Voando de Manaus a São Luís
14.10.09
Certo. Eu já falei em algum lugar deste blog que gosto de imitar a voz da Infraero. Particularmente, eu gosto muito da pronúncia da moça em "Belém" (explodindo), "Salvador" (cortando a palavra no meio) e "Recife"(rrrre-ci-fÊ). Então, minha imitação da moça da Infraero, peformance comum em rodinhas de amigos, normalmente era:"Vôo procedente de: Manaus. Com destino a: Sal-vador. Com escalas em: Santarém. Belém. São Luís. Fortaleza. RRRRecife."
Qual não foi minha surpresa ao ver que o vôo que me levaria a Sâo Luís era EXATAMENTE este. Vingança da Íris, talvez, ao ter sido cortada no aeroporto de Manaus, exatamente aquele que foi o primeiro a utilizar sua voz? (Fiquei muito chateada ao notar que não se ouve mais a voz da Íris Lettieri nos aeroportos. Eu gostava dela, e gostava de imitá-la! Tenho vontade de conhecê-la pessoalmente.)
Pois bem, o vôo da Gol durou quatro horas intermináveis. Ao meu lado, estava sentado um senhor que iria até Recife, e nós dois nos divertimos ao lembrar daquela musiquinha:"Para um pouquinho, descansa um pouquinho, 320 quilômetros!"
Saindo de Manaus ao meio dia, tomei o cuidado de almoçar cedo. No trajeto Manaus-Santarém, ganhei um mísero cookie com gotas de chocolate. Bati fotos do Encontro das Águas, prejudicadas pelo tempo nublado. (Clica que aumenta.)
Já no trajeto Santarém - Belém, me horrorizei com a quantidade de focos de incêndio VISÍVEIS. Sendo o fogo visível do alto, podemos avaliar o tamanho do incêndio! Se a senhora governadora Ana Júlia Carepa estiver lendo (duvido), fica o recado.
Peguei ótimas imagens de Belém, que vou dar de presente pro Marmota...
...e pra Lu.
No trajeto Belém-São Luís, observei um lindo pôr-do-sol vermelho.
Despedi-me do meu cansado vizinho de poltrona, e desci em São Luís.
(continua)
P.S.: Não consigo publicar as fotos no flickr, pois estou em casa, com conexão discada. Amanhã terei de passar numa lan house pra imprimir algumas coisas, e tentarei ilustrar este post. Atualização: coloquei algumas fotos, após um dia inteiro sentada na frente do computador. Vou continuar a narração, eu prometo.
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O Brasil de verdade
01.10.09
Barreirinhas, no Maranhão, é uma pequena cidade que vive basicamente de castanha de caju e turismo.
Eu andei hoje à tardinha. Vi meninos e adolescentes (aqui tem MUITOS JOVENS, o que deve ser indício de que os adultos morrem cedo) jogando Dunabol. Tem uma enorme duna no meio - no meio - da cidade, e eles jogam futebol lá em cima. Entrei em um mercadinho e vi que tem guaraná jesus de todos os tamanhos.Latinha, 200 ml de vidro, 250 ml de plástico, 1 L, 2L, uma farra. E a CocaCola, que é esperta, distribui o Jesus em todos os cantos, e ainda faz lindos cartazes de propaganda, e a latinha rosa. Penso no meu Baré, que teve o azar de ser comprado pela antarctica, e é vendido como venda casada em Manaus - e ainda assim, ainda assim, sem latinha e sem cartazes e sem propaganda, vende mais que CocaCola por lá.
Eu andei sozinha em bairros muito pobres de ruas de areia,e escuras. E tenho de me acostumar a não sentir medo. Nâo preciso sentir medo, não vou ser assaltada - e todos já me reiteraram isso, mas os meus sentidos estão alertas e eu sinto medo dentro de mim, seguro minha bolsa enquanto os meninos acendem uma fogueira na frente de casa. O medo está em mim, e eu cada vez mais penso que a nossa civilização não vai aguentar mais esse medo, essa paranóia, essa desigualdade. Isso vai explodir - e em breve.
Aqui todos os guaranás são rosa, imitando o Jesus. Eu rio, pensando nos dez ou doze guaranás de Manaus, e em como eu sempre pensei que beber guaraná era normal, até ir para o Rio e descobrir que ninguém conhece mais de dois guaranás.
