Outro post em itálico

20.10.08

Eu estive na Europa. Eu não mandei e-mail contando, e eu acho que você não lê o Cintaliga. Mas algo dentro de mim afirma que você já sabe da minha viagem.

O que você não sabe é que eu poderia ter ido à Alemanha. Inclusive, eu quase fui. A passagem de avião era barata demais, demais. Eu cheguei até a pesquisar um albergue.

Eu poderia ter ido à Alemanha. Sabendo dizer apenas sim, tchau e bom dia. Ja, aufwiederzen, Guten Morden. As palavras que você aprendeu no seu curso de alemão e me ensinou.

Eu poderia ter ido à Alemanha e visto o que sobrou do Muro de Berlim. Eu poderia ter ido à Alemanha e visto as ruas limpas (européias de verdade), e os prédios bonitos, e as árvores diferentes. Poderia ter ido, e tenho certeza que seria uma viagem ótima. Mas não fui.

Eu poderia ter ido à Alemanha. Mas eu não fui por medo. Não fui por sua causa.

Tive medo de estar na terra do Einstein, do Schröedinger (que você me ensinou a pronunciar: Xirrúndigar), a terra do Feynman, aquele cara que você gosta tanto. Tive medo de encontrar por todos os lados as coisas que você adora.

Tive medo de ver o Instituto Max Planck e ver você saindo de lá com uma maçaroca de cálculos nas mãos e a caneta no bolso da camisa.

Não fui à Alemanha por medo de encontrar você. E eu trago, dentro de mim, essa certeza firme: em algum lugar dentro de mim, você persiste. Eu mesma escrevi uma vez que você estava implícito dentro de mim; e, pra piorar o Sinatra canta a mesma coisa: "I´ve got you under my skin..."

Mais que isso: não fui à Alemanha por um pavor surdo e macabro de encontrar os nossos sonhos. Aqueles sonhos de uma casa com lareira acesa no inverno e jardim florido na primavera, livros nas estantes e os nossos alunos espalhados pelo chão. Os nossos sonhos de Alemanha, estudar na Alemanha, morar na Alemanha. Nós que morávamos em cidades distantes, sonhávamos com um país distante, onde pudéssemos ficar juntos.

Tive medo de ver aqueles sonhos por lá, desnutridos, mendigando na calçada, dividindo comida com um cachorro magro e sujo.

Eu quase fui à Alemanha. Mas não fui. E não fui por sua causa. Porque, dentro mim, no fundo dos meus olhos, embaixo da pele, sutil, invisível, você continua doendo. Você dói em mim. Ainda. Depois desse tempo todo.

[Todas as coisas que eu escrevo em itálico são pra você.]

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Comportamento, Relacionamentos, Catarse, Emoção, Saudade
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Um post em itálico

10.06.08

Faz um ano que você me pediu pra sumir da sua vida. Desde esse dia, eu não escutei mais a sua voz.

Eu não fui obediente. Mandei cartas e cartão de Natal, mandei o convite da minha formatura, tentei ligar pro seu telefone. Mas você via o meu número, e não atendia.

Você me bloqueou no msn e no orkut, igualzinho àquela música ridícula da qual demos risada.

Eu não fui mais à sua cidade. Você não veio mais à minha.

Perguntei pra um colega o que a gente faz quando alguém tenta nos excluir. Esse colega disse que a gente respeita a decisão do outro, e senta e chora na calçada até a dor passar.

Eu chorei tanto, tanto, tanto. Meus amigos me viram, mordendo as costas das mãos, esmurrando as paredes, tendo pena de mim mesma, tendo ódio de mim mesma, buscando a redenção fazendo o bem pros outros.

Não sei se alcancei a redenção. Acho que você não me perdoou. Mas a minha dor passou.

Tive dias em que imaginava como seria o dia em que nos falaríamos de novo. Minha imaginação fértil criou muitos cenários e situações possíveis, aquela coisa de filme. Você sentado num banco de praça, e me vendo passar; eu assistindo uma palestra sua; aeroportos, Europa, Muralha da China, a sua casa, a minha casa. Disciplinei-me para não mais imaginar essas coisas, não ficar enviando esse tipo de energia pra você.

Pois eu sei que você sente.

Não sei se você lê o Cintaliga. Acho que não. Além disso, você apagou seu blog, com os seus textos ótimos, e eu acrescentei mais uma culpa sobre mim.

