Véus pintados

08.03.08

Há um bom tempo eu queria assistir ao filme "The painted veil", principalmente depois de assistir a este trailer. Prefiro continuar chamando o filme pelo nome original, já que os tradutores brasileiros rebatizaram-no com o pavoroso título "Despertar de uma paixão" (eca, eca, eca), que além de ser manjado, estraga muito do filme. Para meu desgosto, ele permanece (e permanecerá) inédito nos cinemas de Manaus.

Porém, graças ao magnífico distribuidor Calçada S.A., o filme chegou às minhas mãos, e pude vê-lo no meu cinema particular. E, ah, que filme lindo.

O motivo maior por eu ter me interessado pelo filme foi a presença de Edward Norton. Considero esse rapaz um ator espetacular, especialmente depois que vi "Cruzada" (que tem o pavoroso título original "Kingdom of Heaven", eca, eca). Em Cruzada, Edward Norton interpreta o Rei de Jerusalém, que, por ser leproso, esconde seu rosto com uma máscara. Passa o filme todo mascarado, e seu talento imenso (imeeeeeeeeenso, imeeeenso) me permitiu ver todas as expressões, maneirismos e sentimentos do personagem.

"The painted veil" se passa nos anos vinte. Kitty (Naomi Watts, Ó-TI-MA) é uma moça meio frívola e encalhada que aceita casar com Walter Fane (Ed Norton, para os íntimos) para escapar da casa da mãe. Walter, tímido, formal, é chefe do laboratório inglês em Xangai, onde os recém-casados vão morar. (Sou muito burra pra entender bem, mas aparentemente o Reino Unido exerceu algum poder sobre a China.)

Morando em Xangai, vai ficando bem clara a diferença entre os dois. Walter é muito tímido, muito sério, muito caseiro; e Kitty, como não podia deixar de ser, continua entediada com a sociedade chinesa.

Marido introvertido, mulher fútil, quem adivinha o que acontece?
Chifre, meus caros.

Kitty se envolve com um figurão do consulado inglês. Só que o marido descobre, e resolve não ser corno manso: alista-se como voluntário para trabalhar num vilarejo que atravessa uma epidemia de cólera. E se a esposa não for junto, ele pede divórcio, arma o maior barraco e queima a reputação dela pra sempre. E lá se vão os dois pro meio da epidemia, cheios de mágoas, rancores e punições.

Aí é que o filme cresce e chega ao seu foco. E é possível que seja daí que os tradutores brasileiros tenham criado o horrendo título em português; pois nesse vilarejo pequeno, isolados pelo idioma, pela cultura estranha e pela tensão política, com o cólera por todos os lados, aparecem aspectos novos no outro - e esses aspectos podem ser encantadores, até mesmo apaixonantes, por que não?

A trilha sonora é exata, justa. Ganhou o Globo de ouro! Em um momento muito importante do filme (que eu, conhecida por ser a Miss-Conto-o-Final, não posso revelar qual é, senão estrago completamente a experiência ), uma musiquinha francesa cantada por uma mulher acompanhada por um coro de crianças marcou intensamente. A música aparece legendada, o que considerei uma gentileza imensa da equipe de tradução. Quando se escolha legendas em português, lemos a tradução da música; quando escolhemos legendas em inglês, aparece a letra original.

A música chama-se "A la claire fontaine". Nos créditos do filme, ela consta como canção tradicional francesa. Fuçando na internet, descobri um site incrível, só sobre trilhas sonoras. Na página de "The Painted Veil", há uma discussão ótima sobre esta música (não fui só eu quem gostou!). Encontrei a letra original em francês:

À la claire fontaine,
m'en allant promener,
J'ai trouvé l'eau si belle
que je m'y suis baigné.

Il y a lontemps que je t'aime,
jamais je ne t'oublierai.


Sous les feuilles d'un chêne,
je me suis fait sécher.
Sur la plus haute branche,
un rossignol chantait.

Il y a lontemps que je t'aime,
jamais je ne t'oublierai.


Chante, rossignol, chante,
toi qui as le coeur gai;
Tu as le coeur à rire,
moi je l'ai à pleurer.

Il y a lontemps que je t'aime,
jamais je ne t'oublierai.


J'ai perdu mon ami
sans l'avoir mérité.
Pour un bouquet de roses
que je lui refusai.

Il y a lontemps que je t'aime,
jamais je ne t'oublierai.