O povo não sabe ganhar dinheiro. Passei de barco por Vassouras, um nini-povoado do Rio Preguiças. A mulher mora NA FRENTE do rio, ATRÁS dos Pequenos Lençóis, e sabem o que ela vende? Coco, bolsas de palha de buriti e cerveja, enquanto toca o disco do Roupa Nova. Se eu pudesse dar uma consultoria pra ela, eu colocaria cd´s maranhenses pra tocar, inclusive de tambor de crioula e bumba-meu-boi, e venderia os cd´s, além de vender juçara geladinho e bombom de buriti. TODAS as lanchas de turistas passam pela venda dela, meu pai.
Caburé é linda, mas virou point, e o camarão pra duas pessoas custa 50 reais. Choquei.
O mar daqui é cinza, o que me lembrou fortemente a Irlanda, mais especificamente Howth.
Negros. Negros por todos os lugares, ninguém é branco, quem é branco é turista ou é radicado aqui. Nunca me senti tão turista. Todo mundo me deseja bom passeio, boa volta, boa viagem, antes mesmo de eu dizer que não sou daqui.
Ah, homens lindos. Um monte. A cidade é minúscula, mas já vi cinco academias!
Muita gente tem parentes que moram em Manaus. Ainda agora conversei com um senhor que morou 23 anos em Manaus, e agora voltou pra casa. Mas as filhas ainda estão lá.
Pobreza. Pobreza. Pobreza e falta de recursos. O turismo é como uma tábua de salvação pra algumas famílias: "Meu filho sustenta a casa com o aluguel de bóias pra descer o rio." Me arrependi de não ter comprado o bóia-cross.
Estou injetando dinheiro na economia local, fazendo comprinhas de artesanato, supermercado, refeições, INTERNET
, mototáxi. Amanhã, tenho a manhã livre: acho que vou fazer manicure!
Todos têm enorme orgulho dos Lençóis, da beleza da paisagem e do sossego da cidade. Mas têm uma visão ambiental deficiente, em alguns sentidos.
Férias, férias, férias. Não tem TV no meu quarto, mas e daí?
Eva - blogando de Barreirinhas, Maranhão, com as costas ardendo de sol e a barriguinha cheia de camarão
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Smoke gets in your eyes
31.08.09
Atualizando meu agregador de feeds e lendo textos dos meus queridos blogs, fiquei sabendo do auê que foi a lei anti-fumo em São Paulo. Teve relógio com contagem regressiva, né? Que horror.
Chegou a lei aqui em Manaus também. E nenhum manauara está se rasgando de ódio. Sabem por quê? Porque pouca gente em Manaus fuma.
É sério. Perguntem para a Darlana. Eu disse pra ela, no Largo São Sebastião (um dos lugares mais turísticos de Manaus, a céu aberto): "Olha ao teu redor, Darlana: ninguém está fumando." E é verdade, as pessoas aqui não fumam. Certamente, nao tanto quanto em São Paulo.
O manauara fumante faz parte de um público bem especifico. Normalmente, ele é jovem, rebelde, e está em algum lugar onde também há consumo de bebidas alcoólicas e música. E, aqui em Manaus, fumar tambem adquire um certo quê de rebeldia, contestação. Artistas geniais fumam. Gays fumam. Gente moderna fuma. Roqueiros? Também. Turistas, imigrantes, outras gentes de fora? Yes. Mas, ainda entre esses grupos, fumar na frente dos outros não é comum não.
(Antes que venham nos comentários dizer que isso é uma generalização grosseira, eu mesma digo: ISSO É UMA GENERALIZAÇÃO GROSSEIRA, NÃO-BASEADA EM ESTATÍSTICA ALGUMA. Certo?)
Olha, eu não sou palmatória do mundo. Acompanhei toda a discussão nos blogs sobre liberdade, o Estado legislando sobre o privado, fiquei realmente pensativa e até sou simpática aos fumantes que se sentem invadidos.
Mas.
Tenho que dizer que a chegada da lei anti-fumo (tem hífen ou não?) aqui em Manaus me deixou tão feliz. Agora eu posso ir ao Botequim (excelente barzinho de MPB que fica numa casa antiga, a dois passos do Teatro Amazonas) sem o desgosto de voltar pra casa com o cabelo cheirando a cinzeiro. Sem olhos irritados enquanto estou lá dentro. O Porão do Alemão (bar de rock que eu detesto e que Manaus Xóvem e nem tão Xóvem ama e frequenta, o que só prova que eu estou errada e mereço o exílio na Sibéria
) vai ter ar respirável. Duvido que no Porão do Alemão a lei funcione. Mas se funcionar, vai ser tão legal para os garçons que não fumam, os músicos que não fumam, os frequentadores que não fumam.
