São Luís do Maranhão, uma cidade do velho oeste
22.10.09
Cheguei em São Luís às sete da noite, comprei um cartão telefônico e liguei pra minha gentil anfitriã, a Lígia (que me hospedou em casa pelo CouchSurfing.) Ela me confirmou como chegar na casa dela. Peguei um táxi e fui explicando como se chegava lá. Fui inventar de perguntar sobre a estranha cassação do governador e a posse da Roseana como governadora, e descobri que era melhor ter ficado calada - o homem era fã da Roseana Sarney. "A senhora tá vendo esse viaduto? Quem fez foi a Roseana! A senhora tá vendo estes semáforos? Que fez foi a Roseana!"
Cheguei na incrível casa da Lígia, onde a filha dela me recebeu encantadoramente. Jantei alguma coisa deliciosa, dormi ouvindo o vento do mar.
Quando acordei na manhã seguinte (cedo, porque quando estou viajando gosto de acordar cedo e aproveitar bem o dia), saí para o Centro, pois meti na cabeça que devia comprar uma calça-que-vira-bermuda pra ir pros Lençóis. A Lígia me explicou que eu devia descer na praça Deodoro, pegar a Rua Grande (onde fica o comércio popular), andar a Rua inteirinha e ia chegar no Centro Histórico.
O Centro Histórico de São Luís foi restaurado há uns anos, através de um projeto chamado Projeto Reviver. Hoje, o povo chama essa parte restaurada e mais turística de Reviver. "Tu vai pro Reviver? Cuidado com a tua câmera!" Por causa desse aviso, bati poucas fotos nesse primeiro dia...
Pois bem, peguei o ônibus na avenida dos Holandeses, atravessei uma linda ponte com uma estupenda vista pro Rio Anil, rodei por algumas ruas com prédios caquéticos e indubitavelmente antigos, passei na frente da Reitoria da UFMA, e quando vi o ônibus voltando para a mesma ponte, perguntei pro cobrador:
- A Praça Deodoro já passou?
- Ih, faz tempo!
Ora, os prédios caquéticos ERAM o Centro Histórico e eu não percebi!
Desci do ônibus na linda praça Gonçalves Dias (linda, agradável, vista pro rio, arborizada com palmeiras onde cantam sabiás, hahahaha!), onde alguns militares do exército faziam caminhada, e subi uma ladeira cruel na rua da Independência até chegar na Rua Rio Branco e andar uns cinco ou seis quarteirões (sem ver NINGUÉM NA RUA) até chegar na Praça Deodoro. Um calor tão forte que eu me sentia em casa, hihihi. (Todo mundo comentou que o verão estava muito mais quente que todos os outros anos, o que também aconteceu em Belém e Manaus.)
Depois de andar bastante, cheguei na Praça Deodoro. Fiquei encantada com a feirinha de flores e plantas (tinha de tudo, até os cactos que eu morro de vontade de ter e não encontro), e com a quantidade de vestidinhos indianos em liquidação nos camelôs. Aliás, achei o comércio informal bem organizado, a quantidade de camelôs não é excessiva e eles não chegam a atrapalhar a calçada. Na Praça Deodoro tem o enorme prédio da Biblioteca Pública, que deve ter sido muito bonito em outros tempos, mas precisa urgente de um restauro para poder ser reaberto! Do jeito que está hoje, parece um elefante triste com doença de pele.
Pedi informação sobre como chegar na Rua Grande, e um rapaz me disse: "Você vai reto por aqui" e apontou com o lábio inferior, "depois você vai ver uma multidão na rua, e é lá que você entra à direita." Esse apontar com o beiço, que eu julgava ser tipicamente amazonense, me deixou maravilhada. Andei, e quando passei a terceira rua sem ver multidao nenhuma, resolvi perguntar de novo.
Claro que eu tinha passado pela multidão da Rua Grande sem enxergar! Porque eu moro em uma metrópole de dois milhões de pessoas, né? O meu conceito de multidão é diferente do conceito de multidão em São Luís! Olha só a multidão que tinha na Rua Grande, e vê se eu não tenho razão.
Particularmente, eu até gostei dessa multidão deserta. Não tinha empurra-empurra nem acotovelamento, nem aquele vapor que sobe de aglomerações humanas em dias de sol forte. Entrei em quase todas as lojas de roupa da Rua Grande, sem pressa nenhuma (férias, né?). E descobri umas coisas: a) Ou Manaus não é tão absurdamente cara como pensamos, ou os preços de São Luís estão bem equivalentes; b) São Luís sofre do mesmo desabastecimento de Manaus em termos de roupa: o comércio popular só vende roupa pra mulheres jovens que vestem 38 ou 40. Se você é gorda, tem que vestir roupas de senhora... c) a cintura dois dedos acima do púbis reina, soberana, vulgar e absoluta.
Não achei nada do que eu queria comprar, nem calça jeans com lycra tamanho 46, nem bermuda que vira calça, nem uma sandália papete feminina que sirva num pé 39.
Eu sou uma grande mulher.(Disseram que o melhor lugar para comprar roupa é Fortaleza. Fica pra próxima.)
Quando cheguei no final da Rua Grande, eu andei sem objetivo nenhum pelas ruas de pedra portuguesa, com casas de azulejos portugueses. Entrava aqui, dobrava ali, subia aqui, descia ali. E comecei a ficar preocupada. Não via ninguém.