Je voudrais que la rose
fût encore au rosier,
Et que mon douce ami
fût encore à m'aimer

Encontrei também duas versÕes em inglês: uma tradução literal, e uma mais poética (que precisou acrescentar uma estrofe para manter o sentido), que reproduzo aqui:

By the clear running fountain
I strayed one summer day.
The water looked so cooling
I bathed without delay.

Many long years have I loved you,
Ever in my heart you'll stay.


Beneath an oak tree shady
I dried myself that day
When from the topmost branch
A bird's song came my way.

Many long years have I loved you,
Ever in my heart you'll stay.


Sing, nightingale, keep singing,
Your heart is always gay.
You have no cares to grieve you,
While I could weep today.

Many long years have I loved you,
Ever in my heart you'll stay.


You have no cares to grieve you,
While I could weep today,
For I have lost my loved one
In such a senseless way.

Many long years have I loved you,
Ever in my heart you'll stay.


She wanted some red roses
But I did rudely say
She could not have the roses
That I had picked that day.

Many long years have I loved you,
Ever in my heart you'll stay.


Now I wish those red roses
Were on their bush today,
While I and my beloved
Still went our old sweet way.

Segue a transcrição em português:

Na fonte límpida
Eu fui passear
A água era tão linda
que resolvi me banhar

Vou te amar eternamente
Jamais te esquecerei


Sob as folhas do carvalho
enquanto eu me enxugava
Lá no galho mais alto
um rouxinol cantava

Vou te amar eternamente
Jamais te esquecerei


Cante, rouxinol, cante
Seu coração feliz está
Seu coração quer sorrir
o meu só quer chorar

Vou te amar eternamente
Jamais te esquecerei


Eu perdi meu amor
Sem ter nenhum porquê
por um buquê de rosas
que eu lhe neguei

Vou te amar eternamente
Jamais te esquecerei


Eu queria que a rosa
ainda estivesse no galho
e que meu doce amor
ainda gostasse de mim.

E, nos comentários de um blog, encontrei o jeito de ouvi-la. Na verdade, não é a canção: é o áudio do próprio filme, com batida de porta, diálogos e tudo, mas tá valendo! Se você quiser salvar a música no seu computador, clique aqui com o botão direito e escolha salvar destino como. Eu baixei e fiquei feliz, pode ir sem medo.

O filme é uma jóia. Produção cuidadosa, cenários deslumbrantes (eu ando meio fascinada pela China, de uns tempos pra cá). Os personagens principais (diferindo dos personagens de "Closer", por exemplo, que parecem não ter nenhum aspecto nobre) são pessoas normais, que têm defeitos de montão, mas também têm capacidade de fazer coisas boas, aprendendo a pedir e dar o perdão. O tema da redenção me é muito caro, já que eu também carrego minhas falhas e adoro ver histórias de gente que consegue ser feliz - mesmo sendo imperfeito.

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Cinema, Música, Açúcar, Amor, Saudade
5 comentários


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Comentários:


Comentário de: Lou

Como consigo o filme? Gracias.

PermalinkPermalink 10.03.08 @ 10:20



Comentário de: claudia lyra · http://www.loucaporblog.wordpress.com

Ai, Eva... preciso ver esse filme...

PermalinkPermalink 10.03.08 @ 12:29



Comentário de: Marília · http://maroma.wordpress.com/

Acho que fiquei mais a fim de ver A Cruzada do que esse...
Gosto é gosto, né?

PermalinkPermalink 11.03.08 @ 18:14



Comentário de: Patrícia Köhler

Eva, eu AMEI este filme. Vim aqui comentar outro dia mas meu comentário deu pau e eu desisti (porque tinha escrito umas 20 linhas, sabe quando isso acontece e a gente perde o tesão, não quer voltar pra escrever tudo de novo? Então...:P).

Eu vi o filme no cinema com o Tuca meses atrás e saí da sala muito, muito embevecida. Adoro o Edward Norton, e neste filme ele está algo sublime. Fofo.
Ah, concordo que a tradução que deram pro título é PA-VO-RO-SA. Nada a ver com a singeleza e suscetibilidades do filme e das personagens. Como bem disse você, eca, eca.

Lindo ver como a personalidade de ambos, que em muitos momentos os afasta, os atrai de forma tão forte naquelas circunstâncias em que eles realmente podem se aproximar e tentar se enxergar.
Enfim, achei um aprendizado este filme.
Sua resenha ficou muito bonita, e exprimiu muito bem o que eu também achei do filme.



PermalinkPermalink 14.03.08 @ 19:30



Comentário de: vera

por concordar em genero,numero e grau com a sua opiniao, exijo a sua amizade.

PermalinkPermalink 01.01.11 @ 21:30



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