Fotos da enchente em Manaus

06.07.09

Recebi uma porção de fotos da enchente. Novos tempos: com os celulares com câmera, hoje todo mundo é repórter.

Não posso postá-las do computador onde estou agora. Aguardem as fotos, a qualquer momento nas próximas 24 horas.

ATUALIZAÇÃO: Milhares de fotos. Pouse o cursor do mouse sobre a foto para ler uma descrição.
Praia da Ponta Negra, na seca e na cheia

Calçadão da Ponta Negra. Reparem no guarda-corpo amarelo.

Feira da Manaus Moderna, no Educando

Os sacos de areia são para tentar conter a água.

Ultrapassada a marca da cheia de 1953

As quatro fotos anteriores estão no site Manaus Online, no especial fotográfico "Enchente em Manaus".

O geólogo Gilmar Honorato, meu amigo dos tempos de graduação na UFAM e uma das pessoas mais ligadas à natureza que conheço, disponibilizou várias fotos de sua autoria em uma galeria pública: Retratos da Cheia de 2009 no Amazonas. A foto abaixo, tirada no município de Manaquiri, me assustou.

palafita encoberta pela água

Amanhã, mais vídeos, os resultados do Orkut e mais.
Caso você tenha ou conheça alguém que tenha registros da enchente no Amazonas, entre em contato comigo: blog.menin[arroba]yahoo.com.br, ou através do SACintaliga, aqui em cima, no blog.

Caso você conheça alguém vitimado pela cheia, transformarei o blog em central de informações. Pedidos de ajuda, informações oficiais da defesa civil, relatos ou desabafos, encaminhem. A gente precisa se comunicar.

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Cotidiano, Fotografia, Indignação, Jornalismo, Lugar
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Terra das águas

24.06.09

Terra das águas
semente da vida
terra pros homens
sepultarem as mágoas

Terra das águas
que a mãe traz no ventre
mistérios da vida
num leito de água

Terra das Águas - letra e música de Cileno

A enchente desse ano alcançou o nível da enchente histórica de 1953.

Quando passo de ônibus pelo centro de Manaus, vejo a água saindo - SAINDO - dos bueiros, das galerias construídas pelos ingleses. Empoçada na rua. É a água do rio Negro.

Na feira da Banana, onde está funcionando o Mercado Adolpho Lisboa, o povo fez "caminhos" de madeira, para andar por cima da água. Os feirantes estão com a barraca dentro da água.

Os igarapés estão a um palmo da margem. No Shopping Millenium, construído à beira do Igarapé dos Bilhares, a água está chegando na entrada da garagem subterrânea.

Água. Numa cidade onde grande parte da população mora à beira (ou dentro) de cursos d´água, quando a água sobe, começam as pequenas desgraças. As palafitas têm pernas compridas, assoalho que vai subindo, mas esse ano não foi o suficiente. As pessoas não querem sair de casa - pois se saírem, seus pertences serão roubados.

Na nossa praia, a querida de Manaus, a Praia da Ponta Negra, que é uma praia de areia branca banhada pelo rio Negro, a água ultrapassou o batente de concreto. Chegou na área onde ficam os barzinhos, no guarda-corpo do mirante. Os meninos, malucos e criativos, fizeram rampas de madeira. Eles descem de bicicleta, pegam impulso na rampa e MERGULHAM NO RIO. Sim, com a bicicleta. Embaixo da água, o concreto, o calçadão, as escadas que servem para dar acesso à praia na época da seca. E eles pulam. Depois, mergulham pra buscar as bicicletas novamente. Tem anjo da guarda fazendo hora extra.

Uma multidão tem ido à Ponta Negra, para FOTOGRAFAR E FILMAR a enchente. Confesso que estou curiosa para ver o resultado das fotos. A Ponta Negra, que na época da cheia costumava ficar deserta (pois na época da cheia NÃO HÁ PRAIA, a areia some), nesta cheia virou atração. Todo fim de semana, tem ficado lotada de banhistas curiosos, que pulam da mureta direto para o rio.

Leptospirose? Tem sim senhor.

No interior, a coisa é pior. Porque a grande maioria dos habitantes do interior mora à margem do rio (na beira, como eles chamam). E não há mais beira. Os rios de água barrenta estão em situação pior que os rios de água escura. Barreirinha, coitada de Barreirinha, foi pro fundo. Quando eu tiro extrato no Branco do Brazil, aparece na tela um apelo, "Deposite seu auxílio na conta do SOS Barreirinha".

