Daniel, o caçula
17.11.07
Hoje meu irmão mais novo estaria completando 28 primaveras. O Daniel, ou Dani, como eu o chamo ainda hoje, faleceu criança, no Recife, onde está enterrado e recebeu pouquíssimas visitas desde o dia 1º de maio de 81.
Ele seria o mais bonito de nós, sem dúvida; foi o único que herdou os olhos verde-esmeralda da minha avó Magdalena.
Era escorpiano, signo da água, como o meu, peixes. Sempre penso nisso nas inúmeras discussões literalmente acaloradas em que minha mãe sagitariana e o André, meu irmão leonino, conseguiam fazer minha água toda entrar em fervura. "Dois elementos fogo versus um de água é sacanagem. Com o Daniel aqui as coisas talvez fossem mais equilibradas", eu pensava.
Quando uma pessoa falece muito nova, não tem como não ser vítima de milhões de idealizações por quem fica, especialmente seus pais e irmãos.
"Será que ele amaria os livros, como eu? Será que tocaria um instrumento musical, como eu sempre quis e nunca consegui? (Toco flauta doce e amo, mas um dos maiores desejos seria mesmo ter nascido com o dom de tocar violão e flauta transversal), será que adoraria escrever e arrebataria corações com letras ou poemas de amor? Gostaria de animais e especialmente gatos como eu? Gostaria de praias desertas, de céu estrelado, de comprar roupas em brechó, de passar horas numa livraria ou sebo, de ver o Mágico de Oz tendo The Dark Side of The Moon como trilha ao fundo, numa sala escura, ao lado de amigos e da irmã? Teria sido um excelente aluno de matemática, possibilitando livrar esta mesma irmã de algumas reprovações no ginásio?
Gostaria da Mafalda, do Calvin, do Woody Allen, de artes em geral, de ler Leminski, de escutar Beatles e Chico Buarque?"
Não adianta, nas minhas idealizações, não há espaço para pensar que ele poderia ler só coisas como "Quem mexeu no meu queijo" e "Pai rico, pai pobre". Que compraria CDs de pseudo-caipiras milionários que rimam amor com dor ou do Kenny G. Que compraria um carro potente e sairia por aí tirando racha.
E, muito pior que isso tudo, que bateria em prostitutas ou queimasse índios em pontos de ônibus.
Só penso que ele seria uma pessoa incrível. Um menino de ouro, sensível, bonito, educado, inteligente, bom caráter, de alma rara.
Eu converso com o Dani em muitos dias no ano, mas nos 17 de novembro, em especial, a coisa é mais forte. E NESTE, este sábado nublado no meio de um feriado prolongado, ando conversando com ele mais do que nunca. Imaginando que tipo de conselhos e ajuda ele me daria para dissipar estas nuvens que invadiram minha cabeça e meus dias de semanas pra cá.
Dani, eu sou uma cretina duma cética que não acredita em nada, nem mesmo que você "esteja aí em cima olhando pra mim". Eu queria, mas não consigo. Desculpe por não visitar suas proteínas (como disse a Eva num lindo texto semanas atrás), depositadas a três mil quilômetros de mim. E, mesmo que eu não acredite que iremos nos reencontrar e nem que você esteja aí em cima olhando pra mim, tenha certeza de que eu estou aqui embaixo olhando pra você. ![]()
P.S.: Eu sempre escuto a música Daniel, do Elton John, pensando em você, Dani. ![]()
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Também sou cética e não acredito que os mortos olhem pela gente lá de cima, prefiro ficar com a lembrança, as boas lembranças de quem já foi e só.
Esse realmente é um excelente texto, continue escrevendo assim, com essa sua forma de demonstrar seus sentimentos...
Um beijo pra você.
Vivian.
Como poderia alguém, que "se acha" agnóstica conversar, assim tão ternamente, com Dani?
Bom... não tenho nada com isto, né?
Só passei por aqui para certificar-me que a escritora continua escrevendo...
Kisses,
Guima
E eu vou dizer o quê? Que se você é uma agnóstica que crê, eu sou uma crente que duvida? Que vez em quando eu me pergunto se não estarei toda enganada - e se isso fará alguma diferença? E fico pensando nos buracos que o mundo cria quando as pessoas somem.
Senta aqui do meu lado e segura a minha mão. E pronto, pronto. Quem sabe o mundo faça um pouco de sentido.
Porém, fico pensando como essa pessoa que hoje estaria com 33 anos. Não sei porque acho que era uma menina. Também não sei como seria uma menina em uma casa como a minha. Talvez meu irmão não existisse e eu seria o caçula. Tudo bem que de certa forma, estaria livre das merdas que meus pais fariam na criação, afinal, essas sempre ficam reservadas ao primogênito, que no caso fui eu.
