As pequenas vitórias de todo dia
26.05.09
Eu começo a trabalhar às sete da manhã. Moro na Zona Sul de Manaus, e meu trabalho fica na zona oeste - longe, longe, muito fora de mão.
Para facilitar as coisas, minha mãe me deixa de carro no trabalho, e depois vai para o trabalho dela. Esse nosso caminho é, normalmente, um dos nossos momentos mais íntimos do dia, qando podemos conversar, comentar as manchetes dos jornais (que não compramos), atualizar as fofoquinhas dos respectivos trabalhos.
Quem faz sempre o mesmo caminho no mesmo horário, acaba encontrando coisas que se repetem. Além do eterno engarrafamento na Bola do Coroado (que é menos pior antes das seis e meia), o mesmo ônibus 213 vindo ao nosso lado no V-8 (às seis e vinte), a mesma moça sentada na calçada da UTAM esperando a carona (ou a rota do trabalho, a gente não descobriu ainda).
Um dos personagens que sempre encontramos é o senhorzinho da bengala. Ele faz caminhada no sentido contrário ao nosso. As primeiras vezes que o notamos, ele andava com passinho curto, uma bengala numa mão e um cabo de vassoura na outra.
As semanas foram passando. Primeiro, ele abandonou o cabo de vassoura. Mais um pouquinho, e ele andava com a bengala na mão, porém sem usá-la como apoio; concentradíssimo, olhando pra frente. Percebemos que o ritmo dele de caminhar estava cada dia mais forte.
Foram vários meses de caminhada com a bengala na mão. Infalivelmente (a não ser em manhã de chuva), o senhorzinho ia no seu passinho de marcha, com a bengala na mão sem ser usada. Mamãe achava que ele levava a bengala por medo de sentir tontura, cair, tropeçar; eu achava que a bengala era usada na descida da ladeira que vinha depois do ponto onde o encontrávamos.
Hoje, amanheceu um dia muito azul, bonito e quente depois de várias manhãs meio nubladas. E o encontramos de novo. Passinho firme, um-dois, um-dois. Um saco plástico com três ou quatro ovos dentro.
E eu escutei o gritinho da mamãe: -Filha, olha! Sem bengala!
Eu e mamãe batemos até palmas dentro do carro.
Arquivado em: Comportamento, Cotidiano, Contos, Açúcar, Esperança, Gente, Lugar, Diálogo
5 comentários
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Comentários:
quando eu ia de carona pro colégio com a minha mãe nós também passávamos o caminho todo conversando e olhando as pessoas de todo dia.
Bjs
J. Geraldo Padilha
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