos é o senhorzinho da bengala. Ele faz caminhada no sentido contrário ao nosso. As primeiras vezes que o notamos, ele andava com passinho curto, uma bengala numa mão e um cabo de vassoura na outra.

As semanas foram passando. Primeiro, ele abandonou o cabo de vassoura. Mais um pouquinho, e ele andava com a bengala na mão, porém sem usá-la como apoio; concentradíssimo, olhando pra frente. Percebemos que o ritmo dele de caminhar estava cada dia mais forte.

Foram vários meses de caminhada com a bengala na mão. Infalivelmente (a não ser em manhã de chuva), o senhorzinho ia no seu passinho de marcha, com a bengala na mão sem ser usada. Mamãe achava que ele levava a bengala por medo de sentir tontura, cair, tropeçar; eu achava que a bengala era usada na descida da ladeira que vinha depois do ponto onde o encontrávamos.

Hoje, amanheceu um dia muito azul, bonito e quente depois de várias manhãs meio nubladas. E o encontramos de novo. Passinho firme, um-dois, um-dois. Um saco plástico com três ou quatro ovos dentro.

E eu escutei o gritinho da mamãe: -Filha, olha! Sem bengala!

Eu e mamãe batemos até palmas dentro do carro.

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Comportamento, Cotidiano, Contos, Açúcar, Esperança, Gente, Lugar, Diálogo
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Noni-tícias

31.03.09

O noni não regulou meu intestino, pois nunca tive intestino desregulado.

O noni não melhorou minha pressão alta, pois não sou hipertensa.

O noni não sarou minha ferida brava da perna, pois não tenho ferida.

Mas uma coisa deve ser dita: a textura da minha pele mudou. Não sei explicar direito: não é maciez. É como se aquilo que está DEBAIXO da pele (derme?)fosse mais...consistente. Quem observa seu corpo sabe se ele mudou. Não é mera impressão.

Mamãe diz que as articulações estão respondendo bem. Como ela não está fazendo exercício nem tomando outro tipo de medicação, pode mesmo ser o noni. Pode também ser efeito placebo. Quem sabe, efeito Legião Urbana...

Estamos no fim da segunda garrafa de suco de noni. A primeira, vitaminada de noni com vinho barato, foi uma tortura. Azeda, ruim, arrotante (eca!). A segunda, frapê de noni com suco de uva sem açúcar, está MENOS RUIM. O que não quer dizer que seja boa. E continua arrotante (eca 2!).

Talvez eu já tenha superado a fase do sofrimento e esteja da fase da aceitação. Não é mais tão ruim engolir o troço. E há as técnicas. Pois para tudo há que se ter um método. Viro o cálice de noni com rapidez, jogo ele direto na garganta, evitando contato direto língua/noni. Logo em seguida, bochecho um gole de água, e não dispenso a ajuda de algo de sabor melhor: um copo de iogurte, um biscoito, um pedaço de bolo.

Aguardemos a terceira garrafa. A velhinha que fabrica o suco em série e revende (nos poupando do horroroso trabalho de esperar o noni amadurecer com todo seu cheiro de pesadelo e espremer a fruta-vômito na peneira com nossas mãozinhas) é como uma proclamadora dos poderes do noni. Ela tem uma série de fotos da ferida da perna da mãe dela, batidas semana a semana. Tipo "antes e depois do noni". E ela MOSTRA PARA OS FREGUESES. Foi uma melhora quase milagrosa, devo dizer. Poupem-se de querer ver as fotos.

No mais, ouço muitos relatos quase milagrosos dessa fruta. Depressão curada, a mãe que não briga mais com os filhos por besteira, mau-hálito matinal reduzido, intestino regulado, formigamento no órgão sexual masculino (e subsequente potência na hora de coisar) sem falar na cura da ferida brava da perna da mãe da "noneira" ( = mulher que faz suco de noni).

*******

Aliás, um dia, chegamos em casa às quatro da manhã, saindo de uma festa de formatura. Diálogo sonolento:

Mamãe - E aí, tu ainda vai "nonar"?
Eu - Não, vou "nanar".
Mamãe - Tem certeza que não vai tomar o noni?
Eu - Nonada!

Guimarães Rosa, às quatro da manhã? Na minha casa, tem.

O melhor elogio possível

23.02.09

Na qualidade de trabalhadora da arte espírita, envolvida com maquiagem, texto, cenário, platéia e personagens desde o ano 2000, quando eu tinha apenas 14 anos e uma monte de certezas, o movimento espírita amazonense ocasionalmente conta com minha voz projetada e inha memória boa pra textos pra usar o teatro como recurso pedagógico.

Pois bem, fui me apresentar no retiro-que-não-é-retiro, segunda-feira gorda. Sete da manhã, amores, eu de base, pó e rímel, metida num vestido "de mãe", porque se você tem mais de um metro e sessenta e um par de peitos 44, vão te dar o papel de mãe, ainda que você tenha 23 anos e nenhum filho.

