A selva pra caçar e o rio pra pescar

19.04.08

Hoje é dia do Índio.

Aqui no Amazonas, eu percebo que temos uma convivência diferenciada com os índios. De modo geral, pro amazonense, ser índio é bom. Apesar de termos aquela raivinha birrenta - "todo mundo em SãoPauloRiodeJaneiro pensa que aqui só tem índio e onça, jacarés levantando os ônibus na rua" - de modo geral, ser índio não é ruim. Eu sou amazonense, e meio índia. Não sei o nome da tribo dos meus bisavós. Não sei quantos indígenas moram em Manaus. Não sei nem tratar um peixe. Todo mundo aqui é meio índio.

Mas esse ÍNDIO que existe da cabeça do amazonense não é um índio real. É um índio quase mitológico; é Ajuricaba, líder da Tribo dos Manao, acorrentado em uma canoa e dizendo, como se estivesse no confessionário do Big Brother Brasil: "Prefiro ter as águas do Rio Negro como túmulo a perder a liberdade", e desaparecendo no rio.

O índio que habita o imaginário amazonense dança vestido de penas, pintado de tinta guache. Dança normalmente durante as festas juninas... Aqui há muitos grupos de danças, que realmente são assim. "Tribo indígena tal". É lindo. Mas é mítico.

O índio que o amazonense gosta de ser usa bijuterias de sementes. Eu tenho uma coleção de bijuterias de sementes, lindas, todas. Qualquer loja de souvenir aqui vai ter bijuterias de sementes - rotuladas sob o nome de biojóias - em exposição. É uma estética que foi construída, e até parece mesmo com as coisas que os índios da vida real usam. Mas é um pouco diferente, um pouco mais urbano, mais superficial.

O índio que vive na cabeça dos amazonenses é quase um ativista ecológico. Uma toada do Boi-Bumbá Garantido, resume maravilhosamente esse conceito, o índio que vive na nossa mente.

"Eu sou um índio
Sou um índio guerreiro
Sou também feiticeiro
mas eu não quero guerra
quero a paz na Terra
A selva pra caçar
e um rio pra pescar...

Eu sou um índio
pense nisso seu branco
já tiraste o encanto
o esplendor da floresta
quase nada me resta
eu só quero viver
ver meu filho crescer...

Me deixe em paz, seu moço
ou eu fico louco...
Respeite os limites
pra manter minha nação

Não preciso do seu saber
porque isso me faz sofrer
eu já tenho a beleza
da Mãe-Natureza
pra sobreviver!"

(Não encontrei meu cd do Garantido que tem essa música. Acho que é do Garantido 1995. Não encontrei o nome dos compositores. Caso algum leitor saiba, por favor, me diga nos comentários que eu coloco os créditos aqui. )

O amazonense enxerga o índio, o SER ÍNDIO, como algo belo, ecológico...e distante. Eu, que tenho a honra e o privilégio de conhecer alguns indígenas não-destribalizados que moram aqui em Manaus, tive a chance de entender o que TODOS deveriam saber; que os índios são pessoas. Como se fossem de outro país, que têm hábitos diferentes, falam outro idioma, têm até mesmo visões de mundo e modos de pensamento diferentes; enfeitam-se de outro modo, mas são pessoas, que podem ser tímidos, extrovertidos, gaiatos, inteligentes, limitados, teimosos, legais. Normais. O índio que mantêm seus costumes, no Amazonas, é um estrangeiro. O Amazonas têm centenas de países dentro de si.

(A estrangeira deveria ser eu, não é? Eu e essa minha cara ibérica, meu cabelo cacheado, minha pele branca que arde sob o sol, minha adoração pela alopatia. Eu deveria ser a estrangeira.)

Mais interessante é notar que essa visão do índio não é única. Aqui em cima, em Roraima, os conflitos são intensos, e os índios são vistos mais como encrenqueiros cachaceiros usurpadores. O que também NÃO É UMA VISÃO REAL. Roraima tem imensas extensÕes de reservas naturais e áreas indígenas; outro dia, vi um deputado de lá chorando de desespero, "nosso Estado só consegue aproveitar economicamente 8% do seu território". Não lembro o nome do deputado, e não chequei essa porcentagem; mas o fato de ele sentir-se à vontade para fazer esse tipo de declaração indica que há uma percepção popular.