Queria saber se está bem, como foi a cirurgia da pedra na vesícula, se a mágoa passou, se adiantou alguma coisa me pedir pra sumir da sua vida. Queria saber o que o levou a se transformar de ateu convicto a devoto de Nossa Senhora. Fico conjecturando se fui eu a causadora disso; mas é egocentrismo demais pensar que tudo o que acontece com você é culpa minha.

No mais,saiba que eu estou bem.Outros costumes, outros rapazes, outras músicas e outros filmes, outras camas. Passou um ano, eu penso bem menos em você.
Mas em dias como hoje, penso com bastante força.

E outra: eu percebi que nós dois não estávamos prontos para encontrar o amor da vida inteira.

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Comportamento, Relacionamentos, Saudade, Diálogo
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Me deixando ver no meio de tudo, um pouco de você

31.05.08

Roupa. Uma invenção do ser humano. Mesmo as civilizações de climas quentes enfeitam o corpo com jóias, pinturas, cintos.

O brasileiro é, de forma geral, bastante habituado à visão da pele, do corpo exposto nas roupas justas, no short de lycra, nos biquínis pequenos e no Carnaval, que é o grande momento de culto à nudez, ao corpo e aos desejos do corpo.

E, ainda assim, o brasileiro tem certo pudor ante o corpo completamente nu.As famílias da novela não andam sem roupa dentro de casa - o que é um reflexo das famílias da vida real. Os homens até andam sem camisa, mas as mulheres não ficam só de calcinha. Tirar a roupa toda, normalmente só durante o banho...ou na hora de transar.

E é aí que tudo se torna mais engraçado. Os meninos que eu conheço comentam muito sobre o tesão ao ver uma mulher "peladona". Eu acho interessante perceber que há grande diferença entre a mulher despida, nua, pelada ou peladona. São diferentes níveis de exposição.

(Um médico jamais diria "por favor, fique peladona e deite-se na maca". Um namorado dificilmente dirá "Amor, quero te ver despida!")

E, enquanto os homens pensam logo na mulher peladona (ou peladinha, se for magrinha, hehe), as mulheres preferem não pensar tanto nisso, pelo que percebo. Todas falam dos homens malhadões, bíceps e peitoral, algumas falam das bundas masculinas, mas o ícone "homem nu" não é tão presente no imaginário feminino.

Essas coisas de filme brasileiro dos anos 70 me assusta, a mulher tirando a roupa e pulando em cima do cara, pimba. E o homem com a calça abaixada, cruzes.

Acho tão mais bonito o gesto de tirar a roupa do parceiro. A troca de energia do sexo começa aí, desembrulhando o outro devagar. Ou não precisa ser devagar; pode ser afoitamente, "travesseiros soltos, roupas pelo chão." Tirando as roupas, roupas que usamos o dia inteiro, vamos estabelecendo o que vai acontecer nos minutos seguintes; que tipo de toques, que nível de parceria, a força, a delicadeza, os acordos sutis.

Em parte por isso tudo, eu gosto muito de transformar o momento "tirar a roupa" em um ritualzinho. Não necessariamente um striptease, entendam. Mesmo porque ninguém aguenta fazer e/ou assistir showzinho sempre. Mas se preparar pra pessoa que você escolheu pra dividir algo (uma cama, seu corpo, duas horas, uma vida, são divisões que requerem confiança), é um carinho gostoso. E essa preparação não precisa ser uma lingerie de duzentos reais; pode ser só uma toalha, ou uma blusa de botões, que você, meio confusa, desabotoará.

Um belo embrulho faz parte do ato de presentear, não é mesmo?

P.S.: Não dá pra escrever um texto assim sem pensar nesse poema do Roberto Carlos. Poema, sim senhor. Em redondilhas menores. "Chovia lá fora e/a capa pendurada/ assistia a tudo/ não dizia nada".

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Comportamento, Relacionamentos, Mulherzinha, Sexo
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Pulso

24.05.08

Meu maior gosto é a sensação de pertencer a ele.

Sob o peso dos ombros dele, ficar submissa, frágil. Sentir o quanto é maior e mais forte, e vê-lo deixando claro quem manda em quem.