O Centro histórico de São Luís tinha um leve aspecto de filme de faroeste. Tons de terra, sol a pino, janelas fechadas, e ninguém na rua. E eu, turista-mulher-sozinha, sentindo uma aflição. Nem ousava tirar minha máquina fotográfica da bolsa - o que foge completamente do meu padrão de viajar tirando foto de tudo.
Depois de rodar um pouco, cada vez mais intrigada com a ausência de pessoas na rua, achei sem querer o Albergue da Juventude Solar das Pedras. Liiiindo, lindo o prédio, numa rua que poderia ter servido de locação pra novela Xica da Silva facilmente. Tortuosa, de pedra, com predios antigões. Puxei papo com a recepcionista do Albergue, comprei um mapa do Centro Histórico (ela foi muito ética ao me dizer que eu poderia pegar o mesmo mapa gratuitamente no centro de informação turística, mas como eu tava a fim de injetar dinheiro na economia local, eu comprei).
Os prédios antigos são realmente lindos, e eu me perguntei como foi que fizeram para que eles resistam em pé até hoje, livres da especulação imobiliária e tudo isso que fez os outros prédios contemporâneos irem pro chão no resto do Brasil inteiro. O Centro de São Luís, seja pela ausência de pessoas, seja pela uniformidade da arquitetura colonial, parece um cenário.Um cenário meio acabadinho, precisando de uma guaribada*, mas um lindo cenário.
O centro histórico de São Luís foi considerado pela UNESCO Patrimônio da Humanidade, o que significa que não podem ser feitas modificações ou reformas - nem mesmo reformas ortográficas, hihihi.
Nas ruas há muitas escadarias, e por isso, em alguns lugares não passa carro. Eu adorei, e ainda acho que não devia passar carro em lugar nenhum do Centro Histórico. Sou radical mesmo.
Fui ao Centro de Informações turísticas, onde fiquei mais ou menos uma hora. Os funcionários de lá são super fofos, me deram milhares de dicas, conversamos sobre a história do Maranhão, a cultura, o turismo, a pobreza, a natureza, os estrangeiros, como se pronuncia o th em inglês... O Centro é bem legalzinho, fica na praça Benedito Leite, em frente à Igreja da Sé, e é todo decorado com motivos populares do Maranhão. Festas Juninas, as estampas de chita da saia de quem dança Tambor de Crioula, bumba-boizinhos. (Descobri que os maranhenses chamam o bumba-meu-boi apenas de bumba-boi. Assim como o amazonense chama o Boi-bumbá somente de Boi!) Eles também tem uns adereços pra bater fotos engraçadas, e eu não perdi tempo.
Almocei no Restaurante-Escola do Senac, e ó. Ó. Ó. No que depender de mim, aqueles estudantes estao com nota dez. Comida divina, atendimento delicado e gentil, música ao vivo agradável, ambiente charmoso. Recomendo fortemente. Acho que o buffet sai trinta reais por cabeça, e você pode comer até sair pela orelha. Era o meu objetivo naquele dia, que foi plenamente cumprido.
No Restaurante do Senac foi onde eu conheci meu mais novo amor: o Guaraná Jesus. O Guaraná Jesus é tão típico do Maranhão que é visto como produto turístico. Ele é bem doce, tem um aroma de groselha e um sabor parecido com trident de canela. Mas o principal de tudo é que ele é rosa. Pink. Um refrigerante rosa, gente. Tudo o que é rosa ou é bom ou é meigo - e é meio difícil um refrigerante ser meigo...então eu decidi que ele é bom. Fica lindo na taça, fica lindo na garrafa, fica lindo na foto! Eu realmente gostei, e enquanto eu andei por lá, andei movida a Guaraná Jesus - que é chamado só de Jesus. "Tem Jesus? Então me traga um Jesus!"
Depois do almoço, estufadinha de tanto comer torta de camarão, fui para o Theatro Arthur Azevedo. A visita guiada que fiz lá merece um post só pra ela.
*Eu e o povo daqui usamos a palavra guaribada como sinônimo de pequena ajeitadinha, superficial, só pra ficar mais bonitinho. Nâo sei se é amazonês, nortês ou se a palavra é usada também em outros lugares.
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Quanto a Jesus eu nunca tomei, mas dizem que ir ao Maranhão e não tomar é o mesmo que não ter ido! rsrsrssr
Foi o sabor da minha viagem.
Ai, obrigada. Eu devo confessar que apelei pro mapa na hora de escrever o post!
Vc descreveu c/ perfeição o centro histórico de São Luís. Tive a mesmíssima sensação de faroeste, ninguém nas ruas. Achei até estranho. Mas aí veio um bloco de bumba-meu-boi, lotou tudo e a sensação passou.
(Fui a SL em junho, na época dos folguedos.)
Eu te invejo muitão. Tô com vontade de voltar em junho...
Beijão.
Outro!
Tenho tanta vontade de conhecer São Luiz.
Guaraná Jesus é um must-taste.
beijos!
Ahhhhhh o guaraná Jesus é uma delicia, pena que não encontramos aqui em todo lugar, mas tem. Acho que para você comprar roupas deveria vir a São Paulo, com certeza vai achar do seu gosto e do "nosso' tamanho, hahahaha
bjsss
bjo
Olha, era uma terça feira normal quando fui. E não era muito cedo. Você viu a foto.
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