Uma encenação bonitinha, o grupo ensaiou pouco mas é bem entrosado, algumas frases do texto foram invertidas, mas o resultado foi bom. E aí, depois da apresentação, nós confraternizando com os adolescentes - alvos das ações pedagógicas do retiro-que-não-é-retiro - no meio da confraternização vem um menino enorme, carinha de 14 anos, corpo de jogador de basquete da NBA.

- Oi, eu gostei muito de você na peça!
- Ah, que bom! Amanhã a gente vai fazer a segunda parte, viu?
- Legal. Sabia que você parece uma mulher do Almodóvar?

Eu, burra de dar dó:

- A esposa dele?
- Não, as personagens. Você tá meio que nem as mulheres do Almodóvar.

****************

GANHEI O ANO TODO, DEPOIS DESSA. Sério, o mundo ficou melhor. Te cuida, Penélope. Te cuida, Paz Vega.

(Não tenho nenhuma foto da encenação... Mas o vestido era da minha mãe, branco com umas estampas verdes retorcidas, meio Almodóvar mesmo. Não é maravilhoso que rapazes de quatorze anos conheçam Almodóvar? )

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Cinema, Açúcar, Emoção, Mulherzinha, Diálogo
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Um conto real de Natal

10.01.09

Vinte e quatro de dezembro, tardinha, ela e a mãe fazem uma série de visitas às casas de alguns amigos. Entregam um panetone pro amigo querido da faculdade, passam na casa de alguns queridos.

Quando chegam à casa de uma família conhecida, ficam sabendo que a mocinha estudante de Medicina, que um dia teve doze anos e com quem passou muitas noites cheias de risadinhas e filosofias adolescentes, hoje à noite, vinte e quatro de dezembro, está de plantão em um hospital. Distantes se vão os doze anos.

Com um disco do Rod Stewart embrulhado pra presente, vão para o hospital. Vinte e quatro de dezembro. Oito e meia da noite. Um vento horrendo de chuva, "o que estamos fazendo aqui?" "Qual era mesmo o hospital?".

Chegaram, desceram do carro, cumprimentaram alguns seguranças meio desanimados por estarem trabalhando na véspera de Natal. Perguntaram pela estudante, ninguém sabe o ramal, "qual é o ramal?", e as duas ficaram alguns minutos esperando enquanto os seguranças procuravam o número.

E foi nessa hora que Papai Noel, vestido de vermelho, botas pretas, barba branca, cajado com sininhos na mão, saco cheio de presentes, saiu do hospital, dando aquela risada engraçada. O próprio. Atrás dele, duas mulheres quarentonas, meio gordas. Uma delas, entusiasmada, torcendo as mãos, olhava ao redor.

Ela viu as duas mulheres encostadas no balcão da portaria do hospital. Encontro de olhares.

Gorda, quarentona, celular na mão, uma alegria imensa saindo dela, esparramando no chão, precisando desesperadamente ser compartilhada.

- Feliz Natal!

As duas responderam, meio sufocadas de ver tanta alegria junta:

- Feliz Natal, feliz Natal MESMO!

A mulher atendeu o celular e foi saindo, falando ao telefone que naquele momento iam ao Pronto Socorro Municipal. Ela e a outra quarentona saíram do Hospital, entraram em um carro preto; o Papai Noel entrou no mesmo carro, não foi de trenó.

Mas isso não diminui em nada a magia, concordam?

Fim (mas em dezembro tem Natal de novo)

P.S.: Depois me perguntam porque é que eu enlouqueço no Natal. Já estou com saudade de ver a casa toda vermelha, verde e dourada. E das musiquinhas de sininhos. Eu sou incorrigível.
P.P.S.: Esse ano, o post de Natal só saiu em Janeiro. Mas a boa notícia é que o técnico veio aqui, curou a virose do meu computador velho, e agora tenho internet em casa de novo!

Dois Mili Nove*

07.01.09

Eu e mamãe ontem, dia de Reis, fizemos nosso mini-ritualzinho de descendentes de portuguesas. Queimamos palhinhas do berço do menino Jesus, incensamos a casa, tomamos chocolate quente com gemadinha (o nome da gemadinha é viúva. Expliquei sobre a nossa tradição de ano novo no meu antigo blog, aqui.). Rezamos juntas, ouvimos o cd do Padre Fábio. (Em anos anteriores era o Padre Marcelo, hahaha.)

Enquanto lavávamos a louça, eu comentei:

- Quer saber, mãe? A nossa vida é boa. Temos emprego, saúde, casa. Presépios pra desarrumar. Poupança. Acho que nossa vida é boa.

E ela, ácida:

- Estamos um pouco gordas, é verdade, mas...

* Eu odeio de todo coração essa pronúncia, odeio mesmo. Mil perdões se você pronuncia desse jeito; eu não odeio você, mas ODEIO essa pronúncia.

P.S.: Sem internet, etcétera, etcétera.

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Comportamento, Açúcar, Catarse
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