Tenho um cd de uma banda de forró roraimense (tenho músicas que vocês nem sonham que alguém poderia ter, queridos). O nome da banda é Pipoquinha de Normandia. Todas as músicas deles são de duplo sentido. Ou triplo. :) O cd fala da sina do garimpeiro (ser corneado, de acordo com a música), e também fala da situação do índio, em uma música com o impressionante título de "Área contínua, não!"

"Não sou preconceituoso
Mas certas coisas não aceito
Se o índio é igual a gente
Por que ele tem mais direito?

Roubar gado, tocar fogo em ponte
pro índio, é uma diversão
Rouba tudo do fazendeiro
e ainda quer uma demarcação!

Área contínua, não!
Área contínua não
o índio tá querendo
é ser nosso patrão!

Tem índio vice-prefeito
Tem índio vereador
Se for reparar direito
Tem até índio doutor!

Área contínua, não!
Área contínua não
o índio tá querendo
é ser nosso patrão!"

Ah, Amazônia. Dois estados tão próximos. Duas visÕes tão diferentes.

No dia do índio, eu desejo a todos os povos indígenas que consigam, sim, ser prefeitos, vereadores, doutores, marceneiros, sem deixar de ser índios, sem perder seus saberes ancestrais. E que sejamos todos cada vez mais índios.

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Comportamento
5 comentários


Posts similares:
Curumim chama cunhatã
PAC EM TERRAS INDÍGENAS: RAPOSA SERRA DO SOL NOS OUTROS É REFRESCO
Sinal verde pro Rambo!

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Atalho pra o formulário

Comentários:


Comentário de: tina oiticica harris · http://attu.typepad.com/universo_anarquico/

Sabe a origem da marchinha carnavalesca "Índio quer apito"? Bem, o J.K. estava inaugurando mais uma de suas obras faraônicas por aí, ao lado de sua primeira dama, a Sara. Eles tinham se fartado de comida; ela soltou um traque daqueles altos. O cacique disse:
-- índio quer apito. (Se não der, pau vai comer ;)


Minha nossa, Tina. O JK, além de ser presidente Bossa Nova, também era presidente apitador? :D Que vergonha...

PermalinkPermalink 20.04.08 @ 00:21



Comentário de: Trotta · http://trottolices.blogspot.com/

ExtensÕes, visÕes... conversamos uma vez que eu cometo os mesmos erros digitando, né? Coisa de quem escreve rápido, hehehe!

Mas falando sério agora, o mais difícil mesmo do Amazonas devem ser os elefantes, sem dúvida. Mais do que as hienas.

Beijo! ;)

Isso dá um post. "Meus maiores erros de digitação".

Os elefantes, a gente tira de letra. Ruim mesmo é perder o cipó das dez pra voltar pra casa. :D

PermalinkPermalink 21.04.08 @ 10:32



Comentário de: Rô

Bem, mana.
Eu não preciso ir ao estado vizinho pra ter essa outra visão dos índios, pois em frente a minha casa tem uma invasão feita por eles.
É claro que não podemos generalizar. Mas é muito difícil você ver invadirem um lugar onde você passou décadas pagando uma casa pra morar. É muito difícil não achá-los arruaceiros, cachaceiros, o que for.
Nessas horas o lado mítico deles vai pras cucuias.
Selva pra caçar, rio pra pescar e área verde residencial pra invadir.

PermalinkPermalink 22.04.08 @ 09:40



Comentário de: Camila de Lima

Sou de Brasília e eu ADORO o Pipoquinha de Normandia!! Conheci através de um colega que morara lá em Boa Vista... E digo NÃO à área contínua da forma como está prevista no projeto...

PermalinkPermalink 11.07.09 @ 13:06



Comentário de: perfumes valencia · http://www.perfumespasion.com

Llevo siguiendo el blog desde hace tiempo y no me habia animado aun a comentar. Sin duda, lo que dice el articulo es totalmente cierto, aunque algunas personas pueden opinar diferente.

PermalinkPermalink 13.07.11 @ 15:09



Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.