Carro de Paulista

07.11.07

Não sei quantas das pessoas que me lêem já andaram de carro comigo. De imediato lembro da Lu, da Viva, do Alexandre, da Olivia, do Roger, do Doni, do André Fiori, da Gabi, da Juliana, do Ian, da Cynthia, do Nélson Moraes (ele e o Alexandre quase bateram as botas ano retrasado, por causa de uma barbeiragem minha. Toc, toc, toc! Imagina deixar a blogosfera órfã deles! Se eu sobrevivesse, me linchariam assim que eu deixasse o hospital), da Lucia Malla. Deve ter mais gente, mas enfim, isso já é um número bastante razoável.
Eu aprendi a dirigir aos 24 pra 25 anos. Os sete anos que me separaram da idade "normal" de se aprender (18) da idade em que eu efetivamente me arrisquei nas ruas sozinha, foram um martírio. Eu era uma das jovens mais frustradas de São Paulo, com toda a certeza do mundo. Morar em São Paulo sem dirigir é certeza de duas coisas: sair pouco de casa (ou ter grana pra bancar táxis dependendo do horário em que se pretende voltar) ou depender sempre de caronas dos amigos. E eu estava já me aborrecendo das duas opções.
Isso porque eu quase sempre andava no carro apenas da Sabrina (Siça pra mim e pros mais íntimos), minha melhor amiga, que era minha vizinha. Tínhamos uma sintonia incrível e sempre estávamos escutando e cantando Tim Maia, Adoniran, Karnak, falando e rindo de tudo, coisas que só nossos 20 e poucos anos e hormônios proporcionam.
Depois que ela nos abandonou (foi morar no Japão quase seis anos atrás), quantas e quantas noites passei em casa mas com vontade de estar na rua. Vendo o carro parado na garagem, com gasolina suficiente para eu ir e voltar do lugar pretendido. Mas sabia que gastar 40, 50 reais de taxi (de madrugada é bandeira dois, né?) era um desaforo.
Eu fiz duas auto-escolas, sendo que uma se dizia especializada em pessoas com medo de dirigir. Uma pinóia!
O menino que tentou me fazer perder este medo tinha tanta psicologia quanto o Capitão Nascimento. "Pede pra sair, pede pra sair!", eu temia um dia escutar dele.
Minha mãe tentou por mais de um ano fazer as vezes de um instrutor, em vão. Coitada, o que ela não deve ter escutado de mim nos meus momentos de raiva por não conseguir aprender a lidar com a embreagem...
Minhas voltas se limitavam a duas ou três ruas no quarteirão da minha casa, nem coragem para entrar na avenida que passa atrás dela eu tinha.
Até que um dia eu estava voltando do trabalho e, ao entrar na estação de metrô, deparo com um cartaz: "Perca o medo de dirigir. Psicólogo especializado em fobias de trânsito. Telefone: xxxx xxxx", que provavelmente esteve grudado ao poste por muito tempo, mas que a pressa e o ensimesmamento paulistano diário impedem de enxergar.
FIAT LUX! (No meu caso, Fiat Palio, o carro da casa naquela época. Dã).
Anotei o telefone e liguei pro psicólogo. Marcamos uma aula para dali a duas semanas, quando eu voltasse de uns dias na praia (era janeiro e eu estava entrando de férias).
Na tarde combinada, ele aparece na minha casa com o carro dele. As aulas eram sempre no carro do aluno, e ele vai ao encontro de cada um. Só cobra a gasolina caso a distância seja superior a 20 quilômetros da área dele. De mim, nunca cobrou, dizia sempre que a distância era menor.
Logo na primeira aula eu já dirigi um bocadinho. Com medo, mas fui indo. Nas primeiras dez aulas, com ele sempre ao lado. Depois, fui me arriscando sozinha aqui e ali.
O cara é um mestre, nem mais nem menos. De verdade, eu o indico pra todo mundo que jura de pés juntos que não vai nunca aprender a dirigir, como eu mesma jurava.
O Sílvio acabou se tornando um amigo da casa. Resgata animais de rua, como nós - aliás, ele é um tanto mais doido que nós, pois tem ONZE (!) cachorros de rua! E mais uns cinco ou seis gatos - é músico (e fomos até vê-lo tocar em Pinheiros algumas vezes) e é de uma generosidade sem tamanho.
Eu me lembro muito bem da primeira vez em que eu dirigi aqui na avenida tão temida por mim semanas antes. Era madrugada e eu estava no carro de um amigo de um ex-namorado meu. A gente começou a falar sobre este meu medo de dirigir, das minhas aulas e eu disse que iria andar naquela avenida sozinha (sem o Sílvio pra acudir em caso de apuros) logo mais. Foi quando este amigo do meu ex parou o carro na mesma hora e falou: "vem pra cá". Desceu do carro e disse pra eu entrar lá e dirigir. Eu relutei e ele insistiu. "Vai, aproveita, a avenida quase não tem carros passando, pouca coisa vai te assustar. E estamos aqui pra qualquer crise de pânico sua".
Eu achei tão legal a atitude dele em me encorajar que troquei mesmo de lugar com ele. Ajeitei o banco, os espelhos, coloquei o cinto. E... liguei o rádio! Já me sentindo no MEU carro. Muito folgada, digam lá. :p
Soltei o freio de mão, respirei fundo e aceleirei. O Paulo, meu ex-namorado, me olhava todo orgulhoso e ria ria do meu nervosismo.
No rádio começa a tocar "Já sei namorar", dos Tribalistas, hit naquele ano. E nós três cantando a plenos pulmões, vidros abertos naquela madrugada quente de fevereiro: u-u-u-u-u-u... u-u-u-u-u...
Eu sei que viemos do começo da avenida até a minha casa (uns quatro quilômetros no máximo) cantando e eu não acreditei que havia feito aquilo sem suar frio, parar o carro com taquicardia ou qualquer outro chilique.
Hoje, paradoxalmente, eu daria tudo pra estar numa cidade em que pudesse abrir mão do carro. Poder me locomover de bicicleta (e metrôs e ônibus) como Paris ou Amsterdam ou mesmo Guarujá.
Mas não posso negar o valor que tem um automóvel. Não me imagino voltando do Carrefour de bicicleta com oito sacolas em cada mão. Pelo menos pra certas coisas, carro ainda é muito útil.
Pra mim, ter perdido o medo de dirigir foi um mérito e tanto, ainda mais porque eu dirijo em São Paulo e enfrentar Marginal Tietê, Radial Leste ou Rodovia dos Bandeirantes não é para iniciantes. Fora as ruas mal sinalizadas e cheias de buracos.
A minha amiga Sabrina, que foi morar no Japão seis anos atrás intencionando passar dois anos fora, está voltando só agora pra cá.
Ela era uma das maiores incentivadoras do meu aprendizado como motorista (claro, queria se livrar do peso morto aqui sempre no banco do carona! :p) e eu fiz uma promessa a ela, quando nos despedimos no aeroporto: "quando você voltar, eu virei te pegar aqui no aeroporto, dirigindo". Daqui a algumas semanas ela chega e eu não vejo a hora de ir pegá-la, pra voltarmos pela Marginal Tietê cantando alto e falando sem parar sobre nossas aventuras e desventuras.