Se esse feto abortado fosse uma menina, também não teria muito impacto, pois desde 1962, só nasciam meninas na minha família (aliás, longos períodos em que só nascem meninas são comuns em minha família. O mais recente durou 22 anos). Iria tirar também o impacto que foi meu nascimento, pois fui o primeiro membro novo em um intervalo de nove anos. Sempre me falaram que fui muito esperado e comemorado. Talvez o motivo em parte tenha sido esse abortamento.
Mas fico comigo pensando como seria se eu tivesse uma irmã (claro que um feto de dois meses de gestação não permite saber o sexo, ainda mais em uma época em que não havia exame de DNA). Teria sido eu mais cafajeste em meus atos? Afinal, estaria convivendo próximo a uma mulher mais jovem que minha mãe, que tem certos parâmetros bem antiquados.
Talvez ficássemos naquelas brincadeiras típicas de irmãos de sexos diferentes e que se esquecem que possuem jeba e bacurinha. Talvez brincássemos de luta, como fazia com meu irmão. Talvez também fosse apresentado para as amiguinhas dela (afinal, seriam cinco anos de diferença, o suficiente para ela dizer "este é meu irmãozinho"). Mas talvez também ficasse meio paparicado ou mesmo com aquelas idéias de que tudo que mulher faz, faz melhor.
Herdar os olhos verdes de minha avó materna? Seria difícil, ainda mais pensando que as ancestralidades espanhola e portuguesa de meu pai sempre tiveram olhos castanhos. Ao menos nesse caso, há uma certa dose de previsibilidade em uma família mediterrânea pelos dois lados da ancestralidade: cabelos castanhos escuros quase pretos, muito provavelmente ondulados. A pele poderia ser clara como a de meu irmão ou mais escurecida, como a de minha mãe ou de mim. E um nariz ligeiramente volumoso. E se fosse menina, como imagino, talvez usasse cabelo curto, como a maioria das mulheres da família faz há décadas.
Fico pensando também como é que ficaria uma menina em um lar meio conservador nos modos, como é o meu. Penso que haveria riscos de enfrentamentos mais constantes que os que, por exemplo, meu irmão costumou fazer em outros tempos. Fico pensando que talvez implicassem com shortinho enterrado na racha da bunda acompanhado de top, como implicam com a bermuda que sempre costumo usar. Porém, pensando em eventuais diferenças de tratamento que pais fazem com meninos e meninas, haveria o risco de essa hipotética menina bater uma boca legal, ainda mais pensando em uma somatória de resultantes das ancestralidades espanhola, portuguesa e italiana em uma pessoa só.
Tretas com eventuais namorados? Talvez pudesse acontecer, principalmente se ela seguisse a certa escrita das mulheres de fazerem mais merdas ao escolherem seus machos do que os homens fazem ao escolher suas minas. Talvez eu tivesse de bancar o irmão legal abraçando-a forte em um dia que ela viesse chorosa porque foi feita de otária por um cara que eu sacava ser canalha (sempre lembrando que cafajeste é uma coisa, canalha é outra e quem quiser, que leia os livros de Eduardo Nunes para saber o porquê de eu falar isso). Se bem que ficaria pensando que talvez ela não seguisse obrigatoriamente essa de dar asa para traste se pensarmos que a ciência comprovou que as mulheres tendem a escolher homens o mais semelhante possível a seus pais. E meu pai sempre foi bom rapaz...
Se ela existisse, que fosse também tão revoltada como eu e meu irmão somos com cigarro. Não me sentiria bem se visse uma irmã fumando, pois seria aquele lance de repulsa instantânea que tenho por mulheres fumantes, mas acontecendo com sangue do meu sangue, o que geraria uma certa problemática em minha mente. Que também não bebesse mais que um Landau a álcool desregulado, pois aí tomaria soco e bicuda de minha parte. E muito menos se drogasse, pois aí seria caso de coturnada mesmo, ainda mais depois do que vi que ocorreu com uma mina que conheço que tomou tudo quanto é droga e destruiu todo o apartamento e os amigos dela, homens, falaram que se ela repetir isso, vão descer a mão nela para deixar de ser besta.
Enfim, seria outro parâmetro de vida. Se bem que entendo o porquê de eu ter um irmão, dois anos mais novo que eu, ainda mais depois de 26 anos convivendo com ele e já termos tido muitas histórias, apesar de nossas vidas privadas e grupos de amigos separados.
cética cretina, amo-te.
beso.
Tem lembranças que nos pegam de jeito, não?
Que coisa mais linda, mais sensível e mais tocante, Patrícia! Não dá pra realmente saber como o Daniel seria, mas eu imagino que ele teria muito orgulho deste talento com as palavras da irmã.
Abraços afetuosos!
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