Sério, gente, eu estou francamente puxando a brasa pra minha sardinha. Eu não fumo, não bebo, e não sou evangélica; isso me deixava sem nenhuma opção pra me divertir fora de casa! Minha diversão consistia em combinar DVD e partidas de Imagem e Ação na casa dos amigos drug-free como eu. Não temos dinheiro pra contratar música ao vivo domiciliar.
Agora, torço avidamente pela lei anti-bêbado chato. Ou anti-cheiro de bebida. Pois há muitos lugares que se tornam insuportáveis pelos consumidores de álcool sem noção. E eu adoraria ir a estes lugares. Caso eles fossem bem cheirosinhos.
Ia ser tão mais fácil se eu fosse evangélica, né? Eu iria a baladas gospel, drug-free. Acontece que eu não sou o público gospel. Sou o público do barzinho. Estou felicíssima com a perspectiva de madrugadas sem fumaça. E me arrisco até a sonhar - como é bom sonhar -com baladas sem bêbados. Todo mundo com seu suquinho de cupuaçu na mão. Ahhh, um mundo drug-free.
P.S.: Achei a contagem regressiva em São Paulo estúpida, sim.
P.P.S.: Cigarro fede, cigarro flutua no ar, cigarro enche o saco. Nem falo da parte de saúde, que todo mundo já sabe. O meu problema é mesmo o cheiro. Fico junto dos meus amigos que fumam por puro amor, porque tem coisas que a gente faz por amor. Inclusive ficar fedorenta.
P.P.P.S.: Seria um interessantíssimo estudo acadêmico descobrir porque se fuma mais no SulSudeste do que no restante do Brasil. Será que é mais agonia, mais estresse no cotidiano? Ou mais influência européia? Ou outra coisa, nada tendo a ver com isso? Os resultados seriam fascinantes.
P.P.P.P.S.: Não posso deixar de citar nesse post que, ainda vários meses após a morte do meu pai, os travesseiros e as paredes, a cabeceira da cama e as toalhas, tudo estava impregnado de cigarro, lembrando dolorosamente a mim e a minha mãe que o lugar dele estava vazio por causa do cigarro. Depois que ele adoeceu, nós pegamos um nojo de cigarro tão grande, uma raiva imensa. Enquanto ele era fumante, eu (criança, gente) convivia bem - eram os anos 90, fumar ainda era normal. Ele fumava Charm Box. Era fedidíssimo. Mas tem coisas que a gente faz por amor.
Espero do fundo do coração que fumar se torne a cada dia mais anormal, menos charmoso, menos aceitável. Egoisticamente falando, SIM. Que os fumantes sejam livres pra fumar, que sejam, afinal o cigarro é droga lícita (por milhares de motivos). Mas que não sejam comuns. Que as cidades (todas) se pareçam mais com Manaus: o fumante sendo a exceção, progressivamente menos visível, até que as crianças e adolescentes não mais achem divertido ou curioso soltar fumaça pelos buracos.
Tanta coisa, ai ai ai
24.08.09
Os blogs que eu amo, os escritores que eu amo, os comentários que eu adoraria fazer.
O tempo que eu tinha, pra onde foi? As promessas que eu faço (no texto anterior, prometi que no dia seguinte escreveria de novo!). As calorias que eu como e bebo diariamente, sabendo que me aproximo dos oitenta quilos.
A saudade que eu sinto das pessoas com quem só conseguia falar pelo msn. Os e-mails que se acumulam. Os dias que passam, estamos em agosto.
Fiz aniversário dia seis. Vinte e quatro anos.
Tenho escrito cada vez menos, lido cada vez menos, pensado cada vez mais.
Ando amarga e cáustica, vendo amigas que costumavam ser meu modelo virando estranhas misturas de Gretchen com Chacrete.
Reclamo de tudo, não acho graça de nada, faço tudo por obrigação.
Estou longe daqui. Aqui mesmo.
P.S.: Mas em setembro, eu vou pros Lençóis Maranhenses, e eu juro que isso passa.
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Fotos da enchente em Manaus
06.07.09
Recebi uma porção de fotos da enchente. Novos tempos: com os celulares com câmera, hoje todo mundo é repórter.
Não posso postá-las do computador onde estou agora. Aguardem as fotos, a qualquer momento nas próximas 24 horas.
ATUALIZAÇÃO: Milhares de fotos. Pouse o cursor do mouse sobre a foto para ler uma descrição. 


Os sacos de areia são para tentar conter a água.