O Palio e a paciência de Wilson

31.07.07

- Alô?
- Oi, Pat, tudo bem?
- Oi, mãe, tudo, diga lá.
- Você pode vir se encontrar comigo na - loja x - do Shopping Butantã, pra eu comprar o presente do André?
- Posso. A que horas?
- Daqui uma hora eu devo estar lá. Ah! Mas pega um dinheiro que eu tenho guardado na minha primeira gaveta na cômoda. Não esquece. Sem ele não dá pra comprar o que eu quero, tô com pouco dinheiro aqui.
- Tudo bem, eu levo. Até mais, beijo.

Pego o dinheiro na tal gaveta (uma nota de cem e outra de cinqüenta reais), me arrumo e vou encontrá-la. Quando chego no Shopping, ao descer do carro, não encontro minha carteira, onde costumo colocar os bilhetes de estacionamento. Procuro no carro todo, vasculho a bolsa, jogo tudo de dentro da bolsa em cima do banco. E nada. Começo a ficar nervosa, pensando na possibilidade de ter deixado a carteira cair na rua, ao entrar no carro (ele estava parado em frente à minha casa).
Não era pelos meus vinte e poucos reais e documentos (mas também seria péssimo perder um monte de coisa), mas mais pelos cento e cinqüenta reais da minha mãe mesmo.
Tento relembrar mentalmente tudo o que fiz desde o momento em que coloquei as notas na carteira. Mas tudo que lembrava era de ter descido as escadas, aberto a porta e o portão e ido em direção ao carro. Torci desesperadamente para que, se a carteira tivesse realmente caído, que
ao menos tivesse sido no trajeto da cômoda ao portão (na parte interna, claro). Assim, ela estaria nas dependências da nossa casa, de qualquer maneira.

Antes de me dirigir à loja, paro num caixa eletrônico (o cartão tinha ficado na bolsa, numa das laterais). Não, não depositaram meu dinheiro ainda, e vejo que trabalhar de graça está se tornando comum. Tem gente ficando rica mesmo com isso. Contrata e não paga, ou só paga depois de muita briga e humilhação, de pedidos e tudo o mais. Enfim. O mundo dos freelas às vezes é esta barafunda.