Nos olhos dele enxergo aquele brilho que me amedronta e me atiça, e eu fecho os olhos, secretamente pedindo para que não exista piedade nos seus gestos. Não, não quero gentileza, antes desejo a firmeza, o domínio, aquele segurar nos pulsos e não largar. Que ele mande em mim, sim, e que ao obedecer eu me desfaça, estremecendo como o jardim sob a tempestade.

[Este texto é uma republicação.]

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Contos, Relacionamentos, Saudade, Sexo
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O casamento dos meus melhores amigos

15.04.08

(Antes que eu seja linchada, todos os meus amigos são meus melhores amigos. Inclusive os dois que se casaram!)

Teve vestido branco.

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Teve bolo (apesar de termos entrado numa dúvida insolúvel se esse bolo era real ou mocapi. Estava lá só pro pessoal bater foto em frente...)

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Teve o noivo sendo enforcado, claro.

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Teve lasanha, papo bom, chuva pesada.

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Teve o início de uma fase nova de alegria.

Teve palhaçada. Claro que teve. Com esses dois, sempre tem palhaçada. Ainda mais quando juntos ficaram os quatro padrinhos.
(Aliás, devo registrar o placar: Administração 4 X Ciências Sociais 2)

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Posso dar um exemplo?

Amigo 1 - ...e os frequentadores costumam arrancar o torete do papel higiênico.
Menina Eva - Torete?
Amigo 2 - Aquele negocinho de plástico branco, que prende o rolo de papel?
Amigo 1 - Esse mesmo. A empresa de serviços gerais já nos avisou que esgotou o estoque, que toda semana tem de repor, porque os frquentadores ROUBAM aqueles negocinhos.
Amiga 1 - Mas roubam aquilo pra fazer o quê? [Pausa] AH!
Todos gargalham durante minutos longos e divertidos.

Teve aquela sensação de que a vida vai indo bem, no caminho certo.

Meus queridos, eu amo vocês dois. Eu, que tenho mania de ritualizar tudo e tornar tudo solene, não consegui solenizar o casamento de vocês. Não consegui me comportar como se fosse dia de festa, porque sempre que eu encontro vocês é uma festa. Não lembrei de dar os parabéns, porque vocês já sabiam que eu parabenizo os dois desde que o namoro começou. Porque, na minha cabeça, vocês já nasceram casados e ficaram só esperando chegar o dia certo de assinar tudo. Porque o amor bem-humorado de vocês espalha o bem pra nós, que estamos por perto.

Então, o que eu posso desejar pra vocês? Uma porta nova pro quarto, um guarda-roupa com espelho, um quintal capinado, panos de prato bonitos, noites (e tardes, e manhãs, e feriados) de abalar os alicerces, uma vida compartilhada, essa coisa prática e feliz que é viver com quem se gosta.

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E eu desejo muitos dias de presente. Porque o futuro, meninos, é uma astronave, que apenas tentamos pilotar.

Carta aberta a um senhor galante

06.03.08

Tem muita coisa que você não sabe sobre mim. Algumas dessas coisas eu sei, outras finjo que não sei, e outras são tão tenebrosas que nem eu mesma descobri.

Você disse que queria me conhecer melhor, desvendar meus mistérios, saber quem eu sou. Como eu te disse uma vez, eu sou muitas, e junto comigo andam sempre grandes tristezas e pequenas certezas.

Eu sou uma menina alegre, expansiva e animada. E também sou uma moça chata, mal-humorada e casmurra. Ao mesmo tempo ou então o tempo todo; não entendo direito como, mas é assim que acontece.

Dentro de mim tem uma porção de peças quebradas, que podem ser postas novamente em movimento. Você não imagina o pavor que eu tenho de você, de como somos parecidos e como somos radicalmente diferentes, e de como eu gosto quando você presta atenção em mim, mesmo tendo vontade de sair correndo quando você aparece.

Eu tenho um passado esquisito, menina asmática, moça solitária, adulta vacilante. Caso um dia você me carregue no colo, vai sentir o meu peso, culpas que carrego no ombro e levo no olhar. Tenho olhos pesados; tenho pés doloridos; mas meu sorriso é leve, e meu coração, infantil.

No mais, eu gosto de bossa nova, escrevo em um blog na internet e tenho um gosto estragado por comédias românticas.

Aguardo sua resposta,
Eva

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Relacionamentos, Amizade, Catarse, Emoção, Papelão
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