As quatro fotos anteriores estão no site Manaus Online, no especial fotográfico "Enchente em Manaus".
O geólogo Gilmar Honorato, meu amigo dos tempos de graduação na UFAM e uma das pessoas mais ligadas à natureza que conheço, disponibilizou várias fotos de sua autoria em uma galeria pública: Retratos da Cheia de 2009 no Amazonas. A foto abaixo, tirada no município de Manaquiri, me assustou.

Amanhã, mais vídeos, os resultados do Orkut e mais.
Caso você tenha ou conheça alguém que tenha registros da enchente no Amazonas, entre em contato comigo: blog.menin[arroba]yahoo.com.br, ou através do SACintaliga, aqui em cima, no blog.
Caso você conheça alguém vitimado pela cheia, transformarei o blog em central de informações. Pedidos de ajuda, informações oficiais da defesa civil, relatos ou desabafos, encaminhem. A gente precisa se comunicar.
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Terra das águas
24.06.09
Terra das águas
semente da vida
terra pros homens
sepultarem as mágoas
Terra das águas
que a mãe traz no ventre
mistérios da vida
num leito de água
Terra das Águas - letra e música de Cileno
A enchente desse ano alcançou o nível da enchente histórica de 1953.
Quando passo de ônibus pelo centro de Manaus, vejo a água saindo - SAINDO - dos bueiros, das galerias construídas pelos ingleses. Empoçada na rua. É a água do rio Negro.
Na feira da Banana, onde está funcionando o Mercado Adolpho Lisboa, o povo fez "caminhos" de madeira, para andar por cima da água. Os feirantes estão com a barraca dentro da água.
Os igarapés estão a um palmo da margem. No Shopping Millenium, construído à beira do Igarapé dos Bilhares, a água está chegando na entrada da garagem subterrânea.
Água. Numa cidade onde grande parte da população mora à beira (ou dentro) de cursos d´água, quando a água sobe, começam as pequenas desgraças. As palafitas têm pernas compridas, assoalho que vai subindo, mas esse ano não foi o suficiente. As pessoas não querem sair de casa - pois se saírem, seus pertences serão roubados.
Na nossa praia, a querida de Manaus, a Praia da Ponta Negra, que é uma praia de areia branca banhada pelo rio Negro, a água ultrapassou o batente de concreto. Chegou na área onde ficam os barzinhos, no guarda-corpo do mirante. Os meninos, malucos e criativos, fizeram rampas de madeira. Eles descem de bicicleta, pegam impulso na rampa e MERGULHAM NO RIO. Sim, com a bicicleta. Embaixo da água, o concreto, o calçadão, as escadas que servem para dar acesso à praia na época da seca. E eles pulam. Depois, mergulham pra buscar as bicicletas novamente. Tem anjo da guarda fazendo hora extra.
Uma multidão tem ido à Ponta Negra, para FOTOGRAFAR E FILMAR a enchente. Confesso que estou curiosa para ver o resultado das fotos. A Ponta Negra, que na época da cheia costumava ficar deserta (pois na época da cheia NÃO HÁ PRAIA, a areia some), nesta cheia virou atração. Todo fim de semana, tem ficado lotada de banhistas curiosos, que pulam da mureta direto para o rio.
Leptospirose? Tem sim senhor.
No interior, a coisa é pior. Porque a grande maioria dos habitantes do interior mora à margem do rio (na beira, como eles chamam). E não há mais beira. Os rios de água barrenta estão em situação pior que os rios de água escura. Barreirinha, coitada de Barreirinha, foi pro fundo. Quando eu tiro extrato no Branco do Brazil, aparece na tela um apelo, "Deposite seu auxílio na conta do SOS Barreirinha".
Em Parintins, a coisa também foi feia. Comunidades rurais onde moravam 40 famílias hoje estão reduzidas a doze ou dez famílias. O Boi-Bumbá Garantido saiu do galpão da Cidade Garantido (isso nunca tinha acontecido). A plantação de várzea e terra firme se perdeu. Quem cria gado, então...
Observando isso tudo, eu me assusto com uma coisa: em 2005, tivemos aquela seca. Aquela seca horrenda, cidades incomunicáveis, barcos encalhados na lama, peixes morrendo.A pior seca da história. Agora, apenas quatro anos depois, a maior enchente em mais de 50 anos. Eu me assusto. E fico me perguntando quantas outras tragédias aconteceram sem que ninguém soubesse, por causa da nossa história dificuldade de comunicação com os ribeirinhos.
Arquivado em: Comportamento, Cotidiano, Gente, Jornalismo, Lugar
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