Vou encontrar minha mãe e digo que não estava com a carteira e com o dinheiro. Não disse que não sabia onde estava, mas sim que a tinha esquecido em casa. Não queria piorar as coisas ali, e eu já estava chateada demais.

Minha mãe diz que tudo bem, que ela ia pagar parte do valor e que eu poderia passar depois para completar. Poderia deixar até isso acordado com a vendedora, Vanessa.

Eu digo que não, que volto mais tarde e pago pelo presente integralmente, não precisa deixar reservado. Tá, tudo bem, que assim seja. Vamos pra casa, então, você parece nervosa.

Olha que lindo isso, Patrícia, quer um pra você? Não, mãe, pelamor, eu quero ir embora. Outra hora voltamos aqui.

Deixa eu dirigir, você está mesmo nervosa, dá pra perceber de longe. Ai, mãe, não viaja, você acha que vou fazer alguma barbaridade? Capotar o carro? Entra logo, vamos.

Entro no carro, ando dez metros, me viro pra perguntar algo pra minha mãe e só a ouço dizer "Paat, cuidaaa", CRAAASH! POW!

Beleza. Em seis anos que dirijo, me gabava por nunca ter me envolvido em um acidente. Fui bater justamente no estacionamento de um shopping.

Desço e vou falar com o rapaz. Ele olha o estrago, eu estou totalmente nervosa. Procuro o documento do carro (onde deixamos o cartão do seguro) e não acho. Mãe, não é possível, eu nunca tirei o documento de dentro do carro. Ela procura em todo o lado e não acha, fica tão nervosa quanto eu.

Combino com a minha mãe de ela ir em casa - que é relativamente perto - e procurar o documento, eu fico ali conversando com o rapaz do Palio.

O rapaz, chamado Wilson, tenta me acalmar. Calma, moça, olha, vamos ali tomar uma água de coco. Moço - aliás, qual é o seu nome? - É Wilson, e o seu? É Patrícia, e desculpa mesmo tudo isso, eu estou realmente sem graça e nervosa.
Tudo bem, isso acontece. Moça, me vê duas águas de coco?
Wilson, eu estou sem minha carteira aqui, aliás, eu estava indo pra casa justamente pra buscá-la, quando aconteceu esta droga toda. Não tenho dinheiro aqui comigo nem pra esta água de coco! Ai, desencana, eu pago... só faltava isso...
Meu Deus, eu bato no seu carro e você me paga uma água de coco... duplamente sem graça agora... bom, mas assim que minha mãe chegar, te pago estes dois reais... é o mínimo que posso fazer... tá, tudo bem, se você faz tanta questão...

Eu e o Wilson conversamos uma meia hora, até minha mãe aparecer com o documento e o cartão da seguradora em mãos. Eu falei tanta bobagem, Deus do céu... coitado dele, terminar uma noite de segunda-feira daquela maneira. Mas ele riu e se mostrou relaxado, não sei se apenas para parecer simpático.

Anotamos os respectivos telefones, endereços, carros e placas, ele pegou o número da nossa apólice e decidimos resolver tudo ao longo da semana, com mais calma e menos nervosismo. Nada seria feito às nove e quarenta da noite de uma segunda-feira, afinal.

Entro no carro, desta vez como passageira, e sinto algo ao lado do banco, quando fui ajustar o cinto. Era minha carteira.

Mãe! Que droga!

Nossa, que foi agora, Patrícia?, que susto!

Eu esqueci de pagar os dois reais do Wilson!

[ E ainda tem gente que amaldiçoa uma sexta-feira 13. Como pode? Uma segunda-feira 30 destas é pra deixar a gente esperto pro resto da semana... ]

Escrito por Patrícia Köhler
Arquivado em: Comportamento, Cotidiano, Carros, Gente, Família, Diálogo
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Esquina, paranóia delirante...