Em Parintins, a coisa também foi feia. Comunidades rurais onde moravam 40 famílias hoje estão reduzidas a doze ou dez famílias. O Boi-Bumbá Garantido saiu do galpão da Cidade Garantido (isso nunca tinha acontecido). A plantação de várzea e terra firme se perdeu. Quem cria gado, então...

Observando isso tudo, eu me assusto com uma coisa: em 2005, tivemos aquela seca. Aquela seca horrenda, cidades incomunicáveis, barcos encalhados na lama, peixes morrendo.A pior seca da história. Agora, apenas quatro anos depois, a maior enchente em mais de 50 anos. Eu me assusto. E fico me perguntando quantas outras tragédias aconteceram sem que ninguém soubesse, por causa da nossa história dificuldade de comunicação com os ribeirinhos.

Escrito por Menina Eva
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Lugar difícil de encontrar

27.05.09

Uma amiga está fazendo um trabalho sobre folclore, lendas e mitos.

Lembrei que as toadas de boi (que são as músicas executadas na festa de Parintins) normalmente contam alguma lenda da região (considerando que um dos itens a serem julgados no Festival de Parintins é exatamente o item "Lenda Amazônica").

Lembro claramente da toada Amazonas Yacamaé, que conta a lenda de como o Rio Amazonas surgiu das lágrimas que a Lua chorou por ser proibida de amar o Sol. Quem disse que eu encontro a letra da música buscando pelo Google? Tentei trechos da música, tentei o título...nada.

Definitivamente, o Amazonas não tá no Google. E, pelo que percebi, os blogueiros amazonenses não escrevem de modo a indexar seus textos...

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Blogosfera, Turismo
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As pequenas vitórias de todo dia

26.05.09

Eu começo a trabalhar às sete da manhã. Moro na Zona Sul de Manaus, e meu trabalho fica na zona oeste - longe, longe, muito fora de mão.

Para facilitar as coisas, minha mãe me deixa de carro no trabalho, e depois vai para o trabalho dela. Esse nosso caminho é, normalmente, um dos nossos momentos mais íntimos do dia, qando podemos conversar, comentar as manchetes dos jornais (que não compramos), atualizar as fofoquinhas dos respectivos trabalhos.

Quem faz sempre o mesmo caminho no mesmo horário, acaba encontrando coisas que se repetem. Além do eterno engarrafamento na Bola do Coroado (que é menos pior antes das seis e meia), o mesmo ônibus 213 vindo ao nosso lado no V-8 (às seis e vinte), a mesma moça sentada na calçada da UTAM esperando a carona (ou a rota do trabalho, a gente não descobriu ainda).

Um dos personagens que sempre encontramos é o senhorzinho da bengala. Ele faz caminhada no sentido contrário ao nosso. As primeiras vezes que o notamos, ele andava com passinho curto, uma bengala numa mão e um cabo de vassoura na outra.

As semanas foram passando. Primeiro, ele abandonou o cabo de vassoura. Mais um pouquinho, e ele andava com a bengala na mão, porém sem usá-la como apoio; concentradíssimo, olhando pra frente. Percebemos que o ritmo dele de caminhar estava cada dia mais forte.

Foram vários meses de caminhada com a bengala na mão. Infalivelmente (a não ser em manhã de chuva), o senhorzinho ia no seu passinho de marcha, com a bengala na mão sem ser usada. Mamãe achava que ele levava a bengala por medo de sentir tontura, cair, tropeçar; eu achava que a bengala era usada na descida da ladeira que vinha depois do ponto onde o encontrávamos.

Hoje, amanheceu um dia muito azul, bonito e quente depois de várias manhãs meio nubladas. E o encontramos de novo. Passinho firme, um-dois, um-dois. Um saco plástico com três ou quatro ovos dentro.

E eu escutei o gritinho da mamãe: -Filha, olha! Sem bengala!

Eu e mamãe batemos até palmas dentro do carro.

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Comportamento, Cotidiano, Contos, Açúcar, Esperança, Gente, Lugar, Diálogo
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Segundona braba

25.05.09

E aí eu descubro que a segunda via da carteira do conselho regional de Administração custa mais de cem reais.

*Longo, triste,inconformado e desconsolado suspiro*

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Cotidiano
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Com a mão no seu bolso

22.05.09

Roubaram minha carteira ontem. Eu acho que foi no ônibus.