28.06.07

Sabe por que São Paulo está gerando tanta gente maluca? Vou dizer apenas um dos motivos, claro, porque na verdade eles são centenas. Mas um muito, muito grave, é o trânsito e a má educação de vários tipos de motoristas/pedestres.
Eu ando pela cidade a pé, de ônibus (menos do que gostaria), de carro dirigindo (muito mais do que gostaria) e às vezes até na garupa do cavalo branco do meu príncipe, digo, sua Honda Sahara roxa. Sinceramente, fazer isso acho que gera um respeito maior do que quem apenas anda de carro (esquece como é ser pedestre e geralmente fica mal-educado e arrogante mesmo, ensimesmado, isso quando não generaliza e acha que todos os motociclistas são idiotas) e quem apenas anda a pé (também esquece completamente o quão chato e estressante é a vida ao volante, isso quando não xinga os motoristas sem motivo, simplesmente porque nunca dirigiu e realmente não entende muitas coisas inerentes à condição de motorista).
A cidade de São Paulo tem TODOS os tipos de motoristas e meios de locomoção que vocês podem imaginar e até mesmo os que não imaginam.
Há ciclistas, motociclistas, vans, peruas, ônibus, carros (milhares, é a segunda maior frota de carros DO MUNDO, ficando atrás apenas de Los Angeles... que beleza, não?) e até... carroceiros. Sim. Carroceiros, pela cidade toda. Já deparei com eles em vias como a Rebouças e até a Paulista. Se eles estão nelas, que dirá nas vias com um pouco menos (não muito) de fluxo de veículos?
Hoje estava andando por uma avenida que passa atrás da minha casa e cheguei em um ponto onde a calçada, do nada, acabava. Simples assim. Não é que ela acabava, ela fazia uma montanha de concreto de quase um metro (com o perdão do exagero, isso é algo quase intransponível para um ser da minha estatura), ao redor da raiz de uma árvore. A solução é ou subir neste monte de concreto - e mulher que estiver de salto alto se esborracha na certa - ou ir para a avenida, disputando lugar com os motoristas (os mesmos que vão xingar o pedestre por ele estar andando na rua, já que nem vêem que ali era um trecho intransitável para o coitado. Eu mesma passando de carro ali seria capaz de reclamar do pedestre na rua). Nestas horas tenho vontade de sair gritando e fazendo comício, igual àquele repórter da Globo que eu acho um tanto mala, Márcio Canuto.
Que desrespeito sem limite às pessoas, eu fico realmente boquiaberta.
Isso é por todo lado. Se você, leitor, morar em São Paulo e for pedestre por algumas horas, certamente poderá confirmar isso.
Eu lamentei muito não estar com a minha máquina para fotografar aquele monte de concreto. Mas enfim, este é apenas um dos 73.907 obstáculos que certamente existem pela cidade. Se eu fosse deficiente física e morasse no meu bairro, acho que já teria ficado louca.
Eu lamento não andar mais de metrô, no meu bairro ainda não existe nenhuma estação próxima. Lamento mais, muito mais, não andar de bicicleta, por medo de ser atropelada. O desrespeito é imenso, e eu acho muito corajosos estes ciclistas na Rebouças, na Consolação, na Paulista. Como eu queria ter a ousadia deles... estou mais do que cansada do trânsito, de dirigir, de enfrentar estresse e descaso por causa de ruas esburacadas, mal sinalizadas e iluminadas, motoristas completamente despreparados e sem noção, que nunca dão seta e certamente acham que isso é opcional e, mais ainda, das malas dondocas que andam com suas Pajeros a 60 km por hora e fazem fila dupla nas portas dos colégios e academias. Vontade der esganar é pouco.
Não ando mesmo muito "meiguinha", dá pra ver, mas chegar quase ao fim de uma semana com os nervos e o humor intactos sendo motorista/pedestre (digo os que realmente precisam dirigir diariamente e/ou dependem dos nossos ótimos meios de transporte público) em Sampa é uma missão para poucos.
Não tem como não fugir do clichê e afirmar que todo paulistano mantém uma relação de amor e ódio com esta urbe com 18 milhões de habitantes apressados e muitos sem respeito aos seus próximos.
Eu vou depois colocar um texto aqui que queria muito achar, sobre os transtornos psicológicos que o estresse do trânsito paulistano tem causado a muitas pessoas. Li isso há uns meses numa publicação muito boa e séria, e vou checar se há uma versão online e arquivos para textos passados.
O medo de sofrer seqüestro-relâmpago ou ser assaltado num farol fechado (eu fui duas vezes) deixa as pessoas mesmo bastante apreensivas, e qualquer pedinte que se aproxima de nós, dependendo do local e do horário, é motivo de receio, sim.
Um dia ainda tenho que morar em Roma e ter uma lambreta, só pra descer pelas ruas sinuosas de alguns bairros de lá sentindo o vento no rosto, como o Moretti fez em Aprile (um dos nossos filmes preferidos, né, Biajones? ;)) e esquecendo, por pouco que seja, do quanto já me estressei e me angustiei aqui ao presenciar e viver certas cenas e situações.
Se eu ficar mesmo em Sampa mais 20 anos, acho que meu filho vai ganhar um triciclo e eu vou apenas trocando o modelo, ano após ano, até ele ficar adulto. :P
De estressados por causa de trânsito, já bastam os pais. ;)

ps: apesar de eu não saber ainda o que minha mãe tem, ela está bem. Obrigada a quem desejou sorte a ela. E também a quem pediu pra eu parar de ser tão fatalista. :P

Escrito por Patrícia Köhler
Arquivado em: Comportamento, Cotidiano, Carros, Indignação
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