Eu saí do consultório do Dentista. Estou me recuperando de uma virose violenta, e ontem fez um calor manauara aqui em Manaus. Então, saí de sombrinha, pra não pegar sol e piorar do nariz atacado. Andei uns quarteirões, e vi uma senhora com um tabuleiro cheio de canudinhos (o salgadinho) na cabeça. Fiquei com vontade, mas achei que era encomenda pra alguém. Ao passar do meu lado, ela falou em tom de pregão -
"Empaaaaaaaaada, canudoooooo, salgaaaaaaado, mereeeeeenda"

Eu virei pra ela e perguntei quanto era o canudinho; ela disse que era um real - MAS ERA DO GRANDE! Eu comprei dois, pra ela não ter que me dar troco. E comentei com ela, que fiquei com água na boca quando vi, mas achei que fosse encomenda.

Ela me disse que era a primeira vez que passava naquela rua, e por isso eu não a conhecia. E me perguntou se ali era bem movimentado. Eu respondi que tinha uma academia de ginástica ali no canto (em Manaus, canto = esquina), e que na rua ela não veria ninguém, mas se ela entrasse nos consultórios médicos tinha um monte de gente faminta nas salas de espera. Ela agradeceu, e eu fui pra parada de ônibus, comendo o primeiro canudo. Estava quentinho.

Cheguei na parada, guardei a sombrinha na bolsa e - milagre - lá vem o ônibus! Subi apressada, com o canudinho esfarelando na mão. Tinha umas pessoas atrás do ônibus, antes da catraca. Me deu uma sensação de vergonha, de que os outros estavam me olhando, mas achei que fosse culpa do salgadinho...

Puxei a carteira, bati meu Smart Card no leitor da cobradora. Guardei o Smart card dentro da carteira, e a carteira na bolsa. Tenho certeza de ter visto minha garrafa de água dentro da bolsa nessa hora.

Ônibus cheio, chacoalhão, difícil de se segurar. Fui avançando pra perto da porta de saída, segurando a bolsa no ar, em frente ao meu rosto.

Desci na Bola do Coroado, andei até a outra parada, peguei o ônibus que circula gratuitamente dentro da Universidade.

Fui pra Pós-Graduação, conversei com a minha professora, peguei meu boleto na secretaria, peguei a apostila. Todos os meus colegas que chegavam perguntavam se eu tinha melhorado (avisei por e-mail que estava bem doente). Com medo de tossir durante a aula, fui encher minha garrafa de água - e vi que ela não estava na bolsa. Voltei na secretaria, e não estava lá. Pensei "ah, danou-se, perdi a garrafa no ônibus ou no dentista". Assisti aula - uma aula ótima e triste sobre controle e crise na Administração Pública - e peguei carona pra casa com um colega.

Cheguei em casa, fiz vinte minutos de inalação, tomei três remédios e uma gemada (mamãe). Assisti a novela, adorei o casamento do Ravi com a Camila. Botei meu celular pra carregar. Assisti a Grande Família, e mudei depois pra Record pra assistir o Doutor House. Dormi.

Só percebi que estava sem a carteira hoje de manhã, e obviamente associei com o sumiço da garrafa de água. "Roubaram no ônibus, geeeeente. Mãe, virei estatística!" Tive que pensar em tudo o que estava na carteira que poderia causar problemas em mãos de terceiros.

Trinta reais (Duas de dez, duas de cinco). Carteira do plano de saúde. Carteira do Conselho Regional (e graças a Deus, por causa dela não ando com RG nem CPF, obrigada, Conselho Regional de Administração da 5ª Região). Cartão do banco - que é só de débito, ladrão azarado. Papeizinhos mil, comprovantes de compras... Fotos 3X4 que estavam muito boas. Foto da minha mãe. Foto do ex-namorado (não me julguem). Dois Sonridor efervescentes, eu vivo com dor de cabeça. Cartão do Carrefour, que, definitivamente, não patrocina este post. E o Smart Card pra pagar meia no ônibus, que foi o mais doloroso de todos. Pra tirar outro é uma aporrinhação.

Estou irritada. O prejuízo nem foi tão grande. Várias circunstâncias da minha vida me permitem achar que trinta reais é coisa pouca - graças, demos graças. Não tinha recebido salário, nem tenho a senha do cartão anotada no verso do mesmo.

Pior de tudo, o que mais me irrita, o que mais dói, o que mais perturba, o que me fez escrever aqui, é imaginar que meus trinta reaizinhos estão, muito provavelmente, comprando droga por aí. Ódio.

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Cotidiano, Catarse, Indignação
4 comentários

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